Seguidores

domingo, 3 de fevereiro de 2008

ENTREVISTA PARA REVISTA LIVRARIA CULTURA




(Fabrício na Jornada Literária de Passo Fundo, 2007)



Nesta semana, meu amigo Fabrício Carpinejar me mandou um e-mail dizendo que estava fazendo uma matéria para a revista da Livraria Cultura, cujo título era "Toda criança é poeta" e umas perguntinhas para eu responder... Não sei se o que eu disse vai sair na matéria, porque afinal, minhas respostas contrariam um pouco a afirmação do título. De qualquer forma, coloco aqui a entrevista.Eu contando histórias numa palestra em Curitiba
(2007)

Em teu trabalho de contação das histórias, é mais difícil a recepção do público adulto ou o infantil? Por quê?

O público adulto camufla mais! Demora mais para dar sinais de agrado ou desagrado. No público infantil esses sinais são quase que imediatos. O público adulto é mais tolerante ao meio termo, ao mais ou menos, à falta de carisma ou baixa qualidade de um contador de histórias. O infantil é mais sincero, mais barulhento e mais intenso! Portanto, as crianças recebem melhor uma história. Mas ainda assim, elas precisam estar familiarizadas com o exercício do ouvir histórias oralmente, do contrário isso pode ser caótico!

Em "Emburrado", trabalha com poemas. A fixação das imagens por rimas aumenta a contundência dos personagens? As crianças recebem melhor? As rimas carregam o estigma adulto de que não são naturais, mas as crianças não entendem diferente, como uma forma mais espontânea da fala?

A fixação das imagens por rimas aumenta a musicalidade, se apega mais facilmente à memória do público infantil e até provoca mais graça neles. Não é o único caminho para a poesia infantil, mas é uma caminho mais rápido, eu diria. Isso não quer dizer mais fácil nem menos elaborado. É mais fácil da criança perceber o poético na rima, porque ela percebe ali um trabalho de linguagem, diferente por exemplo, da fala cotidiana. Ao mesmo tempo que ela percebe a diferença, ela percebe o lúdico, a brincadeira, e sente prazer nisso! Elas entendem muito bem esse falar-brincando que a rima é e provoca!

Criança é poeta naturalmente? Como ela pode ser incentivada a permanecer poeta ?

Não acredito nisso! Não tão gratuitamente. Criança tem o olhar aberto para o poético na medida em que ela tem o olhar estimulado para a fantasia e para o brincar. Mas precisa ser incentivada a brincar com a língua através de muitos jogos de palavras: ditados populares, cantigas de todo tipo (de roda, de ninar, etc), parlendas, quadrinhas, histórias em forma de poema (como eram as fábulas em seus primórdios, heim?!), os poemas em si. Também ajuda viver num ambiente onde impere a poesia, ter tido liberdade para olhar o mundo de forma detida (ainda que seu tempo de concentração seja diferente do tempo do adulto), demorada e com minúcia. Afinal, criança é poeta quando em seus achados cotidianos, descobre um ângulo diferente para ver as coisas, e para expressá-las verbalmente. Normalmente a poesia de humor ou a mais inventiva possível em termos de figuras, seres, palavras, fazem mais sucesso entre as crianças.

Que livro você gostaria de ser?

Apesar de não ser explicitamente poesia, é pra mim o livro mais poético do mundo: O PEQUENO PRÍNCIPE.

Lembra de algum diálogo encantador e poético com um pequeno leitor?

Um dia, numa dessas visitas que a gente faz a escolas, quando adotam algum livro da gente, um menino me perguntou se eu gostava de ser assim, homem-criança e poeta. Eu disse que homem-criança eu ia ser a vida toda, já poeta eu poderia deixar de ser, se me faltassem as histórias e o contato com as crianças, com a fantasia, com as brincadeiras, se eu ficasse com as veias entupidas e deixasse de sentir as coisas. Aí ele me disse que se eu quisesse ser criança pra sempre eu deveria inventar um Celso de vários tamamanhos, assim quando um começasse a se gastar, entrava outro Celso mais novo no seu lugar, sem nada entupido. Um Celso que não se acabasse mais! Não é poético isso?

Nenhum comentário: