Seguidores

domingo, 5 de fevereiro de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - SABORES INFANTES



Uma família barulhenta e cheia de frases de efeito... essa é a minha lembrança de família na infância. Os ditados populares pipocavam nas conversas e quase sempre serviam de ponto final: “cara feia pra mim é fome!”, dizia uma mãe irritada ou uma avó sacudida! E pronto! Morria a discussão e vinha a ordem: “pode fazer e tá acabado!” Ou a pior frase de todas: “eu tô mandando!”. E eu, que sempre fui chegado às explicações científico-convincentes para poder aceitar a obrigatoriedade de qualquer mando, acabava sempre contrariado. Pra não dizer castigado!
Mas, também, em muitas reuniões festivas, nós, crianças, éramos recompensados, já que as expedições à casa das avós, fossem aniversários, festas de fim de ano ou uma simples visita de praxe, eram comandadas do altar da mesa. Explico: por parte de pai, cabe-me uma linhagem mineira, que pensa em mesa sempre abarrotada de coisas, a qualquer hora do dia. Por parte de mãe, uma linhagem italiana, que tem mania de massas, nhoques, pães, salames, etc. e pensa na mesa como o principal ponto de encontro da casa. E para os pequenos, que não queriam saber da quietude das salas de jantares (melhor quando as grandes mesas eram situadas nas cozinhas!), restava sempre uma memória recheada de ação e claro, doces.
Quanto mais um parente oferecia doce às crianças, mais conquistava seu respeito! Na minha família todo mundo sabia disso! Mas não queríamos os doces em compota, que toda avó mineira sabia muito bem valorizar, descrevendo as horas de calor ao redor do tacho de cobre, mexendo o doce de goiaba; ou apontando os perigos da cal branca usada no doce de laranja. Os mistérios da culinária familiar podiam dar um toque de bruxaria nas palavras exageradas das avós, mas o que esperávamos mesmo com ansiedade era a chegada do tio Maurício trazendo sempre todo tipo de chiclete Adams: os tabletes compridinhos, as caixinhas coloridas, os mini. Além de ficarmos com um estoque incrível para o resto da semana, os chicletes ainda serviam de moeda de troca: “vai pegar um copo d´água pra mim que eu te dou uma caixinha de menta!”. Com isso, o estoque podia aumentar muito mais!
Hoje, quando ainda penso nos sabores da infância, imediatamente me vejo na casa da minha avó Inocência, disputando as mangas que abarrotavam o chão e as mangueiras de seu jardim. As frutas eram em quantidade para um batalhão, mas os netos também eram muitos e tinham bocas que valiam por um exército inteiro! Já na casa da outra avó, a América, a brincadeira era comer amora no pé! E como quase nunca iam os outros três netos, eu e meus irmãos tínhamos tudo só pra gente. E como quase sempre minha mãe não nos levava todos de uma vez, a concorrência diminuía ainda mais. Ficar embaixo do pé, enchendo as mãos e manchando a roupa era emoção vivida com a rapidez de quem quer enfiar o mundo na boca e colher mais! Bom, mas o fato é que ir às casas das avós tinha, no mínimo, sabor de fruta (e se considerarmos o chiclete tutti frutti, então? De novo, ponto para o tio Maurício!!). 
Hoje as crianças não querem comer nada! São umas chatas e cheias de vontades! Pois não é que descobri que essas pessoas são chamadas de “picky eaters”? Ou seja, pessoas que escolhem demais os alimentos antes de comerem. E que isso não é privilégio de criança. E que isso tem denominado um distúrbio chamado de “paladar infantil”. E que a rejeição da comida pode ser proveniente da textura e do cheiro do alimento.
O que agora é estudado como desvio, me traz novamente a memória positiva e  as sensações gostosas do que comíamos na infância. Essas recordações talvez definam o meu paladar hoje, mas a verdade é que quem foi criança na minha época, acostumou-se com uma série de sabores, que se não desapareceram, foram substituídos por outros. Vamos ver. No café da manhã, a palavra mágica era  Ovomaltine, que dissolvia no leite de forma mágica. Ainda hoje só de dizer tal palavra, o gosto aparece. Mas também havia sucrilhos... e as vitaminas de banana e de abacate, que eu detestava porque me provocavam ânsias de vômito. Demorei muito para gostar de leite com qualquer fruta! Iogurte, naquela época, só o natural, que chamavam de coalhada. E que a família mineira adorava! Para esperar o almoço, no meio da manhã, éramos capazes de comer rodelas e mais rodelas de rabanetes, com sal. Mas uma vez à mesa para almoçar, comida no prato não podia sobrar. Era lei! E de sobremesa, podia ter mariola ou quem sabe, um pirulito chupetinha?! Para o recreio da escola, havia o lanche Mirabel (tinha que ser sempre o de chocolate!), e quando a mesada dava, ainda podíamos comprar jujuba, delicado, maria mole, cigarrinhos de chocolate, drops Dulcora, bala Juquinha, a dura bala soft, frumelo, torrone, dadinho, mentex, confete, etc. Mas o lanche do fim de semana virava festa quando tinha sonho com creme, Nhá Benta ou mandiopã e grapette. Alguém aí sabe o que é mandiopã? Uns quadradinhos feitos, principalmente de amido de mandioca, que em contato com o óleo quente se expandem e ficam crocantes como biscoitos de polvilho. Pura invenção brasileira, criado em Limeira, São Paulo, que existia desde 1954, nos sabores  natural, queijo, bacon e camarão, muito antes dos salgadinhos de “isopor”, claro!
Agora, melhor que tudo isso era passar o domingo em Petrópolis, com direito a comer frango assado no Alemão da Avenida Brasil na ida, voltar carregado dos caramelos da Casa D’Angelo, e parar, na volta, para comer hambúrguer no Bob’s, também na Avenida Brasil! (naquela época, início dos anos 70, era praticamente o único que existia, depois veio o da praia de Botafogo!).
Mas, como nem tudo tem gosto bom, vamos lembrar também dos bifes de fígado (que hoje eu adoro!), do miolo de boi empanado, do jiló ensopado (que hoje eu também adoro!) e dos famigerados remédios, os tais fortificantes, que toda criança tinha que tomar para crescer vigorosa e saudável. Calcigenol e Biotônico Fontoura ainda passavam! O pior deles era a Emulssão Scott, o insuportável óleo de fígado de bacalhau, que quando ingerido, precisava ser recompensado. E só podia ser com brigadeiro. Muito antes dessa moda de comer com colher, na panela, ainda quente. Lá em casa tinha que esperar esfriar, ser enrolado com mão untada de manteiga, passado no açúcar refinado (o chocolate granulado virou mania depois!) e colocado no prato! Ô coisa boa! Só de pensar, minhas papilas gustativas já começam a trabalhar!
Pra falar a verdade, acabamos sempre voltando ao cheiro das famosas madeleines embebidas no chá, de Marcel Proust, para justificar a nossa arte-necessidade de rememorar a infância. E de criar obras a partir dela.  A memória do gosto está mesmo carregada de histórias. Mesmo que os cientistas digam que o cérebro codifica os alimentos em quatro sabores básicos: azedo, amargo, doce e salgado, o prazer de passear pelos sabores da infância pode ampliar enormemente esse dado científico, ainda que com a ajuda sempre enriquecedora da fantasia!
Ah, também dizem os especialistas que comer é uma relação especular: os filhos se espelham nos pais... Depois não adianta tentar culpar o paladar!


(by Celso Sisto – 05/02/2012)

5 comentários:

Anônimo disse...

Lindo texto, Celso! Você nem imagina o prazer que seu texto proporcionou: uma volta ao passado e tanta! Delícia!!!! Merci.

Cris Delprete disse...

Hummm... que crônica mais sinestésica essa, enchi a boca d'água e consegui sentir o cheiro de quase tudo, resultado: fui até a geladeira e peguei uma laranja, dessas de super mesmo, porque o pé que tinha aqui em casa meu noivo fez o favor de mandar tirar pra reformar a varanda... aiai...

Que "picky eaters" que nada, na nossa época era piquenique mesmo, com direito a todos os tipos de frutas e biscoito, aliás foi assim que perdi um dente, ô coisa mais boa a infância no interior...
Eu também manchei roupa com amora, caí de um pé de manga (que perigo!) e rasguei o joelho descendo o pé de goiaba. Lá em Cachoeiro, como dizia Rubem Braga, as casas tinham sua importância de acordo com o pé de fruta em seu quintal...

Saudades disso, saudades mesmo... Crônica deliciosa, Celso!!!

Anônimo disse...

Decididamente voltei a minha doce infância, naveguei em veredas mil ao ler teu texto,saudades de tudo e de todos, embora não tivesse eu a sorte de conhecer minhas avós, pois nenhuma delas vivia mais , mas minha família era tão grande que valia por tudo isso, e meu coração se encheu de alegria ao lembrar tudo isso, agradeço a vc por isso...Parabéns pelo texto, lindo demais.....

angela disse...

Essa mistura de sabores e gens.. imagine que comigo era avó baiana, mãe cearense, avô cearense , português, bisavós holandeses e italianos.. ah!belo brasil! Mas sempre fui enjoada pra comer.. cresci saudável na base de café com leite , banana, empada de queijo e batata frita. hoje, no entanto.. hum..........

Milene disse...

Esta crônica me deu água na boca. Muito bom fazer lembrar dos meus gostos da infância também. Que delícia os pirulitos chupeta e os chocolates Refeição que meu vô Anselmo sempre tinha no bolso para me dar. Lembrar que toda comida relacionada com minha infância, principalmente em relação a meus avós tem sabor de AMOR. Um beijo com gosto de amora para você querido Celso!!!