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terça-feira, 15 de novembro de 2011

CARTOGRAFIA DE UM CONTADOR DE HISTÓRIAS


Basta um “era uma vez” para as pessoas se prepararem por inteiro: os olhos viram tela de cinema, querendo ver projetado tudo o que o outro vai dizer; o corpo esmorece como se pedisse lugar de conforto e entrega almofadada; os ouvidos se esticam para captarem também os infrassons e ultrassons, criando assim um parentesco sinfônico com golfinhos, elefantes, morcegos e cães.

Quem abre a boca para contar uma história pede ao outro licença para aspergir perfume no ar. Oferece, como no antigo Egito, ungüentos aromáticos aos faraós-ouvintes, que só podem suportar com essências refrescantes, o clima quente e árido do lugar.

Quem abre a boca para contar uma história, oferece uma bem dosada mistura de óleos essenciais, álcool e água – se óleos essenciais fossem a emoção, álcool, a trama e água, o texto. E quem espalha perfume no ar, deveria fazê-lo antes como se o fizesse aos primeiros senhores: aos faraós do império egípcio das histórias que atravessaram o tempo

Mas nessa cartografia da oralidade, o coração de quem conta é também (e sempre!) a fornalha do conto. A forja onde o texto incandescente é moldado pelo narrador para adquirir a forma desejada. Ainda que ao ferreiro caiba só apoiar na bigorna a barra de metal e bater forte com o martelo, para que o texto quente fique modelável e se transforme em arma de fazer sonhar, dialogar, voar, transcender. Arma aqui é antes brinquedo!

Mas quem conta histórias também pede toque invisível na pele das palavras, que como uma cartela de tecidos, apresenta as mais diversas texturas: da lã à seda; do linho ao algodão; do cetim à viscose. Tocar e sentir. Tocar e provar. Tocar e vestir-se.

Quem não se veste com as palavras de uma história, não chega a enrodilhar-se nela. Fica de fora! Assistindo ao desfile e gritando feito louco: “o rei não está nu!”. “O rei não está nu!”. Que pena, pois só um rei nu carrega o sagrado manto da história.

Mas, sem exercer também o papel de anunciador, o contador de histórias não é mensageiro de nada. É preciso ser um Tirésias, anunciando a Édipo-Rei a sua verdade atroz. É preciso ser um Melanipo para compreender a linguagem dos animais. É preciso ser um malak para carregar entre as asas a anunciação, e estar investido do poder de falar no lugar daquele que o enviou. E quem envia um contador de histórias e o investe assim dessa função passarinhesca é a própria história. Sem história bem ornada, não se edificam monumentos e o construtor de palácios, que é também o narrador oral, se move no deserto infindável, sem nenhum oásis e sempre morto de sede. Palavras que não comportam rios, não servem para as caravanas de histórias.

Mas, no mapa desse contador está ressaltada a legenda: um contador de histórias é antes de tudo um arauto da boa literatura. Aliás, é ela que nos pigmenta! Que nos fixa! Que nos avoluma! Que nos faz acidentes geográficos no mapa colorido das letras. Um texto sem urdidura, não ergue no ouvinte uma catedral!

Se D. Pedro I criou entre nós o cargo de arauto, os festivais e simpósios e seminários de contadores de histórias, anos depois, deveriam nos lembrar da missão pública que é comunicar tratados, fazer declarações de guerra e de paz, relatar o desenrolar das batalhas, trocar prisioneiros, ordenar saques, bem como anunciar as vitórias da beleza, da língua, da arte, da imaginação criadora. Se o livro dos arautos é obra anônima, que existe desde 1416, está na hora de fazer existir o LIVRO DOS ARAUTOS DA LITERATURA, não para servir de manual aos que acompanhavam os embaixadores aos Concílios, mas para lembrar que as crianças do passado e as crianças do futuro precisam das nossas melhores histórias.

(by Celso Sisto – 15/11/2011)

4 comentários:

Rosalina e Verdolina disse...

Tuas palavras aumentam a responsabilidade do contador de história, mas também dá alimento para seguir na caminhada.
Fiquei emocionada quando li, pois me dei conta, mais uma vez do "poder" que temos na palavra. Lembrei das crianças, aqui e acolá que me olham enquanto conto uma história, demonstrando na sua expressão sua emoção, momento encantador e inesquecível.
Para esse momento, não preciso dizer mais nada, você já disse tudo!

Um grande abraço,
Fábia.

celso sisto disse...

Fábia, minha linda! Nunca disse que a responsabilidade de um contador de histórias era pequena! Fico feliz com seu comentário porque conheço bem sua seriedade e seu empenho! Sou fã do teu trabalho e do teu investimento no mundo dos contos! Beijo grande!

Fabio Lisboa disse...

Concordo, Celso, o contador já tem um trabalhão em transpor para a fala a história escrita, entao q a palavra oral seja baseada no texto não-banal e no sim-boa-literatura, boa-urdidura, boa-ventura!

celso sisto disse...

Oi, Fábio! Adorei pensar, junto com seu comentário, que esse é também um exercício de bem-aventurança! Obrigado!