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domingo, 20 de novembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - CONSCIÊNCIA MULTICOR

Todas as cores são lindas! Não me importa se eu sou branco! Me importa sim, que no meu país, tenhamos sérios problemas com injustiças e desigualdades sociais! E não basta prestar atenção nisso apenas no Dia Nacional da Consciência Negra. Um único dia dedicado a refletir sobre a inserção do negro na sociedade brasileira é muito pouco! O que é um dia perto de quase quatro séculos de exploração e tráfico negreiro? E perto de toda a dor, discriminação, preconceito que tudo isso acarretou?!

A melhor maneira de diminuir essas distorções históricas e sociais é não ficar de braços cruzados! Passo o ano inteiro contando histórias africanas para meus ouvintes! Mas, hoje, gostaria de oferecer a mim mesmo, num ato de rebeldia, e para alegrar meu coração, a história de Joel Rufino dos Santos, “O presente de Ossanha”. Na sempre necessária revisão da História oficial, o moleque-brinquedo desse conto me arranca lágrimas. O uso absurdo de um ser humano por outro é deplorável, ainda mais quando isso está horrivelmente justificado pela cor da pele! Ainda mais quando tamanho absurdo envolve crianças, em tudo iguais! A dignidade, a inversão dos papéis, a contestação do lugar de escravo, a maneira como prevalece o que é humano em cada um, fazem deste texto uma obra ímpar.

Mas há outras obras para serem lembradas, não só hoje, mas o ano inteiro. “O amigo do rei”, de Ruth Rocha também foi uma das primeiras a ganhar meu coração. A amizade do escravo Mathias e de ioiô, seu patrão, vai além de qualquer lei, e tudo se reveste de outro significado quando os meninos vão parar numa aldeia de negros fugidos da escravidão.

Pois então, que nessa galeria não faltem os belos exemplos de sucesso. Que os heróis negros sejam relembrados muitas vezes: é preciso falar de Zumbi sim! Explicar para as crianças que o Quilombo dos Palmares é um lugar emblemático, mas é também um legítimo lugar de reorganização e salvação da vida quase perdida. Que como na minha memória, ao som do korá, ecoe a voz dos griôs, como a de Galissa, que vindo da Guiné, encheu-me dos marulhos ancestrais e brindou-me com a emoção diamantizada nos olhos, na flor multicor da pele. Na fulgurante flor de luz, descoberta ainda que tardia de Negrinha, de Monteiro Lobato.

É preciso proclamar, aos quatro ventos, que em todas as áreas há a presença valorosa também do negro. Que homens bravos tomaram para si a tarefa de lutar por espaço para a cultura e para a população afro-descendente, no Brasil, como fez Abdias Nascimento. Na poesia, no teatro, no cinema, na vida política. Epa epa Babá!

É preciso contar a mitologia dos orixás, sem medo de que isso seja falar de religião. A hipocrisia perpetua a mitologia grega, celebra a romana, mas veta a mitologia africana nas escolas brasileiras. Pois hoje quero abrir os olhos e ver Oxumarê colorindo o céu; quero ouvir a voz de Xangô anunciando que vencemos mais essa batalha; quero molhar o rosto nas águas doces de Oxum, para comemorar a vida em harmonia com as forças da natureza.

Que a alegria de ter conquistado uma data no calendário cívico brasileiro não nos faça arrefecer: não basta ter só uma consciência negra; é preciso ter olhos pra ver que dançamos música negra, que comemos comida primeiramente inventada por mãos negras, que professamos uma fé que também é de origem negra... Somos senão inteiramente negros, parcialmente mestiços, ora!

Mas a cor do sangue de todo mundo é a mesma! Lá por dentro, nos rios que irrigam a vida, somos todos vermelhos! Pois que seja esse o rio a banhar nossa consciência, nosso coração, nossa dignidade de seres humanos: Que seja esse o mar que se abre, na presença de Moisés, ou na presença das personagens que povoam o imaginário africano, como a Duula de Rogério Andrade Barbosa ou apenas os exuberante peixes e os magníficos corais do nosso Mar Vermelho no Coração das Histórias.

Que nossa consciência, nossa erí-okán, seja como as montanhas de rubis, dos antigos viajantes da costa arábica; que tenha tantas faces como o diamante; que seja multicor, porque afinal, Machado de Assis, Aleijadinho, Pixinguinha, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Ruth de Souza, Cartola, Nei Lopes e tantos outros seres-preciosos são jóias para ornar a coroa da cabeça de qualquer brasileiro!

(by Celso Sisto – 20/11/2011)

8 comentários:

Anônimo disse...

Olha Sisto, fiquei emocionada
com tua crônica. REalmente história nas
tua mãos têm a leveza dos pássaros
....E então, não se sofre tanto.
Queremos deixar prA TODA A HISTÓRIA DO MUNDO O CORAÇÃO
DO BRASIL,os Guerreiros da tão
sonhada liberdade.
Que sejamos sim, de consciência multicor em toda nossa vivência. Abraços.
Mácrima *
***Te conheci na Bienal atraves de Marize Sarmento

Anônimo disse...

Olha Sisto, fiquei emocionada
com tua crônica. REalmente história nas
tua mãos têm a leveza dos pássaros
....E então, não se sofre tanto.
Queremos deixar prA TODA A HISTÓRIA DO MUNDO O CORAÇÃO
DO BRASIL,os Guerreiros da tão
sonhada liberdade.
Que sejamos sim, de consciência multicor em toda nossa vivência. Abraços.
Mácrima *
***Te conheci na Bienal atraves de Marize Sarmento

celso sisto disse...

Olá, Mácrima! Obrigado por seu comentário tão sensível! Continuaremos botando a boca no mundo, a boca cheia de belas histórias. Abração!

DCHIQUINHA disse...

celso bom dia
Começar o dia a semana lendo uma cronica sua realmente elevo os olhos a Deus e agradeço a ele de ter feito uma criatura como voce neste mundo de correria ,e agradeço a ele por ter me dado oportunidade de taõ pequena insignificante e ter voce fazendo parte na minha vida ,parabens pro tudo que escreve paranossa alegria,grande beijo meu amado

celso sisto disse...

Chiquinha! Minha querida amiga e contadora de histórias! É um privilégio ter uma leitora como você: humana, sensível, cheia de bondade! Sou seu amigo com muita alegria! Grande beijo, minha linda!

Milene disse...

Lindo! Simplesmente lindo! Com toda a tua sensibilidade, que cada vez admiro mais, conseguiste colocar várias questões da cultura africana que está presa em nossas raízes! Devemos libertá-las sem pudor!
Um abraço querido!

celso sisto disse...

Milene, como é bom receber os comentários dos leitores! Obrigado pelo carinho! Eu sou admirador confesso da sua garra e empenho como professora! Um grande abraço!

Ana Paula Fernandes de Mendonça disse...

Crônica instigante, parabéns! Se nao tivessemos a oportunidade de conhecer as histórias africanas seriamos órfaos de encantamento, de amor, de alegria e de magia!