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sábado, 7 de janeiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - DIA DE REIS


Passou a estrela guia, o astro visto no oriente. E suas faíscas traçaram o caminho, galoparam no vento, derramaram–se no local exato. E houve a festa da luz. Chegou, então, a vez dos Reis Magos assumirem o protagonismo da cena. Mas, de forma dinâmica, já que o normal é serem vistos estáticos, como os grandes adoradores, arrumados em bloco, nos presépios!
Mas, se o menino Jesus nasceu no dia 25 de dezembro (e há quem diga que não!), os três Reis Magos só o viram no dia 6 de janeiro! Por isso este é o dia dos santos Reis! Um dia inteiro dedicado aos sábios Baltazar, Melchior e Gaspar, que hoje são nomes emblemáticos: senhor dos tesouros, rei da luz e aquele que inspeciona.
Para ficar mais emocionante, dizem que os Magos vieram da Arábia, Pérsia e Índia. O que democratiza tudo! Amplia o leque humano. Enfatiza as três raças bíblicas. Mas também, dizem que eles eram astrônomos ou astrólogos; que não eram reis coisíssima nenhuma; que eram filósofos, etc. e tal. Fico eu então, filosofando cá: quantos caminhos eles poderiam ter andado se não parassem ali, naquela estrebaria? E se o menino fosse um pouquinho maior, do que eles poderiam ter brincado? Pique bandeira, talvez!  Para ficar claro de uma vez por todas, qual bandeira deveria ser erguida naquela terra! Mas essa parece ser uma brincadeira sem fim, porque ainda hoje os territórios da Terra Santa são disputados à tapa e não há rei que consiga resolver a questão!!!!
Pois aqui, na outra banda, a Ocidental, o Dia de Reis é dia de desmontar a árvore de Natal e guardar as luzes e os enfeites para a próxima temporada de festas de fim de ano.  Desde os meus tempos de choro estridente e berço, há um dia certo para guardar a luz e o ouro reluzente. O tempo de exposição da casa à luz piscante e aos enfeites fulgurantes não é justo! Não compensa o trabalho que dá para “fazer brotar”, ainda que imaginariamente, na ponta dos galhos do pinheiro (também moderna e plasticamente imaginário, na maior parte das casas), a fartura e a riqueza desejadas para a continuidade da vida. E aí, os Reis passam e levam tudo! Para dentro das velhas caixas, é claro!
Em alguns lugares em especial, eles deixam presentes! E as crianças recebem-nos (principalmente na Espanha) com água e comida para alimentarem seus camelos. E para não perderem a oportunidade ímpar (embora o dia seja par!), deixam também suas cartinhas com os pedidos de prendas.
Ora, se isso acontece mais na Europa, dá pra pensar que o Natal chega primeiro aqui e depois lá... Quando eu era criança, ficava me perguntando: por que aqui quem deixa os presentes é o Papai Noel e lá são os Reis Magos? E inventava que o Papai Noel, cansado, passava primeiro por aqui e depois pedia ajuda aos Reis, para distribuir os presentes na outra metade do mundo! E para trabalhar num dia como esse só mesmo sendo santo, daí, Santos Reis!
Quando cresci, descobri que para esse dia, havia o Bolo de Reis. E hoje, guloso como sou, penso mais na maravilha que é o tal bolo. E fico torcendo para que as tradições de outros lugares, que aos poucos vão apequenando o mundo, sejam difundidas largamente, aqui também.
O nome da iguaria de Reis varia. A receita varia. E ainda que a Galette des Rois tenha andado em terras brasileiras desde o período colonial, ela não pegou! Queriam os portugueses, mas não pegou! Quer dizer, em alguns poucos lugares, faz-se o Bolo Rei. Sabe aonde? Em alguns municípios do interior do Rio de Janeiro eu sei que fazem. Já não bastassem os panetones, ainda há esse bolo (enquanto ainda não adotamos também o turrón de Natal). Que tentação, meu Deus! Uns têm forma de coroa, outros de estrelas. A maior parte é redondo (e grosso) e, algumas vezes, ostentam uma coroa. Em geral contêm passas, frutos secos e frutas cristalizadas, que são as jóias que enfeitam as coroas dos reis. Mas a brincadeira mais usual é que dentro do bolo deve-se esconder uma fava e uma coroa. E quem achar a fava, terá sorte o ano inteiro e será o responsável pelo bolo do ano seguinte; quem achar a coroa terá riqueza e pagará o vinho do Porto no próximo ano. No abrasileiramento do Bolo, em alguns lugares vai dentro da massa um anel, uma cruz, uma moeda e um dedal. O anel significa casamento; a cruz, convento; a moeda, dinheiro; o dedal, trabalho. E agora cada um que interprete os símbolos como quiser!
Por falar em interpretar, me lembrei que em vários contos de fadas que eu ouvia na infância (e que leio ainda hoje!) têm anéis achados dentro de bolos! O mais conhecido talvez seja Pele de Asno. Também lembrei que as crianças adoram brincar de príncipes e princesas. E que o poder dos soberanos, exercitado nas brincadeiras ingênuas da meninice, pode ser também uma maneira de ensinar a explorar os mais fracos, os humildes, os serviçais! Ou a preocupar-se em demasia com o luxo e o glamour dos vestidos esvoaçantes e as futilidades da corte. Ou a só resolver as pendências na base da violência física das Guerras Reais. Olho atento! Tudo isso é muito diferente do sentido de ser Santo-Rei.
         O mais legal dessa simbologia do Dia de Reis é perceber que os poderosos, os magnânimos, os nobres se dobram diante de uma criança. Quem dera que esse ato respeitoso se ramificasse no tempo e chegasse aos nossos dias! Dia de Reis seria então dia de reconhecer o poder da criança. E cuidar bem da nossa infância já seria um grande recomeço!

(by Celso Sisto – 07/01/2012)

7 comentários:

Duaia disse...

Que lindo, Celso! Vou tentar linkar com meu blog, tá?
Ontem consegui uma Rosca de Reis, mais perto da tradição francesa, já que os 10 bolos que a padaria fez acabaram assim que chegaram e só fariam mais às 19h, muito tarde para meus Reis a chegar...
Que a Luz escape sempre das caixas, iluminando as riquezas que nem sempre a gente consegue identificar no dia a dia!
beijão, Duaia

celso sisto disse...

Duaia! Que delícia ler você aqui! Sempre que te vejo lembro da gente indo para Pedra de Guaratiba, naqueles frescões! Pode lincar com o seu blog sim! Vai ser ótimo, vou adorar! Obrigado pelo carinho! E que as riquezas sejam muitas, sejam humanas, principalmente! Beijão!

Cris Delprete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris Delprete disse...

Dia de Reis pra mim sempre foi muito especial. Entre o Natal e essa data, eu ficava todas as noites olhando (vigiando) os trilhos do trem, da janela do meu quarto, ali a Folia de Reis passava fazendo festa, um barulho ecoava entre um morro e outro por causa dos instrumentos improvisados. O que mais me encantava era o palhaço, de longe eu, criança, sentia emoção ao vê-lo, mas de perto, quando meu pai me levava pra ver o festival de folias, meu medo era inevitável, também tinha medo de olhar para o espelho na coroa do folião, ver meu rosto refletido ali significava que nunca iria me casar...
Hoje, poucas folias sobraram em Cachoeiro, na última noite de Natal eles passaram perto de casa e minha mãe falou “quase chorei ao ver o palhaço”, eu também quase chorei ao ouvir minha mãe, perguntando se um dia, quando tiver filhos, eles terão a oportunidade de assistir a essa festa que aos poucos vai minguando na minha cidade. Também desejo que essa cultura se espalhe, que permaneça e que continue produzindo todos os sentimentos que geraram em mim ao longo desses anos.

celso sisto disse...

Cristina! Me emocionei com o seu relato! Lindo, lindo, lindo! Aproveita e escreve um conto com isso! Lembre de nossas aulas! Se quiser, estou às ordens! Beijo.

angela disse...

Quando minha vó me deu o bolo de reis para partir, a noz veio para mim. Aí eu ganhei o presente: um livro com histórias da Carochinha. Ilustrações pequenas e mágicas em traços litográficos, um pequeno livro de capa dura, E eu fiquei pensanod.. ué.. é um livro para criança.. e se meu pai tivesse ganho a noz? será que vovó comprou um presente para cada ou papai ganharia também esse livro? Por aqui tem festa, folia de reis, mas choveu:-( aí o sanfoneiro que mora aqui(caseiro) não pode ira com a família, uma pena.

celso sisto disse...

Angela, transforma esse relato em história! É muito legal essa memória! Eu não tive espaço pra falar da Folia de Reis, na crônica. Ia ficar muito grande! Por isso, acabei focando no bolo de reis. Beijos!