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sábado, 23 de julho de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - O MELHOR AMIGO

Era obrigatório! Todo mundo tinha que ter um melhor amigo! E de preferência, enchia-se a boca para falar: “Ele é meu melhor amigo!”. Com isso já se sabia: freqüentar a casa um do outro; usar as coisas um do outro; dividir o lanche um com o outro; sentar ao lado um do outro; emprestar livros um para o outro; ajudar a fazer os trabalhos, um ao outro; fazer as famílias ficarem amigas uma da outra.

Era assim que ia nascendo e emaranhando-se o afeto espontâneo, fora de casa, não obrigatório, extra-laço-de-sangue. Um gostar que não vinha imposto pelos fluxos e refluxos da genética. Talvez um amor botânico.

Tal qual o primeiro feijão que a gente plantava no algodão, o amigo ia sendo regado e observado dia a dia. “Agora o feijão se abriu”, dizia o pequeno cientista, enquanto o pequeno ator social também dizia “hoje fiquei pra trás e ele me ajudou a copiar todo o dever de casa!”. Mais uns dias, e o pequeno botânico exclamava: “agora o caule está crescendo”, enquanto o mini sujeito (como um pequeno Darwin) constatava: “no meu time só tem o melhor, eu e meu amigo!”. E pra completar de vez a pesquisa, o aprendiz de Skinner percebia: eu molho o algodão e a folha levanta; enquanto o pré-cidadão (talvez um quase Freud) quisesse apenas dizer: “eu dou e recebo afeto do meu amigo!”.

Mas a prova cabal vinha mesmo no dia do aniversário: comprar para o melhor amigo aquilo que você ainda não tinha e queria muito ganhar! Aí sim, o sinal da eternidade estava dado. Era o arremate final, com agulha de prata, para bordar no bastidor do tempo o lenço de seda da amizade.

Mas eternidade de criança pode durar pouco! Muito pouco! E a seda, leve, pode puir-se da noite para o dia. Às vezes até sem sinal de esgarçamento! O que é o mesmo que dizer, sem remorsos!

E como doía quando o amigo mudava de amigo! Toda a confiança depositada. Todos os segredos confessados. Todo o tempo gasto. Todos os brinquedos estragados sem grito de reclamação, amenizados por uma raiva represada na usina do “amigos para sempre”.

Bastava um aluno novo na sala, que precisasse de ajuda; um colega novo na rua, que ainda não conhecesse ninguém; o dono da bola de couro que chutava mal e não tivesse com quem jogar; o vizinho solitário que sempre oferecesse carona, e pronto, um amigo podia ser trocado por outro!

Sempre foi assim! Um eterno recomeçar até que os anos fossem etiquetando as pessoas de outro jeito, com tatuagem quase definitiva, difícil de remover (não fosse a possibilidade do raio laser!).

Hoje muitos, especialmente os filhos-únicos continuarão aprendendo a brincar sozinhos, a não dividirem nada, a acreditarem que só se pode ter dois braços, a morrerem (de frustração, é claro) cada vez que não conseguem ser o primeiro. Hoje, o melhor amigo pode ser apenas virtual, como se virtual pudesse ser sempre a nossa urgência do Outro.

E como se faz com a necessidade de abraço? De ombro-travesseiro? De olhar cúmplice que nenhum espelho pode dar? De palavras inesperadas ditas ao pé do ouvido, saídas diretamente do aparelho fonador (sem mediação auto-falante) e exclusivamente endereçadas a si?

Tristes tempos em que as correntes eletrônicas conduzem multidões através das rotas superiluminadas e faiscantes de amigos feitos de ar, de vozes mecânicas, de linhas quilométricas “eme-esse-enizadas” que nenhuma agulha mágica pode costurar!

Triste mesmo é saber que no século XXI o melhor amigo do meu amigo é o seu próprio umbigo!

(by Celso Sisto – 23/07/2011)

6 comentários:

Ana Miranda disse...

É verdade,Celso.Tenho alguns amigos desde a infância e até hj nos vemos e nos amamos. Hoje é tão raro a garotada ter um melhor amigo. Bjks.meu lino.

celso sisto disse...

Obrigado pelo comentário, Ana. Como é bom ter amigos! Bjs.

Fabienne Bruce disse...

Olá Celso,

Gostei do texto, palavras bonitas que retratam um momento, no mínimo, estranho que vivemos. Talvez a infância nos diga o que nos espera lá na frente. Mas prefiro, às vezes, ser menos determinista e achar que os espaços coletivos livres irão retornar com mais força para os pequenos, talvez de maneira (re)inventada, onde eles terão novamente a chance de poder refletir sobre os próprios atos para mudar. Espero ainda ver os pais desses pequenos com uma nova consciência. A escola com um novo papel, não apenas de informar, mas de reorganizar através dos conflitos. Enfim...espero fazer parte dessa mudança. Obrigada pelo texto.

Fabiana Esteves disse...

Minha melhor amiga mudou-se para a Suécia e precisamos do computador para encurtarmos as distâncias. ela não tem nada de amiga virtual, pelo contrário. Mas hoje em dia, vejo que cada um tem milhões de amigos nos sites de relacionamento, mas quando querem chorar as mágoas não conseguem lembrar um número de telefone de cor para ligar. até porque ninguém mais se lembra do número dos amigos mais chegados, deixou esta tarefa para o celular...

celso sisto disse...

Oi, Fabienne!Obrigado por seu comentário e sua reflexão sobre o papel da escola... também tenho esperanças! Abraço

celso sisto disse...

Oi, Fabiana, tão bom ter um amigo de carne-e-osso, e perto! A tecnologia ajuda em muitas coisas, a internet tem muitos pontos benéficos... Mas nada substitui o encontro de verdade! Abraço.