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quinta-feira, 10 de março de 2016

CURSO DE CONTADORES DE HISTÓRIAS

Pois depois de tantos pedidos, finalmente vamos abrir uma turma nova para o curso de contadores de histórias. Dessa vez, na nossa sede própria.
Aí vão as informações!
Ajude a divulgar!
Venha participar!


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - LII a L.


LII.

a cadeira rodava
ele
ele
giramundava

hippie de outros tempos
a coroa de flores
na cabeça
mais paz do que amor
sem paz e sem amor

sua fala embriagada
de rock
rocamboleava

ainda tinha força
para girar a cadeira
roda da vida
e atirar pedra na piedade...

celso sisto
24 de fevereiro de 2016

(Da série "Quando sou outra coisa")



LI.

volúpia
a luz obtusa no vidro
e a violência da manhã

âncora no vazio
velocidade
cães carros
caleidoscópio humano
motores e
máquinas de correr

quando o amanhecer-me
sem pressa escudar
gratuidade resposta
regresso
terei mesmo
alvorecido

minha poesia é sobretudo
indissolúvel à luz do dia...

celso sisto
23 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



L.

sopro da palavra que me sopra
primeiro era o verbo
sou
carne da palavra
que me habita

sem ela não sou, estou

errático, fantasmagórico, fleumático

de modo intransitivo, vegeto
meu ser exige complemento
não ao objeto, altar do sujeito abjeto
direto quando urge o desejo
indireto se a ação é pouco insurgente

o sopro da palavra que me sopra
é obra decomposta
fragmento de tantas letras
caco também
e lâmina

eu, sujeito oralizante,
passo a palavra
ao sujeito escrevente

que o poder invocado na boca
seja também o poder afiançado
pela pena no papel
labirinto de papel...

hei de achar o fio da palavra "saída"
e a mão de Ariadne!

celso sisto
22 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



domingo, 21 de fevereiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - LXIX


LXIX.

palavras são oferendas
flores verbais
ontem hoje
elo dos tempos

palavras-rosas
palavras-jasmins
flor-do-cedro

mimetizar cheiros
conjugar forças
completar vidas

viçosas, caem na corrente sanguínea
buliçosas, aumentam a capacidade pulmonar
nefandas, comprometem o fígado

eu  jardineiro de palavras
vigio trabalho rogo
planto jardins circulares

no entanto
as que não têm
nada a dizer
explodem no ar
se esfumam
mantêm à distância
os não-sujeitos
da  minha história

flores verbais que se sabem murchas
nem prensadas dentro do livro:

pétala guardada
quer perpetuar
a importância da flor:

palavras são oferendas
flores transverbais
dardos do meu amor...

celso sisto
21 de fevereiro de 2016
(Da Série “Quando sou outra coisa”)




quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - De LXVIII a XXXIV


LXVIII.

Ganhei um novelo de palavras
para transformar em fio

estico teço alinhavo
pesponto prendo recubro,
contorno arremato corto

e o fio age
modulando-se
à necessidade
fronteiriça e aduaneira

mas se eu estico o outro solta
se teço, destecem
se alinhavo, desmancham
se pesponto, desprendem
se prendo, o outro solta
se recubro,  desfiam
se contorno, cruzam
se arremato, preenchem
se corto, o outro ata

não somos em nada iguais

manejamos ferramentas opostas?

tecelões do texto
e usuários de tramas e fios
nem sempre se encontram

escrever: mais desafiar do que fiar
ler: ato potente e soberano de criar

por fim
colecionamos novelos
sim senhor!

ainda que apreendidos
pela nossa perseverante
autoridade alfandegária!

celso sisto
17 de fevereiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)



LXVII.


uma águia na cabeça pesa
nem céu nem terra
finisterra
promontório de granito
e o globo inteiro nas costas

voo desordeiro
condor gavião passageiro
suportados aos  gritos
monólitos
uma só pedra
o que é rocha
lateja 
atrita

estar entre o nada
colecionar o vácuo
desejar
o fim do mundo
o derradeiro adeus
de tudo

só quem coloca a cabeça
nas mãos
repetindo o gesto de Salomé
sabe como é diabólica
a decapitação

mas a montanha inteira na cabeça
faz maciça a desesperança
perpetua  a fagulha
reclama a fé de um João Batista...

celso sisto
16 de fevereiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)



LXVI.

cidade ardente
verão urbano
cemitério de árvores

há uma chama arbitrária
no cerne de tudo

pés calcinados
de pisar a terra
pedras espinhos cacos
pregos farpas cravos

tantos jeitos de crucificar

a palavra queima
com rapidez
inigualável
o olho incandescente
dardeja e cospe
as mãos incendiárias
ameaçam toques e toadas

não há saída de emergência

o que há nessa cidade
é o silêncio a bola de fogo
a cortina de fumaça
a insensatez
e gente

o que há nessa vida
é o homem
o brilho
a cegueira da luz
e os braços de Deus...

celso sisto
15 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")




LXV.

os cães estão lá fora
a porta ficou aberta
vou embora

aprendi a latir
afiei as garras
e vou
no bico da esbelta
garça branca
que finge de cegonha

nascerei de novo
mas as crianças
já não acreditam
em bebês
vindos do céu

o tempo talhou
fiquei velho
etéreo
e vou

carrego eu mesmo
minha coroa de flores
e os cravos vermelhos

não é uma despedida

mas o verão acabou...

celso sisto
14 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")

Foto de Celso Sisto.




LXIV.

para não ouvir o vento
há o resmungo a lamúria
a ululação
para não ouvir o vento
os olhos devem estar
atentos em outro lugar
para não ouvir o vento
é preciso desacreditar
para não ouvir o vento
faça mais barulho
não pare de soprar
estique as notas gordas
da sua voz aflita
abafe com as mãos
sua orelha fria
des-ria

o vento está ali fora
mas aqui dentro
o vendaval
leva pelos ares
todas as
suas árvores
de sabedoria

certeza, só
o silêncio que virá
e o mutismo
que sinaliza
um recomeçar.

celso sisto
13 de fevereiro de 2016

(Da série “Quando sou outra coisa”)




LXIII.

o galo está fora de hora
cantou
e a moça foi embora

mas deixou costurado
na minha carne dura
aquele velho patuá
oração sagrada de
abrandar cores
de auroras

rogo volumoso
pela orfandade
das palavras

quando me abandonarem
deixarei a poesia

o galo está fora de hora

debulho sílabas criptografadas
para fazer o novo dia

ainda tenho uma galinha
se me acostumo
aos cacarejos
ela me presenteia
com ovos azuis

cor fria
tentativa penosa
de retesar o sol

cor memorável
para quem conhece
a beleza dos azuis
e a agonia de Van Gogh...

celso sisto
12 de fevereiro de 2016

(Da série "Quando sou outra coisa")


LXII.

água clara
superfície irrefletida
pensamentos de vidro

batemos cabeça
para chamar o ritual
da colheita

lá detrás do tempo
as palavras germinam
tocam tambor
cantam

a matemática das letras
me amedronta

quero amar os sonetos
e o verso livre

desempoeirado
desamparado

sou livre
poeticamente
livre
e louco

o drama do poema atravessa
o que de Shakespeare
pulsa em mim

enfrentar toda essa dinastia
é a minha lição:
caligrafias.

celso sisto
11 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")


LXI.

tudo o que ainda existe
a arca de jacarandá
a moringa d' água
o prato de porcelana
pintado à mão
a licoreira de copos minúsculos
guardando as impressões das festas
a compoteira de vidro bisotado
o grande búzio para perscrutar o mar

mar de dentro
mar desentranhado
de volume grosso
de passado

a casa o tempo
o sabor da penumbra
o vozerio das crianças

quem se lembra?

a banha de porco
presidindo as refeições
e a alfazema florescendo
ainda nos lençóis de linho

o véu da memória move
suavemente minha história
ignora hierarquia
mistura monogramas

dessa vez não
ofereço resistência
dou o braço à Inocência
e vou definitivamente
morar no sonho da avó...

era um mundo bem melhor!

celso sisto
10 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")
Foto de Celso Sisto.



XL.

buscar água na fonte
longe ao longe
tempo de desenredar
caminhos
levantar ânforas

a hera no muro
meio muro assomado
e o tecido sendo tramado
à moda rendeira

a direção do vento é um clic
convocatório
o galo soletrando nomes
de deuses venerandos
um calor de prece
e a cantiga circular
circulando

eu me assisto
nesse gesto estatuário
para sempre guardado na fonte

tudo acaba em vísceras!

quantas vezes terei de buscar
água na fonte para aprender
o meu próprio descaminho?

celso sisto
9 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")
Foto de Celso Sisto.




XXXIX.

pesca pesca pescador
quantas dores já pescou?

amor que se acabou
vida interrompida
todas as despedidas

se o fio invisível
do destino
agora debicou
puxa depressa
a Bernúncia
que chegou

dança dança
balança a trança

o peixe graúdo da alegria
fisgou em boa hora
essa linha de enforcar?

não esqueça
é preciso estripar

dentro dele
o anel que é de vidro
e não é de se quebrar

foi feito para no seu dedo
brilhar

que dor ainda resistirá
diante da grandeza
desse mar?

Netuno leva
traz manda faz

pesca pesca pescador
diz agora sem demora
quem te pescou?

celso sisto
8 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



XXXVIII.

era um pirata
mas era pura fantasia

(sem perna de pau,
sem olho de vidro
mas com cara de mau!)

o pequeno Barba Negra
tergiversou o mar dos sonhos
e veio atracar no meio do meu sono

feriu-me atrozmente
que falta de sorte
com sua espada
de dois gumes
cabo madreperolado
todo trabalhado
pelas mãos do destino

mesmo em estado de morte
estou aqui para contar

é carnaval
e brincadeira de criança
não dá pra recusar

mas não se preocupe
só morrerei na quarta-feira
depois que a folia acabar

então voltarei a ser o ogro do 2222
sem a menor fantasia, quem diria...

dá pra acreditar?

celso sisto
7 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")


XXXVII.

duas rodas coroando o chão
aros luminosos galvanizados
sentado e em movimento
cavalgo para um mundo
de aventuras

(por puro contentamento!)

que tipo de diabruras
se faz assim domando
esse bicho com cabeça
de selim e braços
longos assim?

quero ver andar de lado
saltar o Himalaia
atravessar aro vazado
tal qual número de circo
meu cavalo de aço é amestrado
mas eu não sou nada comportado!

sigo a linha
o pneu tatuando a areia molhada
friso para grafitar na parede
desenho tribal para gravar
no braço

se hoje, João e Maria achariam fácil
o caminho de volta
(algumas coisas têm volta! )

mas olha e diz sem pressa:
quer dar uma volta
na minha bicicleta?

meu corcel alado
ou a montaria de Quixote?

enquanto isso
vou é dançar o xote das meninas!
minha alegre sina

e porque é carnaval
danço abraçado na minha
magrela...
minha bela...
desadormecida!

por pouco, um Pégaso
por pouco um dragão pra São Jorge festejar
que que há?!

celso sisto
6 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")




XXXVI.

água e areia
para levantar o castelo do dia
sustento palavras demissionárias
e sofro de vocabulismo!

escritismo
sublevação
- preciso do meu samovar
- aí está vamos ao chá ? !

aos poetas do ócio retumbante
do vocalismo oco
do ritmismo recalcitrante
sugiro plantarem batatas!

ainda bem que a palavra
é semente,
dá cria espeta
promove a sangria
floresce vira poesia

- buenos días!

celso sisto
5 de fevereiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



XXXV.

ele estava quase pássaro
saía um tanto assim do chão
e sua metamorfose era um nada
mas era real
dançava e era pássaro

avizinhava-se  do céu
- eu o tinha escarlate!
batia braços por asas
sustentava-se em pontas
inventava tegumentos
e eu acreditava e via
galhos fios cordões linhas cordas
via seu voo hagiográfico
seu verso e reverso
seus pés afiançando as garras
seu pouso no ninho

era a dança ah era sim
a mais bela levedura
a fermentação do espírito
as emanações do corpo
a divisão dos tempos
o precipício das emoções
a multiplicação dos gestos
tantos rostos árvores troncos todos
atados como um novelo
em que não se perde mais
o fio amealhado da vida

estive atônito diante do raro
do barro do desentranhado
do espetáculo
eu na cadeira ele na tela
e no entanto depois
cada vez que eu levantar os braços
o verei ganhando espaço
um em dois
Jiri e Otto
Otto e Jiri
apesar de homens
verdadeiros  pássaros!

é uma lâmina o bico daquele que dança...

celso sisto
4 de junho de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)
na foto, os irmãos Bubenicek




XXXIV.


ajoelhada na areia
ela assistia a filha brincar
na beira do mar

um sorriso semi-triste
se expandia nela
virava moldura
e pele

a pequena, com pudores com a água
porque acostumada a duvidar de seus direitos

e a mulher agarrada na bolsa
sua quase morada
e garantia da fartura
de empadas
que trazia

o calor a fez desejar um corpo
mas a saia de tecido grosso
não permitia

foi aí que deu com a flor azul e
o colar de contas coloridas tão delicadas
que alguém ofertou no dia anterior
à Iemanjá rainha do mar
e ainda com aqueles peixinhos
de cristais tão verdadeiros

imaginou a flor no cabelo
o colar pronunciando-se pelo colo
como o sol mortiço
descendo a serra
no fim da tarde

descuidou-se da filha

que ocupava-se ainda
em fugir de tudo
inclusive das ondas
até que uma trouxe
rolando até seus pés
uma conchinha linda

pegou-a com rapidez
quis a outra
e a seguinte também

escondida
levaria do mar as conchas
com que faria um colar
para enfeitar a vida da mãe

mas seus olhos se cruzaram
e não puderam disfarçar
o brilho gorduroso
dos enganos

já era hora de voltar
para servir o jantar
na casa da patroa...

mãe e filha prisioneiras
de amarga alegria
iam

celso sisto
3 de fevereiro de 2016
Da série "Quando sou outra coisa"