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sábado, 25 de fevereiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - CARNAVAL DA CRIANÇA QUE EU FUI!


Gosto da possível origem da palavra carnaval: carrum navalis, que era o carro sem motor, que carregava a imagem do deus Dionísio, em meio à música, dança e folia, na Grécia antiga, lá no século 14 antes da nossa era.
Também sei de cor quase todas as famosas marchinhas de carnaval. Me encanta o ritmo picotado que provoca uma alegria inesperada, pra cima. Talvez por isso eu não consiga escolher a minha preferida. Adoro o “pirata da perna de pau”, “índio quer apito”, “sassaricando”, “mulata bossa-nova”, “olha a cabeleira do Zezé”,  “Chiquita Bacana lá da Martinica”, “mamãe eu quero mamar” e tantas outras. Mas, as crianças de hoje provavelmente não conhecem nenhuma dessas músicas. Que triste! E se bobear, nem gostam mais de carnaval. Eu adoro!
Naquela época, anos 60, os pais costumavam levar os filhos para brincarem o carnaval e havia baile infantil, as famosas matinês, em tudo quanto é clube e em tudo quanto é lugar. Parando pra pensar, é mesmo um mistério risível essa coisa de ver as pessoas andando em círculo, em volta de um salão, todo decorado com motivos carnavalescos: máscaras, instrumentos típicos dos blocos de rua, personagens com fantasias clássicas, coroas, apitos, etc. E ainda mais, jogando confete e soltando serpentinas. E uma banda, tocando música ao vivo, com irresistíveis instrumentos que aguçavam a nossa imaginação, como o clarim, lembrado na letra da marcha: “... quero me afogar em serpentinas, quando ouvir o primeiro clarim tocar...”.
O gostoso era voltar pra casa, com pedaços de papel colorido, até nos lugares mais escondidos do corpo! Confete e serpentina estão no topo da lista dos elementos mágicos do carnaval, aos olhos das crianças da minha época. Dizem que o confetti nasceu em Roma e que eram confeitos de açúcar, informações que nos levam ao século 15 e ao Papa Paulo Segundo. As pessoas jogavam umas nas outras, como o confete feito de papel que conhecemos hoje. Esse, dizem que nasceu mesmo em Paris, no carnaval de 1892. E no mesmo ano passou a ser adotado na minha terra natal, o Rio de Janeiro. Daí, o uso generalizou-se. Mas a serpentina parece ser ainda mais antiga no Brasil. Dizem que veio das “bolas carnavalescas”, usadas no carnaval de 1878, que eram bolas de papel de seda e que se desfaziam ao serem lançadas. Digo “dizem” porque há controvérsias! Há sempre muitas versões para a origem das coisas... E com a história do carnaval não poderia ser diferente!
Por exemplo, “batalhas de confete” acabaram virando apelido de baile de carnaval, mas no início eram uma espécie de disputa entre grupos da elite carioca, que inspirados nas “batalhas de flores” francesa, desfilavam pela avenida Beira-Mar do século 19, no Rio de Janeiro, em carruagens enfeitadas, com pessoas fantasiadas, atirando flores, confete ou serpentina, quando se cruzavam. Há uma série de variações e filiações - o mela-mela, os limões de cheiro, o lança-perfume, ligadas a essa atitude de jogar coisas nos outros, inclusive porcarias. E há também uma progressão desses festejos e desfiles, que vem do Entrudo, dos portugueses no Brasil do século 16, até nos levar às escolas de samba atuais. Ai, que nostalgia! Eu queria ter vivido tudo isso e muito mais!
Mas, como diz “O primeiro clarim” (de Rutinaldo e Klécius Caldas), minha marcha rancho preferida (acabo de descobrir que é essa!), sucesso na voz de Dircinha Batista: “hoje eu não quero sofrer, hoje eu não quero chorar, deixei a tristeza lá fora, mandei a saudade esperar, lá-lá-ia-lá, hoje eu não quero sofrer, quem quiser que sofra em meu lugar”.
O que não me impede de ainda ficar me perguntando: o que é o carnaval hoje para as crianças? Quando comecei minha carreira de professor de literatura, trabalhando com os pequenos, fazia um baile de carnaval na sala de aula, na semana dos festejos momescos, antes do feriado escolar, claro! E como preparação, víamos as fantasias mais comuns de antigamente, ouvíamos e aprendíamos as músicas famosas, líamos livros legais que falavam do carnaval (o que definitivamente são muito poucos; falo dos destinados ao leitor infantil, que acho que não chegam a completar os dedos das mãos!)
As fantasias também já não são as mesmas. Vira e mexe vejo aquele álbum de fotografias, em que estou de sarongue. Sabe que fantasia é essa? É uma vestimenta havaiana, feita com um saiote florido e cordão de flores (ainda que de plástico). Minha primeira lembrança de fantasia de carnaval é com essa roupa. Eu e meus irmãos. Lindos! E minha mãe, com um terninho sem mangas, com uma faixa na cabeça... Bem anos 60! Sentada no laguinho que servia de aquário, na casa onde morávamos. Essa imagem continua firme na minha memória. Assim como continuam indeléveis, as fantasias de colombina, pierrô, arlequim. Também se falava em pareô! Meu Deus, será que estou ficando velho e babão? Mas era tão romântico ver o povo vestido de pirata, bailarina, nega maluca, índio, odalisca, melindrosa, cowboy, cigana, sheik árabe...
Eu, acostumado a ir para a rua com os meus pais, no carnaval, tinha mesmo era medo de encontrar o Bate-Bola. Eles andavam em bando, com aquelas máscaras horrorosas, de enfiar na cabeça, com um apitinho na boca, uma maquiagem borrada de palhaço louco, um macacão inteiro, feito de cetim e uma varetinha com uma bexiga de boi, fedorenta, com que batiam com força no chão. Apesar de coloridas, as figuras eram barulhentas e aterrorizantes, e meu medo deles virou um medo secular, que carreguei durante toda a infância. Hoje sinto falta deles. Onde foram parar? Devem estar escondidos nas dobras do tempo e podem pular na minha frente em qualquer carnaval desses por aí! Tomara! Hoje não sairei correndo! Prometo!
Esse fio de lembrança, me leva de volta à infância não só colorida, mas também onírica. Meu primeiro pesadelo também aconteceu no carnaval. Depois de assistir escondido à transmissão de um Baile dos Horrores, com seu antigo concurso de fantasias, fui dormir e não deu outra: todas aquelas figuras deformadas e fantasmagóricas vieram morar nas nuvenzinhas que pairavam sob o meu sonho! Acordei gritando, chorando, acreditando que havia sido devorado por aqueles seres monstruosos! Socoooooooooorrrooooooooooooooo!
Certamente eu preferia as outras máscaras, as que vieram adornando o imaginário popular desde a comédia dell’arte, e que cruzaram a corte de Carlos Sexto, depois viraram objeto de sedução das damas elegantes do século 18, atestando a bela herança veneziana, até virarem mania, após o carnaval de 1840, quando houve o primeiro baile de máscaras que se tem notícias, no Brasil.
E para completar esse meu passeio pelas entranhas de outros carnavais, evoco também aqui a alegria que era sair  nos blocos de sujo. Isso é que era diversão! O tom desorganizado e improvisado era o que deveria predominar, inclusive com instrumentos feitos artesanalmente, valendo até tocar tampas e panelas! O mais importante era reunir pessoas animadas, desfilar, contagiar os outros com a animação e o deboche também da sátira política. Valia tudo! Hoje, os blocos quilométricos e multiplicados em cada esquina ainda conservam um pouco deste espírito, será?
E  pra encurtar a conversa, que já vai longa, uma última lembrança: a primeira vez que me lembro de ter ficado sozinho em casa, foi exatamente quando meus pais saíram de noite, para ir a um baile de carnaval. Vejo ainda o colorido das pulseiras, as bolas dos colares, as perucas de minha mãe; lembro-me até de dormir na companhia de minha avó, acordando a todo instante, para espiar se eles já tinham voltado...
Se o carnaval surgiu no Egito, há 10 mil anos atrás, para espantar o inverno e comemorar a chegada da primavera, não posso afirmar com certeza! Se nasceu no século 4, nas procissões romanas, em homenagem a Baco, onde já figuravam os carros alegóricos, não sei, não sei! A festa é pagã e o calendário cristão acabou por aceitá-la, e ela ficou ali, servindo de marco entre o Dia de Reis e a Quaresma, que após o período da permissividade, exige a penitência do sujeito já na quarta-feira de cinzas! É como virar Fênix e renascer, não é não? Para morrer novamente, logo ali na frente, na Páscoa. Mas essa já é uma outra história!!! Por enquanto, “quero ver milhões de colombinas, a cantar, tra-lá-lá-lá-lá-lá, quero me perder de mão em mão, quero ser ninguém na multidão”.

(by Celso Sisto – 25/02/2012)

12 comentários:

angela leite disse...

Celso, amigo, você pôs em palavras nesta crônica tudo o que eu vivi, senti e hoje lamento em relação ao Carnaval! Como as crianças de hoje estão perdendo por não poderem, no futuro, recordar tudo isso com a alma em festa como nós recordamos.
Parabéns, abraço grande, com direito a confete e serpentina,
Angela

celso sisto disse...

Angela Leite! Que prazer receber seu recado por aqui! Nossa memória é que nos garante esse estoque de emoção, infindável! Obrigado pelo carinho! Abraço grande, com os confetes e as serpentinas em profusão!

Roseli disse...

Fiquei nostálgica,agora. Que pena, Celso, nossos carnavais são espécies em extinção.

celso sisto disse...

É verdade Roseli! Mas a memória tem a função de não deixar morrer um monte de coisas, não é?

Maria Alice M.Bampi disse...

Tanto riso,
Oh! quanta alegria,
Mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando
Pelo amor da Colombina
No meio da multidão!

Foi bom te ver outra vez
Tá fazendo um ano,
Foi no carnaval que passou,
Eu sou aquele Pierrot,
Que te abraçou,
E te beijou, meu amor,
Na mesma máscara negra
Que esconde teu rosto
Eu quero matar a saudade.

Saudades do meu primeiro baile de carnaval com meu primeiro namorado...

DCHIQUINHA disse...

eu viajei nesta cronica ,lembrando os dias de carnaval que minha mãe e minha vó nos levava para ver ,elas sentadas no bando da praça e nos brincando de pique ,era muito bom sentir o cheiro de lança perfumes ,mas a gente tinha que proteger os olhos por que ate doia se acertasse nos olhos da gente,mas ficava imprecionada vendo eles cherar lança perfume ate cair ,eu ficava inplicada pra que cheira?
obrigada pela lembrnça fiz uma viajem no tempo grande beijo

celso sisto disse...

Alice, também adoro MÁSCARA NEGRA. E o primeiro baile de carnaval a gente nunca esquece, não é? Beijo.

celso sisto disse...

Chiquinha, minha contadora de histórias. Fico feliz de poder levar os leitores em uma viagem no tempo. Obrigado por seu comentário. Saudades. Beijos.

Carlos Paranhos disse...

Celso ( soa estranho , nao sei como voce recebe, mas sinto mais proximo de Choquito )
voce foi muito feliz nesta cronica e acho que espressou o que milhoes, sem exagero, sentem.
Minha familia quase todo ano, tenta reviver isto na chacara onde moram meus irmaos, com decoração, confete, serpentina , marchinhas e alguns sambas enredos. Veja fotos deste ano no meu face.
Abração e vamos esperar o carnaval que vem.

celso sisto disse...

Carlos, pode me chamar de Chokito, não há problema! Serei sempre o Chokito! hehehehe! Adorei seu comentário. Vi as fotos no seu face e fiquei emocionado! Adorei, principalmente, ver todos os irmãos reunidos (embora a foto esteja pequena!. Eu, que sou saudoso por natureza, fiquei emocionado! Abraço, amigo! Lembranças a todos, com muita marchinha, confete e serpentina, sempre!

Milene disse...

Celso, mas que bela crônica! Lembrei que este ano, "pulei" carnaval na rua, na praia e não escutei nenhuma marchinha de carnaval que tanto gosto. Aliás, parece que algumas bandas que fizeram o carnaval aqui no sul só sabem tocar sertanejo universitário e outras bobagens... Quando criança, nos clubes escutava muito essas marchinhas, hoje em dia, é uma pena, as crianças nem as conhecem, pelo menos por aqui. Abraço!!!

celso sisto disse...

Milene, realmente é uma pena! As marchinhas de carnaval também são patrimônio nosso, brasileiro, e não podem ficar esquecidas! Vamos mostrar para as nossas crianças! Ora! Obrigado pelo comentário. Abração!