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sábado, 24 de março de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - UMA VISITA AO TEMPO PASSADO



Não tenho o menor problema em revirar o passado! Aliás, promovo, constantemente, idas e vindas ao reduto da minha memória, exatamente para trazer de volta, fatos, pessoas, lembranças, guardados, emoções. E isso me faz um bem incrível!

Tem gente que diz que essa mania de guardar é coisa de velho. Pois pra mim é justo o contrário: quem não guarda nada ainda quando jovem, não pode envelhecer com tranquilidade. O que me dá segurança é saber que posso mergulhar em mim, e nadar até as camadas mais profundas, e triscar nas minhas pedras preciosas, na mobília guardada como peça de colecionador, nas louças cuidadosamente embaladas como porcelana chinesa, que o tempo aperfeiçoou. Mas são só vivências, feitas agora de escuridão, um pouco de oxigênio e um rio de sangue veloz.

Tem gente que diz que fica deprimida ao pensar no passado. Eu não! Fico com a emoção tinindo, super tonificado, com o sentimento à flor da pele, pronto para escrever coisas bonitas, abraçar o mundo e as pessoas do aqui e agora!

Por isso, adoro sentar no chão da minha biblioteca e mexer nos álbuns de fotografia. Tocar as fotografias é quase como tocar a pele do tempo. É como trazer de volta aquela luz que o flash da máquina fotográfica capturou. Ali, contido no halo luminoso está personificado o tempo e esculturado o fato. E o melhor: pronto para ser transferido, novamente, para a minha vida.

Não é necessário fechar os olhos não! É preciso olhar fixamente para a fotografia e deixar que ela te permita entrar, por alguma fresta. É que quando se visita a memória, as lembranças não vêm facilmente. É preciso descobrir o ponto certo de olhar, para só então ir descendo as escadas dos dias e, finalmente, instalar-se, no episódio eternizado. Tarefa sem pressa. Impossível de realizar só de relance. E isso, exige um sentar-se, comodamente, no presente, para deixar avultar o passado.

Hoje ele veio de muito longe. Da efervescência dos primeiros anos. Nos anos 60 eu era tão doce e bochechudo! Ao mesmo tempo em que tinha a leveza dos balões, tinha também o motor dos pequenos atletas. Lembro-me de correr e pular como quem respira! De falar sem parar como o riacho que conversa com as pedras e a areia do fundo do rio. De gargalhar como quem reúne toda a alegria de viver intensamente para sair correndo pelo campo florido assoprando todo e qualquer dente-de-leão que encontrava no caminho. E para compensar, chupar uma folha de azedinha-do-brejo, para reforçar o parentesco com os colibris!

Isso! Talvez seja esse o meu ideal de infância: garantir um olhar-passarinho, que debica de flor em flor, dia a dia, para extrair apenas o néctar e carregar no corpo não mais que o peso daquilo que o ar permite para voar.

Desse jeito assim meio inocente é que hoje fui perguntando que memória pode ter um garoto de 5 anos, como eu, naquela fotografia, ao lado da televisão antiga, com sua imponente caixa de madeira? Memória de criança pequena deve ser então uma memória assim feito haste de flor, que tem que ter água, luz e vento na medida certa, para ficar de pé!

Minha pequena memória de criança me coloca agora lado a lado com um gato de brinquedo, uma jarra de cristal e um relógio com pés torneados e voz de gongo, fazendo eternamente tan tan tan tan, tan tan tan tan: tã! tã! tã! Que quando bate as horas, entre um estrépito e outro, me permite aprumar toda a bagagem de menino! Sim, um gato que desliza macio pelos cantos, uma jarra alta que precisa de flores para ressaltar sua transparência e um relógio que não obriga o tempo a esperar por nada, apenas a caminhar adiante.

Nessa memória de menino-passarinho, cabe ainda uma beleza mais simples. Ser é belo! E basta! Tudo então é belo! E basta! Mesmo ter roupas iguais às do irmão, e não ser ao menos gêmeo!

O que mais pode caber num coração tão justo e ainda tão pequeno dentro do peito? Ah, só a alma dos livros, que tange o sono, mas não ocupa espaço! Só a alma dos bichos, porque a memória mais povoada do menino, ainda era parca, talvez um leão, uma onça e uma girafa já bastassem. O dia em que foi ao zoológico, ainda de calças curtas e botinas, o cabelo lustroso, a combinar com o pelo dos bichos, haveria de durar pela primeira vez e encher-se de latências, para atravessar enfim a fronteira que separa aquele agora e a memória. Assim, o verdadeiro álbum é feito de apelo táctil e daquele olhar guardado no fundo do olhar! O olhar escondido, com gosto renovável é que tem sabor para durar uma eternidade. Quem pode ensinar uma criança a olhar assim?


                           (by Celso Sisto – 24/03/2012)

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