Seguidores

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 69




Texto Celso Sisto; foto do Arquivo Nacional (USA), domínio público.


69. Não estou pronto. Não estarei. Ouço o sino ao longe e me curvo, profundamente, para sondar a reverberação da vida em mim, e o bronze lustroso anuncia: quem sabe dos silêncios são as formigas! Enquanto me esparramo na terra, corpo e carne, ouço mais uma vez a longa sinfonia... Dias em que cantam as pequenas coisas, as cores, as flores, o sol... Aviso: nunca mais deixarei de ouvir as pedras!

30.12.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 68





Texto Celso Sisto; foto de domínio púlbico

68. As árvores se embalançam! Voam frutos para todos os lados. No meu quintal eles são palavras saborizadas: projeto (gosto de futuro); livros (gosto diário de fantasia); lar (gosto de reencontro); respeito (gosto de cidadania); prazer (gosto de realização); crianças (gosto de eternidade)... Pronto! Com a cesta repleta, posso agora esperar a próxima ventania! Enquanto isso, aprendo a voar!!!

30.12.2012


sábado, 29 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 67




Texto Celso Sisto; foto de domínio público


67. Tempo de nada. Tempo de tudo. Pendurar pássaros na árvore da vida é motivo de alegria. Escavar a própria sombra. Escalar a longa cabeleira do tempo. Só há história porque a vida me dotou de memória. E palavras. E bocas. E gritos. E canções. Hoje é dia para enrolar o fio da vida no corpo vivo do tempo. É hora de repartir as agulhas de bordar. Um novo ano vai começar!

29.12.2012




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 66




Texto Celso Sisto; foto de domínio público

66. A tarde dorme, cercada do cochicho dos pássaros. Cada asa dobrada é brasa para a fogueira noturna. Minha ciranda agora corre como os ventos circulares. Canto para pastorear as nuvens. Danço para acompanhar as folhas da palmeira na chuva. Minha natureza, dupla, afoga-se neste banho de mar e beleza. Deixa-me ficar, assim, feito coisa que não quer parar de procriar, de ser onda, de fazer chuáááááá....

28.12.2012


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 65



Texto Celso Sisto, ilustração de Kim Seong-hwan 



65. É preciso que a nuvem cinza encubra o dia. Os mistérios vindouros ainda são segredáveis. E a palavra em mim é alegria. Aos poucos deixo também a sombra e vou receber esse enxame de luz, que ora sinaliza onde há flor e mel. Serei também este que procura a poesia com pés e pás!

27.12.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE"... 64




Texto Celso Sisto; foto de domínio público, 1909. 

64. Levantar voo. Sobrevoar a si mesmo. Nesses céus intermináveis hei de vislumbrar as saídas. Todo dirigível é uma chama oblíqua, flutuando entre o sonho e a fantasia. Escrever no espaço azul da minha imaginação flambada é tarefa da qual não escaparei. Por isso aprendi desde os primeiros natais a fazer o presente durar o ano inteiro!

26.12.2012


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 63




Texto Celso Sisto; ilustração Maxfield Parrish

63. Agora que o tempo é tênue e os nós estão desfeitos, avança a noite de luar. Mais dia menos dia haverá dança, e a sagração alvissareira nos conduzirá ao topo da montanha das horas. Logo será preciso atravessar um novo deserto: o ano inteiro. Estrada sinuosa, mar revolto, floresta densa. Para cada geografia haverá em mim um gesto de poesia.

26.12.2012


domingo, 23 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 62




Texto de Celso Sisto, ilustração de Lawrence Alma-Tadema

62. Onde mais poderei chorar palavras, senão na folha do rosto? E é esse vento insone, levando água e sal, batizando a dor, espalhando cacos de cristais da memória que soprará novas histórias! Viver é assim: riso e faca, festa e corte, na hora exata!

23.12.2012


sábado, 22 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 61




Texto Celso Sisto; Ilustração Margareth W. Tarrant

61. Era apenas a sombra das asas. Mas eu já estava livre. Qualquer canto era bálsamo estrelado. Saltar raios de sol é tarefa simples: dois olhos e um sopro respiratório. Vai-se longe! Na linha do horizonte é que está o melhor presente: a vida toda pela frente!

22.12.2012



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 60






Texto Celso Sisto; ilustração de Margareth W. Tarrant


60. Começar agora! Pronto! Já! O mundo que ia acabar parou para deixar a poesia se espalhar. Verão que aqui nas redondezas, o mundo explode em cores. Verão que logo ali se eleva no ar o aroma almiscarado da terra molhada. Verão que mesmo diante das ondas do mar de augúrios, corre para espalhar na areia a espuma branca da paz. Ainda há tempo de trocar de roupa, mergulhar nas profundezas do dia, cheio da secreta profecia, que faz a pele da gente arrepiar. Não será mais necessário agasalhar-se, senão com o sussurro espichado e felpudo de um quase-fim-do-mundo poético: poesia de nunca mais acabar! Poesia para marcar todos os dias no calendário do novo mundo!

21.12.2012


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 59



Texto Celso Sisto; Ilustração de Anne Anderson


59.  Abrasador o tempo de olhar para trás. Os incêndios da memória não destroem as minhas histórias. Renovam. Constroem de outro jeito. Remodelam. Dão a mim o poder de arquitetar outros edifícios. Por isso, vivo erguendo esta cidade de contos, com seus materiais de demolição; com suas construções fabulares, seus jardins mitológicos, seus parques lendários. Abecedários da fantasia. Só entre os monumentos de palavras me sinto habitante, cidadão redimensionado, cumprindo aquilo que eu mesmo escrevi na palma da mão: ser mais, ser mágico, ser fio, mutante, duende e gigante, inventor itinerante, letra pulsante, um grito repercutido nas paredes das cavernas fulgurantes, do era uma vez. E para sempre (numa tempestade de instantes)!

08.12.2012


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 58






(Texto Celso Sisto, Ilustração de Iris Susanne Bennett, para a capa do livro "The patchwork path, a quilt map to freedom", de Bettye Stroud)


58. Colcha estendida, alma lavada. Foi preciso que a Avó sustentasse, com agulha, o primeiro ponto. Pronto! Os retalhos miúdos foram compondo o tecido, crescendo como o rio que avança, que ziguezagueia na linha de frente, com a tarefa de atar bravuras em todos os tempos. Ainda agora estou polindo as histórias costuradas na colcha. Prendo-as pacientemente na minha pele. Elas são minhas. É o fio da vida que preciso amarrar! Meu carretel de cores, esses pontos múltiplos, o primeiro verbo! Se a Avó me abrigou debaixo da palavra desse ofício tecelão, erguerei o manto das histórias, para descobrir as crianças com seus olhos-de-estrelas. Avó, Avó, mal sabia você que aquela agulha dourada seria o lápis da minha vida!


23.11.2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 57





(Texto Celso Sisto; imagem: tecido com símbolos africanos)

57. Consciência! São muitos os rios da minha brasilidade, eu sei. Mas hoje quero navegar o Nilo, o Congo, o Kagera, o Niger, o Zambezi. São essas águas turbilhantes que movimentam as histórias. Quero ouvir a voz das águas! A voz das águas! E as canções dos ancestrais, e os rumorejos festivos dos griôs. Quero ouvir tudo! Meu chi há de gostar! E embalado pelas crianças que estarão anunciando a lua nova, comeremos o inhame sagrado. Saudaremos esse dia: Zumbi, possa o teu rosto, ao encontrar-se redondamente com o meu, alargar o coração do mundo! Trago terra nas mãos e a lembrança do fogo. Nossos rios estarão sempre murmurando: força, beleza, sabedoria; força, beleza, sabedoria; força, beleza, sabedoria...Condição para fazer novo dia!

20.11.2012


domingo, 18 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 56




(Texto Celso Sisto; Ilustração John Bauer)


56. Beleza explicável: o dia nos braços do sol, o mar levemente encapelado, o vento acariciante. E na barriga do mundo, as formigas carregando suas provisões de felicidades, a terra dizendo que sim em porosidades umidificantes, as sementes esticando as pernas para o ar. Eu me alongo também em direção ao reino maior da fantasia. Em dias assim só sirvo para ser duende!

18.11.2012


sábado, 17 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 55






(Texto Celso Sisto; Ilustração Jessie Willcox Smith)

55. Claridade. De repente, a luz. Aos poucos, de uma vez, intermitente, sonora (há luz que é morada de passarinhos!). Agora ando no rastro das palavras luminosas. E este mistério do clarear, que começa na boca, me convida ao jogo da pronúncia. Mal digo ABÓBODA e o azul celeste se projeta no ar, se desdobrando como flor que se abrisse agora. Digo PRATEOU e os raios sonoros correm, fazendo sulcos ao redor de mim, como se revelassem as entranhas rasgadas na pele do dia. Experimento dizer AMANHECEU e lentamente a luz dos meus olhos se ofusca com o derramar da aurora. É isso! A palavra anuncia. Mas eu, inteiro posso ser o objeto da conversão. Isto sim é alegria!

17.11.2012


IX FEIRA DO LIVRO INFANTIL DO HOSPITAL SÃO LUCAS - PORTO ALEGRE




Na próxima semana, no dia 22 de novembro de 2012, próxima quinta-feira, acontece a IX FEIRA DO LIVRO INFANTIL DO HOSPITAL SÃO LUCAS. O evento faz parte do projeto "Literatura infantil e medicina pediátrica, uma aproximação de integração humana", que está comemorando seus 15 anos. Neste dia receberemos o patrono da nossa feira, o escritor Luiz Coronel e os escritores convidados Alexandre Brito e Celso Sisto. O projeto é da professora Solange Ketzer, coordenado pela Faculdade de Letras da PUCRS (dirigida pela professora Maria Eunice Moreira) e com a minha colaboração e das professoras Maria Tereza Amodeo e Vera Pereira. Confiram a programação!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 54





(Texto Celso Sisto; Ilustração de Newell Convers Wyeth)



54. Sou uma pedra. E estou no meio do caminho, como quis Drummond. E não há imobilidade no meu ser-pedra. Há solidez, inteireza, resistência ao choque. Eu mesmo rolo daqui pra lá, de lá pra cá. Sou uma pedra sim! E no meio do caminho posso ser ardósia, calcário, dolomite, granito, mármore, ônix, travertino, alabastro. O certo é que o meu ser-pedra só serve mesmo para revestimento em mim: piso, parede, jardim; corpo consistente em torno do qual a poesia se aninha. Quero ser pedra muitas vezes, para entrar no mundo com olhos minerais, e deixar que a área, a dimensão, o espaço e a extensão sejam calcificados pelas ação dos tempos verbais, dos milhares de poemas engoliiiiiiiiiiidos!

16.11.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 53


(Texto Celso Sisto; Imagem de Harper & Brothers, 1909)


53. Rodeado de cães, piso em casa. Entre latidos de felicidade, desfaço a mala. Cada um deles me rodamoinha com o olhar. Vou ficando recheado. Envelopado de amor, amor, amor. Depois chegam os pulos, os beijos, as reclamações em música latidíssima e as saudades libertadas entre patas e pelos. Como é bom saber que sou quase um deles! Andamos em procissão, visitando cada prato, depositando na mesa o que temos nas mãos: nosso pacto de nacionalidade. As histórias que nos contamos vêm borbulhantes de muitas línguas, escorrendo do riachinho-coração... suficientes para alagarem o resto dos dias...

15.11.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 52





(Texto Celso Sisto; Ilustração Anne Anderson)

52. Explosão. Letras para todos os lados. Passei horas catando as histórias que se misturaram, todas! Acho que depois disso nunca mais poderei contar com certeza nenhuma história, sem desconfiar que as palavras se movem, sem pressentir que está ali um personagem oculto, sem esperar que de noite, haja um verdadeiro levante, e que, empunhando lápis, canetas e borrachas, esses sujeitos de papel, promovam metamorfoses para as quais me tornei incapaz. Pobre escritor! A morte do texto é só o início do próximo!

13.11.2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 51







(Texto Celso Sisto; Ilustração Maxfield Parrish)




51. Abrasador este tempo de brotações. A palavra dá frutos sempre que realiza a mágica de alinhar candura, ourivesaria e alento. Por isso essa posta-restante guarda muitas mãos, muitos olhos, muitas vozes. Até que seja reclamada por seu destinatário, a poesia espera. Eu é que não posso mais esperar!

05.11.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 50





(Texto de Celso Sisto; Ilustração de Thomas Mackenzie)


50. Que tenho eu para oferecer senão palavras-em-flor? Enquanto eles fabricam venenos e atiram sobre si o pó das estrelas, eu trabalho a terra da poesia. Da minha árvore, recebo outros ventos. Logo o botão explodirá e o perfume ganhará existência. Que seja também meu invólucro, para não precisar dizer nada além daquilo que coloca o outro de pé. Quando a brisa sopra, parece dizer veementemente: olhai os lírios do campo, olhai...

04.11.2012


sábado, 3 de novembro de 2012

LIVRO-ARBÍTRIO 1




 (Texto Celso Sisto; Ilustração de Harry Clarke)

LIVRO-ARBÍTRIO 1 - Uma correnteza de palavras não é suficiente. O que encanta é o canto, o polimento, o jogo, o que ficou por dizer, a história mostrada e não contada, as fagulhas provocadas pelo contato. Na página da vida, meu texto respira, pulsa, ergue-se e vai. Quer ler os outros, mas quer ser lido, preciosamente, por um leitor amoroso. É assim! Ou leio para fundir-me, ou nada começa em mim!

03.11.2012



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O QUE DISSE MEU ESCRITOR PREDILETO...


Primeiro escuto, começa sempre por aí. Qualquer escritor é um escutador em primeiro lugar. Depois capturo o que me comoveu e me roubou o chão. Tem de ser algo quase que me dissolve. Uma frase, uma pessoa, um momento, tem de tomar posse de mim, fico perdido. Depois para dar um sentido às coisas tenho de sair de mim, e aí começa a história.

MIA COUTO

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 49




(Texto de Celso Sisto; Ilustração de Ida Rentoul Outhwaite)



49. O poeta está chamando. Quer me fazer feliz, com esse manto de palavras, bordadas e tecidas à luz do luar. O poeta está chamando para louvar aqueles que foram, mas deixaram rastros: a flor, a luz, a prece, onde a sombra cresce, a vista alonga, o coração se espalha de um jeito doce. A força do abraço mantém cativa a lembrança, ergue um altar, permite tatear no corpo o tempo refeito. Pudera dizer, pai! Somos inteiros. E ainda ardemos em chamas. Imolados. O poema está clamando. E eu também!

2.11.2012


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 48




(Texto Celso Sisto. Ilustração de Agnes Boulloche)


48. Afogado em livros! E nadando no mar das histórias. Quero sim essas embarcações feitas de papel e tinta, que deixam as voluptuosas ondas rebentarem na minha cara! Que não me protegem de engolir a água da poesia, que me empurram para as profundezas do oceano romanesco, sem colete salva-vidas. Quando retorno à superfície, venho multiplicado e revestido da força de 156 mil cavalos-marinhos. Que outra carapaça - senão a minha - mais cutânea e queratinosa poderia receber a ventura dos contos? A fisgada dos sonetos? A granulação das crônicas? A aceleração das tramas novelescas? Livros! Pois se subo neles é para me atirar na acqua-fresca-literária. Não, não quero salvação!

1.11.2012

sábado, 27 de outubro de 2012

LANÇAMENTO DO MEU LIVRO NA 58ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE


Amigos e amigas (e isso inclui ALUNOS E ALUNAS!!!), conto com vocês no lançamento em Porto Alegre (sessão de autógrafos), do meu livro novo das Paulinas, com ilustrações de André Neves. Dia 08 de novembro (quinta-feira), às 18 horas... Ala Infantil da 58ª Feira do Livro de Porto Alegre, Cais do Porto.

SEMINÁRIO "A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS" NA 58ª FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE




Está chegando a hora! Entrada franca! Ainda é possível se inscrever pelo e-mail: agenda@camaradolivro.com.br

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 47



(Texto Celso Sisto; Ilustração de Willy Pogany)

47. Quero o silêncio cristalino, para ouvir a respiração das flores. Uma gota se enchendo e depois derramando os odores de outrora. As azedinhas explodindo na boca e os canteiros da Avó formando ruas para as nossas bicicletas-voadoras. Escapulidas rápidas! Correr é o que mais se aprende na meninice! Passam por mim os velozes cachorros, latindo o prazer oculto de irem na frente, aos pulos, para alcançarem as mangas das camisas. Eles abocanham a minha atenção; e eu... encho o peito de futuro, para os dias em que não haverá mais brinquedo e nenhuma língua-pátria que afague. 

27.10.2012

domingo, 21 de outubro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 46


(Texto Celso Sisto; ilustração Virginia Sterrett)


46. A voz torneada me alcança, como uma revoada de pássaros. Mais do que o bater das asas, é a sofreguidão que me impressiona. A força despreendida, o movimento hercúleo, a limpidez no sentir. Pelo labirinto dos tímpanos, desço até o centro de mim. Depois de rasgar o tempo, com as unhas, não saberei mais voltar sem cantar. Minhas melodias guardarão sempre um jeito de protestar. Sou vate, saltimbanco, adivinho, subindo pelas tranças do mundo...

21.10.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 45


(Texto Celso Sisto; Ilustração Virginia Sterrett)


45. Doce a música, falada por todas as embocaduras - clarividentes clarinetas, sagrados saxofones, tremeluzentes trompetes - e, empurrada por todas as línguas. Reluzindo, com o o ouro dos metais, a orquestra serviu banquetes, incendiou paixões, espalhou encantos. As canções, encharcadas de perfumes, fizeram o refluir dos mares, desafiaram as tempestades, deixaram avançar as belezas que ficaram escondidas no fundo da caixa de Pandora. Como é possível viver sem essa partitura invisível, que tange sonhos, olhares, miudezas e induz a caminhar na ponta dos pés? Dissipar os desertos! Tocar a linha do tempo! Pisar firme a terra filarmônica dos livros é segredo que só uma confraria de sopros pode contar! Voilá! O barco das musas já pode ancorar!

20.10.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 44



(Texto Celso Sisto, ilustração Kay Nielsen)

44. Professar. Nasci em ninho de palavras. Promulguei minha liberdade de pensar nas nuvens e nas rotas estelares. Criar é porta para a imensidão; reluzir é acreditar que tudo pode gerar luz! A escada que leva ao Céu está feita de livros. E eu vou, de degrau em degrau, arrancando também as páginas: gaivotas (ou passarinhos) não suportam a prisão. Minha profissão é voar. Minha profecia é amar. Sou eu, professor, profusão de papéis, recomeçar.

15.10.2012


sábado, 13 de outubro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 43

(Texto Celso Sisto; Ilustração Kay Nielsen)


43. A tarde está forrada de murmúrios. As incontáveis folhas dançam na calçada. Escapam-me os segredos. Abaixo-me para ouvir as flores e sou encapsulado pelo vento. Assim, vestido com o manto transparente das histórias, desfilo minhas alegrias: o embornal das palavras, a valise dos personagens, os lábios molhados das cantigas, os gestos arredondados dos rituais, os lápis pirográficos da escrita, a emoção dardejante dos olhos. Ninguém gritará a minha nudez! Nunca estará nu quem amarrou a ponta do novelo lá na infância e foi entrando na floresta encantada, atrás de João e Maria. Pão e pedra. Alimento e sinal. Doce e sal. Ir e voltar é que ensina a habitar-se...

13.10.2012



DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 42



(Texto Celso Sisto; ilustração em porcelana, com desenho de Walter Crane)

42. A casa está em mim. Carrego meus santuários nos braços estendidos. Um rastro de veleidades me acompanha. A xícara, a compoteira, o licor das frutas, os espelhos de cristal - tudo tão vítreo e frágil e duradouro. Repito vagaroso os gestos. Agora a solenidade é uma dança. E tudo o que eu quero é me sinfonizar, como se cada objeto oculto da casa-corpo fosse um instrumento que sopra, dedilha, repercute... Me parto em notas que se perderão no ar! Mas no fim da melodia está a criança, tão sonora criança, a cantarolar sozinha a história que virá...Atravesso o futuro e os tempos se encontram!
12.10.2012

domingo, 30 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 41




(Texto Celso Sisto; Ilustração Albert Dubout)

41.  Vestígios de vida invadem a manhã. Sobras do dia ficarão pelos cantos. Ao longe um miado, um latido, um cacarejo, um relincho. É o Quixote que desperta em mim, desenhado a carvão e fixado pelos bons ventos do sul. Serei louco, sonhador, cavaleiro. Serei passional, trovador, aventureiro. Serei leitor de mundos, nas montanhas domingueiras, amenizadas pelas sombras das palavras que me acompanham em estado de criançamento. Ao ar, toda a arte de trafegar. Ao relento, toda a sorte de erigir monumentos! Os moinhos também são a casa da poesia, e é pra lá que eu vou!
30.09.2012

sábado, 29 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 40



(Texto Celso Sisto; Ilustração Virginia Sterrett)

40. As andorinhas espalham segredos. O inesperado rasga a pele do céu como um raio. Exortação da voz, do olhar, do desamparo. A carruagem do Sol chegará sozinha ao umbigo celestial. Mas há ainda estas pequenas fissuras serpenteando meu rosto, dizendo que é o pastoreio dos anos sobre a minha terra que me enverniza. Minha tarefa é engordar palavras. Com a carne do poema talvez seja possível sossegar o tempo, afundar sem peso, arrefecer, vespar em outras vidas.
29.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 39




(Texto Celso Sisto; Ilustração Rene Bull)

39. Longe. As imensidões não podem ser medidas com fios de cabelos. Embrenhar-se nos pântanos da criação é afundar inteiro na lama faiscante da memória e da experiência litúrgica da escrita, da leitura, das diabruras de que sou capataz. Medir a corrosão do grito, a aceleração da respiração, a luz do olhar, a latência da dor me tornaria um idiota! Os quilômetros do meu texto-corpo não são mais que passos assombrados sobre um si mesmo! Tentando abraçar uns outros. Muitos outros. Tantos outros.
26.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." 38





(texto Celso Sisto; ilustração Warwick Goble)

38. A cidade hoje parece feita inteiramente de vidro e aço. Carregamos bolas de chumbo nos pés e somos prisioneiros. Arrastamos corpos. Retiramos apressados do sono os dedos autômatos. Os gestos recrudescem. Empilhamos discursos que ficaram por dizer. Mas ali, na dobra da esquina, esvoaçam as bolhas de sabão. Milhares. Na boca do vento.Tão leves e diáfanas, que os olhos, alheios às flores aladas, preferem caminhar em direção à morte. Haverá sempre uma arma apontada para a cabeça do sonho e eu deveria aprender a desarmar desejos!
25.09.2012

domingo, 23 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." 37




(Texto Celso Sisto; ilustração Warwick Goble)

37. Que domingo tocará os meus pés, quando o vento silenciar? Que flor se abrirá hoje, no jardim das letras, deixando saltar do ontem a doçura inebriante das manhãs com Quintana? No antigamente a roda-gigante, o carrossel, a maçã do amor, o cata-vento e os sapatos floridos anunciavam a primavera. Agora preciso adubar os vasos e as artérias. Meus gerânios se alimentam de outra seiva. E querem florir o ano inteiro. Rubramente!
23.09.2012


sábado, 22 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 36



(Texto Celso Sisto; ilustração John Bauer)

36. Para o coração da poesia, simplicidade. Para o chão da poesia, pés descalços. Para o banho da poesia, olhos receptores. Para a vida na poesia, indulgência. A arte de extrair das palavras o seu teor aurífero e pacificante, a sua beleza enredante, o seu gigantismo aliciante não tem nada a ver com a arrogância dos desfolhadores das letras, com seus bisturis de aço, acostumados às autopsias deformadoras. No fim, fica o poema sangrando, a céu aberto, retrato da vaidade. E perdido, para sempre, o desejo de pertencimento, o múltiplo sentido, a grande simbiose.
22.09.2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 35


(texto Celso Sisto; ilustração Ernest Haeckel)

35. Um dia serei árvore! Cerejeira. Flor do Deserto. Sequóia. Drago. Figueira. Acácia-rubra. Jacarandá-de-minas... Tão digno abrir tantos braços, recolher tantas vidas, alimentar tantas bocas. Estar em pé e em movimento de alerta. Com a cabeleira esvoaçante, as folhas enfeitadas de gotículas, a pele maleável da cortiça vestindo o tronco... Uma valsa com o vento, e lá se vai a chuva. Uma visita do sol, e falaremos todos a língua do rouxinol. Ah, hoje me dei conta: junto com os livros, tenho brincado de ser casa-na-árvore inúmeras vezes. E é nela que sobem as minhas crianças, para saltarem para a fantasia. Eu as empurro todas, rumo ao primeiro voo. Esse que não tem mais volta...
21.09.2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 34




(texto Celso Sisto, ilustração Kay Nielsen)

Desenhar com os olhos a paisagem. Contornar a estrada. Abrir as porteiras. Para libertar a voz guardada em cada pedra alisada pelo tempo é preciso convocar as avós. Que elas venham em bandos, com seus sorrisos balsâmicos, para ligarem nosso presente às nossas origens. Rendadas de flores e anáguas. Trazendo licores. E portando leques. Para desentranharem, mais uma vez, as histórias que ainda precisamos ouvir!
20.09.2012

domingo, 16 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 33



(texto Celso Sisto; ilustração Edmund Dulac)

Queria mesmo ter asas! Mais que um sonho, um projeto de vida! Aprendi com os pequenos seres que voar é também um estágio obrigatório da condição humana. E depois que se adquirem asas, sejam de papel crepom, seda, de membranas de liga leve ou enfeixadas por varizes irrigadas de sangue-solar, o próximo passo é... virar personagem e enfrentar a tempestade grande e cheia, rumo à Ilha de Próspero!

16.09.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..."- 32

(texto Celso Sisto; ilustração Kay Nielsen)

Ficarei contando gotas de chuva. Quantas serão necessárias para aliviar o choro convulso da terra, alimentar os rios, lavar a alma? Não pouparei um dedo sequer. Me entregarei à água, como o recém-nascido se entrega à infância dos banhos. As gotículas que saltam, as perolazinhas que se desmancham, os risquinhos no nariz. Quero inaugurar o dia de domingo, como um barquinho de papel que avança na pequena enxurrada, de mãos dadas com a bailarina de cartão e sob o olhar-baioneta do soldadinho de chumbo... Andersen que nos salve!
16.09.2012

sábado, 15 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 31



(texto Celso Sisto; ilustração de John R. Neill)

Sinos acordam outros tempos dentro de mim. Esse carrilhão, que desperta histórias, me conduz aos mosteiros onde se purificam as minhas palavras. O sagrado ecoa por todos os lados. Subo aos ares, para balançar nas cordas do badalo. Para voar inteiramente convertido em bronze. É como se... uma explosão, como se... outros sons. Como se a estridência, o baque, o toque, o arranhão... Em cada nota, rompe-se um invólucro, tange-se uma legião, move-se uma história, dialogam os ponteiros do velho relógio. Aquele, ainda, guardado na casa da Avó. Por que voltarei sempre a ele, como se na sacristia de cada poema eu tivesse que presidir o rito? Paramentar o ato? Beber do cálice? Poeta, sátiro, sacerdote inábil, tudo isso eu... Que os sinos não me desamparem! Não me ensurdeçam!

15.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 30

(texto Celso Sisto; ilustração Harry Clarke)

Azul da alegria. Ler o firmamento todos os dias. Desencantar pássaros, nuvens, cometas, estrelas, carruagens, pessoas, monstros, e até mesmo anjos. No Céu das palavras. No esgazeado livro aberto diante dos olhos. Outros olhos. De ver para dentro. Afinal, no meu azul celestial flutua o que eu bem quiser!

15.09.2012



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 29


(texto Celso Sisto; ilustração de Antoine Saint-Exupèry)

O oásis estava bem ali na frente. Mas eu não via. Procurava a raposa, a serpente, o aviador, o desenho de um carneiro, a rosa na redoma de vidro, os baobás, que tudo o mais perdeu o contorno. Agora levarei muitas estações para voltar ao mesmo ponto. As luas insistirão nesta sucessão de luzes e eu tatearei cada palmo do deserto das letras, procurando aquela ampulheta, que me fazia domar a pressa. O tempo assim, escoado em páginas brancas sem linhas ainda é o meu verdadeiro salvador. Mas morrerei sempre, e cada vez que um príncipe-menino se calar.

12.09.2012