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domingo, 20 de abril de 2008

OFICINA NO FÓRUM DE LITERATURA

Quem não foi ao 2ºFórum de Literatura Infantil e Juvenil do Rio Grande do Sul, perdeu! As atividades oferecidas foram de uma qualidade e riqueza imensas!


Além de ter participado do painel de escritores, atividade promovida pela associação gaúcha de escritores e coordenado por Christina Dias, dei uma oficina que se chamou TÉCNICAS PARA O TRABALHO COM LITERATURA INFANTIL E JUVENIL, com carga horária de 3 horas/aula, para dois grupos disntintos, um pela manhã e outro pela tarde, no sábado, dia 19 de abril de 2008.


Minha oficina, cuja ementa era: exploração do texto literário a partir das dimensões pedagógica, psicológica, histórica, estética, social e cultural, como caminhos para perceber a pluralidade de leituras que um texto comporta. Propostas lúdicas de criação de atividades, a partir do texto ficcional. Exercícios práticos.


O texto, escrito por mim para a oficina é esse:


UMA MULTIPLICIDADE DE LEITURAS
Celso Sisto
[1]
http://www.celsosisto.com/

O texto literário é sempre uma incógnita! Estou falando de sua recepção: como o leitor vai receber um determinado texto? Vai gostar, ficar arrepiado, com os olhos cheios d’água? Vai ter vontade de ser o personagem da história (seja ele qual for)? Vai ficar pensativo, lembrar-se de algo parecido que viveu ou já viu acontecer? Vai achar excelente, bom, ruim? Vai ter vontade de argumentar, defender um personagem, discordar de suas atitudes? Vai se ver vivendo num outro lugar e num outro tempo? Vai obter informações sobre coisas interessantes que não sabia? Vai descobrir uma maneira de lidar com um problema pelo qual já passou ou está passando? Vai ficar feliz de travar contato com algo tão criativo ou fantástico ou inusitado? São tantas as maneiras de um texto atingir o leitor! (e ninguém leva para a sala de aula um texto que não seja para afetar o leitor!). A pior coisa para uma obra de arte é a indiferença!
De alguma maneira o texto tem que afetar o leitor. Esse é o princípio da identidade (ou da memória): permanece aquilo que me atinge. E esse atingir também tem muitas vias. Pode ser pela emoção, pelo conteúdo histórico, pelas técnicas empregadas pelo autor para construir a história; pelas possibilidades de discussão social; pela alegria em descobrir coisas que não se sabia, sobre a vida, sobre o mundo, sobre um determinado assunto, sobre si mesmo; pela satisfação e curiosidade de “ver” uma outra cultura diferente da nossa, enfim, pela magia da arte de dar vida e transformar, com palavras.
Por mais que não percebamos - ou ainda que façamos isso de modo intuitivo e aleatoriamente -, é sempre possível observar um texto literário em várias dimensões. De imediato podemos levantar, a partir do texto, os níveis psicológico, histórico, estético, social, cultural e pedagógico. Para isso é necessário fazermo-nos algumas perguntas. Vejamos algumas possibilidades:
No nível psicológico: a partir dos conflitos que aparecem na história, pode-se pensar em valores, em ética, em moral, em formação do sujeito, construção da personalidade, etc. De que maneira a obra “delineia” essas questões ou permite “vivê-las” no plano mental?
No nível histórico: o pano de fundo da história é o hoje? É outro tempo? Qual? Está explícito ou é deduzível?
No nível estético da obra: como o autor conta sua história, que tipo de estrutura ele usa (é uma história linear, com relação de causa e conseqüências entre os fatos? Ou os fatos são “descosturados”, fragmentados, com se fosse apenas um painel? Há um vai e vem, uma alternância entre passado e presente? Ou é circular, isto é, começa e acaba no mesmo ponto)? É conto, lenda, mito, fábula, etc.? Qual o gênero: amor, humor, terror, aventura, mistério, etc.? A linguagem usada no texto é coloquial, cotidiana ou é poética? A ilustração amplia o texto escrito ou repete o que está dito? Qual o estilo da ilustração, quase fotográfica ou “inventiva”? Que cores são usadas: vibrantes, frias, esmaecidas? Que material o ilustrador emprega? Pode-se fazer alguma aproximação com a pintura, com a obra de outros artistas plásticos?
No nível social: que papéis sociais os personagens representam? Há uma ideologia aparente? Ou várias ideologias? Qual predomina? As posições assumidas têm um cunho autoritário, dogmático ou permitem posições diferenciadas?
No nível pedagógico: o que é possível discutir com essa história? O que eu posso aprender com ela, que não seja fechado e único? O aprendizado contido nesta história é puramente informativo ou formativo? Eu aprendo sobre a vida? Sobre os outros? Sobre mim? Sobre a arte da própria escrita?
No nível cultural: que usos, costumes, crenças, padrões artísticos da “sociedade” aparecem na história? Há uma ou várias culturas em convivência no texto? Há juízos de valores ou esse é um aspecto aberto?
Certamente perceber essas dimensões de um texto literário é fazer uma leitura rica e cheia de possibilidades, inclusive para sair da mesmice, quase sempre centrada em aspectos pedagógicos do texto.
Mas há um antes, que precisa ser cuidado também. O momento (que considero sagrado!) da escolha. O papel do professor é de multiplicador, de propagador, portanto, não há espaço para promovermos textos ruins! Livros ruins! Livros deliberadamente comerciais e mal feitos!
Vejamos algumas dicas que podem nos ajudar a perceber a qualidade do texto. Para escolher bem um texto é necessário perceber: 1. As emoções que o texto desencadeia em você; 2. Se os conflitos apresentados na história são instigantes; 3. Se os personagens estão bem delineados (Há coerência entre a “fala” do narrador e a linguagem e a ação dos personagens? Os personagens não são estereotipados? Os personagens são lineares demais?; 4. Se a estrutura da história está bem armada; 5. Se a linguagem é coerente, acessível, (e que não se preocupe em fazer concessão ao fácil); 6. A extensão do texto; 7. Se o texto apresenta possibilidades de interpretação nas entrelinhas (se dá espaço para o leitor completar as coisas ou se dá tudo “mastigadinho”!); 8. Se o texto pode ser contado (é preciso fazer adaptações do escrito para o oral? Isso não vai descaracterizar a obra e o estilo do autor?); 9. Se há uma preocupação clara em passar ensinamentos em detrimento da arte de escrever e contar bem uma história (o que compromete o texto, claro!); 10. Se o texto é óbvio, didático, doutrinário, preconceituoso; 11. Se o texto cativa, se suscita o desejo de querer ouvir e/ou ler novas histórias; 12. Se o texto dá prazer, provoca arrepios, leva à percepção de novas coisas, amplia a imaginação, mostra novos ângulos do mundo, da vida, do homem...
E por fim, podemos constatar, que ao ler ou ouvir uma história as crianças querem se divertir (e viver várias emoções), querem ser desafiadas, querem trocar/dialogar com a história; querem “aprender” (no sentido mais amplo possível da palavra! Não é obrigá-las a guardar e repetir informações inúteis!). Portanto, abandonemos de vez as escolhas (infundadas) no moralismo e nas boas intenções, pois elas são insuficientes para garantir um bom texto e para garantir o interesse das crianças!
Uma dica eficaz: visando ampliar nossa margem de escolha de livros, para acertarmos cada vez mais, podemos visitar uma livraria uma vez por mês (que seja! se pudermos mais, façamos!); visitar a biblioteca pública, fuçar nas estantes e consultar a lista dos principais prêmios literários do país (especialmente a lista dos prêmios da FNLIJ e o prêmio Jabuti, na categoria infanto-juvenil). Precisamos estar a par do que tem sido publicado pelas editoras, quem são os autores, quais livros vendem, o que faz ou não sucesso... Isso é o mínimo que podemos fazer se quisermos trabalhar com a literatura de qualidade no nosso exercício (honesto!) de professor!



[1] Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, Especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutorando em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo Brasil. Tem 34 livros publicados para crianças e jovens e recebeu os prêmios de autor revelação do ano de 1994 (com o livro Ver-de-ver-meu-pai, Editora Nova Fronteira) e ilustrador revelação do ano de 1999 (com o livro Francisco Gabiroba Tabajara Tupã, da editora EDC); ambos concedidos pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Vários dos seus livros também receberam o selo Altamente Recomendável, desta mesma Fundação.



A partir da leitura do texto teórico, fizemos uma leitura investigativa dessas dimensões apontadas pelo texto (pedagógica, psicológica, histórica, social, estética e cultural), na obra BEIJO DE SOL, de Celso Sisto.



BEIJO DE SOL[1]

Para as outras tão cecílias: Lúcia Jurema, Vera Varella, Fátima Miguez,

Eliana Yunes e Norma Ribeiro



Quando o dia amanhecia,
Cecília já tinha beijado o sol.
Depois quando ouvia o
primeiro passo dentro de casa,
corria pra contar:
- Mãe, hoje foi um beijo de
jabuticaba!
E lá ia ela perfumada de fruta
se esconder atrás
dos cadernos da escola.

Na aula de artes
desenhava bolinhas roxas,
pedindo para os amigos
adivinharem:
- É um lenço de bolinhas?
- Não, não!
-É... um menino com sarampo?
- Não, claro que não!
- É o chão da lua?
- É óbvio que não é!
E escondia o desenho,
de cara emburrada,
porque ninguém tinha conseguido
entrar no seu sonho.

No dia seguinte,
o sol despontando,
corria Cecília
quando sentia o cheiro do café:
- Mãe, hoje ele me deu
um beijo de borboleta!
E lá ia ela quase que voando,
levar a notícia leve para a classe
que imaginava um jardim.

Na aula de ginástica
A brincadeira era de mímica
e o tema era bichos.
Apareceu um pilombo de duas cabeças,
um esturquino com quatro rabos,
um pomerangue com garras afiadas,
um tuledante com cinqüenta e nove dentes,
mas ninguém conseguiu ver
a borboleta de Cecília.
E a volta pra casa, nesse dia,
foi um arrastar de asas,
como se voar pintado
não fosse mais possível.

Esquecido o antes,
vinha de novo o sol.
E com ele o
primeiro xixi do dia,
e atrás, Cecília:
- Manhê, hoje ele
me beijou salgado!
E lá ia ela,
enfeitada de mar,
construir castelos de areia
por entre as contas
de diminuir e de somar.

Na aula de matemática
ninguém conseguia acertar
a conta de Cecília:
muitas conchas
mais muitos grãos de areia
mais muitas estrelas de cinco pontas
era sempre igual
a um conjunto vazio,
diziam eles.
E o resultado final
era voltar para casa
sem ter ganhado nota boa.

Um dia o sol não veio,
e ao correr
a primeira água na torneira
apareceu Cecília:
- Mãe, hoje ele me chamou
de boba e me bateu!
Foi um custo para ir à escola.
Ia a mãe,
arrastando pela rua
um saco de pedras,
para não deixar afundar
o navio sem âncora.

Na hora do conto
não se ouviu a voz de Cecília,
mesmo sendo, naquele dia,
a história da moça guerreira
que ficava gostando da lua.
Alguém sentiu sua falta.
Procuraram em todos os lugares
que sabiam que Cecília gostava
de brincar de estar:
dentro do baú de sonhos,
embaixo das mesas-navios,
atrás da porta do castelo da sala de aula.
Nada.

Não precisavam ter ido tão longe.
Em cima da mesa,
no livro aberto,
na página vinte e três
- lá estava Cecília,
subindo num raio dourado de sol,
para ser sempre
ou isto ou aquilo.


[1] SISTO, Celso. Beijo de sol. Rio de Janeiro, Ediouro, 1995. [Ilustrações de Marilda Castanha]







Em seguida, foi proposto que a história fosse recontada num novo formato. Que ficou dividido da seguinte maneira: 1) Psicológico: carta; 2) Histórico: um contrato; 3) Estético: poema narrativo ou propaganda de tevê; 4) Social: rap ou funk; 5) Cultural: uma receita (de comida); 6) Pedagógico: bula de remédio. A nova forma tinha que contar toda a história que está no livro!


Os trabalhos dos grupos foram muito bons e criativos. Em breve vou colocà-los aqui.


8 comentários:

Gabriela disse...

Olá, Celso.
Fui nesse fórum e ia fazer sua oficina mas só restava uma vaga e minha amiga também queri fazer, deixei para ela mas queria muito ter assistido.
Amei ouvir você contar a história do livro "Ver-de-ver meu pai", tanto que quero comprar o livro.
Parabéns e espero manter contato.
Ah, eu não gosto de tomar banho cedo da manhã. :)
Abraços.
Gabriela.

celso sisto disse...

Oi, Gabriela!
Tudo bem?
Que pena que você não foi na minha oficina... Fizemos um trabalho bem legal. Acho que todos que estiveram trabalhando comigo, gostaram. Eu fiquei bem satisfeito com o resultado dos trabalhos.
Mas não faltará oportunidade, afinal, estamos sempre por aí, dando oficinas.
Ver-de-ver-meu-pai é uma história muito especial pra mim. Que bom que você gostou.
Abração do
Celso Sisto

Marli disse...

Celso!
Deve ter sido uma delícia a oficina. Gostei muito do texto. Sempre que lemos, algo nos toca. E por falar nisso, ao ler "Lebre que é lebre não mia", que você me presenteou, me fez voltar à infância, quando morava na roça. As lebres era muitas, atravessavam as estradas à noite, era preciso desviar os carros para não matá-las, mas geralmente os motoristas perseguiam as coitadinhas, assim como os caçadores. Tenho arrepios e sentimentos de culpa de dizer que comi muito bife de lebre. Agora parece que estão voltando. Obrigada pelo presente. Amei! Beijo!

celso sisto disse...

Oi, Marli!
Você poderia ter participado da oficina com a gente! Realmente eu gostei muito de ter ministrado esta oficina e, do desempenho dos alunos. Foi gratificante. Foi uma troca muito rica!
Que bom que o meu livro lhe trouxe lembrancas... melhor ainda é saber que as lebres africanas (como as do livro) são tão espertas como o jabuti, a tartaruga e o macaco, na nossa tradição oral.
Beijo!

Fátima Campilho disse...

Estou bem longe, mas com estas orientações já acho que estava na oficina! Por que não vem para o Salão do Livro no MAM?
Hoje o sol me beijou úmido e com gosto de terra.
Abraços.

Letícia Möller disse...

Celso,
adorei ter participado da tua oficina. Teu texto sobre as diferentes dimensões de leitura é muito interessante, e contribuiu para dar novas perspectivas de reflexão sobre a minha própria escrita. E Beijo de Sol é de uma beleza, sensibilidade e sutileza ímpares. Parabéns.
Um abraço,
Letícia.

celso sisto disse...

Oi, Fátima!
Realmente, essa oficina com o BEIJO DE SOL foi muito rica!
Não irei ao Salão do Livro este ano, fui nos 2 últimos e neste, as editoras estão meio "mão fechada". E tenho um monte de livros novos! Pode?
De qualquer jeito não faltará oportunidade!
Beijão

celso sisto disse...

Oi, Letícia!
Obrigado por suas carinhosas palavras.
A oficina funcionou bem porque os alunos eram maravilhosos!
Muito obrigado!
Abração!