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domingo, 22 de janeiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - MORAR NO INFINITO


Esta vai ser uma crônica longa! Como gostaria que fosse a vida! E cheia de conexões, como são muitos dos enredos da própria vida!
Amo o samba-de-enredo Macunaíma, em especial os versos que dizem; “Vou-me embora, vou-me embora, eu aqui volto mais não, vou morar no infinito e virar constelação”.  Isso sim é uma subida apoteótica; e ainda por cima, envolta numa certa dose de alegria consensual. Eu poderia ir assim!
O samba da Portela, do desfile de 1975, composto por David Corrêa e Norival Reis, narra as peripécias do personagem de Mário de Andrade e sua ascensão aos Céus. Pois agora, o samba me remete para a frase de Guimarães Rosa e seu discurso, quando finalmente resolveu tomar posse de sua cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 1967: “a gente não morre, fica encantado”. E ele ficou encantado apenas 3 dias depois!
Esse encantamento, nesta semana, deixou rastros por aqui, na porta do meu coração. Com a viagem só de ida de meu amigo - o grande escritor Bartolomeu Campos de Queirós -, me vi obrigado a pensar também na expressão “a indesejada das gentes”, usada por Manuel Bandeira no poema “Consoada”: “Quando a indesejada das gentes chegar, (não sei se dura ou caroável), talvez eu tenha medo”. Acho que eu sim! Mesmo que ela seja amável, como quer dizer a palavra caroável! Mesmo que ela seja carinhosa! Mesmo que ela seja afável! Por isso lembrei-me de tantos outros contos e tantas outras formas revestidas pela morte, quando da tarefa de vir buscar alguém aqui nesse nosso paraíso (ou seria Inferno?). Todas essas são imagens construídas senão por um visão religiosa, por uma visão mais, digamos, cética da vida, do mundo e das relações humanas. Não importa! Na hora de olhar a “grande Senhora” de frente, não interessa a foice, o rosto cadavérico, o capuz, os inúmeros apelidos, como Ceifador Sinistro ou Shinigami, o Deus da Morte, na cultura japonesa...
O que importa é que por trás do sentimento de posse das pessoas queridas, fulgura sempre o nosso desejo egoísta de não querer perder, de querer protelar, de querer aproveitar mais; desejo dissimuladamente egoísta, não é ? Nele está contida a nossa finitude, a nossa provável falência vital, a nossa hora final...
Pois bem nessa hora, em que a “iniludível” (expressão também de Manuel Bandeira) vai deixando rastros tão perto, me lembrei do filme “Yume” (que quer dizer sonhos), de Akira Kurosawa. No episódio “O vilarejo dos moinhos”, o último dos oito sonhos contados no filme, há uma celebração de morte. E isso sempre me impressionou. Uma celebração! Não é um luto! É um cortejo, alegre, colorido, contente, onde as pessoas ritualizam o fim daquela que teve uma boa vida, dançando, cantando, ao som de tubas, pratos, chocalhos, enquanto as crianças atiram pétalas de flores, indo em direção à colina!  É lindo! Queria ter essa aceitação, mas não tenho! Não sou japonês, não sou oriental.
Ao contrário do que reza o desprendimento dos tempos modernos, guardo coisas e pessoas! Nos meus papéis e guardados, estão meus cadernos e cadernetas. Até hoje tenho as anotações das aulas mais importantes da minha vida. Pois hoje fui buscá-las. No caderno da disciplina que um dia fiz com a grande mestra Francisca Nóbrega, que me ensinou a amar Bartolomeu Campos de Queirós com tamanho entusiasmo, está anotada uma aula em que ela havia utilizado um texto que tanto adorava: “Desenhando um menino ou Menino a bico de pena”, de Clarice Lispector. É com o mesmo sentimento de “real vegetativo” para poder entender o presente, que ouço ainda as palavras da professora,falando da “história antes e um pouco depois das histórias”, ajudando-nos a descobrir a essência do infantil, nos textos, inclusive de Bartolomeu.
Foi com esse mesmo sentimento de estar imerso no “vazio profundo” do menino do texto de aula, que escrevi meu primeiro livro. Ele é sobre a dolorosa morte do meu pai, que eu precisava tanto transformar em fantasia, para poder lidar com ela. Deu certo! O livro até hoje alivia a minha ferida. E adivinha quem foi a primeira pessoa a me felicitar pela obra? Meu amigo Bartolomeu, que me mandou uma linda carta, comparando o meu texto à escrita de Cecília Meireles. Foi uma emoção definidora do meu caminho! Ali estava inscrito ocultamente que eu tinha encontrado o rumo! Vasculhando sofregamente as gavetas, achei apenas um pedaço da carta, em que ele diz: “Aos poucos, com a paciência indispensável a todos que lidam com as palavras, Celso Sisto vem realizando seu percurso passando pelos meandros da reflexão sobre o próprio ato de criar, o que lhe garante um texto de qualidade invejável”. Essa generosidade, de um escritor que já era renomado, servirá de esteio para toda a minha vida! Pode ter certeza!
Termino o meu livro dizendo: “Hoje meu pai foi ser natureza em outro lugar”... Hoje meu amigo Bartolomeu foi ser poesia pura no infinito e virar constelação! Como Macunaíma, como Francisca Nóbrega, Gloria Pondé, Elias José, também amigos e escritores queridos.
E nós ficamos aqui, com a nossa dor. No dia da partida, escrevi o poema “Para Bartô”, que diz assim: atravessar o infinito, com a poesia nas mãos. Liberto e com asas!  Enormes asas! As Moiras partiram o fio, mas a memória o atará novamente. Ponho agora, recolhido de instantes, o coração para tomar sol e um barquinho no mar. E deixo que o silêncio, miúdo, caia manso. Folheio-me nos teus livros. Onde bem plantado estarás sempre. E perfumoso. O medo não interromperá esse voo, oblongo. E as pedras mais antigas se afastarão, para te verem passar. Meu deserto me acolherá, devagar, porque agora, estou dobrado, cercado de páginas em branco, salgando a dor” .
Esse gosto pelas asas, meu amigo também tinha. Num livro que organizei para a editora Cortez, chamado “Histórias de cantigas”, que está por sair, ele escreveu um conto para a cantiga “Se essa rua fosse minha”. No conto ele diz: “Minha melodia é uma oração pedindo ao anjo – que não vive em meu bosque – para, muito em breve, visitar meu coração”.
Nem bem ele escreveu isso e o anjo veio. Visitou seu coração. Assim como visitou o coração da Avó do conto Fita-verde-no-cabelo, de João Guimarães Rosa, cujo diálogo final dos personagens, sempre me impressionou:
“- Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!
– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta... – a avó murmurou.
- Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!
- é porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta... – a avó suspirou.
- Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!
- É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha... – a avó ainda gemeu”.
Gemo também eu, pois a ausência, imediatamente sentida pela menina, no conto, é igual a minha, neste momento!
A última palavra que Guimarães Rosa, pronunciou, em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, foi “Cordisburgo”, nome de sua terra natal. Pensando em Bartolomeu, a palavra final desta crônica, então, fica sendo “Papagaio”, o nome da cidade natal dele. Quem sabe assim, nas asas dessa ave falante, seus livros não sejam nunca esquecidos e continuem a falar eternamente? Enquanto preparamos as nossas crianças para conviverem com a circularidade da vida, com a insistente imagem dos moinhos de água, com a morte festejada no filme do Kurosawa!


(by Celso Sisto – 22/01/2012)

8 comentários:

Cris Delprete disse...

Por coincidência, resolvi ler nessas férias livros que estavam parados na prateleira há algum tempo... e está na minha frente “A menina que roubava livros”.
A morte, narradora que nos esbofeteia a cada página, vê o mundo através das cores e quando levava as almas carregava no colo apenas as crianças...
Se assim fosse verdade não deveria temê-la Celso, porque um dia, quando ela encontrar com vc (e que isso demore anos luz!!!), tenho certeza de que te carregará no colo e não verá somente uma cor, mas sim um lindo arco-íris ;)

celso sisto disse...

Cristina! Chorei com essa sua lembrança! Se eu for carregado no colo, não temerei! Obrigado por me ver como criança e pelas cores do arco-íris que também me ofertas tão generosamente... Bjs.

Milene disse...

Querido Celso, profunda, sincera e carinhosa esta tua crônica. Muita falta nos fará Bartolomeu, mas seus escritos maravilhosos permanecerão para sempre. Acredito que escritores não morrem, transmutam, pois o que é escrito e contado permanece. Um abraço
Milene

celso sisto disse...

Milene, eu também acredito nisso... E uma obra como a do Bartô tem lugar garantido pra sempre! Abração!

Anônimo disse...

Celso,
Gostaria de compartilhar que desde a partida de minha mãe em abril de 2011 que aconteceu de uma maneira "Bonita"...em Paz... e também pelo fato de ter tido o privilégio de no ano de 2010 acompanhá-la .... E ainda por que ela viveu de uma maneira muito intensa e bela acho que em seu velório mais houve “ Celebração pela vida do que Luto pela morte” - Reunimos , todas as filhas (4)e netos(8)
Enfim! Talvez por tudo isso, hoje vejo a morte com muito mais leveza, principalmente a de pessoas que tiveram uma passagem assim tão Nobre aqui pela Terra como Bartolomeu - que conheci pela escrita.
Gostei de ler seu texto, e saiba que “Verde ver meu pai” eu guardo com muito carinho...é também meu pai...o que é mais uma bela história.
Mas...ao fim e ao cabo...a gente vai lendo e escrevendo e encontrando pessoas que estão buscando compartilhar um mundo melhor através das histórias. Cabe a nós continuar a história de Bartolomeu por um Brasil Literário, então...vamos: caminhando e cantando...
Ângela de Carvalho.
Macpá-Ap

celso sisto disse...

Angela, que bonita experiência! Obrigado por compartilhar conosco esse relato! E claro, temos todos o compromisso de continuarmos lutando por um Brasil MEGA literário! Um grande abraço!

Rachel Facó disse...

Celso,
Parte da sua crônica voou até a PUC-RJ ontem e deixou-me curiosa pra fazer o voo completo. Cá estou para colher inteiro o que a sua palavra despertou. Linda homenagem ao Bartô!! Aliás, lindas: em prosa e poesia.
Ontem, senti de um jeito diferente a perda... Poucas foram às vezes em que senti alguém tão presente... Vivo. Eterno.
Como o Bartolomeu aquece almas, motiva asas, ousei também prestar a minha homenagem, feita das coisas que ele plantou em mim e deixou pra todos nós. Tá lá na minha esquina: http://esquinadoconto.blogspot.com
Abraços,
Rachel Facó

celso sisto disse...

Rachel,
Sempre bom ser atravessado pelas palavras de Bartolomeu. Isso tem jeito de eternidade... Obrigado pela visita. Estive também no seu blog. Gostei da sua homenagem. Um grande abraço. Que a literatura possa servir de elo!