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domingo, 7 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - ALGODÃO-DOCE

Algodão-doce

by Celso Sisto

Dia desses vi essas nuvens coloridas de açúcar! E rapidamente fui catapultado para o passado! Entrei voando no circo da minha infância, quando, acompanhado de pai e mãe, e irmãos, fui cair sentado na cadeira de armar, bem perto do picadeiro, onde no globo da morte, com roncos ensurdecedores, um dos super-heróis circenses, fazia-me tremer e enfiar a mão, provavelmente de nervoso, naqueles fios açucarados, enrolados no palito!

Comia-se aos bocados! Puxando e enfiando os bolos na boca. E rapidamente tudo derretia. E não importava a cor, porque não afetava em nada o gosto. Mas ainda assim, eles eram azuis e rosas, os mais comuns!

Mas também parecia que o doce já vinha com etiqueta de gênero: os meninos preferiam os azuis, e as meninas, os rosas! Não me espantaria em nada se a divisão cromática do mundo tivesse sido inspirada no caso do algodão doce!

Agora, imagina se isso acontecesse com o resto das guloseimas? Coxinha, pastel e risolis seriam coisa de menino? E cachorro-quente, empada e esfiha, coisa de menina? E com os doces? Talvez beijinho e bem casado fossem coisa de menina! E brigadeiro e olho de sogra, coisa de menino! Mas, o fato é que nem só de sal e açúcar vive o homem (e a mulher, claro)!

Naquele dia, no circo, recompensado pelo rolo da estopa-açucarada, tive vontade de levantar e gritar para o homem: estamos no tempo do algodão doce! Estamos no tempo do algodão doce! Era como se eu quisesse lhe dizer: aproveita! usa a imaginação! inventa asas e sai voando! Ou talvez fosse já uma maneira de reagir à força motriz, que associada ao ronco do motor, produzia medo.

O mistério do açúcar derretido virar fios ainda ronda minha vida. Enredar-se em teias, lambuzar-se a ponto de lamber os dedos, evoca ocasiões especiais: roda-gigante e algodão doce; pedalinho (para o não pedalante, é claro!) e algodão-doce; jogo de futebol e algodão-doce; chegada de Papai Noel e algodão-doce! Ida ao Jardim Zoológico e algodão-doce!

Pensando bem, o mistério ia além de entender como os cristais de açúcar podiam virar novelo de fios comestíveis e ainda assim servirem para tecer a minha história.

Serviam também para premiar minha conduta. Arriscava ficar comportado e tirar notas boas, só por um punhado de balas Juquinha, Frumelo, chocolate Bebê e otras cositas más! Claro, o mundo familiar era dos interesseiros! Mas era um interesse inofensivo, que não prejudicava ninguém! A não ser a mim mesmo, que fiquei para sempre refém das delícias do açúcar!

Devo mesmo ser um egresso da casa de doces de João e Maria. Nem sei como a tal casa ainda está de pé, de tanto que andei por lá na infância! Alguns anos depois, teria poupado os suspiros, porque para curar uma hepatite, abocanhei-os até o desespero!

Mas, pensando bem, prefiro um gordo suspiro, cheirando a limão e saindo do forno, do que esses salgadinhos em pacotes metalizados que andam barulhento nas mãos das crianças! Pelo menos suspiro faz ponte com a saudade! E a saudade é colorida, redonda e também pode vir num palito, pra gente segurar com as mãos e ficar olhando bastante antes de lamber com gosto!

(by Celso Sisto – 08/08/2011)

4 comentários:

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Algodão doce me lembra o veraneio da infância em Tramandaí, quando minha irmã, meu primo e eu jantávamos às seis da tarde, depois de tanto brincar na praia e andar de bicicleta nas calçadas da nossa rua o dia inteiro.

O maluco é que o horário da refeição nem era porque estávamos com fome (criança em férias tem lá fome de comida?), mas era ditado pela passagem de um certo senhor e sua bicicleta mágica: afinal, nem eu, nem ninguém da minha turma, podia produzir, com pedaladas, em uma engenhoca quase alienígena, fios cor de rosa tão doces e melados quanto os que nos deliciávamos em meio ao vento marinho, que arrepiava e soprava nossos cabelos, às folhas em queda espiral das aroeiras, e a areia fina do pátio sob nossas Havaianas!

Belíssimo texto!

Bruna M.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

Adorei o texto sobre algodão doce! E sim, eu sempre peguei os cor-de-rosa! Hahaha
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Atenciosamente, Carol Morais