Seguidores

sábado, 13 de agosto de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - NÃO BASTA SER PAI

Sou do tempo da propaganda do Gelol. Daquela mesma, que dizia: não basta ser pai, tem que participar! Achava tão bonito o slogan! Ficava sempre querendo um pai daqueles! E o meu era. Um pouco brabo, mas era. E todas as vezes que eu me rebelava, no fundo, no fundo estava solicitando um pai-humano e herói, ao mesmo tempo! É que ter que crescer era no mínimo doloroso! Eu sabia!

A distância entre pai e filho não era mais sufocada pelas convenções e pela tradição amarelada. A criança não tinha mais que ser um adulto em miniatura, mas ainda se usava “senhor” para tratar o chefe da família. E ele tinha o direito de bater, colocar de castigo, premiar os acertos e punir os erros.

Não era ainda a época do predomínio do diálogo. Era a da ordem! E pronto! Por isso talvez eu tenha pavor de gente autoritária! Por isso eu mesmo construí campos de treinamento, regimentos de vanguarda, que ao menor sinal de mando-sem-discussão, me empurravam, destemido, em todas as direções, para usar o escudo da fala e abusar da arma da palavra. Era a única que eu sabia manejar como ninguém! Não eram sentenças vazias ou lanças esquálidas como muitas vezes são os argumentos infantis; eram minas vocabulares, que provocavam combustão, explosão e destroços. Eu sabia tocar no ponto exato onde a palavra-boxeadora desordenava os ossos! E o resultado era que eu tinha que pagar pela ousadia! Nocaute à base de cinto, às vezes, na privação daquilo que eu mais queria: ser amado! Era esse o grito, sempre sufocado!Sempre incompreendido! Grito de guerra!

Sou bélico! Sempre fui! Mas não sou blindado! Lancei-me ao confronto sem cota de malha. Meu pai me permitia chorar, gostar de poesia, ler tudo o que queria e ainda fazer teatro! Desde que nada disso fosse a sério!Urgente mesmo era se preparar para a vida. E eu estava pronto, quando assisti sozinho à sua despedida. Filho até o último suspiro.

Não repeti suas façanhas. Não sou pai de crianças. Sou, talvez, mais: pai de bichos, pai de livros, pai de idéias, pai de alunos, pai em uma outra dimensão, que não se pode compreender a olho nu, com sentimentos mundanos e comerciais, ou com os apelos do calendário do shopping local.

De mim não nasceram meninos e meninas. Mas podem ter surgido leitores e leitoras, admiradores da arte, estudiosos da escrita, semeadores da palavra, apaixonados pelos papéis de diferentes gramaturas, que comportam tantas vidas (e ainda coloridas e ilustradas)! Aprendizes da natureza das gentes, que desde pequenas são livres para construir a sua própria história. Sim, fui (e sou) esse pai que não está no sangue, mas está nas veias, correndo junto com a imaginação que as histórias sabem avolumar, com a respiração que serve para inflar balões no útero do céu. Sim, a palavra encantada venceu a corrida da vida. Deu-me substância, que agora fecunda outras biografias.

Tenho ou não tenho muitos descendentes? Não preciso de teste de DNA, nem da ameaça de um conselho tutelar. Nem da reivindicação dos direitos humanos. Preciso mesmo é da mão que embala filhos de papel. Essa paternidade ainda me basta!

(by Celso Sisto – 13/08/2011)

12 comentários:

Encantadores de Histórias disse...

Oi, Celso! Estou aqui no Rio e hoje eu e Luiz assistimos "A árvore da vida", do Terrence Malick. Foi uma viagem à minha infância. Revisitei a criança que fui, meus irmãos, minha mãe e... meu pai. Ler sua crônica foi o complemento perfeito. Sabia que tivemos pais parecidos? Talvez um dia possamos conversar sobre isso. Enfim, passei aqui para lhe dar um abraço e lhe dizer que você merece sim: FELIZ DIA DOS PAIS! Beijo carinhoso da Rosana Mont'Alverne.

celso sisto disse...

Rosana! Esse filme mexeu muito comigo! E engraçado que meu primeiro livro também é sobre pai: Ver-de-ver-meu-pai (Ed. Nova Fronteira). Conversaremos sobre o assunto. E aliás, vou levar o livro de presente pra você e o que eu dediquei ao casal, também (A COMPOTEIRA, ed. Prumo). Dia 9 de setembro estarei em BH. Bjs,

Idalina de Carvalho disse...

Não, Celso... não se desnudou demais... rs.

Você brincou com as palavras, como menino que sabe jogar esse jogo. E entrou pelos labirintos da lembrança e abriu portas pra rever fa(o)tos e bisbilhotou cada canto, sentou-se no chão da memória pra refletir e saiu lindamente, com o gosto do mais profundo sentido de paternidade.

Gostei demais da crônica.

Beijos.
Idalina

celso sisto disse...

Idalina! quanta poesia no seu comentário! Só por ver/ler esse seu pequeno e profundo texto já valeu a pena ter escrito a crônica! Obrigado pela acolhida tão bonita, tão cúmplice! Beijo.

Projeto Cinema Possível. disse...

Excelente crônica para se ler no dia dos pais, parsbens, nobre escritor!

celso sisto disse...

Amigo Jiddu! Obrigado por seu comentário! Sou então um pai possível! Abraço forte!

TeatroEmCena disse...

Celso, meu amado, paizão grandão de todos os amantes de histórias, amei sua crônica. Me emocionei. FELIZ DIA DOS PAIS PRA VOCÊ! Beijo.

celso sisto disse...

Cleo, minha amiga mais do que querida! Fico feliz que você tenha gostado, se emocionado... Nós somos mesmos amantes de histórias e de gente bonita e verdadeira, como você, que conta histórias, que faz história!

marebrinca disse...

Bela crônica Celso e que pai!!!!Você, pai das ideias e da imaginação,precisamos mais deles de que pais apenas biológicos. As crianças hoje carecem desses pais. Mas, você me levou até o meu pai, artista de teatro e da vida.Obrigada também por isso.

celso sisto disse...

Obrigado, MAREBRINCA!Penso que um dos méritos do texto literário é exatamente esse: remeter-nos para as nossa própria história. Isso me deixa feliz! Imensamente feliz!

Lígia disse...

Olá Celso, tudo bem?
Sou professora e ilustradora. Conheci o seu trabalho e me apaixonei. Gostaria de fazer um trabalho com você, que tal? Meu blog: ligiaribeiro.blogspot.com

Um abraço,
Lígia

Virvinhas disse...

Bela crônica Celso! Imaginei a quantidade que tens de filhos-fãs de teus escritos espalhados por aí rsrsr. Paternidade booooa!!
Um abraço!

Vívian