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domingo, 18 de setembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - A REVOLUÇÃO PELAS PALAVRAS

É preciso aprender a silenciar. Só no silêncio há peso suficiente para engordar as palavras. Ouvir o rumorejo que acorre de todos os lugares (cabeça, corpo, memória, fantasia, história, idade) para sedimentar um discurso coerente, para erigir e trançar com firmeza, as nossas posições no tabuleiro do jogo.

Vivemos um jogo, do início ao fim porque herdamos um lugar, uma cultura e tudo o que esteve antes por ali. E é ali, desde o tempo dos balbucios, que somos ensinados a pertencer. Quanto mais ficamos, mais adquirimos as marcas do lugar. Mais somos. Para a alegria. Para o orgulho. Para o reconhecimento dos traços que nos enlaçam: vocabulário, vestimenta, culinária, calendário, vultos, música, dança, folguedos, hábitos, festas, mitos, lendas, poesia.

Pertencer exige pactuação. Para além da geografia. E a irmandade pode se dar em muitos outros níveis. Enquanto se comemora a República Farroupilha, fico pensando...

Para mim a maior revolução foi a leitura. Tornar-me independente para ler tudo e na hora que eu quisesse, era proclamar a república, em favor das letras. Era nesse espaço-tempo que eu queria morar. Não depender do governo imperial da mãe, do pai, dos adultos para brindarem-me com histórias era tudo o que eu almejava. Poder enlaçar o livro, abri-lo, domá-lo, subjugá-lo docilmente, e poder dizer no fim, isso é meu! Agora ninguém me toma! Claro, depois de lido, o livro é de quem o leu, e não dá mais para arrancá-lo, assim como não se pode desdizer uma palavra que foi dita. A boca não consegue engolir uma palavra que já foi pronunciada!

Os discursos estão aí para dar testemunho, para justificar, para convencer. E Bento Gonçalves, defendendo destinos, diz: “O que fizemos não foi uma rebelião e sim estamos fazendo uma resistência legítima”.

Por trás de tudo, está a construção da Nação. Por isso, quero celebrar a Nação Literária, a Nação das Palavras. Uma Nação que também é criada através da língua e da leitura. A consciência dessa história que se forja ao lado, na margem, numa via paralela, secundária, a gente só adquire depois de muitos livros lidos, bebidos, mastigados, cuspidos. Falar dos livros é treino para o discurso próprio, que quanto mais se independentiza, mais sedutor fica. É a tal da peculiaridade avançando junto a nós, para provar que o indivíduo também é o seu texto único. Como Bento, que defendia o “Direito das Gentes ou princípios da Lei Natural aplicados à condução e aos negócios das nações e dos soberanos”. Ler é treino para a soberania!

E a leitura é direito das gentes! A Escola me presenteou isso. Ou me apontou caminhos. Num primeiro momento, lembro-me do diário de Henrique, que no exercício de tornar-se homem, foi tornando-se também um verdadeiro patriota, com sensibilidade e honra, na Itália unificada, em “Coração”, de Edmond de Amicis.

Mas a minha ferocidade, estimulada, aguçada, foi desenjaulada com “A revolução dos bichos”, com “Memórias do Cárcere”, com “A casa Verde”. Orwell, Graciliano Ramos, Vargas Llosa, me atiraram de encontro a esse ser político que eu precisava me tornar.

Minha grande experimentação ideológica foi sim nos livros! Sobretudo nos textos de teatro: Brecht, Maxim Gorki, Tcheckov, me conduziram pela mão ao território sagrado do ser social, combatente, atuante, mesmo pela visagem dos contrários. Confeitado ainda pela poesia de Maiakovski!

E a literatura, correndo pelas veredas secretas da leitura, operou em mim a verdadeira revolução. Farroupilha sim, no que tange ao direito de ter voz própria! No que me faz cidadão!

No fim, o que fica gritando é ainda a urgência da construção do Leitor Nacional Brasileiro! Início, meio e fim para cada um celebrar sua identidade! Somatória e não-excludente!

Viva a Revolução das palavras!

(by Celso Sisto – 17/09/2011)

8 comentários:

angela disse...

Viva!!!

Clarice Luvison disse...

Celso! Como sempre teus textos me encantam.Continue este blog que tanto me fascina.
Este texto comparando a revolução Farroupilha e a das letras, fantástico...
Abraço

celso sisto disse...

Clarice, minha linda! Eu tenho gostado muito de escrever as crônicas. Pode deixar que continuarei o blog sim! Beijão!

A Literatura e Hudson disse...

Adorei muito o blog parabéns continue com essas belas palavras. Hudson Carneiro.

celso sisto disse...

Valeu Hudson, toda semana, em geral no sábado, tem crônica nova no meu blog. Acompanhe. Obrigado. Abraço.

Cacá disse...

Delícia de texto!
Já dizia Caetano... a língua é minha pátria né?
Para se tornar um grande escritor você só poderia ter lido coisas muitos boas mesmo! Parabéns pelo blog! adorei! beijos

celso sisto disse...

Cacá, minha querida! Obrigado por sua leitura! Fico muito contente mesmo! Beijo e saudades!

Márcia Funke Dieter: escritora disse...

Mais uma vez me deleito com suas palavras...Parabéns pelo dom, parabéns pelo blog. Parabéns!