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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - ÁGUAS DE VERÃO



Dizem os versos de Dorival Caymmi: “é doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar”. Pois eu sempre morri de medo do mar! Quer dizer, de aprender a nadar no mar. Meu pai me levava para o fundo (que aqui quer dizer “mar adentro”), na praia de Ipanema, na altura da rua Francisco Otaviano, trecho onde morava a minha avó naquela época, e me largava, cercado por meus primos e irmãos-peixes, sob o controle de seu olhar-gaivotesco! Isso me deixou para sempre devotado ao mar, às ondas verdes, à doçura da praia, à liberdade pseudo-nadadora, mas... muito mais amigo da prudência e da esperança do que das aventuras marinhas!
Não é trauma. É respeito. O verão me traz o mar, e o mar me traz lembranças poéticas! Por exemplo, dos apetrechos para se levar à praia. Tem coisa mais infantilmente gostosa e colorida do que pazinha e baldinho de praia? É a certeza de que desde pequeno somos estimulados a testar nossos dotes construtivos! A praticar nossa veia-Niemeyer. A exercitar nossas mãos de grandes pedreiros do universo. A usar nosso poder criador.
Por isso, naquela época, minha diversão era fazer bolos de areia, levantar castelos e cidades, argamassar com água, respingos de mate Leão gelado, restos de sorvete Kibon e farelos de biscoito Globo, que invariavelmente caiam para todo lado. Minha tática era: ficar enrolando na areia, inventando e construindo todo tipo de coisa, para me livrar das aulas domésticas de natação. Até que meu pai, secundado pelos primos-farejadores-de-medo, que sempre estavam ao redor, me arrastava para as águas.
Mas depois que eu entrava no mar, não queria mais sair. Muitas vezes, até esfolar a barriga na prancha de isopor. Até ferver encarapitado na bóia enormemente preta de pneu de caminhão, que de vez em quando alguém levava para o nosso-parque-marinho-de-diversões. Sim, porque criança mais crescidinha na praia inventa tudo quanto é tipo de brinquedo! E quando o bando de meninos é maior que o bando das meninas, as brincadeiras quase sempre são acrobáticas e malabarísticas! Para desespero dos pais. No meu caso, para desespero das tias, especialmente a nossa querida Tiinha, que era quem servia de anjo da guarda, de dama-de-companhia, de cúmplice-que-deixa-tudo, quando se tratava de tomar conta dos pobres e endiabrados sobrinhos distanciados dos cuidados das mães!
Foi mesmo na companhia dos meus primos que passei por todas as etapas dos velhos verões: andamos de lancha, esquiamos, pescamos em ilhas, fizemos corridas de bicicletas, subimos em árvores, colecionamos bichos em vidros hermeticamente fechados, fizemos guerras de coquinhos, e até ficamos viciados em “Mineirinho”, o refrigerante mais comentado na baixada litorânea do Estado do Rio de Janeiro, Região dos Lagos.
Mas, guardei na manga, para só revelar agora, uma das maiores emoções desses Verões inesquecíveis. O Rio de Janeiro do início dos anos 70 não contava ainda com a famosa ponte Rio-Niterói, que só foi inaugurada em 1974. Para irmos a Araruama, onde passávamos as férias na infância, era preciso enfrentar as quilométricas filas da barca, na Praça XV. Ás vezes ficava-se de 3 a 4 horas esperando na fila. Eram balsas para automóveis, e na maior parte das vezes, a família ficava dentro do carro, enquanto a barcaça atravessava para o outro lado. Na hora de voltar das férias, a mesma história: filas e mais filas.
Uma vez, além do aborrecimento de ter terminado a temporada de férias, lá estávamos nós na balsa, voltando para o Rio, já de noite, aguardando sonolentos dentro do Fusca, na companhia do meu pai. De repente um apito e um aviso para que todos deixassem os carros e se dirigissem para a beirada da barca... Ficamos sabendo que a embarcação estava pegando fogo e que provavelmente teríamos que pular no mar. Imagina a nossa emoção?!!!!! Terminar as férias com uma aventura daquelas era ter assunto para durar, na certa, duas semanas inteirinhas, na sala de aula! Eu, desesperado, só pensava em salvar a minha lancha de controle remoto, que tinha ganho naquele Natal... Meu pai nos abraçou – estávamos eu e meu irmão – e valente, já maquinava como haveria de salvar os dois filhotes daquela catástrofe incendiária e noturna. Dava-nos instruções, recolhia salva-vidas e bóias, sempre muito calmo, para não nos assustar... até que... um novo aviso pelo alto-falante, acabou com a nossa farra-nervosa: era tudo rebate falso! Os passageiros já poderiam voltar para os seus carros! Aaaaaaaaaaahhhhhhhhh!
Pois esse episódio, que chegou aqui, boiando na minha memória, me faz pensar também na arca de Noé! O mundo se acabando em água. Todos aqueles bichos enclausurados na arca eram como todos aqueles carros estacionados na barca da minha infância. Só que na minha história a ameaça era muito maior: fogo e água!
Talvez, por piedade, um Noé de voz metálica, dá ordens pelo alto-falante e rapidamente me atira no mar revolto dos dias atuais.
De novo vejo o dilúvio! A tempestade bíblica se repete no país, a cada verão. Ano passado foi Teresópolis, Nova Friburgo, Petrópolis, Sumidouro, São José do Vale do Rio Preto; também várias cidades de Santa Catariana, dentre elas Taió, Gaspar, Rio do Sul, Brusque, Itajaí. Já haviam sido, em 2010, Angra dos Reis e o Morro do Bumba, em Niterói, bem como várias cidades de Alagoas e Pernambuco. Hoje mesmo, na região Sudeste do Brasil, são 153 municípios em estado de calamidade pública, por conta das chuvas e da vingança tardia dos deuses, quem sabe, contra o progresso e a civilização moderna. Até quando?
Imagina o que pode acontecer quando março chegar e vier mesmo a temporada das águas. Para fecharmos com outro verso musical, agora de uma cantiga de Tom Jobim, proclamaremos: “são as águas de março fechando o verão...” Tomara que nunca mais tenhamos que completar de um jeito torto: “é a promessa de morte em nossos corações”!
Por isso, vou pedir a Thor, o rei do Trovão, que com seu machado mágico, nos defenda da fúria das nuvens e dos Céus! Só não sei ainda para quem apelar, quanto à ganância dos homens, que recebendo recursos para agir, desviam dinheiro e acabam não fazendo nada para evitar as catástrofes das águas do Verão. Quem sobreviver, verá?!

(by Celso Sisto – 14/01/2012)

3 comentários:

Anônimo disse...

...muito bom rever os tempos de criança guardados na memória do coração
que a magia de Thor se faça presente mudando nosso triste, medonho guadro político
Sisto, continue nos premiando com o encantamento de seus contos, poesias...crônicas
PRABÉNS e SUCESSO dia 25
carinhoso abraço sonia pessoa

celso sisto disse...

Sonia! Obrigado pelo carinho! Espero poder continuar merecendo tão luminosas palavras!Meu afetuoso abraço para você!Corrente positiva para o dia 25!

Anônimo disse...

Suas cronicas temo poder de nos levar a infância.