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sábado, 14 de novembro de 2009

HOMENAGEM À ESCRITORA MARIA DINORAH

Na abertura do Seminário "Por um espaço especial para a literatura na escola", promovido pela AEILIJ, durante a 55ª Feira do Livro de Porto Alegre, no dia 2 de novembro de 2009, na Casa do Pensamento, Ala Infantil, Cais do Porto, eu apresentei um texto para homenagear a escritora Maria Dinorah, à convite da Associação promotora do evento.
O texto foi escrito à partir do meu trabalho "Dossiê Maria Dinorah, Dossiê Rosa-d0s-Ventos", apresentado na disciplina Crítica Genética, do Doutorado que faço na PUCRS.
A pedidos, estou colocando aqui o referido texto.
Abraços a todos!

MARIA DINORAH, UMA ESCRITA PARA LEMBRAR
CELSO SISTO

Maria Dinorah viveu 82 anos e publicou mais de 100 livros! Quem dera que cada livro aumentasse um ano na sua vida! Mas, se não é assim a regra, pelo menos um livro seu amplia o nosso imaginário, recarrega nossa porção de humanidade, aumenta nosso poder criador, nos torna mais donos da nossa própria história.
Maria Dinorah era uma espécie de rosa-dos-ventos, palmilhando muitos quadrantes! Uma volta completa em seu horizonte, guiados por esse instrumento de navegação, já basta para atestarmos a fertilidade deste solo. Maria Dinorah Luz do Prado adubou-se sempre com poesia e misturou-se à ela, fosse em forma de trovas, prosa poética, contos, contos infantis, resenhas críticas, crônicas, discursos, dissertação, palestras, novelas, cartas, bilhetes, scripts, roteiros, projetos, etc. Suas coordenadas apontadas com o coração, ganhavam a forma que as águas pediam. Para navegar o mar das palavras há que se ter todo tipo de embarcação.
Maria Dinorah ROSA DOS VENTOS nascida em Porto Alegre, espalhou seu perfume de 13 de maio de 1925 à 15 de dezembro de 2007. Foi professora, poetisa e seus mais de cem títulos, são na maioria destinados ao público infantil e juvenil. Teve quatro filhos e sete netos. Foi mestra em Literatura de Língua Portuguesa, grau obtido no curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1978, com a dissertação “A literatura infantil de Érico Veríssimo, orientada pelo Professor Guilhermino Cesar.
Autora muitíssimo organizada, escrevia suas poesias em cadernos, numerados e etiquetados conforme o ano. Assim foi, desde os anos 60, até o final de sua vida. O primeiro livro publicado em 1944, com sua foto na folha de guarda, protegida por papel de seda, anunciava-se para o tato do leitor e para o universo das Letras, no título ALVORECER. Maria Dinorah não tinha ainda completado 19 anos.
Ela mesma conta, em entrevista a Jane Tutikian, para o caderno do Instituto Estadual do Livro, que seus primeiros poemas foram inspirados pelo mar de Torres, onde viveu até os 13 anos. Diz ela: “Foi o mar de Torres, com suas ondas sonoras e transparentes, que fez brotar os meus primeiros poemas. Eu os guardava numa caixa dentro do meu armário. Um dia, meu pai os descobriu. Organizou-os em livro, levou-o para a Tipografia Gravataiense, e mandou fazer o meu primeiro livro, Alvorecer...”
Maria Dinorah teve importante participação na imprensa. Assinou colunas de crítica de literatura infantil por anos, fez programa infantil em rádio e até para o Planetário. Incansável, polvilhou as páginas da imprensa desde 1957, com suas colaborações na Folha da Tarde, Jornal do Comércio, Lidador, Diário da Tarde, Correio do Povo, Zero Hora. Foi a criadora e a executora de suplementos destinados às crianças, em vários jornais, (Correio do Povo, Zero Hora e Diário de Notícias). Em um exemplar do Jornal do Comércio, de 1970, encontramos, em uma das seções o seguinte texto, intitulado “Leis e Decretos”:
Decreto I – Dispõe sobre os direitos da criança sobre seus objetos pessoais.
Artigo I - Fica deliberado que cada garoto ou garota de mais de cinco anos tem direito de reger seus bens pessoais (mesada, gulodices, livros e brinquedos) com toda a liberdade e livres da coação dos adultos, desde que o façam dentro das determinações da lei.
Parágrafo 1 – As roupas quentes devem ser usadas em tempo frio, e as leves em tempo de calor.
Parágrafo 2 – As gulodices devem ser comidas sempre após as refeições.
Parágrafo 3 – Os brinquedos devem ser usados após a feitura dos temas escolares.
Artigo II – Revogam-se as disposições em contrário.
Nota: o presente decreto passa a vigorar a partir da data de sua publicação. Assinado Com Mercinho. “Com Mercinho” é o personagem que dá nome ao Suplemento Infantil do Jornal do Comércio.
E a biografia de Maria Dinorah revela ainda outras curiosidades:

1. Ela tem música publicada até no Japão. A “cantiga de estrela” (1988) está publicada lá, em partitura para duas vozes, com música de Francisco Mignone e poesia de Maria Dinorah.
2. Ela fazia livro de presenças para as suas sesões de autógrafos, nas Feiras do Livo de Porto Alegre. Seus lançamentos eram anunciados nos jornais locais e atraiam uma verdadeira legião de fãs.
3. Pertenceu à Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, tomando posse em 11 de novembro de 1975, e ocupando a cadeira de número 36, patrocinada pela escritora Bertha Loforte Gonçalves.
4. Participou ativamente de programas governamentais, dentre eles o “Autor Presente”, criado pelo Instituto Estadual do Livro.
5. Foi a primeira patrona da Feira do Livro de Porto Alegre, no ano de 1989.
6. Ao completar 50 anos de carreira literária, em 1993, Maria Dinorah recebeu muitas homenagens. O ano de 1993 recebeu o título de “Ano Maria Dinorah”.
7. Em 23 de abril de 1998 a escritora recebeu da Câmara Rio-Grandense do Livro o título de AMIGO DO LIVRO.

Sua obra está regida pela fantasia e suas crônicas, em especial a crônica “O livro tem alma?”, revelam o compromisso e a ligação da autora com a literatura infantil, com a promoção da leitura e com o trabalho de formação do leitor criança. Confessadamente influenciada pela obra “Heidi” (1880), de Johanna Spyri, ou modelada por Monteiro Lobato e Hans Christian Andersen, da sua produção emerge um conceito de criança, que foi se adaptando às exigências dos tempos, mas que em essência não se modificou. O que predomina, de algum modo, em sua obra, é a busca do olhar surpreendente e maravilhoso desses seres encantados. As crianças de Dinorah têm direito à vida e estão sempre embaladas na força da emoção. Essa força, pungente, que sobressai de seus textos. Sua escrita, quase sempre enxuta – talvez por herança da poesia – busca também reproduzir o frescor da espontaneidade. A resposta inusitada, a ação despretensiosa dos pequenos, a ingenuidade do olhar infantil são a tônica de muitas de suas histórias. E parte de sua busca incessante era trazer para os textos a “aura” dos contos tradicionais, com ar de serão noturno e gosto de acalanto.
Muitos escritores renomados manifestaram seu carinho e sua admiração em relação à pessoa e à obra de Maria Dinorah: Érico Veríssimo, Carlos Drumond de Andrade, Carlos Nejar, Caio Fernando Abreu...

Mário Quintana disse:

“A gente, para inventar uma estória, tem de fazer com que seus episódios se sucedam com naturalidade de movimento com que uma criança vira uma cambota. É a liberdade da fantasia, a criação no exercício de seu livre arbítrio. Portanto, Maria Dinorah, não vou dizer que fiquei preso às suas histórias: pelo contrário, elas me libertaram. Não é por acaso essa a função da poesia?”

Seu maior orgulho talvez tenha sido mesmo a Biblioteca Ecológica Infantil Maria Dinorah, situada no Parque Moinhos de Vento, cujo decreto 1.847 de 26 de fevereiro de 2008 fixou pra sempre o seu nome.
Talvez, o poema escrito por ela, por ocasião da sua sessão de autógrafos na Feira do Livro de Porto Alegre de 1977, forneça-nos também alguma brisa, dessas que nos sopram aos ouvidos, como um segredo final...

“Mais uma vez
acolho
e me despeço.

Andorinhas,
vieram até mim
no banquete do livro.

Nuvens de outono e primavera
leves,
densas,
entraram no castelo dos mistérios
feito asas.

Quiçá para ficar,
a fazerem do mágico
morada permanente.

Somos hoje
ciranda
rumo à festa
do tempo e das infâncias
em ecos de beleza.

Vejo-as rios de sementes
despertando paisagens
para o trigo,
extensão de meus sonhos
de mundo mais humano.

Meu coração
Acolhe e se despede.
Sem vazios.
E, rico de convívios,
é saudade madura
que entende o adeus”


E com essa imagem de vento Zéfiro, o frutificante, o vento do Oeste, suave, agradável, benfazejo e mensageiro da Primavera, aproveitamos para lembrar que grande parte do que produziu Maria Dinorah, seus manuscritos, cartas, fotos, objetos, matérias de jornais, fortuna crítica, está no DELFOS, Espaço de Documentação e Memória Cultural, da PUCRS, sob responsabilidade da professora Helenita Rosa Franco, esperando os pesquisadores. Mas o melhor disso tudo é que toda uma geração de leitores intimamente ligados às histórias escritas por Maria Dinorah continuam formando outros leitores através da propagação de suas obras.

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