Seguidores

sábado, 26 de abril de 2008

SEMANA DO LIVRO NA PUC-RS

Meus amigos... esta semana comemoramos a Semana do Livro também no curso de Pós-Graduação da PUC-RS.
Fui convidado para dizer alguns poemas - de Cecília Meireles ou de Machado de Assis, os homenageados - nas salas de aulas. A tática era a seguinte: entrar na sala de aula da Graduação ou da Pós do Curso de Letras (onde faço Doutorado, todos sabem!) e surpreender os alunos com uma performance literária. Os professores sabiam e estavam avisados.
Foi uma delícia.
Na terça-feira passada (22/04/2008) trabalhei com os seguintes textos de Cecília Meireles:

Discurso

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.
Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentesandaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Fio

No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?


É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta
nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Na quarta-feira, dia 23/04/2008, trabalhei com os seguintes textos de Machado de Assis:

Círculo vicioso

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...

Menina e moça

Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!

Relíquia íntima

Ilustríssimo, caro e velho amigo,
Saberás que, por um motivo urgente,
Na quinta-feira, nove do corrente,
Preciso muito de falar contigo.

E aproveitando o portador te digo,
Que nessa ocasião terás presente,
A esperada gravura de patente
Em que o Dante regressa do Inimigo.

Manda-me pois dizer pelo bombeiro
Se às três e meia te acharás postado
Junto à porta do Garnier livreiro:

Senão, escolhe outro lugar azado;
Mas dá logo a resposta ao mensageiro,
E continua a crer no teu Machado.


Constatação: dizer poemas é muito bom! As pessoas também gostam de ouvir! E por que não fazemos mais isso? Por que não promovemos saraus literários, como nos velhos tempos? Falar às pessoas, através dos versos dos grandes poetas é estabelecer esse diálogo, em que a emoção viva pode ser tocada, no ar!

3 comentários:

Fátima Campilho disse...

Olá!
"Palavras Encantadas" é o título do meu novo projeto para a Sala de Leitura e é justamente sobre poesia.
As crianças e jovens adoram e os professores têm medo porque acham que precisam ficar classificando tudo. Tenho a memória péssima e não tenho preocupação em decorar os nomes das figuras de linguagem. Prefiro ficar emocionada com cada imagem criada, com a sonoridade e o ritmo, com a mensagem.
Hoje a minha turma de produziu cordel. Descobri muitos artistas populares e estou vibrando!
Recentemente você me visitou! Estava em minha casa no DVD "Histórias" contando "O Macaco e a Velha". Reli também "Ver de ver meu pai", meu livro preferido de sua autoria.
Abraços.

celso sisto disse...

Oi, Fátima!
Que legal!
Trabalhar com poesia é muito bom!
Essa coisa de adulto ficar classificando tudo é fruto do medo do desconhecido! A poesia entra por searas desconhecidas, mexe com nossas sombras e por isso, as pessoas tem medo! Né não?
Eu já fiz um trabalho muito legal com poesias e máscaras. Eram textos poéticos (do Eduardo Galeano), transformado em pantomimas, com máscaras de gaze gessada, construídas pelos alunos, em aula. As pantomimas tinham música de fundo. O resultado é sempre muito bom. Já fiz isso até com meus alunos na Universidade.
A editora Hedra, de SP andou publicanco vários livros de cordel, inclusive o Patativa do Assaré (já viu o Ali Babá contada por ele, em cordel? Muito bom!).
Obrigado por suas palavras tão estimulantes e carinhosas.
Beijão!

Jornal da Hora disse...

Adorei o Blogger. de otimo gosto!