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sábado, 27 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - O ESCRITOR E SUA JORNADA, A PASSOS LARGOS, EM PASSO FUNDO


A professora mandava ler sempre. O livro do bimestre. “O menino de asas” marcou, lá na 6ª série. Lá nos escondidos dos 70. Pousou no meu coração. No meu ombro. Depois, levou-me, em alvoroço, a visitar o autor em seu ninho. O primeiro autógrafo estampado na caligrafia: Homero Homem. Pássaro-gente!

Ninguém esquece um primeiro autógrafo. Livro que se guarda até o fim. Esperando que depois possa servir para alguém igual a mim: colecionador de histórias. Mas, vai saber?! O livro foi crescendo lá dentro, cercado de memórias e vísceras. Ganhando outras páginas. Refazendo o mundo infinitas vezes. Desenhando álbuns de personagens. Me empurrando para o desejo de viver nas folhas. Desfolhar-me. Cair em solo fecundo. Sobreviver à queda e ao cânone!

O desejo de voar, esse é que não me largava! Um voar carregado de narrativas. Um voar atapetado da palavra-milharal, que alimentava e fazia voltar várias vezes ao mesmo campo-de-livros. O reino da fantasia que se alongava em pomar e respostas. Tudo porque uma professora me fez ir do livro ao criador.

Do menino alado, fui conduzido a Ícaro. Foi ele de fato meu primeiro herói. Sua história, minha primeira história de jovem dono do mundo. Bastava fechar os olhos, no quarto escuro e vê-lo, como se eu fora o velho Bruegel, pintando o vale da queda. Refazendo as delícias. As gregas túnicas. Os gregos banquetes. As reluzentes armas. A plena geografia. O itinerário da fuga.

A mitologia foi também a minha primeira ilha. O primeiro refúgio. O primeiro exílio. A primeira orgia estética. Queria asas, feitas com cera de abelha e penas de gaivotas, mesmo que derretessem. O calor, a aproximação, nada fora feito para durar. Eu sabia que existia um lugar de ser feliz, dentro dos livros. E nele eu poderia encerrar-me. Mas para fazer o calor durar, era preciso ler um livro, depois outro, depois outro e mais outro!

De menino com asas e semi-deuses, vieram os porcos, os morangos mofados, os transgressores. E tantos outros.

Primeiro fui leitor. Depois, preso na torre dos livros erguida com o tempo, debruçou-se em mim, o escritor. Mas ainda agora, sempre que escrevo, clamo por Ícaro. Para voar com ele até um determinado ponto, perder as asas, e despencar do alto, para morrer mil vezes. Porque só se deixa o labirinto e se ganha o céu levando pelas mãos o Minotauro.

Pois Creta pode ser Passo Fundo, a Jornada Literária, e o Labirinto, as lonas onde se encontram as crianças e os jovens. Quem ali entrar sem levar o fio de Ariadne, estará fadado a morrer antes do rodízio. Cinco mil vozes urrando perguntas. Cinco mil corações diariamente bombeando para o autor, o sangue que irá percorrer aurículas e ventrículos até libertar a voz semi-deusa, que eles querem ouvir, a poesia dita de cabeça, a história contada com emoção e graça, a música curiosa cantada com voz aminiótica. Tudo é vital, antes que o abrir e fechar das veias nos conduza para as outras células: da vermelha para a prata, da prata para a amarela, da amarela para a verde, da verde para a azul, da azul para o Olimpo. Uma palavra errada e o acesso ao coração deles pode se fechar para sempre!

E não é o Olimpo dos livros o lugar em que o escritor quer chegar?

Pois lá estive, apenas para contar, para documentar. Um dia me verão exterminador de feras, desenrolador de fios. Por enquanto fui apenas testemunha de como é preciso falar a linguagem das crianças ou dos jovens, para não ser engolido por eles. Como é preciso ter um novelo no bolso da camisa, para não enforcar-se em biografismos e palavras que caem no vazio.

Vi muitos empedernidos, abrindo as pomposas asas, alçando solitários vôos, distanciando-se do que parecia o cárcere, voando sempre em frente, sem lembrarem-se de que a proximidade com o sol derrete a cera. Testemunhei, pesaroso, a lei de que a má criatura destrói a boa criação. E que há livros que se finam depois que se conhece o seu autor.

Restará a lamentação de Ícaro, como um quadro de Draper, apenas para guardar na parede, quer dizer, na prateleira da estante! Até que venha uma nova jornada: a de acrescentar-se ao livro-vivo com humildade. Por isso é que Homero-Homem, meu primeiro autor-gente-livro não morreu nunca!

(by Celso Sisto – 27/08/2011)

domingo, 21 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - CHEIRO DE PAPEL E TINTA


Na época das bolhas de sabão, feitas com canudinho de mamona, os livros infantis eram caros, muito caros. Além de umas poucas livrarias tradicionais e centrais, eram quase sempre as grandes papelarias que vendiam livros. E nesses casos, para prover as encomendas das Escolas. Por isso imperavam os livros de bolso da Ediouro! Sim, aqueles que sempre soltavam as folhas e que exigiam um cuidado clínico, uma dieta de amor extremo e de carinho constante(um pouco difícil para meninos estabanados!).

Havia quem encapava os livros, com plástico ou papel, não importava. Isso já anunciava o dono: freqüentador dos labirintos das letras ou atleta do descuido. Sobrecapa para fazer durar mais ou para evitar que o leitor amarfanhasse e cirurgiasse o livro numa única leitura! Leitura mutiladora ninguém queria, ora! Muito menos a professora na escola!

Mas havia quem emprestasse os livros. E com livros emprestados, a vigilância deveria ser redobrada, com sentinelas em ronda permanente. Mãe, pai, avô, sempre a ladrarem: “cuidado com o livro da tua tia”, “não vai me esquartejar o livro da tua madrinha”! “Por isso e que tua tia não gosta de emprestar os livros, tá vendo”?

Pois é! Sempre havia a biblioteca de uma tia ou de uma madrinha, que mais endinheirada, tinha estantes de mogno e fileiras inteiras de livros encadernados com capa dura e título gravado a ouro! Às vezes, para a pura exclamação das bocas arredondadas: “Nossa, quanto livro”! “Você já leu tudo isso”? E o perguntador, que arregalava os olhos com ar indisfarçável, passava a mirar a dona da biblioteca-a-metro com segredo de vilão e ouvidos atentos às instruções dos anjos tortos, esses que estão sempre soprando no ouvido infante, mil idéias de como usar os livros de forma... menos convencional, é claro! E sem permissão, é claro! Se não perde a graça, é claro!

Pra mim, chique mesmo era ter a coleção da Biblioteca Infantil Quaresma, com o livro de Contos da Carochinha, do Figueiredo Pimentel. Ficava namorando o livro na estante da casa da tia Péia, que não me emprestava, porque dizia que eu não tinha idade suficiente, nem para ler, nem para dar ao livro o tratamento merecido! Acho que sempre que penso em bruxa, penso em bruxa com cara de tia! Dessa tia! Vingança tardia!

Se eu não podia ler a Carochinha, me contentava, em parte, com as enciclopédias e as coleções, que eram vendidas de porta em porta. Essas iam inundando a minha casa, com a permissão monetária do chefe da família.

Meu pai, que gostava de estudar História Universal, adorava a platéia dos três filhos curiosos (às vezes meio sonolentos...). Contava as histórias da 2ª Guerra Mundial e ficava esperando nossas perguntas, levantando o queixo, como quem dizia, “e então?”. A gente se olhava, ria e aumentava sua agonia de professor sem diploma. Mas adorávamos. Ele já tinha olhos-holofotes, jogando luz adiante, anunciando a preocupação com uma educação para a paz. Mas não era só isso: ele sabia que toda a história da humanidade era uma história de disputa, de conquista, de escravização. Subjugantes e subjugados! E mostrava fotografias, e apontava os livros enormes: Grande Crônica da Segunda Guerra Mundial e seus três sanduíchicos volumes! Mandava a gente abrir as portinholas escondidas atrás dos olhos, para guardarmos para sempre as configurações do horror e da crueldade. Essa era o seu alimento, o banquete que ele nos oferecia!

A verdade é que subjugados e subjugantes eram palavras que não saiam da minha cabeça. Eu ficava remoendo os subtítulos: “De Munique a Pearl Harbor”; “De Pearl Harbor a Stalingrado”; “De Stalingrado a Hiroxima”. E fui trocando, ao longo do tempo, as partidas e as chegadas: De Andersen a Lewis Carroll; De Lewis Carroll a Lygia Bojunga; De Lygia Bojunga a Mia Couto. Transformar fatos de guerra em fatos literários me apaziguou a vida.

De repente, minha imaginação salta de susto, como se me dissessem “mãos ao alto”! Me dou conta de que não há mais vendedores de livros porta a porta. Aliás, se bobear nem há portas! Há grades e câmeras vigiando tudo! Enquanto isso, as feiras de livros de hoje estão abarrotadas de livros ruins e parca literatura. Tenho horror das maletinhas da bobalização dos clássicos universais, que contam toda e qualquer obra infantil em 10 frases, que não servem para encantar nem leitor iniciante!

E de repente, me espanto: livros de computador, que as crianças lêem hoje, não tem cheiro! Já viu isso? Não revelam a textura, não exalam o perfume da tinta fresca, não exibem a pele do papel, e roubam a carícia de quem pelo tato, também estampava seu amor nos livros!

Livro exige mãos! Para segurar, para confessar, para plantar. Mãos ao alto, mas para lançar o livro para o outro!

(by Celso Sisto – 21/08/2011)

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

2º SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS


SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE CONTADORES DE HISTÓRIAS
14ª JORNADA NACIONAL DE LITERATURA DE PASSO FUNDO.

Desta vez, o espaço de pesquisa e discussão está preocupado com três espaços diferentes de atuação: o contador de histórias no âmbito da sala de aula, na biblioteca pública e na comunidade, através de projetos sociais.

Por trás de cada um destes enfoques, a pergunta básica: os diferentes espaços de atuação dos contadores de histórias exigem repertório, abordagens, metodologias de trabalho e de atuação diferentes?

Período: 23 a 26 de agosto de 2011

Horário: das 8h30min às 10h - MESAS-REDONDAS
das 10h às 11h30min - OFICINAS (exceto no dia 26)
das 8h30min às 11h30min - SESSÃO DE HISTÓRIAS E DEBATE (só no dia 26)

Local: Auditório da Feac (prédio B6) – Campus I – UPF

Coordenação: Celso Sisto
Terça -23/08/2011
Quarta- 24/08/2011
Quinta- 25/08/2011
Sexta- 26/08/2011

DIA 23

Abertura
O contador de histórias na sala de aula
Niré Collazo (Uruguai)
Jonas Ribeiro

DIA 24
O contador de histórias na biblioteca

Cristina Taquelin (Portugal)
Augusto Pessôa

DIA 25

O contador de histórias na comunidade

Elvira Novell (Espanha)
Tino Freitas
Mostra - Sessão de histórias

Celso Sisto (idealização e coordenação geral)
Cristina Taquelin
Elvira Novell
Tino Freitas
Augusto Pessôa
Jonas Ribeiro
Niré Collazo

sábado, 13 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - NÃO BASTA SER PAI

Sou do tempo da propaganda do Gelol. Daquela mesma, que dizia: não basta ser pai, tem que participar! Achava tão bonito o slogan! Ficava sempre querendo um pai daqueles! E o meu era. Um pouco brabo, mas era. E todas as vezes que eu me rebelava, no fundo, no fundo estava solicitando um pai-humano e herói, ao mesmo tempo! É que ter que crescer era no mínimo doloroso! Eu sabia!

A distância entre pai e filho não era mais sufocada pelas convenções e pela tradição amarelada. A criança não tinha mais que ser um adulto em miniatura, mas ainda se usava “senhor” para tratar o chefe da família. E ele tinha o direito de bater, colocar de castigo, premiar os acertos e punir os erros.

Não era ainda a época do predomínio do diálogo. Era a da ordem! E pronto! Por isso talvez eu tenha pavor de gente autoritária! Por isso eu mesmo construí campos de treinamento, regimentos de vanguarda, que ao menor sinal de mando-sem-discussão, me empurravam, destemido, em todas as direções, para usar o escudo da fala e abusar da arma da palavra. Era a única que eu sabia manejar como ninguém! Não eram sentenças vazias ou lanças esquálidas como muitas vezes são os argumentos infantis; eram minas vocabulares, que provocavam combustão, explosão e destroços. Eu sabia tocar no ponto exato onde a palavra-boxeadora desordenava os ossos! E o resultado era que eu tinha que pagar pela ousadia! Nocaute à base de cinto, às vezes, na privação daquilo que eu mais queria: ser amado! Era esse o grito, sempre sufocado!Sempre incompreendido! Grito de guerra!

Sou bélico! Sempre fui! Mas não sou blindado! Lancei-me ao confronto sem cota de malha. Meu pai me permitia chorar, gostar de poesia, ler tudo o que queria e ainda fazer teatro! Desde que nada disso fosse a sério!Urgente mesmo era se preparar para a vida. E eu estava pronto, quando assisti sozinho à sua despedida. Filho até o último suspiro.

Não repeti suas façanhas. Não sou pai de crianças. Sou, talvez, mais: pai de bichos, pai de livros, pai de idéias, pai de alunos, pai em uma outra dimensão, que não se pode compreender a olho nu, com sentimentos mundanos e comerciais, ou com os apelos do calendário do shopping local.

De mim não nasceram meninos e meninas. Mas podem ter surgido leitores e leitoras, admiradores da arte, estudiosos da escrita, semeadores da palavra, apaixonados pelos papéis de diferentes gramaturas, que comportam tantas vidas (e ainda coloridas e ilustradas)! Aprendizes da natureza das gentes, que desde pequenas são livres para construir a sua própria história. Sim, fui (e sou) esse pai que não está no sangue, mas está nas veias, correndo junto com a imaginação que as histórias sabem avolumar, com a respiração que serve para inflar balões no útero do céu. Sim, a palavra encantada venceu a corrida da vida. Deu-me substância, que agora fecunda outras biografias.

Tenho ou não tenho muitos descendentes? Não preciso de teste de DNA, nem da ameaça de um conselho tutelar. Nem da reivindicação dos direitos humanos. Preciso mesmo é da mão que embala filhos de papel. Essa paternidade ainda me basta!

(by Celso Sisto – 13/08/2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - ALGODÃO-DOCE

Algodão-doce

by Celso Sisto

Dia desses vi essas nuvens coloridas de açúcar! E rapidamente fui catapultado para o passado! Entrei voando no circo da minha infância, quando, acompanhado de pai e mãe, e irmãos, fui cair sentado na cadeira de armar, bem perto do picadeiro, onde no globo da morte, com roncos ensurdecedores, um dos super-heróis circenses, fazia-me tremer e enfiar a mão, provavelmente de nervoso, naqueles fios açucarados, enrolados no palito!

Comia-se aos bocados! Puxando e enfiando os bolos na boca. E rapidamente tudo derretia. E não importava a cor, porque não afetava em nada o gosto. Mas ainda assim, eles eram azuis e rosas, os mais comuns!

Mas também parecia que o doce já vinha com etiqueta de gênero: os meninos preferiam os azuis, e as meninas, os rosas! Não me espantaria em nada se a divisão cromática do mundo tivesse sido inspirada no caso do algodão doce!

Agora, imagina se isso acontecesse com o resto das guloseimas? Coxinha, pastel e risolis seriam coisa de menino? E cachorro-quente, empada e esfiha, coisa de menina? E com os doces? Talvez beijinho e bem casado fossem coisa de menina! E brigadeiro e olho de sogra, coisa de menino! Mas, o fato é que nem só de sal e açúcar vive o homem (e a mulher, claro)!

Naquele dia, no circo, recompensado pelo rolo da estopa-açucarada, tive vontade de levantar e gritar para o homem: estamos no tempo do algodão doce! Estamos no tempo do algodão doce! Era como se eu quisesse lhe dizer: aproveita! usa a imaginação! inventa asas e sai voando! Ou talvez fosse já uma maneira de reagir à força motriz, que associada ao ronco do motor, produzia medo.

O mistério do açúcar derretido virar fios ainda ronda minha vida. Enredar-se em teias, lambuzar-se a ponto de lamber os dedos, evoca ocasiões especiais: roda-gigante e algodão doce; pedalinho (para o não pedalante, é claro!) e algodão-doce; jogo de futebol e algodão-doce; chegada de Papai Noel e algodão-doce! Ida ao Jardim Zoológico e algodão-doce!

Pensando bem, o mistério ia além de entender como os cristais de açúcar podiam virar novelo de fios comestíveis e ainda assim servirem para tecer a minha história.

Serviam também para premiar minha conduta. Arriscava ficar comportado e tirar notas boas, só por um punhado de balas Juquinha, Frumelo, chocolate Bebê e otras cositas más! Claro, o mundo familiar era dos interesseiros! Mas era um interesse inofensivo, que não prejudicava ninguém! A não ser a mim mesmo, que fiquei para sempre refém das delícias do açúcar!

Devo mesmo ser um egresso da casa de doces de João e Maria. Nem sei como a tal casa ainda está de pé, de tanto que andei por lá na infância! Alguns anos depois, teria poupado os suspiros, porque para curar uma hepatite, abocanhei-os até o desespero!

Mas, pensando bem, prefiro um gordo suspiro, cheirando a limão e saindo do forno, do que esses salgadinhos em pacotes metalizados que andam barulhento nas mãos das crianças! Pelo menos suspiro faz ponte com a saudade! E a saudade é colorida, redonda e também pode vir num palito, pra gente segurar com as mãos e ficar olhando bastante antes de lamber com gosto!

(by Celso Sisto – 08/08/2011)

CURSO DE LITERATURA INFANTIL AFRICANA NAS PAULINAS DE PORTO ALEGRE


Está próximo! Em setembro estarei mais uma vez nas livrarias Paulinas de Porto Alegre, pra trabalhar com a literatura infantil africana. O curso tem 12 horas/aula e foi organizado a pedido dos professores que estiveram na minha oficina no ano passado.

Convide seus amigos!
Indique para outros professores!
Garanta a sua vaga!

Eu aposto que vai ser bem divertido e lúdico!


OFICINA - MUNDO, MUNDO VASTO MUNDO: A ATUAL LITERATURA INFANTIL LATINO AMERICANA


Como eu havia prometido, aqui vão os textos e as indicações de todo o material que mostrei e/ou trabalhei na nossa oficina, nas Paulinas.

Agradeço imensamente aos alunos. Foram 3 encontros muito animados, divertidos e dinâmicos, com muita troca! Adorei!

APONTAMENTOS DO ESCRITOR MÁRIO VARGAS LLOSA SOBRE A AMÉRICA LATINA

1. Os anos sessenta foram exultantes. A América Latina passou a estar no centro da atualidade graças à Revolução Cubana, às guerrilhas e aos mitos e ficções que estas puseram em circulação. Muitos europeus, norte-americanos, africanos e asiáticos viam surgir no continente das quarteladas e dos caudilhos uma esperança política de mudança radical, o renascimento da utopia socialista e um novo romantismo revolucionário. Ao mesmo tempo, descobriam a existência de uma literatura nova, rica, pujante e inventiva, que, além de fantasiar com liberdade e ousadia, experimentava novas maneiras de contar histórias e almejava libertar a linguagem narrativa tradicional

2. O que significa sentir-se um latino americano? Do meu ponto de vista, antes de mais nada, é ter consciência de que as demarcações territoriais que dividem os nossos países são artificiais, imposições políticas arbitrárias dos anos de colônia e que os líderes da emancipação e os governos republicanos, em vez de alterarem, acabaram por legitimar, quando não as agravaram, dividindo e isolando sociedades nas quais o denominador comum era muito mais profundo que as especificidades de cada uma. Essa balcanização forçada da América Latina (...) foi um dos fatores decisivos para o nosso subdesenvolvimento, pois estimulou nacionalismos, guerras e conflitos, em que os países latino-americanos se digladiaram, desperdiçando recursos gigantescos que poderiam ter sido usados para a sua modernização e progresso.

3. As fronteiras nacionais não sinalizam as reais diferenças existentes na América Latina. Estas ocorrem no interior de cada país e de forma transversal, englobando regiões e grupos de países. Há uma América Latina ocidentalizada, que fala espanhol, português e inglês (no Caribe e na América Central) e é católica, protestante, ateia ou agnóstica, e uma América Latina indígena, que, em países como o México, a Guatemala, o Equador , o Peru e a Bolívia , re3úne milhões de pessoas e preserva instituições , práticas e crenças de raiz pré-hispânica. Mas essa América indígena, por seu lado, não é homogênea; constitui um outro arquipélago e apresenta diferentes níveis de modernização. Enquanto algumas línguas e tradições são patrimônio de amplos agrupamentos sociais, como o quéchua e o aimará, outras, como no caso das culturas amazônicas, sobrevivem em comunidades pequenas, formadas, às vezes, por algumas poucas famílias.

4. A mestiçagem, felizmente, é muito difundida e estende pontes, aproxima, vai fundindo esses dois mundos. Em alguns países, como no México, ela já integrou cultural e racialmente a maioria da sociedade – talvez te3lnha sido esse o único feito positivo da Revolução Mexicana -, transformando dois extremos étnicos em minorias. Essa integração é, certamente, bem menos dinâmica no restante do continente, mas continua a ocorrer e, a longo prazo, acabará prevalecendo e dando à América Latina um perfil diferenciado de um continente mestiço, embora esperemos que isso se realize sem que ela seja uniformizada totalmente, sem que seja privada de suas nuanças, coisa que não parece possível nem desejável no século da globalização e da interdependência entre as nações.

5. Na realidade, a América Latina é ao mesmo tempo espanhola, portuguesa, indíegena africana e de muitas outras realidades. Qualquer esforço no sentido de estabelecer uma identidade única para a América Latina tem o inconveniente de efetiva uma cirurgia discriminatória que exclui e desaparece com milhões de latino-americanos e com várias formas e manifestações de sua frondosa variedade cultural.

6. A riqueza da América Latina está no fato de ela ser muitas coisas ao mesmo tempo, o que faz dela um microcosmos no qual coabitam quase todas as raças e culturas do mundo. Cinco séculos após a chegada dos europeus às suas praias, serras e matas, os latino-americanos de origem espanhola, portuguesa, italiana, alemã, chinesa ou japonesa são tão oriundos do continente como os que têm seus ascendentes nos antigos astecas, toltecas, maias, quéchuas, aimarás ou caribes. E as marcas deixadas pelos africanos no continente, onde também estão há cinco séculos, estão presentes por todos os lados: nos tipos humanos, na fala, na música, na comida e até mesmo em certas formas de prática religiosa. Não é exagero dizer que não existe tradição, cultura, língua e raça que não tenha acrescentado alguma coisa a esse efervescente redemoinho de misturas e uniões que se realizam em todos os aspectos da vida na América Latina. Esse amálgama é o seu maior patrimônio: ser um continente que carece de identidade justamente porque contêm todas elas. E porque continua a s transformar todos os dias.

7. (...)Há um assunto que atravessa todos os caminhos tortuosos da cultura latino-americana: a abissal contradição existente entre a sua realidade social e política e a sua produção literária e artística. O mesmo continente que, por suas gigantescas desigualdades de renda entre pobres e ricos, seus níveis de marginalização, desemprego e pobreza, pela corrupção que mina as suas instituições, por seus governos ditatoriais e populistas, pelos seus níveis de analfabetismo e escolaridade, seus índices de criminalidade e de tráfico de drogas e o êxodo de suas populações, é a própria encarnação do subdesenvolvimento, detém um alto coeficiente de originalidade literária e artística. No campo cultural , só se fala em subdesenvolvimento, na América Latina, no que tange à sua vertente sociológica: a pequenez do mercado cultural, o pouco que se lê, o âmbitorestrito das atividades artísticas. Mas, no que se refere à produção, nem seus escritores, nem seus cineastas ou seus pintores, nem seus músicos (que fazem o mundo inteiro dançar) poderiam ser chamados de subdesenvolvidos. Em seus melhores expoentes, a arte e a literatura latino-americanas já deixaram há muito tempo de ser pitorescas ou folclóricas, e atingiram níveis de elaboração e originalidade que lhe garantem audiência universal.

8. Enquanto as elites culturais se modernizavam e se abriam pra o mundo, renovando se graças a um cotejar permanente com os grandes centros de pensamento e de criação cultural da vida contemporânea, a vida política, com raras exceções, permanecia ancorada em um passado autoritário de caudilhos e camarilhas que aplicavam o despotismo, saqueavam os recursos públicos e mantinham a vida econômica congelada no feudalismo e no mercantilismo. Produziu-se um divórcio monstruoso: enquanto os pequenos redutos da vida cultural – (...) mantinham contato com a modernidade e evoluíam, surgindo deles escritores e artistas de alto nível, o restante da sociedade permanecia quase que imobilizado em um anacronismo autodestrutivo.É verdade que as coisas melhoraram um pouco nos últimos tempos, pois vigoram hoje, na maior parte da América Latina, governos democráticos. Mas alguns deles são abalados em virtude da incapacidade de satisfazer as demandas sociais e da corrupção que os corrói, e o continente ainda traz como lembrança emblemática de seu passado a ditadura mais longeva do mundo: a de Fidel Castro (quarenta e seis anos no poder). E na Venezuela, o populismo ressuscita com força torrencial.

9. Dentre as influências prevaleceu, em boa parte da história latino-americana, a cultura européia, principalmente a francesa. Desde os tempos da independência, em que as ideais dos enciclopedistas e dos doutrinários da revolução deixaram uma marca fundamental nos ideais de emancipação, passando pelo positivismo, que marcou o ofício intelectual e cívico de um canto a outro da região, mas, sobretudo, no Brasil e no México, até relativamente pouco tempo os modelos estéticos, as ideologias, os valores filosóficos, os temas e prioridades do debate intelectual na América Latina acompanhavam muito de perto o que acontecia na Europa. E, com freqüência, o que chegava a nós de outras culturas era por meio de traduções. Modas e interpretações européias.

10. Na literatura criativa (...) construíram universos fictícios que utilizam como matéria -prima as realidades indígenas de seus países, que todos eles conheciam intimamente. Mas seus feitos artísticos teriam sido impossíveis sem uma destreza verbal e sem técnicas formais que eles adquiriram graças a modelos da literatura européia e norte-americana, que souberam aclimatar ao seu próprio mundo (...). A renovação permanente das formas e das idéias, em função da crítica e da autocrítica. A constante assimilação de valores e princípios importados que enriquecem os seus próprios. Isso tudo dentro de uma convivência entre diferentes que só a liberdade, o espírito crítico e a vocação de universalidade tornam possível.

11.Embora seja de lá (...) repudio com todas as minhas forças a barbárie representada pelos caudilhos militares e pelas ditaduras dos homens fortes- todas elas, sem exceção, sejam de direita ou de esquerda –, o estúpido machismo, o nacionalismo, que é a grande cortina de fumaça por trás da qual os governos justificam o armamentismo e os vultuosos desvios de dinheiro que este possibilita, assim como a visão patrioteira e provinciana da cultura e da política, que é como que a outra face do nacionalismo e a melhor receita para não sair jamais do subdesenvolvimento. Mas a América Latina não é apenas isso (...). Trata-se de um mundo cheio de energia e criatividade, mais fecundo e exultante do que a imagem que dele oferecem as suas elites políticas, e que, em especial nas artes e nas letras, conseguiu superar as limitações do terceiro-mundismo e atingir uma importância internacional

LLOSA, Mario Vargas. Sabres e utopias: visões da América Latina. Rio de Janeiro, Objetiva, 2010. P. 313-323.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Histórias contadas por contadores de histórias

BEATRIZ FALERO et al. Latinoamerica em voz 1: cuentos y leyendas. Ilustrado por Pablo Cabrera. Buenos Aires, Ediciones Abran Cancha, 2008.

MARISSA AMADO et al. Latinoamerica em voz 2: cuentos y leyendas. Ilustrado por Lucas Nine. Buenos Aires, Ediciones Abran Cancha, 2008.

- Ouvimos o conto "Perurimá y el Pa'i" - Cuento tradicional paraguaio, na versão de Marco Flecha. (p. 47-50)

Texto teórico

LLOSA, Mario Vargas. Sabres e utopias: visões da América Latina. Rio de Janeiro, Objetiva, 2010. P. 313-323.

Contos populares

COLEÇÃO ÁTICA: CO-EDIÇÃO LATINO-AMERICANA

Títulos: - Contos de lugares encantados

Como surgiram os seres e as coisas

Contos de artimanhas e travessuras

Contos populares para crianças da América Latina

Contos e lendas de amor

Contos de assombração

Contos de animais fantásticos

Contos, mitos e lendas para crianças da América Latina

(VENEZUELA) – RIVAS, Ivonne. El dueño de La luz (cuento warao). Ilustrações de Irene Savino. Caracas, Ediciones Ekaré, 1994.

(BOLÌVIA) – WEISE, Carlos Saavedra. Biru Biru, la leyenda del viento. Santa Cruz de la Sierra, Plano Municipal de Fomento a La Lectura, 2008.

Livros de poesia:

(PORTO RICO) JIMÉNEZ , Juan Ramón– Verso y prosa para niños. Puerto Rico, Publicaciones Puertorriqueñas, 1996.

(CHILE) NERUDA, Pablo. Neruda para jovens: antologia poética bilíngüe . Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 2010.

(COLÔMBIA) NIÑO, Jairo Aníbal. La alegria de querer. Santafé de Bogotá, Panamericana Editorial, 1999.

(ARGENTINA) CINETTO, Liliana. Hechizo de espuma. Buenos Aires, Crecer Creando, 2009.

(ARGENTINA) CINETTO, Liliana. Problemas en el ropero... y otros versos diversos. Buenos Aires, Edelvives, 2007.

(CHILE) PARRA, Nicanor. Cantiga de ninar. Ilustrações de Enrique Martínez. Trad. Ana Lúcia Abrantes e Mary Grace Fighiera Perpétuo. Petrópolis, Autores & Agentes & Associados, 1993.

(PERU) KIRINUS, Glória. Lâmpada de lua. Ilustrações de Fernando Cardoso. São Paulo, Ave-Maria, 2001.

(PERU) KIRINUS, Glória. Se tivesse tempo. Ilustrações de Fernando Cardoso. São Paulo, Ave-Maria, 2000.

Narrativas:

(COLÔMBIA) MÁRQUEZ, Gabriel García. A luz é como água. Ilustrações de Carme Solé Vendrell. Trad. Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro, Record, 2001.

(COLÔMBIA) NIÑO, Jairo Aníbal. El músico del aire. Il. do autor. Medellín, Editorial Colina, 1999.

(COLÔMBIA) NIÑO, Jairo Aníbal. El cuenta distancias. Il. do autor. Medellín, Editorial Colina, 1999.

(COLÔMBIA) NIÑO, Jairo Aníbal. La señora Contraria. Il. do autor. Medellín, Editorial Colina, 1999.

(URUGUAI) APARAÍN, Mario Delgado. La taberna del loro en el hombro. Il. Luis Gabriel Pacheco. Montevideo, Banda Oriental, 2004.

(ARGENTINA) CORTÁZAR, Julio. Discurso do urso. Il. Emilio Urberuaga. Trad. Leo Cunha. Rio de Janeiro, Galerinha Record, 2009.

(CHILE) NERUDA, Pablo. Ode a uma estrela. Il. De Elena Odriozola. Trad. Carlito Azevedo. São Paulo, Cosac Naify, 2009.

(URUGUAI). GALEANO, Eduardo. História da ressurreição do papagaio. Il. Antonio Santos. Trad. Ferreira Gullar. São Paulo, Cosac Naify, 2010.

(URUGUAI) OLAONDO, Susana. Gato blanco, gato negro. Il. Da autora. Montevideo, Alfaguara infantil, 2008.

(ARGENTINA). CINETTO, Liliana. Uma história com cores. Il. Irene Singer. Trad. Leandra Trindade. São Paulo, Callis, 2011.

(MÉXICO) HINOJOSA, Francisco. A pior mulher do mundo. Il. Rafael Barajas. Trad. Ecila de Azeredo Grünewald. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998.

(MÉXICO) LOME, Emilio. El elefante y la margarita. Il. Luis San Vicente. Santa Cruz de Tenerife, Diego Pun Ediciones, 2010.

Crítica Literária

Revista Rainha dos Apóstolos – Coluna “Lugar na prateleira” – Edição de maio de 2009.

BRANDÃO, Ignácio de Loyola. O menino que vendia palavras. Ilustrações de Mariana Newlands. Rio de Janeiro, Objetiva, 2007. 63 p.


O SABOR DAS PALAVRAS

Celso Sisto

Ah, como é bom provar palavras! Conhecidas e desconhecidas! Grandes e pequenas. Fortes e levíssimas (quase voadoras)! Graves e agudas. Cheias de consoantes e fartas de vogais... E sabe que gosto tudo isso tem? O gosto da descoberta! Do treino da imaginação! Do apelo do mistério! Do domínio do segredo! Do desafio da memória!

O pai do menino sabia o significado de muitas palavras, sem precisar olhar em livro nenhum! Funcionava assim: os outros meninos escolhiam uma palavra, e no dia seguinte o menino trazia o significado dado pelo pai. Um dia foram à casa do menino, comprovar se o pai não usava mesmo livro nenhum. Ficaram surpresos com aquele homem que respondia tudo de primeira. Ele dizia que a leitura lhe ajudava a entender o significado das palavras. Mas o filho abusa e começa a cobrar dos colegas para perguntar ao pai o significado das palavras que eles queriam saber. Quando o pai descobre que seu filho vende as palavras para os colegas, a história muda de rumo!

O menino é quem conta tudo. E a história se passa num outro tempo. Numa infância de antigamente, no tempo da bala Toffee, da enciclopédia Jackson, das coleções de tampinhas, rolimãs, figurinhas.

O livro faz uma declaração de amor aos livros: livros grossos, de Monteiro Lobato, de contos de fadas. Tudo o que efetivamente contribui para a formação do leitor: gente que gosta de ler por perto, livros à vontade, desafios crescentes. Parece uma confissão, mas não deixa de criticar o mundo da infância - muitas vezes só “nãos”, surras e castigos.

Outros atrativos do livro são: letra grande, linhas largas, muito espaço na página. As ilustrações exploram o preto, o branco, o vermelho. Parecem antigas, tiradas de almanaques, misturadas com fotografias, retrabalhadas no computador.

Ignácio de Loyola Brandão é bem conhecido por seus livros para adultos. É autor premiado (mais de 30 livros), respeitado, porta-voz de temas complicados. E escreve para o leitor criança com muita propriedade. Esse livro conquistou vários prêmios, inclusive o Prêmio Jabuti de Livro do Ano, na categoria Ficção, em 2008.

Vida longa ao livro e à boa literatura!


Ilustradores

- DIEGO FRANCISCO SACHES RODRIGUES/COLÔMBIA

- AGUSTÍN COMOTTO/ARGENTINA

- ALBERTO MONTT/CHILE

- LUÍS SCAFATI/ARGENTINA

- RAQUEL ECHENIQUE/CHILE

- EULALIA CORNEJO/EQUADOR

- AITANA CARRASCO/VENEZUELA

- OTTO MEZA/EL SALVADOR

- DIEGO FRANCISCO SANCHES/MÉXICO

- ALEJANDRO SALAZAR/BOLÍVIA

- ALFREDO SODERGUIT/URUGUAI

- HORACIO GATTO/ARGENTINA

- MARIE CASTAÑEDA/PERU

- ADELA DORE/REPÚBLICA DOMINICANA

- RAÚL COLÓN /PORTO RICO

- ENRÍQUE MARTINEZ/CUBA

- NÍVIO LÓPEZ VIGIL/NICARAGUA

- TOÑITO AVALOS/PERU

- VICKY RAMOS/COSTA RICA

- RAFAEL BARAJAS/MÉXICO

- ANA MELIZA RAMIREZ ARRAZOLA (MELYDHARK) – GUATEMALA

- PAOLAT DE LA CRUZ/REPUBLICA DOMINICANA

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