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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - FINDAR

                  
“Ouço o barulho do mar. As ondas dublam meu sono. Por enquanto sou peixe fora das águas, peixe-homem, de olhar-farol, provocando a noite...”
Acordei no meio da madrugada para anotar a frase. Era sinal de que o balanço de final de ano já havia começado. Momento sempre difícil esse de acertar as contas consigo mesmo! Depois da tal frase rondando a minha cabeça, como um enxame furioso de abelhas, impossível voltar a dormir. Melhor seria não resistir! Melhor seria brincar com as palavras! Aceito, então, de bom grado, o convite para o jogo fônico! Para o jogo imagético. Para o jogo idílico. Para o jogo onírico! E me lanço!
As palavras chegam às carreiras, como em um filme que num simples ensejo de retrospectiva, pretendesse dar conta das etapas de uma vida. Ah! Mal de quem avalia! Parece que só servem de mosaico os fatos exteriores. Pois eu quero mesmo é pensar nas transformações interiores! Quantos alvéolos pulmo-fabulares são necessários para manter viva a fantasia de mais um ano de vida?
Pra começar, uma confissão: tenho sempre pedido aos deuses que não me deixem dormir no ponto! Que eu esteja sempre desperto quando as coisas importantes acontecerem; que eu não perca o fio da meada, a hora exata, a chance de estar no lugar certo na hora certa. Com lucidez e benevolência!
O mais engraçado disso tudo é que eu esteja aqui pensando em falar de coisas que findam, quando na verdade, sempre estive preocupado com as coisas que perduram. As coisas que acabam por vezes me apavoram! Acabar uma amizade, um trabalho, a convivência com um grupo, terminar uma disciplina, encerrar um núcleo de estudo e pesquisa, sufocar um amor, esquecer uma dor... Eu tenho uma dificuldade monstruosa de me desfazer das coisas. Não é rancor! Nem mágoa. É para trazer a minha história sempre bem tatuada!
Lembro-me que quando era pequeno, a família inteira dizia que eu gostava de cacarecos - adoro essa palavra, saborosa demais!-, e me comparavam inevitavelmente com a minha avó, que gostava de guardar coisas: caixinhas, embalagens, papéis, selos, barbantes, fitas coloridas, latas, etc. Fiquei para sempre refém dos guardados!
Mas, não pensem que sou um acumulador, simplesmente. Sou um colecionador, fui, talvez. A idéia de coleção me atrai. Mas, ameaçado pela modernidade e pela pressão do descartável, ao longo da vida, fui abandonando os objetos em séries. Quer saber? Colecionei plásticos de carro (do tipo adesivo, que naquela época chamávamos de colantes), chaveiros, cartões postais, selos, álbuns de figurinhas, cartas, revistas de histórias em quadrinhos. Durante muito tempo guardei a revista do Cebolinha, do número 1 ao número 100, resquícios da minha gostosa infância em São Paulo, quando descobri a biblioteca da Vila Mariana e disputava com o Luiz Henrique quem lia primeiro a revista que chegava nas bancas. Ficamos amigos depois de sairmos no tapa, na sala de aula, nem sei bem porque! Na quinta-série eu já me sentia um grande pesquisador – talvez fosse mesmo um eterno brigão! Hoje sei que juntava essas coisas porque elas me traziam memórias! Quer saber? Hoje, minha grande coleção é de livros. Tenho muitos, inúmeros, fora todos os que fui doando ao longo da vida e, principalmente, nas mudanças de casas.
Mas, para voltar ao princípio (deste texto, inclusive), vejo-me então no oceano da vida (ainda que a noite seja de insônia!), no mar das origens, para dali avançar sobre o mundo que me espera adiante, na beira da praia azul, poeticamente organizada com casinhas brancas, como se fora uma aldeia grega. Foi dessa paisagem que emergi. Talvez meu passado de peixe tenha me ensinado a respirar em qualquer habitat, já que sempre acreditei que um peixe vivo poderia viver fora da água fria e na sua própria companhia. Foi dessa paisagem que emergi já que andei buscando o farol. Ai, os faróis, as luzes-guias que me fazem navegar, que latejam repartidas em mil contos, como em Os faroleiros, de Lobato...
É na condição de peixe-homem, que não é senão a habilidade de se adaptar às condições locais, e com a sorte de possuir um olhar-farol, que eu saio do mar para voar. Um peixe que voa, que produz mel, que carrega flores...  Não vou enumerar todas as coisas que fiz no ano que ora termina. Não me interessam os exercícios findos! Interessam-me os exercícios perduráveis: os amigos ao redor, a paixão pela literatura, a opção pela criança, o infinito gosto pela sala de aula, o inabalável prazer de contar histórias. Nada disso é vítima do pesar! Pelo contrario!
Para começar minha próxima translação, que deve durar 365 dias, 5 horas e 48 minutos, venho visitar Jano, o deus romano dos portões, para aprender com ele o mistério de ser bifronte: uma face voltada para o passado e a outra, para o futuro; para frente e para trás, no eterno jogo de réveiller.
 Para celebrar o despertar, doze uvas nas mãos, ouvidos atentos às badaladas, e a Puerta do Sol escancarada!!! Que venha então o Ano Novo!


(by Celso Sisto – 30/12/2011)

6 comentários:

Else disse...

Celso, me vi muitíssima nos seus achados e perdidos por esse mundo e mudanças, acumuladora,colecionadora, buscadora de faróis e anti-finalizadora-de-coisas que sou...
Meu coração estáqui disparado pelo despertar dessas ocultices todas.
Um beijo carinhoso e respeitoso procê, feliz 2012.

celso sisto disse...

Else! Adorei sei comentário! É tão bom quando encontramos parceiros para as nossas ocultices literárias! Meu carinho pra você!

angela disse...

Celso, agora eu me permito a uma vitrine com a cacarecada. Não posso ver uma loja de 1,99 sem enlouquecer. Predileção por certos tipos de cacarecos... boneca de papel, por exemplo, baixo zilhões da rede! E tenho duas histórias reais sobre dois objetos, de arrepiar. Vou fotografá-los e te mandarei as histórias. Ah! que saudade do barulho do mar!!!!

celso sisto disse...

Angela! Adoro loja de 1,99! Mas evito entrar! hahahahaha! Quero saber as histórias dos dois objetos já! Me conta! Ah! Que saudades d'ocê! Beijos.

Giselle Segobia disse...

Terminei de ler tua crônica com um quase chorar, esse suspiro quero colocar lá nos meus guardados e sempre poder lembrar dessa surpresa com temperas teu texto , ali fresquinho , na hora de servir. Pois que nos é servido um texto só o temos após a leitura completa, aí começamos a saborear e hmmmmmmmmmmm
Que felicidade é poder te ler, amigo! Parabéns pela pessoa excepcional que tu és! Tenha um 2012 maravilhoso!

celso sisto disse...

Giselle! Você é uma amiga super sensível, inteligente, amante da leitura e grande, grande como as palavras mágicas que nos tocam...
Que 2012 nos queira próximos!