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domingo, 21 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - CHEIRO DE PAPEL E TINTA


Na época das bolhas de sabão, feitas com canudinho de mamona, os livros infantis eram caros, muito caros. Além de umas poucas livrarias tradicionais e centrais, eram quase sempre as grandes papelarias que vendiam livros. E nesses casos, para prover as encomendas das Escolas. Por isso imperavam os livros de bolso da Ediouro! Sim, aqueles que sempre soltavam as folhas e que exigiam um cuidado clínico, uma dieta de amor extremo e de carinho constante(um pouco difícil para meninos estabanados!).

Havia quem encapava os livros, com plástico ou papel, não importava. Isso já anunciava o dono: freqüentador dos labirintos das letras ou atleta do descuido. Sobrecapa para fazer durar mais ou para evitar que o leitor amarfanhasse e cirurgiasse o livro numa única leitura! Leitura mutiladora ninguém queria, ora! Muito menos a professora na escola!

Mas havia quem emprestasse os livros. E com livros emprestados, a vigilância deveria ser redobrada, com sentinelas em ronda permanente. Mãe, pai, avô, sempre a ladrarem: “cuidado com o livro da tua tia”, “não vai me esquartejar o livro da tua madrinha”! “Por isso e que tua tia não gosta de emprestar os livros, tá vendo”?

Pois é! Sempre havia a biblioteca de uma tia ou de uma madrinha, que mais endinheirada, tinha estantes de mogno e fileiras inteiras de livros encadernados com capa dura e título gravado a ouro! Às vezes, para a pura exclamação das bocas arredondadas: “Nossa, quanto livro”! “Você já leu tudo isso”? E o perguntador, que arregalava os olhos com ar indisfarçável, passava a mirar a dona da biblioteca-a-metro com segredo de vilão e ouvidos atentos às instruções dos anjos tortos, esses que estão sempre soprando no ouvido infante, mil idéias de como usar os livros de forma... menos convencional, é claro! E sem permissão, é claro! Se não perde a graça, é claro!

Pra mim, chique mesmo era ter a coleção da Biblioteca Infantil Quaresma, com o livro de Contos da Carochinha, do Figueiredo Pimentel. Ficava namorando o livro na estante da casa da tia Péia, que não me emprestava, porque dizia que eu não tinha idade suficiente, nem para ler, nem para dar ao livro o tratamento merecido! Acho que sempre que penso em bruxa, penso em bruxa com cara de tia! Dessa tia! Vingança tardia!

Se eu não podia ler a Carochinha, me contentava, em parte, com as enciclopédias e as coleções, que eram vendidas de porta em porta. Essas iam inundando a minha casa, com a permissão monetária do chefe da família.

Meu pai, que gostava de estudar História Universal, adorava a platéia dos três filhos curiosos (às vezes meio sonolentos...). Contava as histórias da 2ª Guerra Mundial e ficava esperando nossas perguntas, levantando o queixo, como quem dizia, “e então?”. A gente se olhava, ria e aumentava sua agonia de professor sem diploma. Mas adorávamos. Ele já tinha olhos-holofotes, jogando luz adiante, anunciando a preocupação com uma educação para a paz. Mas não era só isso: ele sabia que toda a história da humanidade era uma história de disputa, de conquista, de escravização. Subjugantes e subjugados! E mostrava fotografias, e apontava os livros enormes: Grande Crônica da Segunda Guerra Mundial e seus três sanduíchicos volumes! Mandava a gente abrir as portinholas escondidas atrás dos olhos, para guardarmos para sempre as configurações do horror e da crueldade. Essa era o seu alimento, o banquete que ele nos oferecia!

A verdade é que subjugados e subjugantes eram palavras que não saiam da minha cabeça. Eu ficava remoendo os subtítulos: “De Munique a Pearl Harbor”; “De Pearl Harbor a Stalingrado”; “De Stalingrado a Hiroxima”. E fui trocando, ao longo do tempo, as partidas e as chegadas: De Andersen a Lewis Carroll; De Lewis Carroll a Lygia Bojunga; De Lygia Bojunga a Mia Couto. Transformar fatos de guerra em fatos literários me apaziguou a vida.

De repente, minha imaginação salta de susto, como se me dissessem “mãos ao alto”! Me dou conta de que não há mais vendedores de livros porta a porta. Aliás, se bobear nem há portas! Há grades e câmeras vigiando tudo! Enquanto isso, as feiras de livros de hoje estão abarrotadas de livros ruins e parca literatura. Tenho horror das maletinhas da bobalização dos clássicos universais, que contam toda e qualquer obra infantil em 10 frases, que não servem para encantar nem leitor iniciante!

E de repente, me espanto: livros de computador, que as crianças lêem hoje, não tem cheiro! Já viu isso? Não revelam a textura, não exalam o perfume da tinta fresca, não exibem a pele do papel, e roubam a carícia de quem pelo tato, também estampava seu amor nos livros!

Livro exige mãos! Para segurar, para confessar, para plantar. Mãos ao alto, mas para lançar o livro para o outro!

(by Celso Sisto – 21/08/2011)

3 comentários:

Fabiana Esteves disse...

Meu avô tinha uma sala com uma enorme estante até o teto, mas ninguém chamava de biblioteca. Lá, eu me encantava com a coleção "Menina moça" e "Tesouros da Juventude", além de outras, todas em capa dura e inscrição dourada. Acompanharam a infância e adolescência da minha mãe, minhas tias e depois a minha. Mais tarde, eu também quis ter a minha coleção. Minha mãe então comprou, mês a mês, os exemplares de Monteiro Lobato pelo Círculo do Livro... Ai que saudades!!!!!

angela disse...

Bobalização.... amei! Vou ficar pensando nessa palavra por algum tempo..bobalização.. (você vai enlouquecer com o tal texto novo!! já estou antecipando o prazer!)

Anônimo disse...

Uau, 'cirurgiar'...! Gostei!

Desde pequena, e aí a gente pensa, "Caramba, como tu 'é' chata, guria!", eu cuido muuuito dos meus livros. Pode parecer loucura, mas tenho quase uma síncope ao ver exemplares maltratados - leia-se: com sinais de desgaste não pelo uso, mas pelo descaso! A 'nóia' é tanta que eu passei a selecionar as mãos que tocam os meus livros! Vá entender! Egoísmo? Não... Horror à violência!! huahuahauaua!!

Falando sério agora. Bobalização é um termo forte, e da vez! Mais e mais, materiais rasos, sem conteúdo, desmotivadores são lançados. Não apenas as maletinhas, mas, já viu quantos livros de ilustrações belíssimas, mas com textos medíocres e preços de ouro vêm sendo lançados? E não só literatura feita aqui, mas 'obras' traduzidas! Dá para querer?

E, para meu total desespero, vem chegando mais uma Feira do Livro... Temo o que verei ganhando as bancas e as mãos das crianças... E, nesse caso, não sei o que é pior: se isso, ou emprestar meus melhores livros a um vândalo. Dúvida cruel.

Bruna M.