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domingo, 4 de setembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - UMA PELE DE MIL CORES!


Fui feliz. Lá no passado enfileiravam-se as brincadeiras. A fantasia transbordava o meu imaginário. As cantigas entravam e saiam pelas janelas da casa e da gente. Adoçavam a boca. Coloriam paredes. Espalhavam alegria. Corriam para a rua.

A rua rodava. Era parque de diversões. Parque das emoções. Escola de fazer amigos. Lugar de treinar personagens, de jogar o jogo da vida assim na base do faz de conta: pula carniça, chicotinho queimado, pique bandeira, gritaria e zoeira; berlinda, passa-anel, telefone sem fio, queimado, e estava tudo acabado! Tudo silenciava de repente quando uma das mães contava histórias.

Carregando coroas e mantos invisíveis, para o reino da rua risonha, fabricávamos laços, sentados nas calçadas. E nossas ações-agulhas, iam entrelaçando os caminhos, apertando mãos, estreitando abraços. Acostumando-nos ao bordado que nascia com a convivência. Era assim que descobríamos que o mundo ia além da nossa casa e era muito maior que a envergadura das nossas asas. O mundo era outro. O mundo era o Outro. E ia engordando o nosso mapa, aos poucos.

O vento trazia notícias, perfumes, crenças. Confessava acontecidos e gritava manchetes. Empurrava-nos para outras partes. Aliado ao tempo, conduzia a carruagem. O corpo dava sinais das estações, e de aldeia virava país. Mas era o olho, só o olho arregalando-se, é que denunciava: transformados em gordas estrelas, em esfera, em globo é que sabemos que crescemos.

Pois foi assim: palmilhando o Céu, detentor de segredos, e curioso com o destino, que cresci. E cresceram comigo as histórias, a arte, a literatura. De todas as expedições aos cantos do mundo, ergueu-se, majestoso, o continente africano.

Primeiro os contos populares. Os livros de histórias africanas multiplicando a minha identidade. Ergueram-se em muitas línguas imaginárias, o Sameron, o Blimundo, o Tutu-Marambá, o Quibungo. Por isso, entrei na casa de Óscar Ribas, de Olinda Beja. Colhi paixões nos jardins-livros de Mia Couto e Pepetela. Chorei com Chinua Achebe, gritei com as mulheres de Paulina Chiziane, sussurrei preces com a poesia de Ana Paula Tavares em rituais seculares, e cruzei outros mares, encharcado da ancestralidade.

Hoje, banhado nas águas da Mãe África, carrego uma paixão continental. Enraizada tal qual as cantigas e nanas do baobá, principalmente quando se diz em lingala, no Congo: olélé olélé molíbá mákási (olelê, olelê, a corrente é muito forte). Ou quando se canta, em bamena, nos Camarões: woh meu ngo mbou le (que faz o menino chorar?). Até que se possa dizer em wolof, no Senegal: sama doom! sama soppe! dund a mata ñaan oo, moom laay ñaan sí Yálla (Meu menino! Meu querido! A vida merece que se reze e é por isso que rezo a Deus.). Ou, para celebrar, enfim, a infância, em Ruanda, quando se diz em kinyarwanda: ínjangue ínjangue yanjye írwaye um mutwe, mama arayígulíra íngofero nzíza (ao meu gato, ao meu gato lhe dói a cabeça; minha mãe lhe comprará um chapéu muito bonito).

Eu, com o chapéu bonito da fantasia, que a mãe de Ruanda me comprará, conquistarei muitas terras. Mas, é para misturar-me cada vez mais ao compromisso com a infância (ainda que mande a lei), que carrego no andor o sempre Mia, Ondjaki, Agualusa, Valter Hugo Mãe, Niki Daly, Meshack Asare.

Para celebrar a afro-brasilidade, congratulo-me com Joel Rufino dos Santos, Rogério Andrade Barbosa, Reginaldo Prandi: autores que me revelaram distintos mapas da literatura africana no Brasil.

E é no dicionário de Nei Lopes que quero morar. Para ajudar a amar a literatura africana. Para tornar a literatura socialmente útil. Para reforçar o pacto que fiz com a palavra-patuá: na beleza, na sorte, na magia, poder ser instrumento da vasta, múltipla e inesgotável cultura africana.

Sou feliz. Aqui, no presente, ergo a voz, para repetir, como disse aquele amado escritor: minha pele pode ter pouco tom, mas minha alma tem muitas cores!

(by Celso Sisto – 04/09/2011)

10 comentários:

Ana Lucia Miranda Pereira disse...

Adorei! Vc é show! Bjks.

celso sisto disse...

Ana Lúcia querida! Obrigado por sua sempre sensível e atenta leitura! Beijos!

Marize disse...

"Tudo silenciava de repente quando uma das mães contava histórias."
Isso acontecia na minha infância quando minha mãe contava histórias para mim e aos meus nove irmãos no sítio de meu avô Leobino, todos ficavam sentados em cima de um encerado de caminhão que ficava forrado no terreiro na frente da casinha de meu avô e como lá não tinha energia elétrica a gente só tinha a luz da Lua. Meu avô também contava histórias de assombração. Tudo era mágico! Tudo ficou inesquecível!

celso sisto disse...

Marize, minha linda! Que legal! O seu avô já tem nome de personagem! E imagino que essa aura mágica seja fundamental também no seu trabalho de contadora de histórias. Tá explicado de onde vem! Beijos!

Milene disse...

Tocante a tua crônica. Lembrei dos livros que apresentaste do Valter Hugo Mãe, que tocaram profundamente a minha alma. Ao lembrar, ainda sinto lágrimas nos olhos. Minha paixão pelo continente africano parece que não terá fim, só aumenta a cada descoberta.Obrigado por fazer parte desta LUZ LITERÁRIA que me invade!Bjs
Milene

Anônimo disse...

Realmente, quantas cores a alma pode ter...! Basta permitir-se: conhecer ao outro - pessoas, livros, mundos - e a mim mesmo! E, sendo assim, ser capaz de se admirar, e aprender, e crescer, e sonhar!

Belíssimo texto! E, para deixar registrado, minha vida já não pode mais ser a mesma após ler apenas 2 histórias de Ondjaki! Posso dizer, assim, que também sou feliz!

Bruna M.

Virgínia disse...

Olá Celso,bravo!Amei,me fez voltar à minha infância e às histórias que ouvi.Parabéns pelo maravilhoso texto.Beijinhos mineirinho uai!

Djine Klein disse...

Olá, Celso, minha pele se arrepiou na tua paixão, foi junto nas palavras escolidas para dizer sobre teu sentir.
Eu senti. E te senti quase doendo de alegria pelas novas descobrtas.
Ah, o mundo pra quem embarca nesse barquinho e se navegar palavras... nunca mais terá chão.
beijo

Rosalina e Verdolina disse...

Celso,
Que linda crônica, viajei pelos lugares sentindo as mesmas emoções!!! Que maravilha! Parabéns. Um grande abraço.

Giselle Segobia disse...

Querido amigo
Teu dom é dividir
Tanto mundo...
imagens cálidas
perfumes distantes
sabores proibidos
A alma se ilumina e vibra:
Meu amigo foi lá e me contou!
Obrigada, Celso das pessoas Sisto
Pelas palavras
que iluminam os desejos
que lavam os olhos
que mostram adiante
que são pra valer!

Beijo


Giselle