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domingo, 30 de março de 2008

1º ENCONTRO REGIONAL DE CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS



Aconteceu em Picada Café o 1º Encontro Regional de Contação de Histórias, nos dias 26 e 27 de março de 2008.

O encontro começou na noite do dia 26 de março, com uma sessão de contos narrados pelos contadores convidados (CELSO SISTO, CLÉO BUSATTO, LÚCIA FIDALGO E MARÔ BARBIERI). Foi um momento mágico, em que a platéia - cerca de 120 professores - pôde se encantar com a arte da narração!

Eu contei "A Bruxa Salomé" (de Audrey Wood, publicado no Brasil pela Ática, em 1994). Cléo contou um conto oriental (o do pássaro que vai apagar o fogo da floresta, carregando água nas asas...), Lúcia contou a história do "João Bobo" (encontrável em muitas coletâneas de contos populares... ela contou o registro dos irmãos Grimm) e Marô contou a história "O espelho da princesa", recontado por Sonia Junqueira, no livro da editora Atual.

Em seguida, foi realizado um painel, com a seguinte questão: contar histórias ajuda na formação do leitor? Fui o primeiro a falar, e defendi a seguinte posição...

"Não se pode mais ver o contar histórias de uma forma ingênua! Ele tem que ser visto relacionado ao contexto dessa linguagem artística no nosso país, Estado ou Região...(a arte quer impactar, dizer, comunicar, pronunciar, interferir/modificar o sujeito pelo objeto estético/apontar atalhos e "respiradouros" para o cotidiano/sinalizar seus pressupostos)... Prefiro vir do macro para o micro -. Ou seja, há uma multiplicidades nesta área, de caminhos e conquistas: uma história de quem já conta histórias há muitos anos; gente que conta e nem sabe o que está fazendo; gente preocupada em encontrar um caminho artístico para "falar" com o mundo (e fundamentar esse caminho); gente que visa um uso funcional e cotidiano do contar histórias (esse tem sido oda Escola , o da Educação). O que eu observo neste uso prosaico, cotidiano do contar histórias é uma ausência de profundidade das ações. Um empirismo conteudístico! Um vale tudo porque a meta é entreter! É fazer, não importa como! Isso é valido, claro, mas é preciso visar outros estágios dessa formação do contador de histórias (profissional!).


E aí, você me pergunta: contar histórias ajuda na formação do leitor? E eu digo: deveria ajudar, mas depende!

Depende de que? De quem?

Minha resposta tem como palavra-chave o termo QUALIDADE! E se desmembra em 7 aspectos:

1. do contador: ele está preparado? investiu nisso? é leitor? treinou sua capacidade de sedução?

2. do texto que ele conta (compromisso com a literatura de qualidade)

3. do público (estão familiarizados com o exercício de ouvir histórias? qual o perfil desse público?)

4. do momento (é o ideal? é o momento certo?)

5. das estratégias (o professor vai cobrar depois? vai viciar num tipo de exercício após o contar?)

6. da continuidade (só conta quando há brecha no planejamento? quando os alunos estão muito agitados?Há que transformar isso num projeto, inclusive em casa!)

7. da variedade (abarcar o maior número possível de gêneros, formas, etc.. no fazer, no suporte)

Lembrando: se os professores não podem fazer isso, que as escolas contratem contadores de histórias profissionais! Já há quem faça isso, escolas que tem esse profissional para entrar nas salas de aulas, uma vez por semana, por exemplo, para contar uma história (vi isso em Minas Gerais, em Florianópolis...). Essa prática é comum fora da Escola, normalmente em Bibliotecas Públicas, em Fundações (a Fundação Oswaldo Cruz tem contadores de histórias contratados!), em Centros Culturais (o do Banco do Brasil, o do Itaú, etc. tem esse profissional, normalmente ligados a projetos pedagógicos...).

E para concluir, uma frase do espanhol Antonio Rodríguez Almodovar, que está no seu livro "Animando a animar", na página 15: "si no formamos el oído del niño a través del cuento, la canción, el romance, la adivinanza, la retahíla... el fuego de la palabra nunca prenderá en su corazón". E sem esse fogo da palavra, fixado no coração, não há história que resista!

No dia seguinte, dia 27 de março de 2008, foram oferecidas aos participantes, as seguintes oficinas:

Celso Sisto – A arte de contar histórias
Proposta: Trabalhar os elementos técnicos essenciais da arte de contar histórias, de forma coletiva, prática e lúdica, sem a utilização de quaisquer outros recursos que não os próprios do instrumental humano, e responsáveis por sustentarem uma boa performance. A ênfase maior recairá sobre o tripé da história: texto, corpo, voz.

Cleo Busatto - Contar e encantar
Proposta: Indicar algumas possibilidades a quem pretende contar histórias: apresentar a técnica da narração oral ; estimular a oralidade em sala de aula; exercitar a fala estética.

Lúcia Fidalgo - Contando e ouvindo histórias e formando leitores
Proposta: Trabalhar os contos e as leituras de cada um para despertar o prazer pelo livro,pelo texto e pela leitura,usando também como instrumentos as palavras das histórias contadas

Marô Barbieri - história é pra contar!
Proposta: Estabelecer critérios para seleção de material de contação; diversificar e inovar as atividades de contação; conhecer e utilizar elementos de apoio para contação; analisar diferentes propostas de aproveitamento de elementos textuais,

Ao final do encontro, contadores da região narraram histórias para o público, no auditório.

Foi um encontro pra lá de estimulante!

Espero que aconteçam outros do mesmo nível, para que as questões tenham continuidade e ganhem mais profundidade.

Agradeço aos organizadores: Nóia Kern, Carla Chamorro... e a minha monitora, Maristela (e toda a equipe que certamente está por trás de um evento deste porte!). Do fundo do meu coração!

segunda-feira, 3 de março de 2008

ENTREVISTA PARA A REVISTA DONA & CIA.


No finalzinho da semana passada, a Clarice Passos, que escreve para a revista DONA & CIA., recém lançada nas bancas, me procurou, para uma entrevista. Ela queria fazer uma matéria sobre a arte de contar histórias para as crianças, com a finalidade de conscientizar as mães sobre a importância de tal tarefa, dar dicas de como fazer isso de modo melhor e apontar os benefícios que decorrem de tal atividade.


A entrevista consistiu nas perguntas abaixo. Gostei das perguntas, então reproduzo-as aqui. Mas o melhor mesmo é ver como ficou tudo isto na própria revista!




1. Qual a importância de contar histórias?




Eu diria no plural! São muitas as “importâncias” do contar histórias! Contar histórias é importante para a formação do leitor, para a consolidação da cidadania, para criar relações de proximidade entre as pessoas, para experimentar papéis sociais e situações de conflito no plano mental e imaginário, para treinar a imaginação e possibilitar o aparecimento do sujeito criativo e criador, etc.




2. No que isso contribui para a formação da criança? Existe um aspecto, de certa forma, escolar - de despertar para a leitura - mas há algum outro grau de influência do "ouvir histórias"?




O contar histórias contribui para a formação da criança em vários aspectos: no plano estético, no cultural, no histórico, no psicológico, no didático, no social. No plano estético ela aprende a lidar com os elementos da arte, convivendo com a literatura. No plano cultural ela tem contato com outras realidades culturais que não estariam a seu alcance imediato e geográfico; no plano histórico, ela pode ter acesso a outros tempos e lugares; no plano psicológico ela aprende sobre conflitos, resoluções de conflitos, “viver emoções no lugar do outro”, treinar sua personalidade, descobrir igualdades e diferenças; no plano didático( e esse é sempre o mais visível na educação)aprende que as histórias tem uma progressão, que uma narrativa tem inicio, meio e fim, ou seja, acabam internalizando uma estrutura narrativa e são estimuladas a ampliar o imaginário, cada vez mais e a criar. Afinal, o ouvinte é sempre co-autor da história que ele ouve (ou lê!). E no plano social, o contar histórias contribui para que a criança percebe, nas histórias que ouve, uma rede de relações e perfis sociais. Mesmo que ela não saiba dar nome a todas essas coisas! As crianças acostumadas a ouvirem histórias desde cedo, certamente estarão sensibilizadas para a leitura. Mas isso só não basta! É preciso que este seja um valor positivo no ambiente em que a criança vive. É preciso que o “entorno” tenha ambiências de leitura, ou seja, que ela esteja acostumada a ver as pessoas lerem ao seu redor (principalmente os pais e as pessoas mais próximas, que haja livros e biblioteca na sua casa (nem que seja uma prateleira), que ela freqüente a biblioteca pública, inclusive para “desescolarizar” a leitura, porque sempre acaba parecendo que a leitura é uma obrigação e uma tarefa da escola!




3. A partir de que idade uma criança pode ouvir histórias com interesse?




Desde a gestação! Existem vários estudos que confirmam que a s crianças acostumadas a ouvirem histórias ainda na barriga, vão se familiarizando com a musicalidade da fala, vão se acostumando com o aspecto oral das relações das pessoas, vão percebendo a proximidade e afetividade que vai embutida no contar histórias.


É claro que quem conta histórias tem que estar atento aos sinais do seu ouvinte! E sobretudo, aos interesses dos seus ouvintes, na medida em que vão amadurecendo, como pessoas e como leitores. Quanto menor a criança, mais o contador de histórias precisa caprichar nos recursos vocais e corporais, para manter a atenção da criança, para renovar o interesse, para criar outros ambientes, no plano da imaginação, para sair do cotidiano, para instaurar um outro “eu”, afinal, o contador de histórias é um personagem, que qualquer um pode assumir.




4. Que tipo de histórias são recomendadas para cada faixa etária, de maneira geral?




Quem lida com literatura e formação do leitor tem horror em falar em faixa etária. Essas classificações são, muitas vezes, estratégias das editoras, para classificar e vender livros, e são falhas! É preciso mesmo é conhecer o ouvinte, e principalmente, conhecê-lo como leitor, saber da sua experiência e maturidade com os livros e as histórias. Você, por exemplo, pode ter uma criança de 12 anos, lendo livros que uma criança de 7 estaria lendo, ou uma criança de 12, lendo livros que uma de 16 estaria lendo. Então, tudo isso é muito relativo! Inclusive, para nós que estudamos essas questões, usa-se uma outra nomenclatura, como pré-leitor, leitor iniciante, leitor experiente, leitor crítico, etc.




5. Seu pai ou sua mãe te contavam histórias? Que memórias você tem disso, caso a resposta seja afirmativa?




Minhas avós eram grandes contadoras de histórias. Contavam muitas histórias familiares, histórias de vida, histórias da infância delas. Meu pai adorava nos contar histórias de grandes personagens da História do Brasil. Mas tive professores que cumpriram muito bem esse papel. Minha professora da primeira série, numa escola pública no Rio de Janeiro (Escola Benedito Ottoni), nos contava, todos os dias, um pouco do livro “O gênio do crime”, de João Carlos Marinho. Essa narrativa em capítulos, super bem dosada, nos instigava, mexia com a nossa imaginação, fazia-nos ter desejo de ter nas mãos aquele livro, de onde sabíamos que ela tirava a história. Essa estratégia era e continua sendo muito eficaz!




6. Contar histórias para os filhos pode ser um exercício diário? Você recomenda a criação de um "momento" específico para isso?




Com certeza! É bastante comum os pais contarem histórias para as crianças, antes delas dormirem. Isso é muito bom! Sempre! Mas não podemos esquecer que a função do contar histórias não é ser “sonífero” e nem um instrumento do sono! Por isso, pode ser de grande valia repetir esses momentos em outros horários, que não seja a hora de dormir. O que mais agrada a criança, além de tudo, é esse momento de afeto e intimidade que as histórias proporcionam entre pais e filhos. E isso, certamente, acaba sendo uma ótima associação: o livro e as histórias acabam vindo sempre associados ao afeto! Mas, quando isso é freqüente!




7. O que é preciso para contar uma história para seu filho? Um livro? Marionetes? Apenas a imaginação?




Tudo isso pode ser usado. O livro, objetos, só a imaginação, o que o contador preferir. O que a criança quiser ou demonstrar mais interesse. Na verdade, o mais rico é a variedade, contar de tempos em tempos usando recursos diferentes. Mas é preciso não se perder nos recursos e deixar a história em segundo plano. O mais importante é a história! Mas, a presença física do livro também é de suma importância, mesmo que ele não vá ser usado, mesmo que ele esteja ali ao lado apenas como figura “decorativa”. O contador pode contar de cabeça, de memória, pode contar se utilizando das imagens do livro, pode mostrar o livro antes, conversar com a criança sobre o livro, e na hora de contar, fechar o livro... Ou seja, ter o livro de fato, ajuda a associar as histórias ao livro e contribui para a formação do leitor!




8. Como despertar a contadora de histórias que existe nas mães? Em outras palavras, liste 10 dicas que você daria para as mães que não têm esse hábito ou não se consideram muito boas na atividade.




1. Para despertar o contador de histórias que existe dentro de cada um é preciso ler, procurar, formar uma bagagem de leitura, freqüentar livrarias, bibliotecas, conhecer os livros premiados pelas instituições que cuidam da excelência dos livros para crianças e jovens, para que as escolhas sejam acertadas! A qualidade do que se conta para a criança deve ser uma preocupação!2. é preciso não ficar se censurando na hora de contar a história, pensando coisas do tipo: “ai, que ridículo!”. Isso destrói a espontaneidade!3. é preciso ver a história como um brinquedo, e usá-la de forma lúdica, para brincar com a criança: brincar de imaginar, de pensar, de se divertir...4. Estar atento aos usos da voz. Pode-se mudar a voz para fazer a voz do personagem, cantar no meio da história, fazer sons de fenômenos da natureza, criar ritmo, suspense, etc. A voz não pode ser a mesma do início ao fim senão fica chato!5. Usar o corpo, movimentar-se, fazer ações, isso renova a atenção e descortina para a criança uma outra pessoa, diferente do cotidiano... As crianças adoram ver os adultos em outros papéis que elas não estão acostumadas a ver!6. Prestar a atenção se você está usando a emoção. Para usar a emoção é preciso acreditar e sentir. Isso é fundamental para fazer o outro embarcar na história que está sendo contada!7. Não esquecer das pausas e do silêncio. Ninguém pode contar uma história numa enxurrada só, querendo se livrar da história e daquela tarefa. É preciso dar tempo para a criança “visualizar” o que está sendo contado; é preciso não ter pressa.8. Prestar atenção no vocabulário usado, na adequação da história ao ouvinte.9. Não ficar “didatizando” a história, ou seja, fazendo pergunta e interrompendo toda hora para ver se a criança entendeu ou está entendendo. Elas mesmas se encarregam de demonstrar isso!10. Olhar nos olhos do ouvinte sempre! Os olhos são a porta de entrada da história e o cordão umbilical do imaginário!




9. Quais são suas cinco histórias preferidas (folclóricas, literárias, vale tudo!)




As histórias que mais conto, como contador de histórias são:1. Menina bonita do laço de fita (de Ana Maria Machado)2. O macaco e a velha (conto popular... adoro a versão do Ricardo Azevedo)3. A bruxa Salomé (uma versão primorosa da escritora Audrey Wood, para a história dos Sete Cabritinhos)4. Os figos da figueira (um conto popular português, que está em várias coletâneas de folclore, inclusive em Câmara Cascudo e Silvio Romero, nossos mais profícuos folcloristas)5. Galo, galo não me calo (da Sylvia Orthof) e “Apanhei assim mesmo” (Ruth Rocha). São duas histórias contemporâneas, de nossos melhores autores, e sobretudo contos de humor! As crianças adoram!




10. Como você começou a contar histórias?




Eu tinha acabado de me formar em Artes Cênicas e estava terminando o curso de Letras. Fui então, trabalhar na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e fiquei sabendo lá, que existia isso: um grupo de contadores de histórias. Fui convidado para participar deste grupo, nesta fundação e não parei mais. Acabei me tornando um profissional da área, e comecei a escrever e a ilustrar e hoje vivo inteiramente dedicado à literatura! Fazendo tudo isso! E trabalhando com o mesmo grupo, há vinte anos, o grupo MORANDUBETÁ, que em tupi-guarani quer dizer MUITAS HISTÓRIAS, VÁRIAS HISTÓRIAS. O grupo é formado por BENITA PRIETO, LÚCIA FIDALGOS, ELIANA YUNES e eu, CELSO SISTO. Já formamos muitos contadores e grupos de contadores por esse mundo afora. Não só no Brasil, como no exterior.