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domingo, 12 de fevereiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - SONHOS DE CRIANÇA


Sonhar é a atividade mais gostosa do mundo! Dormindo ou acordado, de olhos abertos ou fechados!  Vendo uma coisa e imaginando outra. Falando uma coisa e querendo dizer outra! Ah, as possibilidades são enormes!
Sonhar é sim um grande exercício de ampliação do imaginário! Eu vejo coisas que ninguém vê. Ouço coisas que ninguém ouve. Imagino coisas que só eu posso imaginar! Exerço a minha liberdade sem amarras! Então, sonhar é ser livre! É brincar de dono do mundo. É exercer a deidade! Só depois, quando transformo as palavras e as imagens sonhadas em contos, poemas, textos, quando escrevo as coisas que ficaram ecoando na minha cabeça, é que todo mundo pode ouvir, tocar, repetir, multiplicar. Esse é o alvo do sonho em forma de arte: a propagação! Mas isso é um sonho canalizado, não é? Pois nem sempre é assim!
O sonho na infância corre por outros prados e tem outros sabores! Primeiro é o desejo permeado pela visão mágica; o sonho ancorado na necessidade de destacar-se pela força; o desejo de uma vida cheia de ação e de aventura. Para isso, as crianças do passado escolhiam ser super-heróis, mágicos, fadas, bruxas. Depois é o desejo contagiado pela noção da imagem social; a percepção de que é necessário unir o útil ao agradável. Para isso, as crianças de antigamente sonhavam em ser policial, bombeiro, guarda de trânsito, professor.
A raiz desses sonhos-escolhas ainda era ingênua... Agora, o sonho de futuro das crianças de hoje vem sustentado pela rapidez, como se o mundo da tecnologia nos tivesse desabituado da espera. Elas querem estalar o dedo e executar as tarefas na velocidade da conexão da internet a que estão acostumadas. Não querem gastar tempo aprendendo, não querem gastar tempo com as tarefas escolares, com os serviços de casa, com o diálogo afetuoso e as trocas amavelmente negociadas, com o dormir e o acordar e o esperar os dias passarem. Talvez, com isso, não tenham mais do que meia dúzia de histórias para contar. Eu tenho muitas!
Esperar foi sempre a minha primeira lição de ansiedade! Na época em que tudo era longamente planejado... Como quando meu pai anunciava que íamos viajar, e eu quase não conseguia dormir, querendo ver o dia chegar. Era uma noite inteira de uma espera feliz, antecipando na imaginação todas as possibilidades que se abririam dali pra frente! A minha primeira ida à fazenda do meu tio, para os lados de Santa Cruz, foi uma das grandes emoções: ver um Rio de Janeiro que eu não conhecia, e principalmente, andar a cavalo pela primeira vez, tomar leite quente tirado na hora, subir em árvores seculares e próximas das nuvens, tomar banho de rio. E a realidade superou tudo o que eu tinha conseguido antecipar: havia o banho de chuva e o temporal no meio do campo, que eu não havia previsto; havia o passeio de carroça, e aquele facão solto, correndo de lá pra cá em cada curva, quase cortando a gente; havia a beleza dos raios rasgando o céu, atravessando o descampado, tentando incendiar as gotas de chuva, que eu jamais havia imaginado; havia o nome dos diferentes tipos de capim, que eu tinha ido buscar para dar de comer aos coelhos... Tanta coisa que a realidade trouxe para enriquecer o sonho!
Essa interação constante entre sonho e realidade é que regeu sempre a minha vida. A vontade de Morfeu, o deus grego dos sonhos, convocando Hipnos, seu pai, e seus irmãos, é que me alimentou. Como por exemplo, Fântaso, a quem usei sempre para chamar os menestréis, os reis, os astronautas, os cavaleiros, que um dia deixariam a cama de ébano da caverna escura ornada com flores, para fazer do sonho, realidade duradoura.
O sonho no rumo da ciência é interpretável, vira oráculo, nos adverte das possibilidades de futuro. O sonho como fuga, pode adiar a realidade, ensinar a viver na borda da sanidade, e instaurar a loucura criativa. Tudo isso apresentou-se para mim como uma maneira  vigorosa de viver a vida! E, contudo, aprendi que o transe da criação, da loucura criativa, é mesmo um estar possuído de tanta energia onírica que não há outra saída senão transbordá-la para o cotidiano.
Mas um dia descobri que havia ainda o sonho de mão única: o sonho que não é mais um projeto de futuro e vira apenas obsessão! Esse sim caminha de outro jeito, às vezes por vias tortuosas...  e na medida em que aumenta a distância entre o sonhar e o realizar, fica mais e mais perigoso.
Sonhar como brincadeira não tem obrigatoriedades! Sonhar como única maneira de realização e condicionante da felicidade pode virar doença! Gerar frustração. Virar passo sem compasso! Ser irreversível.
Mudei muitas vezes de sonho, sem maiores traumas, porque fui descobrindo que eu gostava de muitas coisas na vida! E que sempre daria um jeito de me realizar, fazendo fosse o que fosse. Por isso fui (e sou) ator, professor, contador de histórias, escritor, ilustrador. E nada disso é excludente!
Mas nem sempre é assim. Dentre as frustrações destruidoras da modernidade, há mesmo essa que não vê saída e que ao demolir um sonho, acaba com tudo! Meninos dispensados pelas escolinhas de futebol dos grandes clubes estão caindo no crime, e pior, acabando com a própria vida. Meninas em busca do sonho de virar modelo e atriz fazem de tudo, inclusive, abraçar a prostituição. O limite é a linha tênue entre o fazer absolutamente tudo para chegar lá ou aprender a hora de definir outros rumos.
Tenho visto, de modo triste, uma plêiade de meninos e meninas que vivem em busca de serem entronizados na fama da noite para o dia, destruírem suas vidas ao aceitarem mais do que podem suportar, em nome de enriquecimento também espetacular e instantâneo!
Tenho minha consciência tranqüila. Sempre que trabalhei com crianças, soube identificar aqueles que precisavam de liberdade assistida, já que saber esperar, dar tempo ao tempo, aceitar o ritmo natural da vida e deixar as coisas madurarem pode ser uma angústia superior às suas forças.
Alguém vai me lembrar, seguidamente, que hoje os tempos são outros. Concordarei piamente! Mas a matéria da qual são feitos os homens é a mesma, desde que o mundo é mundo! E que o sonho que nasce da inapelável privação de conquistas pode ser um pesadelo, principalmente quando Hipnos e Tânatos se encontram forte e indissociavelmente entrelaçados!


(by Celso Sisto – 12/02/2012)

10 comentários:

helena lamour disse...

Verdade verdadeira! Gracias pela lucidez!
Meus parabens Celso! Meio fora de época, de coração!
Beijo, Helena.

Creuza disse...

Me fez pensar nas crianças da escolinha de periferia em que faço trabalho voluntário de formação de leitor. Vivem em situação de risco. Muitos sequer têm pai e mãe, mas acariciam estes sonhos aos quais você se refere em seu texto. Penso: que chance eles têm? Por que seus pais ou avós enfiam estes sonhos nas cabecinhas deles? Mas... se eles não sonharem estes sonhos, como sobreviveriam? O que é pior para eles? Ahhhh, poeta, amanhã vou passar o dia com eles e certamente olharei para cada rostinho indagando, mudamente, pelos seus sonhos. Me tirou o sono, menino

Milene disse...

Estas tuas palavras me fizeram lembrar dos muitos sonhos que tive e que mudei ao longo do tempo:sonho de ser bailarina, ser advogada, ser mãe... Parece que quanto mais eu sonho, mais possibilidades me aparecem. Pensar que nunca sonhei ser uma contadora de histórias e agora me vejo fazendo isto cada vez mais claramente. É incrível como pude mudar minha vida e minhas prioridades para viver no mundo das histórias. Parece que neste mundo me sinto mais segura, talvez porque posso me transformar em vários personagens dos meus sonhos de criança. Belas palavras as suas que encantam meu coração. Um abraço

celso sisto disse...

Helena Lamour, obrigado pelo carinho... Mas tem época certa pra isso? Não entendi! Carinho é bom sempre! Com época ou sem época! Beijo grande!

celso sisto disse...

Creuza! Não era minha intenção tirar o sono de ninguém! hehehe! Mas, principalmente quem trabalha com esse público e em áreas de risco, tem uma responsabilidade muito grande! É preciso criar caminhos alternativos para essas crianças, equilibrar as coisas, apaixoná-los por muitas coisas, para que essa busca de sucesso não seja vazia e não vire uma doença, com final trágico! É isso! Beijo e força!

celso sisto disse...

Milene, gosto sempre dos seus depoimentos! A maneira como você se "mistura" nos textos e vai entrelaçando tudo com a sua história também! Muito legal isso! E também fico feliz com seu caminho no caminho das histórias! Acho que é um pouco isso: a literatura nos dá a possibilidade de experimentarmos personagens,personalidades, vivências, que de repente a vida nos negou... seja lá porque motivo for... Pensar sempre nas escolhas felizes é o melhor! Bj.

simone sarmento lima -AL disse...

Celso Sisto, você sabe dizer as coisas. A gente viaja, volta a ser criança, e fica lá se deliciando com os livros, se imaginando neles!.
A sua história se constroi muito rica em imagens, pois as palavras têm o poder de emprestá-las à fantasia e ao sonho. Muito bom! Um abraço.

celso sisto disse...

Simone! Obrigado por seu comentário! O objetivo dessas crônicas sincrônicas é comparar a infância de ontem com a infância de hoje. Se os assuntos vão entremeados com as minhas histórias, tampouco impedem que o leitor traga as suas... Fico muito feliz com seus comentários! Um abraço e obrigado pelo carinho!

Andrea Viviana Taubman disse...

Celso...meu comentário não ficou registrado,rsrs...o que terá acontecido com ele? Vai ver que ficou longo e foi passear! Resumindo, era algo assim: seu olhar para com os sonhos alheios é banhado pela calda da generosidade, tão própria de ti. Este mundo tão photoshop,com seus sonhos de isopor (poliestireno expandido é seu nome real)vem nos assaltando homeopaticamente. Cavaleiro, é bom caminhar contigo. Caminante no hay camino, se hace el camino al andar. Besos de esta amiga, que comparte sueños muy parecidos...

celso sisto disse...

Pois é, Andrea... vc me falou que escreveu e eu não tinha achado nada! Fico feliz que você tenha escrito de novo. Essa proposta, de fazer uma ponte dos dias de hoje com o tempo da minha infância tem estimulado muitos leitores a pensarem também na sua infância e, consequentemente, estarem atentos à recuperação de alguns valores... Fico muito feliz com suas leituras! Um beijo grande!