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sábado, 17 de dezembro de 2011

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - LIVROS COM ASAS

Desde pequeno somos treinados para ganhar uma série de coisas: da comida à proteção, da atenção aos presentes, do carinho aos jogos, do destaque à preferência das pessoas. 
Foi assim na minha casa: filho do meio, sempre tive que me esforçar mais para atrair a atenção dos meus pais. A minha sorte é que além de malcriado, eu era criativo e afetuoso. Às vezes, só quando convinha! Se a palavra era ríspida e o gesto bruto, por escrito eu sabia como dissolver a agressividade e adoçar as desculpas. 
Na escola, os concursos de redação foram as primeiras vitórias. Depois aprendi, pela voz doce de Dona Wanda, a escrever diários e a criar personagens, que a cada segunda-feira viviam uma nova aventura. A peripécia maior era sempre merecer a atenção da professora, os seus preciosos comentários para promover a excelência do texto. Embora não fosse uma olimpíada grega, quando ela escolhia o nosso texto para ser lido para toda a turma, colocava em nossa cabeça os louros da vitória. A cabeça coroada ficava maior, exigia ouvintes atentos e olhos estelares de admiração. 
Sob a cruz de Nero, para reviver a fase do protesto, lembrei-me que tirei o primeiro lugar na redação do Vestibular. O que, de algum modo, espelhava a minha relação com os livros, com a literatura, com os autores brasileiros, sobretudo. Fui leitor voraz de Graciliano Ramos, principalmente. Talvez ali eu já intuísse que a potência do texto estava na síntese. Na pulsação e na turgência que o texto pode adquirir, convocando o leitor a desarmar a bomba ou a apertar o olho do tumor! Aprendi com isso, a nunca ficar passivo diante da boa leitura! 
Os grandes livros continuam gritando dentro de mim. Caio Fernando Abreu gritou sempre dentro de mim. Pirandello gritou forte dentro de mim. Tennessee Willians gritou alto dentro de mim. Morangos mofados me ofertava a palavra visceral; À margem da vida, além de peça era também a caixa mágica da identificação; Seis personagens a procura de um autor fornecia contingentes para a rebelião de quem queria ganhar voz. Eu queria escrever daquele jeito! Isso, claro eu só sei agora. Dormia abraçado aos livros, repetindo baixinho as palavras-confeitos, até que elas fossem minhas. 
Também quis escrever como Garcia Márquez, como Vargas Llosa, como Julio Cortazar. Fiel a uma identidade latino-americana, procurei raízes, mastiguei folhas e engoli obras, oferecidas em banquete. Cheguei então a Lorca, a Calvino, a Saramago, como se nomeá-los, me possibilitasse experimentar palavras-senhas, um Abre-te Sésamo para o meu exercício da escrita! Um Ali-Babá que me conduza à tradição oral. 
Pois foi esse gosto da cultura popular que me levou aos clássicos, à infância, à criança que eu sempre fui. Tinha ido de brincadeira em brincadeira, andando em roda, a tentar encontrar aquela que fosse a minha preferida. Rodopiar com as palavras me reconciliava com a infância. Depois que contei a primeira história para uma criança, renasci. Mil vezes encontrar o mesmo caminho! Mil vezes estar parado à porta do Reino Encantado da Meninice, para provar, estupefato, a sua imensidão. 
Esse mistério é que institui o maior prêmio: a cumplicidade do leitor com quem rola com ele no chão das inúmeras infâncias. 
Hoje tenho nas mãos dois prêmios Açorianos: melhor livro infantil e livro do ano. Eu os desejei, claro. Assim como desejei o estado mais meridional do Brasil, o Rio Grande do Sul, a cidade de Porto dos Casais e a freguesia Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre. Nascer numa nova terra tem sido desafio diário. 
O sorriso, por tudo isso, é largo. No meu abraço cabem os 58 livros que já publiquei até aqui. Mais do que ganhar prêmios pelas obras que hei publicado, é saber que a literatura é sem fronteiras e sem adjetivos. 
Falamos em ganhar como se alguém fosse perder. Mas como falar em perda, quando se escolhe, dentre obras de destaque, um livro para ganhar mais destaque? Não há perda nessa relação! Há valorização maior, num universo de já valorizados! O ideal é que o ganho se esvaísse nele mesmo! Ou seja, a partir desse momento, fica tudo zerado e volta tudo a ser igual! Buscar a melhor maneira de contar, em cada livro novo. Desejar que o leitor se identifique. Torcer para que a literatura entre nos vazios, faça vibrar as cordas da harpa-humana, crie ecos. Ganhar respeito para a literatura infantil é o que importa. 
Esse é o discurso que não fiz. Esse é o discurso pós -prêmio, que só agora pude elaborar, sem sustos: a palavra que me rasga os olhos, assim, até ficar miudinho, de tanto sorriso, de través e de revés é DIÁFANA como pode ser um livro, quando nos abraça. Tremura de querer, quentura de ninho, fartura de existir... Estarei morando, agora e sempre, nas dobras da história. E sussurrando no vento: obrigado, Danila! Chamem as crianças (não importa a idade!), a poesia do livro infantil correu mundo! Voou! Venceu! 

 (by Celso Sisto – 17/12/2011)

7 comentários:

Milene disse...

Bravo! Bravíssimo! Muitas glórias a você cavaleiro de tantas histórias. O prêmio só solidifica ainda mais as preciosidades que você escreve. Criatividade e sensibilidade. Parabéns mais uma vez! Um abraço forte! Muita luz dourada para você!
Milene

celso sisto disse...

Milene, minha mais nobre leitora! Suas palavras são sempre de carinho e incentivo! Bela pessoa que és!Linda luz que lanças em tudo e em todos. Meu afeto, sempre.

Professora Sala de Informática disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
angela disse...

58!!! Que bacana! Quantas ideias, personagens.. já pensou em um livro que reúna todos os personagens ? Que história daria! O que aconteceu com o menino que ficaria de castigo se falasse palavrão no primeiro dia do ano| Continua falando palavrão?
Premio é muito legal mesmo. Eu não era boa em redação, errava muito a ortografia.. :-)
beijos!! De sol!

celso sisto disse...

Angela, querida! Um livro com todos os personagens ia me enlouquecer! Não posso! O menino que vivia de castigo continua aprontando, falando palavrão e ficando de castigo. O prêmio só aumenta a minha vontade de escrever mais, de fazer mais, de produzir mais... E, claro, conquistar sempre mais leitores. Obrigado pelo carinho e grande beijo!

Sayaka Hime disse...

''Torcer para que a literatura entre nos vazios, faça vibrar as cordas da harpa-humana, crie ecos.'' Ao ler esta parte, na hora me lembrei de Assis Brasil, em 'Ensaios íntimos e imperfeitos'!

O que posso dizer, Celso?? Suas postagens são sempre tão poéticas, filosóficas e inspiradoras, assim como seus livros! Amo seu trabalho e desejo que em 2012 venham ao mundo muitas outras histórias encantadoras!!

Sucesso para você, sempre!

Um grande beijo,
Bruna

celso sisto disse...

Bruna! Fiquei feliz com seus comentários! Afinal, o melhor da escrita é o diálogo que ela pode estabelecer! É isso que me move também! Obrigado pelo carinho! Um beijo!