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domingo, 31 de julho de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - VIDAS PERDIDAS

Experimentar a partida sem volta é doloroso! Ainda hoje! E talvez sempre! Primeiro o pintinho amarelo ganho em uma promoção de supermercado. Depois o passarinho inchado de pios, vazio de ninho, alimentado com pão molhado no leite. Mais tarde a pombinha conquistada em força de armadilha, privada de asas, tratada com quirera e feita aprendiz da ingratidão pura: num descuido do tempo, as penas crescidas no silêncio levavam-na de volta ao céu (merecidamente!). E eu, terra dolente cercado de lágrimas por todos os lados, não aprenderia nunca o “desavoar”. Ficaria faltando sempre abraçar-me ao outro, que voar sozinho era queda-livre na certa!

Aprender a padecer da falta de substituição e dos vazios irremovíveis não aprendíamos! Ensinavam-nos que as coisas cresciam, ou renasciam, ou simplesmente feneciam: o lápis de cor acabava e esperava-se muito para ganhar uma nova caixa; os cabelos e unhas cortados frequentemente ressurgiam devagar; a rosa aberta que se exibia em perfume e cor tombava um pouquinho por dia. Crescíamos e as roupas só cresciam conosco em datas especiais: aniversário, dia das crianças, Natal. Mas o objeto encolhido ganhava outro dono. E a caridade biológica mirava o irmão mais novo ou o primo menor.

Ensinavam-nos a dar. Não a perder. A não querer só quando não servia mais. E pronto! Ninguém dizia que era preciso se preparar para as ausências eternas. Morria primeiro um vizinho, e o assunto vinha à tona. Eram legiões de anjos saindo das bocas, para agüentarem o peso de quem teriam que levar para o Céu. Apontavam estrelas para fazerem-nos acreditar que nela morava agora aquele que nos deixou. Mostravam-nos nuvens performáticas para ameaçarem-nos com um olhar que vê tudo: “Olha, teu avô está lá no alto, vendo tudo o que tu fazes, te protegendo...”

Era assim. E até era bom!

Mas nada disso evitava o dolorido que não tinha local certo no corpo. Que doía em tudo e ao mesmo tempo sem poder ser apontado na visita do médico. Um amigo era levado pela meningite. Um parente de um conhecido tinha sido embrulhado num acidente de carro. As águas do mar tinham enrolado e sumido com o sobrinho de uma amiga da mãe. A tia velhinha do pai dormiu, suspirou e desapareceu. De longe ou de perto, todo mundo era um pouquinho a louça rachada com a dor.

Hoje o findar perdeu voltagem e choque. Tudo ganhou velocidade de turbina de avião. Tudo se joga fora. Inclusive as pessoas, os sentimentos, as idades que viriam. E o menino desse século 21 quer e não precisa esperar. Se joga no chão e consegue o que quer. Não quer mais e logo compra o que não precisa. Vê o do outro e adquire igual. Fala mais alto e os pais se curvam. Agride e não é punido. Maltrata e não é castigado. Estraga e não fica sem. Erra e nem se abala. Não pede desculpas. Não agradece. Não diz “por favor”.

Para completar, as perdas são bombásticas e aumentadas em imagem e cor. A televisão empurrando a vida distorcida goela abaixo, prolongando a morte dos que ela decide que são notícias, até a exasperação. E as crianças querendo só vida de modelo, atriz, jogador de futebol. Da noite para o dia.

Os fortes escolhem viver intensamente para experimentarem tudo em frações de segundos? Nós, os loucos (e não somos poucos!) não escolhemos nada?!

Escolhemos o gotejar do tempo, que conjuga outros tempos, para exibirmos às nossas crianças os álbuns de família. E para contarmos outras histórias, mesmo que de finais felizes, que ainda não ficou proibido ser feliz para sempre!

(by Celso Sisto – 31/07/2011)



sábado, 23 de julho de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - O MELHOR AMIGO

Era obrigatório! Todo mundo tinha que ter um melhor amigo! E de preferência, enchia-se a boca para falar: “Ele é meu melhor amigo!”. Com isso já se sabia: freqüentar a casa um do outro; usar as coisas um do outro; dividir o lanche um com o outro; sentar ao lado um do outro; emprestar livros um para o outro; ajudar a fazer os trabalhos, um ao outro; fazer as famílias ficarem amigas uma da outra.

Era assim que ia nascendo e emaranhando-se o afeto espontâneo, fora de casa, não obrigatório, extra-laço-de-sangue. Um gostar que não vinha imposto pelos fluxos e refluxos da genética. Talvez um amor botânico.

Tal qual o primeiro feijão que a gente plantava no algodão, o amigo ia sendo regado e observado dia a dia. “Agora o feijão se abriu”, dizia o pequeno cientista, enquanto o pequeno ator social também dizia “hoje fiquei pra trás e ele me ajudou a copiar todo o dever de casa!”. Mais uns dias, e o pequeno botânico exclamava: “agora o caule está crescendo”, enquanto o mini sujeito (como um pequeno Darwin) constatava: “no meu time só tem o melhor, eu e meu amigo!”. E pra completar de vez a pesquisa, o aprendiz de Skinner percebia: eu molho o algodão e a folha levanta; enquanto o pré-cidadão (talvez um quase Freud) quisesse apenas dizer: “eu dou e recebo afeto do meu amigo!”.

Mas a prova cabal vinha mesmo no dia do aniversário: comprar para o melhor amigo aquilo que você ainda não tinha e queria muito ganhar! Aí sim, o sinal da eternidade estava dado. Era o arremate final, com agulha de prata, para bordar no bastidor do tempo o lenço de seda da amizade.

Mas eternidade de criança pode durar pouco! Muito pouco! E a seda, leve, pode puir-se da noite para o dia. Às vezes até sem sinal de esgarçamento! O que é o mesmo que dizer, sem remorsos!

E como doía quando o amigo mudava de amigo! Toda a confiança depositada. Todos os segredos confessados. Todo o tempo gasto. Todos os brinquedos estragados sem grito de reclamação, amenizados por uma raiva represada na usina do “amigos para sempre”.

Bastava um aluno novo na sala, que precisasse de ajuda; um colega novo na rua, que ainda não conhecesse ninguém; o dono da bola de couro que chutava mal e não tivesse com quem jogar; o vizinho solitário que sempre oferecesse carona, e pronto, um amigo podia ser trocado por outro!

Sempre foi assim! Um eterno recomeçar até que os anos fossem etiquetando as pessoas de outro jeito, com tatuagem quase definitiva, difícil de remover (não fosse a possibilidade do raio laser!).

Hoje muitos, especialmente os filhos-únicos continuarão aprendendo a brincar sozinhos, a não dividirem nada, a acreditarem que só se pode ter dois braços, a morrerem (de frustração, é claro) cada vez que não conseguem ser o primeiro. Hoje, o melhor amigo pode ser apenas virtual, como se virtual pudesse ser sempre a nossa urgência do Outro.

E como se faz com a necessidade de abraço? De ombro-travesseiro? De olhar cúmplice que nenhum espelho pode dar? De palavras inesperadas ditas ao pé do ouvido, saídas diretamente do aparelho fonador (sem mediação auto-falante) e exclusivamente endereçadas a si?

Tristes tempos em que as correntes eletrônicas conduzem multidões através das rotas superiluminadas e faiscantes de amigos feitos de ar, de vozes mecânicas, de linhas quilométricas “eme-esse-enizadas” que nenhuma agulha mágica pode costurar!

Triste mesmo é saber que no século XXI o melhor amigo do meu amigo é o seu próprio umbigo!

(by Celso Sisto – 23/07/2011)

quinta-feira, 21 de julho de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - FIM DE SEMANA INTERGALÁCTICO

ANTES, em mil-e-novecentos-vovó-mocinha um fim de semana não era uma viagem intergaláctica (poderia dizer interopressiva! Ou quem sabe, interguerreira?) na vida dos pais. Para que reinasse, no sacro-santo lar, aquela atmosfera monástica do silêncio e da clausura, que convidava ao cochilo depois do almoço, eles permitiam que as crianças brincassem na rua.

Para ser rua, bastava ser do lado de fora. Iupi!!! Lugar do grito sufocado. Da roupa-velha-furada de brincar. Dos risos cusparentos. Das palavras mais proibidas, sonoras e difíceis de dizer dentro de casa e na presença de um adulto, sem correr o risco da ameaça-pimenta-malagueta. Cocô podia! Merda não! Além do tapa, podia vir a dupla dor-e-castigo, que quase sempre conduzia ao “já para o quarto!”. Terminando de vez com qualquer possibilidade de brincar nas ruas de Galácia, a antiga província romana.

Mas agora, rua não há mais! Não como o espaço mágico da brinquedolândia dos pequenos heróis. A não ser como o campo minado dos medos superurbanos (ai, os tempos dos vilarejos!): são os carros que voam sem asas e com liquidificantes turbinas; são as minas terrestres da guerra dos mocinhos e bandidos (quem é quem, não se sabe bem!) que deixaram catacegas as balas joão-e-maria, perdidas na floresta de vidro e aço; são as pedras que Drummond viu no meio do caminho, mas agora com o poder de fazerem “crack!” e estilhaçarem em mil pedaços o pote-de-sossego-em-calda de qualquer família.

Os pais modernos tiveram que inventar programas e cardápios para compensarem a falência da rua e a ausência semanal. E quanto maior a culpa, maior a programação: do parque de diversões (no shopping, é claro!) para a lanchonete; da lanchonete para o cinema em 3D; do cinema para a sorveteria; da sorveteria para o aniversário de algum amigo; (se bobear, todo fim-de-semana um amigo da escola faz aniversário); do aniversário para casa, de preferência carregando dois ou três amiguinhos para acamparem na sala.

E quando parece que à noite, no acampamento dos tapetes e almofadas com estrelas e luas de efeitos fitoterápicos, eles vão dormir como anjos, eles querem é comer! Coisas simples, claro: hambúrguer, pipoca, brigadeiro, sorvete de flocos, miojo, mini pastel assado de presunto e queijo, mini esfiha de carne, mini empada de frango, mini paciência para ficar pra lá e prá cá servindo os pestinhas, até que se cansem de exercitarem as mandíbulas. Quer dizer, ainda tem toda uma cantilena de avisos até que fechem de vez a boca pra dormir!

Pronto! Enfim, o sono reparador. Missão cumprida, não? Que nada! Ainda tem o domingo! A sorte é que um dia pode ser do pai e o outro, da mãe. Casais modernos, uai!!

(by Celso Sisto – 21/07/2011)

sábado, 9 de julho de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - FRIO DE MATAR!

(Escultura "Crianças brincando" de Maria Luísa Vieira - Taubaté)

QUEM FOI que disse que criança sente frio? Pais e mães sedentários é que ficam em pânico diante dos estragos que a temperatura pode causar à saúde de suas crianças-saúvas!

Não vêem eles que os pequenos são um barracão de pólvora? Um rastilho de desenho animado, chiando e enfumaçando o caminho, até finalmente explodirem? Várias explosões por dia! Cada uma culminando com um momento de pequeno sossego: hora do almoço, hora do lanche, hora do banho, hora do jantar, hora de dormir.

Mas, não se iludam: cada hiato desses é apenas uma diminuição na rotação do motor infante! Que logo, logo voltará a disparar com a notável força atômica de um pequeno ser em crescimento.

Por mais que as mães cuidadosas encham seus pimpolhos de roupa, não há frio que faça um pequeno-espoleta ficar quieto, comportado e em posição de estátua. E quando isso acontece é puro disfarce, para se livrarem delas o mais rápido possível. Elas se vão - depois de deixá-los na escola, na creche, na casa da avó, no playground - certas de que seus anjos estão protegidos do frio, da chuva, da gripe e da febre.

E como a febre é que espanta o frio, eles testam o corpo-termômetro correndo. Primeiro, corridinhas curtas, entrecortadas de pequenas alegrias; depois acrescentam saltos, tropeços, quedas. São as quedas, as mais cinematográficas, que ajudam a manter a fogueira que toda criança tem dentro.

Por isso, mal os adultos viram ausência, elas vão jogando no fogo, gorros, luvas, cachecóis, casacos, coletes, abrigos. Só vão precisar de tudo isso de novo, quando for hora de atravessar comportadamente a porta, agarrar a mão-da-mãe (ou da avó, ou da empregada, ou do irmão mais velho...) e voltar pra casa. Mas aí, tudo em volta já ardeu no fogo da infância!

Que frio que nada!

(by Celso Sisto – 09/07/2011)