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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - FINDAR

                  
“Ouço o barulho do mar. As ondas dublam meu sono. Por enquanto sou peixe fora das águas, peixe-homem, de olhar-farol, provocando a noite...”
Acordei no meio da madrugada para anotar a frase. Era sinal de que o balanço de final de ano já havia começado. Momento sempre difícil esse de acertar as contas consigo mesmo! Depois da tal frase rondando a minha cabeça, como um enxame furioso de abelhas, impossível voltar a dormir. Melhor seria não resistir! Melhor seria brincar com as palavras! Aceito, então, de bom grado, o convite para o jogo fônico! Para o jogo imagético. Para o jogo idílico. Para o jogo onírico! E me lanço!
As palavras chegam às carreiras, como em um filme que num simples ensejo de retrospectiva, pretendesse dar conta das etapas de uma vida. Ah! Mal de quem avalia! Parece que só servem de mosaico os fatos exteriores. Pois eu quero mesmo é pensar nas transformações interiores! Quantos alvéolos pulmo-fabulares são necessários para manter viva a fantasia de mais um ano de vida?
Pra começar, uma confissão: tenho sempre pedido aos deuses que não me deixem dormir no ponto! Que eu esteja sempre desperto quando as coisas importantes acontecerem; que eu não perca o fio da meada, a hora exata, a chance de estar no lugar certo na hora certa. Com lucidez e benevolência!
O mais engraçado disso tudo é que eu esteja aqui pensando em falar de coisas que findam, quando na verdade, sempre estive preocupado com as coisas que perduram. As coisas que acabam por vezes me apavoram! Acabar uma amizade, um trabalho, a convivência com um grupo, terminar uma disciplina, encerrar um núcleo de estudo e pesquisa, sufocar um amor, esquecer uma dor... Eu tenho uma dificuldade monstruosa de me desfazer das coisas. Não é rancor! Nem mágoa. É para trazer a minha história sempre bem tatuada!
Lembro-me que quando era pequeno, a família inteira dizia que eu gostava de cacarecos - adoro essa palavra, saborosa demais!-, e me comparavam inevitavelmente com a minha avó, que gostava de guardar coisas: caixinhas, embalagens, papéis, selos, barbantes, fitas coloridas, latas, etc. Fiquei para sempre refém dos guardados!
Mas, não pensem que sou um acumulador, simplesmente. Sou um colecionador, fui, talvez. A idéia de coleção me atrai. Mas, ameaçado pela modernidade e pela pressão do descartável, ao longo da vida, fui abandonando os objetos em séries. Quer saber? Colecionei plásticos de carro (do tipo adesivo, que naquela época chamávamos de colantes), chaveiros, cartões postais, selos, álbuns de figurinhas, cartas, revistas de histórias em quadrinhos. Durante muito tempo guardei a revista do Cebolinha, do número 1 ao número 100, resquícios da minha gostosa infância em São Paulo, quando descobri a biblioteca da Vila Mariana e disputava com o Luiz Henrique quem lia primeiro a revista que chegava nas bancas. Ficamos amigos depois de sairmos no tapa, na sala de aula, nem sei bem porque! Na quinta-série eu já me sentia um grande pesquisador – talvez fosse mesmo um eterno brigão! Hoje sei que juntava essas coisas porque elas me traziam memórias! Quer saber? Hoje, minha grande coleção é de livros. Tenho muitos, inúmeros, fora todos os que fui doando ao longo da vida e, principalmente, nas mudanças de casas.
Mas, para voltar ao princípio (deste texto, inclusive), vejo-me então no oceano da vida (ainda que a noite seja de insônia!), no mar das origens, para dali avançar sobre o mundo que me espera adiante, na beira da praia azul, poeticamente organizada com casinhas brancas, como se fora uma aldeia grega. Foi dessa paisagem que emergi. Talvez meu passado de peixe tenha me ensinado a respirar em qualquer habitat, já que sempre acreditei que um peixe vivo poderia viver fora da água fria e na sua própria companhia. Foi dessa paisagem que emergi já que andei buscando o farol. Ai, os faróis, as luzes-guias que me fazem navegar, que latejam repartidas em mil contos, como em Os faroleiros, de Lobato...
É na condição de peixe-homem, que não é senão a habilidade de se adaptar às condições locais, e com a sorte de possuir um olhar-farol, que eu saio do mar para voar. Um peixe que voa, que produz mel, que carrega flores...  Não vou enumerar todas as coisas que fiz no ano que ora termina. Não me interessam os exercícios findos! Interessam-me os exercícios perduráveis: os amigos ao redor, a paixão pela literatura, a opção pela criança, o infinito gosto pela sala de aula, o inabalável prazer de contar histórias. Nada disso é vítima do pesar! Pelo contrario!
Para começar minha próxima translação, que deve durar 365 dias, 5 horas e 48 minutos, venho visitar Jano, o deus romano dos portões, para aprender com ele o mistério de ser bifronte: uma face voltada para o passado e a outra, para o futuro; para frente e para trás, no eterno jogo de réveiller.
 Para celebrar o despertar, doze uvas nas mãos, ouvidos atentos às badaladas, e a Puerta do Sol escancarada!!! Que venha então o Ano Novo!


(by Celso Sisto – 30/12/2011)

AGENDA 2012


sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - NATAL COM LIVROS


Fui criança há muito tempo. Continuo sendo ainda hoje. Uma criança na hora certa, no lugar certo, é claro.
E para falar a verdade, a melhor hora para ser criança era sempre o Natal. Falando assim pode parecer puro interesse nos presentes! Não era! Sempre me encantou a casa cheia de gente, os abraços, os beijos e o carinho distribuído calorosa e fartamente entre todos. A ternura que tomava conta da casa e das pessoas, nesta época, era sentida de modo muito intenso. Talvez ainda hoje. Guardada, num receptáculo de florescência, que se abre totalmente, como flor de estação. Perfumar a vida do outro é tarefa de muita responsabilidade! E talvez, por isso, o jardim da ternura exija um ano inteiro de preparação!
E por falar em flor, adoro a flor do Natal!   De todos os nomes – bico-de-papagaio, rabo-de-arara, cardeal – prefiro a designação estrela-do-natal. Seu vermelho intenso sempre acende em mim o fogo da lembrança, e confirma, para sempre, a sua vocação de estrela de Belém. Assinalando o lugar, a flor do Natal afirma que Belém é aqui, é agora, é todo e qualquer lar onde ela esteja.  Portanto, cada casa, nesta época, deveria viver o nascimento.
E por falar em nascimento, o meu Natal reúne também as pontas da linha do tempo: crianças e velhinhos! Velhinho com cara e jeito de avô, que conta histórias e nos leva para o mundo da fantasia. Por isso, no meu cinema da memória, ressurge sempre a figura do seu Atílio, meu querido avô. O lustro do seu cabelo, o seu bigodinho, a sua altura de pinheiro de Natal! E melhor, seu grande colo, que mais que abraçar, erguia parede, concavidade, caverna de abrigo e proteção! Colo de avô era Natal multiplicado, tão necessário, que virava disputa entre irmãos e primos. E se alastrava para a vida inteira.
E na revoada dos velhos Natais, corri até aqui de bicicleta, para exibir o presente mais marcante. Fugi até aqui para mostrar o estalo do tapa e os sulcos das lágrimas, daquele Natal triste: tarde da noite, o carro que nos levaria à casa da avó, enguiçou e  nos deixou reféns da tristeza. Tios esperando, primos esperançosos, corações expectantes. Eu, que sempre necessitava dos porquês, pedia tanta explicação, que a única maneira de me fazer calar era usando o grito, a dor e a autoridade. Cresci dividido entre as alegrias daquela bicicleta e a tristeza daquele tapa na cara, procurando a luz e a fixação, como a trepadeira que se agarra aos muros e quer invadir os futuros Natais, onde possa haver ainda uma estrela-guia.
E assim, para adorno natalino, convoquei também o vermelho e o dourado, as luzes que piscam, as árvores e seus pingentes, para enfeitarem mais uma preciosa lembrança: o mutirão da fraternidade, quando juntos, acreditávamos trazer para dentro da casa a árvore-da-vida e a arca do tesouro, repartidos em mil penduricalhos. Ajudar a mãe a armar a árvore de Natal era acreditar na repartição dos raios do sol, no ato de construir juntos, com mãos irmãs, o centro da praça, em torno da qual dançaríamos como escoteiros, como tribo, como família, como filhos que estavam ligados pelo mesmo cordão umbilical.
Se o Natal não era feito para durar, alguns presentes eram. Porque eis que descobri uma maneira peculiar de viver o Natal. E você pode acreditar, se assim quiser, que é benção de Papai Noel, Menino-Deus, Pai Natal, Santa Claus, São Nicolau, Reis Magos... O que importa é que a legião de presenteadores cresce sempre! E olha, esse é um presente desejado, provado, experimentado, repetido tanto quanto se queira. É assim: pedi, com muita força, que eu pudesse entrar nos livros e viver, no lugar do personagem, o momento mais importante daquelas histórias. Um dia, o presente chegou, e por isso estive lutando com o Capitão Gancho, morando na goela de uma baleia, participando do depoimento ao Rei e à Rainha de Copas, derrotando a Bruxa do Oeste, sendo picado pela serpente para poder voltar ao asteróide B612. Só tendo muitos nomes e sendo Peter Pan, Pinóquio, Alice, Dorothy Ventania e Pequeno Príncipe é que eu seria capaz de nascer muitas vezes e espalhar o Natal pelos outros dias da minha vida. Não parei mais, desde então.
Mas ainda espero entrar na história dos homens, no livro da vida, e ver o fim da disputa entre Israel e Palestina; assistir às mulheres orientais ganharem voz e vez, participar da derrubada das fronteiras entre os países; ver com os meus próprios olhos que todas as crianças estão na Escola, que todos têm emprego e tratamento médico adequado, quando necessário. Que não há mais fome, a não ser a fome de livros, histórias e fantasia.
Por isso, para salvar o que há de humano nas pessoas, hoje dou livros de presentes no Natal.
E continuo acreditando que Natal é só mais uma maneira de servir, em lauta ceia, a palavra utopia! Feliz Natal!


        
(by Celso Sisto – 23/12/2011)

sábado, 17 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - LIVROS COM ASAS

Desde pequeno somos treinados para ganhar uma série de coisas: da comida à proteção, da atenção aos presentes, do carinho aos jogos, do destaque à preferência das pessoas. 
Foi assim na minha casa: filho do meio, sempre tive que me esforçar mais para atrair a atenção dos meus pais. A minha sorte é que além de malcriado, eu era criativo e afetuoso. Às vezes, só quando convinha! Se a palavra era ríspida e o gesto bruto, por escrito eu sabia como dissolver a agressividade e adoçar as desculpas. 
Na escola, os concursos de redação foram as primeiras vitórias. Depois aprendi, pela voz doce de Dona Wanda, a escrever diários e a criar personagens, que a cada segunda-feira viviam uma nova aventura. A peripécia maior era sempre merecer a atenção da professora, os seus preciosos comentários para promover a excelência do texto. Embora não fosse uma olimpíada grega, quando ela escolhia o nosso texto para ser lido para toda a turma, colocava em nossa cabeça os louros da vitória. A cabeça coroada ficava maior, exigia ouvintes atentos e olhos estelares de admiração. 
Sob a cruz de Nero, para reviver a fase do protesto, lembrei-me que tirei o primeiro lugar na redação do Vestibular. O que, de algum modo, espelhava a minha relação com os livros, com a literatura, com os autores brasileiros, sobretudo. Fui leitor voraz de Graciliano Ramos, principalmente. Talvez ali eu já intuísse que a potência do texto estava na síntese. Na pulsação e na turgência que o texto pode adquirir, convocando o leitor a desarmar a bomba ou a apertar o olho do tumor! Aprendi com isso, a nunca ficar passivo diante da boa leitura! 
Os grandes livros continuam gritando dentro de mim. Caio Fernando Abreu gritou sempre dentro de mim. Pirandello gritou forte dentro de mim. Tennessee Willians gritou alto dentro de mim. Morangos mofados me ofertava a palavra visceral; À margem da vida, além de peça era também a caixa mágica da identificação; Seis personagens a procura de um autor fornecia contingentes para a rebelião de quem queria ganhar voz. Eu queria escrever daquele jeito! Isso, claro eu só sei agora. Dormia abraçado aos livros, repetindo baixinho as palavras-confeitos, até que elas fossem minhas. 
Também quis escrever como Garcia Márquez, como Vargas Llosa, como Julio Cortazar. Fiel a uma identidade latino-americana, procurei raízes, mastiguei folhas e engoli obras, oferecidas em banquete. Cheguei então a Lorca, a Calvino, a Saramago, como se nomeá-los, me possibilitasse experimentar palavras-senhas, um Abre-te Sésamo para o meu exercício da escrita! Um Ali-Babá que me conduza à tradição oral. 
Pois foi esse gosto da cultura popular que me levou aos clássicos, à infância, à criança que eu sempre fui. Tinha ido de brincadeira em brincadeira, andando em roda, a tentar encontrar aquela que fosse a minha preferida. Rodopiar com as palavras me reconciliava com a infância. Depois que contei a primeira história para uma criança, renasci. Mil vezes encontrar o mesmo caminho! Mil vezes estar parado à porta do Reino Encantado da Meninice, para provar, estupefato, a sua imensidão. 
Esse mistério é que institui o maior prêmio: a cumplicidade do leitor com quem rola com ele no chão das inúmeras infâncias. 
Hoje tenho nas mãos dois prêmios Açorianos: melhor livro infantil e livro do ano. Eu os desejei, claro. Assim como desejei o estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul, a cidade de Porto dos Casais e a freguesia Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre. Nascer numa nova terra tem sido desafio diário. 
O sorriso, por tudo isso, é largo. No meu abraço cabem os 58 livros que já publiquei até aqui. Mais do que ganhar prêmios pelas obras que hei publicado, é saber que a literatura é sem fronteiras e sem adjetivos. 
Falamos em ganhar como se alguém fosse perder. Mas como falar em perda, quando se escolhe, dentre obras de destaque, um livro para ganhar mais destaque? Não há perda nessa relação! Há valorização maior, num universo de já valorizados! O ideal é que o ganho se esvaísse nele mesmo! Ou seja, a partir desse momento, fica tudo zerado e volta tudo a ser igual! Buscar a melhor maneira de contar, em cada livro novo. Desejar que o leitor se identifique. Torcer para que a literatura entre nos vazios, faça vibrar as cordas da harpa-humana, crie ecos. Ganhar respeito para a literatura infantil é o que importa. 
Esse é o discurso que não fiz. Esse é o discurso pós -prêmio, que só agora pude elaborar, sem sustos: a palavra que me rasga os olhos, assim, até ficar miudinho, de tanto sorriso, de través e de revés é DIÁFANA como pode ser um livro, quando nos abraça. Tremura de querer, quentura de ninho, fartura de existir... Estarei morando, agora e sempre, nas dobras da história. E sussurrando no vento: obrigado, Danila! Chamem as crianças (não importa a idade!), a poesia do livro infantil correu mundo! Voou! Venceu! 

 (by Celso Sisto – 17/12/2011)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

ENTREVISTA PARA O PRÊMIO AÇORIANOS 2011



Já que até agora a entrevista que me pediram, como um dos 3 finalistas do prêmio Açorianos 2011, na categoria literatura infantil, não foi publicada no site da Coordenação do Livro e Literatura, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, publico então aqui, a entrevista.

1- Quando foi que você decidiu trabalhar com literatura infantil e infanto-juvenil? O que te levou a essa escolha?

Eu sempre li muito, desde pequeno. Quando terminei a graduação em artes cênicas, em 1988, fui fazer uma Especialização em Literatura Infantil e Juvenil, na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi ali que meu interesse pela literatura infantil começou a ganhar corpo. Em seguida, fui trabalhar como crítico literário na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e meu universo de conhecimento dessa literatura infantil contemporânea ampliou-se muitíssimo. Na época eu era também professor de literatura numa escola no Rio de Janeiro e foi para esses alunos, do Instituto Nazaré, no bairro de Laranjeiras, que escrevi as minhas primeiras histórias infantis.



2 - Quando você travou o primeiro contato com o mundo da contação de histórias? Quanto isso influenciou teu trabalho como escritor?

Desde criança, na escola primária ainda, o contato com as histórias me fascinava. Na minha casa se contava muitas histórias, meu pai, minhas tias, minhas avós. Esse modelo de proximidade, de pai, avó, mãe, tia que conta história sempre ficou em mim, pela vivência. Mas foi também na Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil que travei o primeiro contato com um grupo de contadores de histórias (da Venezuela) e fiquei sabendo que era possível ser um contador de histórias profissional. Então, fundamos nosso grupo, o grupo Morandubetá, que existe há mais de 20 anos e está junto até hoje, com a mesma formação. E contar histórias, trabalhar com a narrativa na oralidade foi fundamental para o meu trabalho de escritor. Costumo dizer que virei um "escritor de ouvido". Testar a história na narração oral ajuda a "equalizar" a história, a apurar o ritmo, a perceber o que está sobrando e o que está faltando...


3 - Você também atua como crítico literário e é doutorando em Teoria Literária. Você acha que essa formação ajuda ou atrapalha no seu processo criativo?

Ajuda enormemente. Quando você se habitua a perceber os mecanismos de construção dos textos literários, em especial, você também se torna muito exigente com o seu próprio texto. Mas no ato da criação, isso têm que ficar momentaneamente esquecido (ou relegado), para que a criação possa fluir sem amarras. Esse processo ultra crítico é para a segunda etapa do trabalho. E escrever para o público infantil e juvenil requer muito conhecimento desta literatura, muita leitura, frequentar livraria, acompanhar os prêmios, estar em dia com toda essa produção. E, principalmente, estar em contato com esse leitor. Ir às escolas, como vamos, nos programas de promoção da leitura, é fundamental para se ter um retorno de como funcionam, para o leitor, as nossas obras.



4 - Seu trabalho parece ser bastante calcado nas relações familiares. Isso foi intencional ou algo que surgiu espontaneamente?

Surgiu espontaneamente. Jamais decidi: vou escrever sobre as relações familiares! Mas acho impossível pensar em uma história para crianças sem que esta envolva relações familiares. A não ser que a criança esteja sozinha no mundo e isolada de tudo... Do contrário, as relações familiares, de algum modo, serão importantes e virão à tona! E são nessas relações que os maiores conflitos aparecem. E são essas relações que marcam para sempre a vida das crianças e dos jovens. Mas eu também gosto muito de escrever sobre situações polêmicas, essas questões que exigem que o escritor encontre uma maneira peculiar para abordá-las, para tratá-las, enfim.


5 - Você é carioca, mas mora há muito tempo em Porto Alegre. Como ocorreu a escolha de morar aqui? Como foi se adaptar à cidade?

Escolhi viver no Rio Grande do Sul. Acho que é um privilégio você poder escolher onde quer viver. Saí do Rio de Janeiro em um momento em que a cidade estava muito violenta e eu, amedrontado. Queria mais tempo e um lugar mais sossegado para poder escrever e ilustrar. Fui morar e trabalhar em Gramado, primeiro. Depois é que vim para Porto Alegre. Mas hoje ainda me divido: moro metade da semana em Porto Alegre, principalmente por causa do Doutorado, dos trabalhos, das viagens; a outra metade, na praia de Cidreira. Preciso estar perto do mar. E preciso da tranquilidade dos lugares pequenos para poder produzir, escrever, criar. Amo Porto Alegre, mas ainda tenho muito que descobrir sobre a cidade e seu modo de vida. Minha casa em Porto Alegre é no Centro. Adoro o centro histórico, a arquitetura, o viaduto da Borges (uma verdadeira obra de arte!), o Guaíba, os cafés dos museus. Mas só depois de 13 anos vivendo aqui, tive coragem para escrever uma obra ambientada no Rio Grande do Sul. Acabei de publicar, pela editora Planeta, uma novela infantojuvenil ("O rei das pequenas coisas") totalmente ambientada no Rio Grande do Sul. E, quando me perguntam, hoje em dia, de onde eu sou, eu digo, sem titubear: sou cariúcho!

domingo, 4 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - TEATRO INFANTIL URGENTE!

Hoje venho banhar-me na fonte das musas! Nas águas de Tália, nas águas de Melpômene, carregando ramos de hera, e também de videira. Tenho nas mãos o cajado do pastor e a maça de Hércules. Mas, já que não posso decidir entre a comédia e a tragédia, posso tocar o clarim e anunciar: foi o teatro que me levou aos livros! Assistir a uma peça de teatro é o mesmo que ter ao alcance das mãos, a história materializada! Agora, imagina isso na vida de uma criança? Por mais que ela esteja habituada ao faz-de-conta, a relação é outra: agora não é ela quem brinca de personagem, ela é apenas testemunha ocular daquilo tudo! Daquela imensidão! E tudo aquilo existe de verdade! Embora seja um jogo, é real! É inesquecível! É definitivo!

O primeiro impacto do teatro na minha vida foi na escola, assistindo “A onça e o bode”, na quarta série. A peça acabou, voltei para casa, mas a comporta estava aberta e jorrava com tanta força e tão continuamente, que cheguei em casa e não parei mais de fazer teatro. Construí o cenário da peça com lençóis, cadeiras, sofás. Ensinei os papéis aos meus irmãos e apresentamos aos nossos pais. Assim começava a minha vida na arte!

Era mais do que brincar de faz-de-conta-que-eu-era-o-bode-e-você-a-cabra! Era mais, muito mais! Porque havia já a noção da existência da platéia para quem fazíamos de conta! Era já a consciência da arte. Era a primeira construção da estética teatral na minha vida!

Mas o primeiro autor de teatro, que descobri de verdade foi mesmo Pernambuco de Oliveira. Seu texto, “A revolta dos brinquedos”, na 6ª série provocou o meu imaginário, durante muito tempo. Naqueles idos dos 70, a professora de Português, que dirigia o grupo de teatro da escola, Dona Adelaide Botelho, estava montando a peça. Eu sabia: se eu fosse bom aluno, talvez conseguisse entrar no grupo! Por isso, li ávida e desesperadamente tudo o que ela mandava: Senhora, O tronco do Ipê, A Moreninha, Meu pé de laranja lima, Éramos seis, etc. Li tudo, li com prazer, li com sofreguidão, li com paixão, porque sabia que a literatura era uma outra forma de me fazer feliz. Porque a literatura poderia me levar ao teatro! Jogar-me no mundo. Fazer-me integralmente gente! Eu queria, eu podia, eu consegui! Virei um grande leitor! Foi exatamente assim que virei leitor crítico!

E o inesperado aconteceu. Passei a amar a leitura de textos de teatro! Daí para amar os textos de Maria Clara Machado foi um pulo! Pluft o fantasminha, O cavalinho azul, Tribobó city, A bruxinha que era boa, A menina e o vento, Maroquinhas Fru-Fru e tantos outros textos. Será que fui a única criança que gostava de ler texto de teatro? Pegava na biblioteca e lia, lia sem parar. Até que, na adolescência, entrei no teatro profissional, de Amauri Canuto, que se apresentava nos fins de semana, no auditório da TV Brasília, pelo teatro popular do SESI. Depois participei de uma montagem profissional de O rapto das cebolinhas, também na capital federal. Eu e o Maneco éramos as mesmas pessoas. Eu e o bruxo Belzebu Terceiro viramos faces da mesma moeda. Eu e o Vicente tivemos, por um tempo, o mesmo registro civil. Esse mistério de se converter em outro, de se converter em muitos era o que eu queria pra mim. Para sempre! Com o teatro.

Pois foi também o teatro, nessa época, que me ajudou a escrever meu primeiro texto infantil: O menino que brincava de ser (tá bom, eu sei, minha amiga, a escritora Georgina Martins, tem um livro com esse mesmo título! Mas a minha peça de teatro foi escrita em 1976 e o livro dela é de 2000! E além do mais, o meu texto se perdeu nos guardados e nas mudanças de casa, pelo mudo afora!).

Hoje, olhando pra trás reconheço um dos dias mais felizes da minha vida. Ainda em Brasília, fui assistir, no teatro Galpão, ao espetáculo Os saltimbancos, dirigido por Hugo Rodas. O ano era 1977. A transformação do clássico Os músicos de Bremen dos Irmãos Grimm, em musical infantil, feita por Sérgio Bardotti (letrista italiano) e Luiz Enriquez (músico argentino), no Brasil, ganhou versão de Chico Buarque. Foi um sucesso estrondoso! Sucesso total. No texto predominava a alegoria política, que criticava os senhores poderosos, os militares, os desmandos, e acenava com uma solução voltada para a esquerda, para a classe operária e para os artistas de verdade, perfeito para o momento brasileiro. Ainda mais para quem vivia, como eu, na capital federal! No embalo, era também um grito de libertação do jugo do Barão, da elite, do pai e da mãe. Perfeito para aquele momento da minha vida!

Estava então decidido! Eu ia ser ator! Mas, o tempo passou, virei mesmo foi um ator-escritor e um ator-contador de histórias. E hoje, assisto, com muita alegria, um certo renascimento do livro de dramaturgia, direcionado ao leitor infantil. Algumas editoras têm investido na publicação de peças de teatro para crianças, dando ao objeto livro o mesmo tratamento que dão a qualquer outro livro infantil. Isso me enche de esperança. Mas ainda é pouco, muito pouco!

Urgente é percebermos que é preciso voltar sempre à Maria Clara Machado, buscar os textos do teatro irreverente e hiper lúdico de Sylvia Orthof, descobrir o rico teatro infantil de Flávia Savary, que vem por aí, com força total, em muitos livros. De lambuja, também é urgente abrir espaço para ler teatro com as crianças na sala de aula! Experimente usar os discos da Taba, lançados nos anos 80, pela Abril Cultural. Foram 40 histórias, que traziam ainda uma seção denominada “Escolinha de Teatro”, proposta por ninguém menos que Ilo Krugli! Eu duvido que depois de ouvir uma história dessa antiga coleção, as crianças não queiram ler e brincar de fazer teatro!

Ah, só pra lembrar: fazer teatro com as crianças na sala de aula não é para formar necessariamente atores, mas para que o exercício do faz de conta seja potente e assumido também pela escola, de uma forma larga; e para que o teatro na educação seja também uma maneira de cada criança treinar outros papéis, polir seu imaginário e conquistar confiança para exercer o seu papel no Reino da Vida.

Uma lembrança mais do que feliz: Peter Pan foi primeiro peça de teatro para virar depois um livro clássico da literatura infantil universal.

Por isso, não me canso de pedir: Oh musas, que a eloqüência de Calíope se misture à minha e que um dia, possamos dizer, como Shakespeare disse no prólogo de Henrique V: “quem me dera uma musa de fogo que os transporte ao céu mais brilhante da imaginação; príncipes por atores, um reino por teatro, e reis que contemplem esta cena pomposa”.

A cena pomposa é somente esta: um salão repleto de livros de teatro, e muitas crianças lendo, encenando, brincando! Neste dia, adoraremos as nove musas e ofereceremos sacrifícios ao culto heróico do teatro infantil, no mousaion, o altar das musas, o lugar destinado à exibição pública do conhecimento.

(by Celso Sisto – 04/12/2011)

sábado, 26 de novembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - MÚSICA AO LONGE, PARA ALIVIAR A DOR

Ninguém quer sentir dor. E são tantas, desde o princípio. A dor infantil, inominável para o bebê, mas reconhecível - dor de garganta, de ouvido, de barriga – vira, com o tempo da maturidade, dor de cabeça. Dor no peito. Dor no coração. Dor na alma.

Parece que já temos na palma da mão os sulcos da dor aprofundados pelo formão do grande artista do Universo. Xilogravurados no instrumento do toque. Um desenho tão original quanto intrigante, traçado também por agulha, para sinalizar as histórias de vida. Mas a vida dói, de alguma maneira dói. Clarice Lispector dói em mim quando diz que fez da sua dor o seu destino disfarçado.

Essa dor que não está localizada em nenhum lugar especificamente é a pior de todas. Imagino-me pássaro e com asa que não produz voo. Não. Imagino-me corredor e com um desgaste na cartilagem do joelho esquerdo! Não. Imagino-me piloto e repentinamente cego. Não. Imagino-me cozinheiro e sem paladar! Não. Imagino-me escritor e com o mal da dês-palavra. Imaginem: depois de escrita, a palavra se apaga sozinha. Não há linha que a palavra possa percorrer; não há vazio que a palavra possa preencher. Nem na oralidade: a palavra dita é imediatamente esquecida! E, portanto, não há continuidade. Fica só o relâmpago da palavra. A claridade lampejada naquele momento ínfimo! Um acender-se e apagar-se tão rápido que no fim, não importa nem mesmo a palavra, tudo é apenas um susto! E um retorno ao íntimo. Ao escuro.

Esse retumbar dolorido acende lâmpadas na linha do tempo, de qualquer um. Ilumina a palma da mão. Traz-me de volta a primeira notícia da dor e a primeira manchete da morte: o pintinho amarelinho sem calor e molenga que não abria mais os olhos, não ficaria mais de pé. E a boca, encharcada de acalanto, rumorejava ainda, e para sempre: “Tutu Marambá, não venhas mais cá, que o pai do menino te manda matar. Tutu Marambá, não venhas mais cá, que o pai do menino te manda matar”. Como uma viola tocando ao longe. Uma viola, os golpes nas cordas de aço, e a música plangente, tal qual guitarra portuguesa...

Tudo isso para dizer que tenho visto tantas crianças com essa dor não localizada. Estampada nos olhos. Moradora de longa data. Assentada à coluna, como uma vértebra. Basta percorrer as escolas para ver que a maneira mais usual de demonstrar afeto é aos socos e pontapés. Na dificuldade do abraço entre os iguais, o soco ainda é um apelo desesperado por contato físico. O pontapé, um pedido de base, sólida.

Por isso lembrei-me da música. Da falta que ela faz na vida das crianças. Dos acalantos, das cantigas de roda, das músicas infantis. Uma escola que canta não tem tempo para ser campo de batalha. A violência fica banida pela música... Por isso queria pegar a música, alinhavá-la com o músico (que pode ser músico-cd, músico-cantor-sem-instrumento, músico-falador) e transformar tudo em história cantada: “quem quer casar com a Dona Baratinha, que é bonitinha e tem dinheiro na caixinha?”. Melhor esse casamento por interesse declarado e cantado em voz alta na fantasia, do que homem que bate em mulher. Do que aluno que atira em professora, do que meninas que rolam pelo chão aos socos e puxões de cabelos, exibindo-se publicamente para as câmeras dos celulares.

Pois a música não é senão um jeito de açucarar os dias da infância, uma maneira de lambuzar de doces e balas a nossa história. Talvez seja esse o lembrete do nosso amigo contador de histórias Roberto de Freitas, ao cantar escoteiramente, com o público, em suas sessões de histórias: “a árvore da montanha olêiaô, a árvore da montanha olêiaô”. Cantar em coro gera um sentimento de pertença!

Foi justo por isso que convidei meus amigos escritores para escreverem histórias para as cantigas de roda. E o livro HISTÓRIAS DE CANTIGAS (projeto prontamente incorporado pela editora Cortez), que vem por aí, talvez nos ajude a ocupar o lugar de um Villa Lobos ao ofertar às crianças, as cirandinhas e os trenzinhos caipiras, de um tempo mágico de felicidade, sem socos e pontapés, sem lugar para a insana guerra urbana, mas com uma orquestra de crianças, cantando e tocando, para abraçar o mundo!

(by Celso Sisto – 26/11/2011)


domingo, 20 de novembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - CONSCIÊNCIA MULTICOR

Todas as cores são lindas! Não me importa se eu sou branco! Me importa sim, que no meu país, tenhamos sérios problemas com injustiças e desigualdades sociais! E não basta prestar atenção nisso apenas no Dia Nacional da Consciência Negra. Um único dia dedicado a refletir sobre a inserção do negro na sociedade brasileira é muito pouco! O que é um dia perto de quase quatro séculos de exploração e tráfico negreiro? E perto de toda a dor, discriminação, preconceito que tudo isso acarretou?!

A melhor maneira de diminuir essas distorções históricas e sociais é não ficar de braços cruzados! Passo o ano inteiro contando histórias africanas para meus ouvintes! Mas, hoje, gostaria de oferecer a mim mesmo, num ato de rebeldia, e para alegrar meu coração, a história de Joel Rufino dos Santos, “O presente de Ossanha”. Na sempre necessária revisão da História oficial, o moleque-brinquedo desse conto me arranca lágrimas. O uso absurdo de um ser humano por outro é deplorável, ainda mais quando isso está horrivelmente justificado pela cor da pele! Ainda mais quando tamanho absurdo envolve crianças, em tudo iguais! A dignidade, a inversão dos papéis, a contestação do lugar de escravo, a maneira como prevalece o que é humano em cada um, fazem deste texto uma obra ímpar.

Mas há outras obras para serem lembradas, não só hoje, mas o ano inteiro. “O amigo do rei”, de Ruth Rocha também foi uma das primeiras a ganhar meu coração. A amizade do escravo Mathias e de ioiô, seu patrão, vai além de qualquer lei, e tudo se reveste de outro significado quando os meninos vão parar numa aldeia de negros fugidos da escravidão.

Pois então, que nessa galeria não faltem os belos exemplos de sucesso. Que os heróis negros sejam relembrados muitas vezes: é preciso falar de Zumbi sim! Explicar para as crianças que o Quilombo dos Palmares é um lugar emblemático, mas é também um legítimo lugar de reorganização e salvação da vida quase perdida. Que como na minha memória, ao som do korá, ecoe a voz dos griôs, como a de Galissa, que vindo da Guiné, encheu-me dos marulhos ancestrais e brindou-me com a emoção diamantizada nos olhos, na flor multicor da pele. Na fulgurante flor de luz, descoberta ainda que tardia de Negrinha, de Monteiro Lobato.

É preciso proclamar, aos quatro ventos, que em todas as áreas há a presença valorosa também do negro. Que homens bravos tomaram para si a tarefa de lutar por espaço para a cultura e para a população afro-descendente, no Brasil, como fez Abdias Nascimento. Na poesia, no teatro, no cinema, na vida política. Epa epa Babá!

É preciso contar a mitologia dos orixás, sem medo de que isso seja falar de religião. A hipocrisia perpetua a mitologia grega, celebra a romana, mas veta a mitologia africana nas escolas brasileiras. Pois hoje quero abrir os olhos e ver Oxumarê colorindo o céu; quero ouvir a voz de Xangô anunciando que vencemos mais essa batalha; quero molhar o rosto nas águas doces de Oxum, para comemorar a vida em harmonia com as forças da natureza.

Que a alegria de ter conquistado uma data no calendário cívico brasileiro não nos faça arrefecer: não basta ter só uma consciência negra; é preciso ter olhos pra ver que dançamos música negra, que comemos comida primeiramente inventada por mãos negras, que professamos uma fé que também é de origem negra... Somos senão inteiramente negros, parcialmente mestiços, ora!

Mas a cor do sangue de todo mundo é a mesma! Lá por dentro, nos rios que irrigam a vida, somos todos vermelhos! Pois que seja esse o rio a banhar nossa consciência, nosso coração, nossa dignidade de seres humanos: Que seja esse o mar que se abre, na presença de Moisés, ou na presença das personagens que povoam o imaginário africano, como a Duula de Rogério Andrade Barbosa ou apenas os exuberante peixes e os magníficos corais do nosso Mar Vermelho no Coração das Histórias.

Que nossa consciência, nossa erí-okán, seja como as montanhas de rubis, dos antigos viajantes da costa arábica; que tenha tantas faces como o diamante; que seja multicor, porque afinal, Machado de Assis, Aleijadinho, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Ruth de Souza, Cartola, Nei Lopes e tantos outros seres-preciosos são jóias para ornar a coroa da cabeça de qualquer brasileiro!

(by Celso Sisto – 20/11/2011)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

CARTOGRAFIA DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS


Basta um “era uma vez” para as pessoas se prepararem por inteiro: os olhos viram tela de cinema, querendo ver projetado tudo o que o outro vai dizer; o corpo esmorece como se pedisse lugar de conforto e entrega almofadada; os ouvidos se esticam para captarem também os infrassons e ultrassons, criando assim um parentesco sinfônico com golfinhos, elefantes, morcegos e cães.

Quem abre a boca para contar uma história pede ao outro licença para aspergir perfume no ar. Oferece, como no antigo Egito, ungüentos aromáticos aos faraós-ouvintes, que só podem suportar com essências refrescantes, o clima quente e árido do lugar.

Quem abre a boca para contar uma história, oferece uma bem dosada mistura de óleos essenciais, álcool e água – se óleos essenciais fossem a emoção, álcool, a trama e água, o texto. E quem espalha perfume no ar, deveria fazê-lo antes como se o fizesse aos primeiros senhores: aos faraós do império egípcio das histórias que atravessaram o tempo

Mas nessa cartografia da oralidade, o coração de quem conta é também (e sempre!) a fornalha do conto. A forja onde o texto incandescente é moldado pelo narrador para adquirir a forma desejada. Ainda que ao ferreiro caiba só apoiar na bigorna a barra de metal e bater forte com o martelo, para que o texto quente fique modelável e se transforme em arma de fazer sonhar, dialogar, voar, transcender. Arma aqui é antes brinquedo!

Mas quem conta histórias também pede toque invisível na pele das palavras, que como uma cartela de tecidos, apresenta as mais diversas texturas: da lã à seda; do linho ao algodão; do cetim à viscose. Tocar e sentir. Tocar e provar. Tocar e vestir-se.

Quem não se veste com as palavras de uma história, não chega a enrodilhar-se nela. Fica de fora! Assistindo ao desfile e gritando feito louco: “o rei não está nu!”. “O rei não está nu!”. Que pena, pois só um rei nu carrega o sagrado manto da história.

Mas, sem exercer também o papel de anunciador, o contador de histórias não é mensageiro de nada. É preciso ser um Tirésias, anunciando a Édipo-Rei a sua verdade atroz. É preciso ser um Melanipo para compreender a linguagem dos animais. É preciso ser um malak para carregar entre as asas a anunciação, e estar investido do poder de falar no lugar daquele que o enviou. E quem envia um contador de histórias e o investe assim dessa função passarinhesca é a própria história. Sem história bem ornada, não se edificam monumentos e o construtor de palácios, que é também o narrador oral, se move no deserto infindável, sem nenhum oásis e sempre morto de sede. Palavras que não comportam rios, não servem para as caravanas de histórias.

Mas, no mapa desse contador está ressaltada a legenda: um contador de histórias é antes de tudo um arauto da boa literatura. Aliás, é ela que nos pigmenta! Que nos fixa! Que nos avoluma! Que nos faz acidentes geográficos no mapa colorido das letras. Um texto sem urdidura, não ergue no ouvinte uma catedral!

Se D. Pedro I criou entre nós o cargo de arauto, os festivais e simpósios e seminários de contadores de histórias, anos depois, deveriam nos lembrar da missão pública que é comunicar tratados, fazer declarações de guerra e de paz, relatar o desenrolar das batalhas, trocar prisioneiros, ordenar saques, bem como anunciar as vitórias da beleza, da língua, da arte, da imaginação criadora. Se o livro dos arautos é obra anônima, que existe desde 1416, está na hora de fazer existir o LIVRO DOS ARAUTOS DA LITERATURA, não para servir de manual aos que acompanhavam os embaixadores aos Concílios, mas para lembrar que as crianças do passado e as crianças do futuro precisam das nossas melhores histórias.

(by Celso Sisto – 15/11/2011)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

UMA ENTREVISTA ESPECIAL!



Estive em Maceió, essa semana, na V BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DE ALAGOAS e no VII ENCONTRO ESTADUAL DO PROLER. Tive a sorte de ser entrevistado por um cara inteligente, profundo, que escreve de um modo muito especial. Quem dera tivéssemos mais jornalistas assim, desse quilate, trabalhando nos jornais pelo mundo!
Só posso agradecer a beleza do texto do Márcio Cavalcanti. Pra quem quiser ter certeza de que não estou exagerando, fica aqui o link da matéria:


E aproveita e dá uma "circulada" pelo portal MUNDO LEITURA, que é um trabalho de primeira...

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

SEMINÁRIO A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS 2011 - 57ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE


Aí vai a programação do SEMINÁRIO "A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS" na 57ª

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE. INSCRIÇÕES GRATUÍTAS, com Letícia, pelo

e-mail: leitura@camaradolivro.com.br



SEMINÁRIO

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS: O TERRITÓRIO MÁGICO DA BIBLIOTECA

IDEALIZAÇÃO E COORDENAÇÃO: CELSO SISTO

PROMOÇÃO: CRL

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Palestra de Abertura:

O que significa para o leitor ouvir histórias na biblioteca?

NANCI NÓBREGA (RJ)

(UFF e CÁTEDRA UNESCO DE LEITURA)

Narração de abertura:

Grupo Fio da Palavra (Djine Klein, Judith Riboni e Roselaine Funari)

Dia 03 de novembro

19h às 21h – Casa do Pensamento – Área Infantil da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

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04/11/2011 – Sexta-feira

Dia 04 – Oficinas – 9h30 às 12h30

Sala de Vídeo

LENICE GOMES (PE)

Casa do Pensamento

GIBA PEDROZA (SP)

Dia 04 – Mesa-redonda – 17h às 19h

Casa do Pensamento

Tema: A narração oral na biblioteca escolar

LENICE GOMES

GIBA PEDROZA

Mediador: KATIANE CRESCENTE (RS)

Narração de abertura: Bárbara Camargo

Dia 04 – Sessão de histórias – 19h30 às 20h30 –

Arena das Histórias

LENICE GOMES

gIBA PEDROzA

05/11/2011 - Sábado

Dia 05 – Oficinas - 9h30 às 12h30

Sala de Vídeo

BEATRIZ MYRRHA (MG)

Casa do Pensamento

EMMANUEL MARINHO (MS)

Dia 05 – Mesa-redonda – 17h às 19h

Casa do Pensamento

Tema: A narração oral na biblioteca comunitária

BEATRIZ MYRRHA

EMMANUEL MARINHO

Mediador: MARCIA CAVALCANTE- CIRANDAR (RS)

Narração de abertura: Adriane Azevedo (RS)

Dia 05 – Sessão de histórias – 19h30 às 20h30 –

Arena das Histórias

BEATRIZ MYRRHA

EMMANUEL MARINHO

06/11/2011 - Domingo

Dia 06 – Oficinas - 9h30 às 12h30

Sala de Vídeo

PAULA MARTÍN (BUENOS AIRES)

Casa do Pensamento

ZÉ BOCCA (SP)

Dia 06 – Mesa-redonda – 17h às 19h

Casa do Pensamento

Tema: A narração oral na biblioteca pública

PAULA MARTÍN

ZÉ BOCCA

Mediador: EUNICE PIGOZZO (RS)

Narração de abertura: Rosane Castro (RS)

Dia 06 – Sessão de histórias – 19h30 às 20h30 –

Arena das Histórias

PAULA MARTÍN

ZÉ BOCCA

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Coordenação, apresentação e mediação

Celso Sisto - escritor, ilustrador, contador de histórias

Sonia Zanchetta

Coordenadora da área Infantil da 57ª Feira do Livro de Porto Alegre

Coordenação do seminário

csisto@hotmail.com

CRL – Área Infantil

sonia@camaradolivro.com.br

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PELA DEMOCRATIZAÇÃO DA LEITURA E DA LITERATURA!

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sábado, 24 de setembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - QUERO SER ÁRVORE

Vontade louca de abraçar uma árvore! No calendário escolar nos lembravam que ela tinha um dia: 21 de setembro. E preferencialmente nesta data a professora virava jardineira, ecologista, educadora ambiental, e nos levava para por a mão na terra, ao som de Cecília Meireles: “Quem me compra um jardim com flores? borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?”. E íamos repetindo o poema, que virava mantra, na esperança de escrever com caligrafia perfumada assim a próxima redação! Como quem plantaria no papel a vocação para a escrita!

Era a ecologia antes da ecologia. Nem se adivinhava que essa seria uma bandeira dos novos tempos, uma preocupação universal. Parecia-nos natural a integração com a natureza, a convivência pacífica com a terra-mãe, o respeito orgânico do filho que quer ter colo e solo a vida inteira!

Também éramos muito novos para entendermos das obrigatoriedades que apregoavam nossos pais: na vida, todo mundo tem que plantar uma árvore! Eis aí uma visão de futuro! Um alerta para compensar a arrogância das gentes! Uma premonição de que a relação predatória com o espaço iria nos colocar na condição cada vez mais espantosa (e numerosa!) de bestas-feras! O que pode ser alguém que fere com ferro e fogo o ventre inviolável da existência na Terra?

Felizes os povos que crêem que os antepassados habitam as árvores. Felizes os índios das tribos do Oregon, que depositavam no tronco escavado de uma velha árvore, em posição fetal, seus anciãos mortos. Felizes os juízes tribais que se reúnem ao redor de um baobá para resolver as disputas locais.

Por isso quero ser Madagascar, com sua avenida de baobás! Quero ser a Maria Gorda de Paquetá, que veio de Manaus, para viver na Praia dos Tamoios. Quero ser a árvore da louvação a baobá, de Mossoró, que a seu pé, espalha flores e frutos, para afinar com tambores as origens.

Também quero ser árvore de fábula, das velhas fábulas. Pode ser um salgueiro, um pinheiro, um carvalho, um freixo, um cedro, um olmo, uma figueira, um pessegueiro, uma castanheira. Na voz de Esopo, La Fontaine ou Leonardo da Vinci. Abri-los, na estante, na biblioteca, em casa, na escola, é também plantar árvores de palavras, sementeiras da imaginação!

Também posso ser as sandálias mágicas de Hermes, feitas com folhas de tamareira e mirtilo. Ou o chorão das lendas dos mouros, ou a testemunha do amor do cacique Tupi e da bela Tapuia Jurema. Ou a cortina de ramas que escondeu a Virgem e o menino Jesus na fuga para o Egito.

Não me importaria em ser o emblemático Pau-Brasil, com seu extrato vermelho-forte a cobiçar os cortes de tecidos. Ou os galhos maiores, a sonhar com a música de violinos, harpas e violas.

Mas, o presente ideal, talvez fosse virar uma cerejeira do Japão, com as sakuras brotando pelo corpo-tronco, e testemunhando a permanência da princesa da árvore de flores abertas.

Mas, se depois da passagem da manada de homens, não houver senão a destruição, que ainda me permitam ser um escultura de Krajcberg, a denunciar para sempre as queimadas ilegais nas florestas.

E se o grito contra a barbárie não for suficiente, que eu possa também ser uma retorcida árvore do cerrado, estampando no ar seu jeito coreográfico de se defender do fogo!

Vontade louca de abraçar uma árvore. De caminhar pelas aléias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de borboletear meus olhos pelo Mangal das Garças, de Belém, de abrigar-me no palácio estufado de vidro e ferro, como um caraguatá a esconder mais que ninhos de jacarés, no Jardim Botânico de Curitiba.

Vontade louca de abraçar uma árvore. E perdoar, e não deixar cair a nódoa no pano, e cultivar pinhas de prata...

Vontade louca de ser abraçado por uma árvore, em todos os dias da minha vida! E nos seus braços, sussurrar poesia, num tempo que já não é o tempo, mas a voz de Camões: “se não te celebrar como mereces, cantando-te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória”.

Vontade louca de ser árvore...


domingo, 18 de setembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - A REVOLUÇÃO PELAS PALAVRAS

É preciso aprender a silenciar. Só no silêncio há peso suficiente para engordar as palavras. Ouvir o rumorejo que acorre de todos os lugares (cabeça, corpo, memória, fantasia, história, idade) para sedimentar um discurso coerente, para erigir e trançar com firmeza, as nossas posições no tabuleiro do jogo.

Vivemos um jogo, do início ao fim porque herdamos um lugar, uma cultura e tudo o que esteve antes por ali. E é ali, desde o tempo dos balbucios, que somos ensinados a pertencer. Quanto mais ficamos, mais adquirimos as marcas do lugar. Mais somos. Para a alegria. Para o orgulho. Para o reconhecimento dos traços que nos enlaçam: vocabulário, vestimenta, culinária, calendário, vultos, música, dança, folguedos, hábitos, festas, mitos, lendas, poesia.

Pertencer exige pactuação. Para além da geografia. E a irmandade pode se dar em muitos outros níveis. Enquanto se comemora a República Farroupilha, fico pensando...

Para mim a maior revolução foi a leitura. Tornar-me independente para ler tudo e na hora que eu quisesse, era proclamar a república, em favor das letras. Era nesse espaço-tempo que eu queria morar. Não depender do governo imperial da mãe, do pai, dos adultos para brindarem-me com histórias era tudo o que eu almejava. Poder enlaçar o livro, abri-lo, domá-lo, subjugá-lo docilmente, e poder dizer no fim, isso é meu! Agora ninguém me toma! Claro, depois de lido, o livro é de quem o leu, e não dá mais para arrancá-lo, assim como não se pode desdizer uma palavra que foi dita. A boca não consegue engolir uma palavra que já foi pronunciada!

Os discursos estão aí para dar testemunho, para justificar, para convencer. E Bento Gonçalves, defendendo destinos, diz: “O que fizemos não foi uma rebelião e sim estamos fazendo uma resistência legítima”.

Por trás de tudo, está a construção da Nação. Por isso, quero celebrar a Nação Literária, a Nação das Palavras. Uma Nação que também é criada através da língua e da leitura. A consciência dessa história que se forja ao lado, na margem, numa via paralela, secundária, a gente só adquire depois de muitos livros lidos, bebidos, mastigados, cuspidos. Falar dos livros é treino para o discurso próprio, que quanto mais se independentiza, mais sedutor fica. É a tal da peculiaridade avançando junto a nós, para provar que o indivíduo também é o seu texto único. Como Bento, que defendia o “Direito das Gentes ou princípios da Lei Natural aplicados à condução e aos negócios das nações e dos soberanos”. Ler é treino para a soberania!

E a leitura é direito das gentes! A Escola me presenteou isso. Ou me apontou caminhos. Num primeiro momento, lembro-me do diário de Henrique, que no exercício de tornar-se homem, foi tornando-se também um verdadeiro patriota, com sensibilidade e honra, na Itália unificada, em “Coração”, de Edmond de Amicis.

Mas a minha ferocidade, estimulada, aguçada, foi desenjaulada com “A revolução dos bichos”, com “Memórias do Cárcere”, com “A casa Verde”. Orwell, Graciliano Ramos, Vargas Llosa, me atiraram de encontro a esse ser político que eu precisava me tornar.

Minha grande experimentação ideológica foi sim nos livros! Sobretudo nos textos de teatro: Brecht, Maxim Gorki, Tcheckov, me conduziram pela mão ao território sagrado do ser social, combatente, atuante, mesmo pela visagem dos contrários. Confeitado ainda pela poesia de Maiakovski!

E a literatura, correndo pelas veredas secretas da leitura, operou em mim a verdadeira revolução. Farroupilha sim, no que tange ao direito de ter voz própria! No que me faz cidadão!

No fim, o que fica gritando é ainda a urgência da construção do Leitor Nacional Brasileiro! Início, meio e fim para cada um celebrar sua identidade! Somatória e não-excludente!

Viva a Revolução das palavras!

(by Celso Sisto – 17/09/2011)