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sábado, 26 de novembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - MÚSICA AO LONGE, PARA ALIVIAR A DOR

Ninguém quer sentir dor. E são tantas, desde o princípio. A dor infantil, inominável para o bebê, mas reconhecível - dor de garganta, de ouvido, de barriga – vira, com o tempo da maturidade, dor de cabeça. Dor no peito. Dor no coração. Dor na alma.

Parece que já temos na palma da mão os sulcos da dor aprofundados pelo formão do grande artista do Universo. Xilogravurados no instrumento do toque. Um desenho tão original quanto intrigante, traçado também por agulha, para sinalizar as histórias de vida. Mas a vida dói, de alguma maneira dói. Clarice Lispector dói em mim quando diz que fez da sua dor o seu destino disfarçado.

Essa dor que não está localizada em nenhum lugar especificamente é a pior de todas. Imagino-me pássaro e com asa que não produz voo. Não. Imagino-me corredor e com um desgaste na cartilagem do joelho esquerdo! Não. Imagino-me piloto e repentinamente cego. Não. Imagino-me cozinheiro e sem paladar! Não. Imagino-me escritor e com o mal da dês-palavra. Imaginem: depois de escrita, a palavra se apaga sozinha. Não há linha que a palavra possa percorrer; não há vazio que a palavra possa preencher. Nem na oralidade: a palavra dita é imediatamente esquecida! E, portanto, não há continuidade. Fica só o relâmpago da palavra. A claridade lampejada naquele momento ínfimo! Um acender-se e apagar-se tão rápido que no fim, não importa nem mesmo a palavra, tudo é apenas um susto! E um retorno ao íntimo. Ao escuro.

Esse retumbar dolorido acende lâmpadas na linha do tempo, de qualquer um. Ilumina a palma da mão. Traz-me de volta a primeira notícia da dor e a primeira manchete da morte: o pintinho amarelinho sem calor e molenga que não abria mais os olhos, não ficaria mais de pé. E a boca, encharcada de acalanto, rumorejava ainda, e para sempre: “Tutu Marambá, não venhas mais cá, que o pai do menino te manda matar. Tutu Marambá, não venhas mais cá, que o pai do menino te manda matar”. Como uma viola tocando ao longe. Uma viola, os golpes nas cordas de aço, e a música plangente, tal qual guitarra portuguesa...

Tudo isso para dizer que tenho visto tantas crianças com essa dor não localizada. Estampada nos olhos. Moradora de longa data. Assentada à coluna, como uma vértebra. Basta percorrer as escolas para ver que a maneira mais usual de demonstrar afeto é aos socos e pontapés. Na dificuldade do abraço entre os iguais, o soco ainda é um apelo desesperado por contato físico. O pontapé, um pedido de base, sólida.

Por isso lembrei-me da música. Da falta que ela faz na vida das crianças. Dos acalantos, das cantigas de roda, das músicas infantis. Uma escola que canta não tem tempo para ser campo de batalha. A violência fica banida pela música... Por isso queria pegar a música, alinhavá-la com o músico (que pode ser músico-cd, músico-cantor-sem-instrumento, músico-falador) e transformar tudo em história cantada: “quem quer casar com a Dona Baratinha, que é bonitinha e tem dinheiro na caixinha?”. Melhor esse casamento por interesse declarado e cantado em voz alta na fantasia, do que homem que bate em mulher. Do que aluno que atira em professora, do que meninas que rolam pelo chão aos socos e puxões de cabelos, exibindo-se publicamente para as câmeras dos celulares.

Pois a música não é senão um jeito de açucarar os dias da infância, uma maneira de lambuzar de doces e balas a nossa história. Talvez seja esse o lembrete do nosso amigo contador de histórias Roberto de Freitas, ao cantar escoteiramente, com o público, em suas sessões de histórias: “a árvore da montanha olêiaô, a árvore da montanha olêiaô”. Cantar em coro gera um sentimento de pertença!

Foi justo por isso que convidei meus amigos escritores para escreverem histórias para as cantigas de roda. E o livro HISTÓRIAS DE CANTIGAS (projeto prontamente incorporado pela editora Cortez), que vem por aí, talvez nos ajude a ocupar o lugar de um Villa Lobos ao ofertar às crianças, as cirandinhas e os trenzinhos caipiras, de um tempo mágico de felicidade, sem socos e pontapés, sem lugar para a insana guerra urbana, mas com uma orquestra de crianças, cantando e tocando, para abraçar o mundo!

(by Celso Sisto – 26/11/2011)


9 comentários:

Else disse...

Quanta ternura, quanto aconchego nesse seu texto... A música é sim um caminho, um canal pra gente ninar a nós mesmos. Permitir se acalentar, dar a si próprio esse colinho, transformar toda dor através do cantar é um lenitivo do qual nossas crianças carecem e que todos nós somos capazes de oferecer.
Seja muito bem-vindo, livro!!

celso sisto disse...

Obrigado, Else! Lindo seu comentário. Me enche de esperança!

Milene disse...

Nossa Celso! Acho que estamos em sintonia esta semana... no início das minhas contações esta semana cantei um acalanto... As crianças ficam maravilhadas... cantam junto...A música com certeza faz bem para a alma...Aliás, faz bem para tudo. As músicas folclóricas são as melhores. Elas pegam e se fixam na cabeça das crianças e elas saem cantando por aí. Lembrei das cantorias da Lenice Gomes. Também das cantorias com minha afilhada Luiza, que tem dois aninhos apenas e já me ensina tanta coisa. Um abraço querido. Continue escrevendo estas coisas lindas. Aguardo este livro que comentou. Com certeza vai ser uma maravilha!!!! Milene

Cris Delprete disse...

Eu precisava muito ler algo assim... Obrigada Celso.

Eleana Roloff disse...

Oi Celso. Também tenho observado diariamente que o carinho está sendo substituido, aos poucos, por socos e pontapés. De fato, precisamos cantar mais nas aulas, nos pátios e nos recreios. Voltar a oferecer as crianças a magia do ouvir, do rimar, do pertencer. Quero convidá-lo a pular corda comigo no recreio da minha escola. Na sombra das árvores, sobre um chão de estrelas, entre gritos infantis. Bjs. Eleana,

celso sisto disse...

Milene, fico feliz em saber que cantar acalantos ainda são possíveis. Continue espalhando contos e cantos e teremos feito muito! Seu compromisso com tudo isso me encanta!Minha admiração! Meu carinho! Pra ti!

celso sisto disse...

Cristina Delprete, minha contadora e escritora! Espero que você continue sua trajetória de sucesso com as palavras! Bj.

celso sisto disse...

Eleana, pura poesia seu comentário! Eu quero pular nesse chão de estrelas sim! Me diz onde é! Bjs.

Mena Aguiar disse...

É realmente triste e desolador observar que nossas crianças se tornam pessoas agressivas, pois são vítimas da violência dentro de suas próprias casas e por parte de seus entes mais queridos...mas, ainda creio que a educação é a mola que move a sociedade, basta que todos os que estão ligados a ela, façam a sua parte...um grande beijo de alguém que se tornou sua fã incondicional!