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sábado, 24 de setembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - QUERO SER ÁRVORE

Vontade louca de abraçar uma árvore! No calendário escolar nos lembravam que ela tinha um dia: 21 de setembro. E preferencialmente nesta data a professora virava jardineira, ecologista, educadora ambiental, e nos levava para por a mão na terra, ao som de Cecília Meireles: “Quem me compra um jardim com flores? borboletas de muitas cores, lavadeiras e passarinhos, ovos verdes e azuis nos ninhos?”. E íamos repetindo o poema, que virava mantra, na esperança de escrever com caligrafia perfumada assim a próxima redação! Como quem plantaria no papel a vocação para a escrita!

Era a ecologia antes da ecologia. Nem se adivinhava que essa seria uma bandeira dos novos tempos, uma preocupação universal. Parecia-nos natural a integração com a natureza, a convivência pacífica com a terra-mãe, o respeito orgânico do filho que quer ter colo e solo a vida inteira!

Também éramos muito novos para entendermos das obrigatoriedades que apregoavam nossos pais: na vida, todo mundo tem que plantar uma árvore! Eis aí uma visão de futuro! Um alerta para compensar a arrogância das gentes! Uma premonição de que a relação predatória com o espaço iria nos colocar na condição cada vez mais espantosa (e numerosa!) de bestas-feras! O que pode ser alguém que fere com ferro e fogo o ventre inviolável da existência na Terra?

Felizes os povos que crêem que os antepassados habitam as árvores. Felizes os índios das tribos do Oregon, que depositavam no tronco escavado de uma velha árvore, em posição fetal, seus anciãos mortos. Felizes os juízes tribais que se reúnem ao redor de um baobá para resolver as disputas locais.

Por isso quero ser Madagascar, com sua avenida de baobás! Quero ser a Maria Gorda de Paquetá, que veio de Manaus, para viver na Praia dos Tamoios. Quero ser a árvore da louvação a baobá, de Mossoró, que a seu pé, espalha flores e frutos, para afinar com tambores as origens.

Também quero ser árvore de fábula, das velhas fábulas. Pode ser um salgueiro, um pinheiro, um carvalho, um freixo, um cedro, um olmo, uma figueira, um pessegueiro, uma castanheira. Na voz de Esopo, La Fontaine ou Leonardo da Vinci. Abri-los, na estante, na biblioteca, em casa, na escola, é também plantar árvores de palavras, sementeiras da imaginação!

Também posso ser as sandálias mágicas de Hermes, feitas com folhas de tamareira e mirtilo. Ou o chorão das lendas dos mouros, ou a testemunha do amor do cacique Tupi e da bela Tapuia Jurema. Ou a cortina de ramas que escondeu a Virgem e o menino Jesus na fuga para o Egito.

Não me importaria em ser o emblemático Pau-Brasil, com seu extrato vermelho-forte a cobiçar os cortes de tecidos. Ou os galhos maiores, a sonhar com a música de violinos, harpas e violas.

Mas, o presente ideal, talvez fosse virar uma cerejeira do Japão, com as sakuras brotando pelo corpo-tronco, e testemunhando a permanência da princesa da árvore de flores abertas.

Mas, se depois da passagem da manada de homens, não houver senão a destruição, que ainda me permitam ser um escultura de Krajcberg, a denunciar para sempre as queimadas ilegais nas florestas.

E se o grito contra a barbárie não for suficiente, que eu possa também ser uma retorcida árvore do cerrado, estampando no ar seu jeito coreográfico de se defender do fogo!

Vontade louca de abraçar uma árvore. De caminhar pelas aléias do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de borboletear meus olhos pelo Mangal das Garças, de Belém, de abrigar-me no palácio estufado de vidro e ferro, como um caraguatá a esconder mais que ninhos de jacarés, no Jardim Botânico de Curitiba.

Vontade louca de abraçar uma árvore. E perdoar, e não deixar cair a nódoa no pano, e cultivar pinhas de prata...

Vontade louca de ser abraçado por uma árvore, em todos os dias da minha vida! E nos seus braços, sussurrar poesia, num tempo que já não é o tempo, mas a voz de Camões: “se não te celebrar como mereces, cantando-te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória”.

Vontade louca de ser árvore...


11 comentários:

Gerci Godoy disse...

Celso querido, também quero ser árvore, morrer sob sua sombra, mas te peço, me ajuda a dizer coisas que a comovam, que façam com que elas se compadeçam de todo o mal que bestas humanas tem praticado.
( Também eu, quando criança, a mais de 60 anos plantei uma árvore com a professora e os colegas, puro encantamento)

celso sisto disse...

Gerci! Lindo seu comentário! Amei! Ajudar, de algum modo já nos ajudamos, não? Em nossas oficinas...E em nossos textos, botando a boca no trombone! Ou a caneta no papel, se preferirmos! Ou o dedo no teclado!

Márcia Funke Dieter: escritora disse...

Que bela crônica, cheia de poesia, cheia de verdades...cheia de vida, de vidas nossas num passado encantador, onde árvores e pessoas confundiam-se nas tardes de domingo...lindo, lindo...

celso sisto disse...

Márcia! Obrigado pela leitura! E pelo carinhoso comentário! Bj.

Creuza disse...

Celso, querido (tão bom poder ter esta intimidade de, sem conhecê-lo pessoalmente, poder dizer que o conheço - porque conheço sua obra. Só aos artistas é permitida esta façanha! Celso, ler seus texto é receber carinho na alma. A leveza de suas palavras, o conhecimento que nos tranmitem e, acima de tudo, a ternura com que você "nos fala" são um convite para que a leitura continue... contnue... continue... Ista, meus encantos, só quem tem sensibilidade refinada, como você, pode proporcionar. Um beijo carinhoso desta sua fã dos confins de Goiás.

celso sisto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
celso sisto disse...

Creuza, é um compromisso grande escrever sabendo que vou ser lido por pessoa tão sensível como você. As palavras profundas nos aproximam de pessoas profundas! Espero continuar merecendo seu carinho literário e sua atenção de leitora! Beijo, com a brisa das praias gaúchas.

Marli Fiorentin disse...

Oi Celso!
Muito linda sua crônica e olha só a coincidência. Nesse dia 21 de setembro eu dei de presente uma árvore para cada aluninho da Ed. Infantil e também falei da Cecília e do seu Leilão de Jardim. Veja no meu blog dos pequenos as imagens. http://pintandosetejardim.blogspot.com/2011/09/dia-da-arvore.html BJ!

celso sisto disse...

Marli, que coincidência! Adorei as fotos do seu blog! Bj. Obrigado pelo carinho!

Mayara de Castro disse...

Celso, que lindo esse post. Eu amo as árvores e adoro abraçá-las e conversar com elas. Recebi a seguinte mensagem que gostaria de compartilhar: "se sentir em sua alma que deseja adquirir uma conexão mais profunda conosco, os espíritos das árvores, então mantenha esta intenção e desejo, peça ao Criador para deixar que assim seja. Nossos corações estão abertos e prontos para abraçá-lo agora." Os espíritos das árvores

sérgio disse...

Parabéns pelo BLOG!
Abração!