Seguidores

domingo, 13 de maio de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - AS MUITAS MÃES DE CELSO

(pintura de Fernando Botero)
Temos todos muitas mães! Eu tive sempre várias! Não, não sou filho adotivo e nem andei de lar em lar, aprontando e sendo devolvido, não!... E isso não seria problema! É que para responsabilizar alguém pelo o quê eu me tornei, só mesmo dividindo os méritos!
Quando nasci dei trabalho, eu sei! Minha mãe foi obrigada a fazer uma cesariana, porque mudei de posição na hora “h” do parto; virei tudo de pernas para o ar. E talvez essa seja, desde o princípio, a minha condição e a minha síntese: virar tudo de ponta-cabeça. Mudar tudo de ordem. Ainda hoje sou assim. Quero mover os móveis da casa, começar texto novo, me encantar com um livro inédito a cada semana, experimentar um prato diferente, trocar de cidade, começar tudo outra vez. Não sei se isso era praga de pai, mas ele sempre dizia: você não vai parar em lugar nenhum, com essa sua inconstância! Não é que ele tinha uma certa razão?! Mas isso não foi necessariamente ruim... foi o meu desígnio, o meu traçado. O meu prêmio.
Puxando o fio da memória, em dia de festa e glória, me deparo com os artefatos do tricô, já que estou aqui tricotando lembranças. Tricô me lembra avó. E por isso chamo as duas: a por parte de pai e a por parte de mãe. Tão diferentes, tão intensas, as duas. América era a mãe da minha mãe. Tinha habilidades na máquina de costura, sabia das artes culinárias e era doce, doce. Tinha cara de céu! Avó angelical e sempre atribulada, mas com uma candura, uma suavidade, que poucas vezes vi em outras pessoas. Sua história de vida ainda hoje me assombra! Sua loucura, sua face dividida, sua fuga para o reino da meninice... A outra, Inocência, a mãe do meu pai. Tão forte! Tão mandona! Olho para trás e vejo o coque banana, os cabelos descoloridos com amônia, a boca sempre vermelha, a taça de vinho que nunca dispensava no almoço e no jantar e as pilhas de fotonovelas Grande Hotel. Tinha histórias deliciosas do seu tempo de menina, em Carangola. E me enriqueceu o imaginário, com as peripécias da Maria Espingarda! Pum! Pum! Basta olhar mais detidamente essa avó, para lembrar-me de sua cristaleira, das licoreiras, dos doces no tacho e do frango com quiabo e canjiquinha! Ai, que sua casa estava sempre em festa, com a montoeira de filhos e netos que queria sempre aos seus pés! E gostava de plantas, como eu!
Regando os jardins do tempo, encontro Dona Miriam, a melhor tia-que-não-era, porque era professora, porque era também uma segunda mãe daquelas crianças que estavam ali para aprenderem sobre si, sobre o mundo, sobre a leitura e a circularidade do viver em grupo! Ela, de fato, foi quem me viciou nas histórias, ao ler, diariamente, na sala de aula, um livro em pequenos capítulos. Aprendi com ela a ser muitos outros. Entrava nos livros, passeava nas músicas que cantávamos em classe, armava acampamento na boca de cena. E nela, vejo surgir outra mãe, outra mestra, dona Adelaide Botelho. Professora mais linda não havia. Na época dos vestidos curtos, os seus eram estonteantes. Gostava do azul-marinho e do mar de peixinhos que éramos todos nós, boquiabertos, diante da beleza e da força da literatura, que ela nos ensinou a amar. Mas era no teatro, dirigindo e me permitindo pisar o palco, que ela tornou-se a princesa encantada da minha história. Querer tanto o teatro, como ela me fez desejar, foi sempre maior do que tudo o que eu podia esperar. Na sua sombra, voando no tempo, estão as muletas de Dona Ofélia, a mamãezinha que dirigia o grupo cênico da Biblioteca Municipal da Vila Mariana, onde de fato, o teatro começou na minha vida! E por falar em começos e vidas, sinto o perfume da Dorly, a professora de Biologia, que biologizou para sempre a minha memória, com seu sorriso ensolarado, seu sotaque curitibanizado, seu exemplo de proximidade, que deveria servir de modelo para todo e qualquer professor do Ensino Médio. Pois ela sim tinha o dom de mediar as nossas descobertas, com jeito de mãe-irmã-mais-velha, sempre disposta a fazer de toda experiência uma etapa do crescimento. Ela, também foi mãe. Mãe do meu futuro, porque naquela época já era hora de pensar na profissão.
Professar, protestar, profissionalizar. Por mais burocrática que sejam as ligações com o trabalho, elas também agora me devolvem o passado. Na ciranda do tempo, vejo as minhas tias. Figuras mágicas, mulheres-maternas-cheias-de-ternuras-eternas, que tinham o poder de nos acompanhar nos primeiros treinos dos afetos, maiores e menores. A tia solteirona, a tia mais posuda, a mais elegante, a mais brigona, a mais faladeira, a mais risonha... Ai que suas vozes entram pelos meus ouvidos e me gritam proezas, as primeiras brincadeiras, a correria, as risadas, o pique-esconde-esconde que o tempo agora responde...Pompéias, Terezas, Silvias, Elzas, Dilmas eram os nomes das primeiras personagens femininas que povoaram o meu Olimpo. Deusas, guerreiras, filhas, tias, mães, mitos.
No clamor da igualdade, tão próprio das mães que alegam gostar do mesmo modo de todos os filhos, resgato a minha rebeldia. E ela vem atada à prima mais querida. Era pássaro, uma Paloma, igual a mim, porque se debatia também por uma liberdade que queriam nos roubar, já que ainda não era hora de nos darem verdadeira autonomia. Fomos, para desespero das mães, os jovens renitentes. E fomos cúmplices na crença de que a arte nos salvaria. Prima-presente também é mãe, em pé de igualdade, porque segura nas mãos o mesmo sonho, porque divide as angústias, porque também fez de mim o maior prisioneiro do melhor futuro.
E o futuro chega mais rápido do que a gente pensa. Ali, na enxurrada dos dias que correm, está Norma, minha mãe-ensinança, na Universidade. Colega de curso, incentivadora, admiradora das minhas loucuras cênicas, mas pé-no-chão, sempre pronta a declarar seu total apoio para as minhas reais possibilidades de fazer o mundo através das palavras escritas. Ela sabia. Eu não queria. Ela insistia. Eu relutava. Ela intuía. Até que eu acreditava...
Pois quando é tempo de colher as rosas, entregar os corações, viver a dois, as mulheres todas se juntam. São mães de família, acostumadas a entregarem tudo para a felicidade dos filhos. Nessa curva audaz, em que iremos tentar aprender finalmente outro convívio, encontro a mãe-cindida, a mãe do Carlos, a mãe-amiga. Esta devolve minha verdadeira mãe, a Neuza da minha certidão, da minha certidentidade, que ágil e prática, sempre me monitorou, algumas vezes contrariada, outras vezes silenciosa, outras tantas resignada.
Quantas mães mais poderei ter? O mundo me livrou das mães-históricas, das Medéias, das mães-Joanas, diabólicas, que sacrificam as crias, em nome do amor, que pode ser outro nome para a vingança do desamor.  Elas existem, não posso fingir que não. Mães são mulheres antes de tudo! E os filhos de Jasão talvez sucumbissem sem a mãe-que-ama-o-pai.  
Pois em todas elas hei de matar a sede. Pedirei colo, a qualquer hora. Verterei lágrimas. Cuspirei risos. Receberei palavras aveludadas, serei olhado com profundidade e amor. Eu sei! As Mães da beleza, as Mães água, as Mães Terra, as Mães Natureza! Todas elas são!


 (by Celso Sisto – 12/05/2012)

10 comentários:

Clarice Luvison disse...

Celso querido! Muito bom este texto das tuas mães. Me emocionei. Bjos

sérgio disse...

Que lindo texto meu querido!
Temos muitas mães...lendo sua história, a minha fez-se paralela e revi rostos, afagos... momentos difíceis e sempre a presença de um afeto materno...até nas amizades.
São muitos os colos, os ombros que se ofereceram nos momentos onde vacilo ou me perco, e sou grato à todos os "colos"...coisa de mãe; essa faceta divina que coube à mulher!
Abs.

celso sisto disse...

Clarice, você é uma amiga muito querida e sensível! Beijo grande! Obrigado pelo carinho!

celso sisto disse...

Sérgio Guida, você, um leitor assíduo e sensível. Sua opinião é sempre bem-vinda e construtiva! Obrigado.

Fátima Campilho disse...

Muitas mães...
Tantas lembranças...
Bela história de vida.
A minha é tão forte que abafou todas as outras.
Beijos

celso sisto disse...

Fátima Campilho! Obrigado por seu comentário! Mãe forte e abafante! Não deixa a vez pra ninguém! Né? Beijos!

Milene disse...

Querido Celso!
Consegui ver alguns personagens dos seus livros nesta tua crônica.Parece que tudo se conecta. Com certeza toda esta tua sensibilidade aflorada na tua escrita esteja relacionada com todas essas mulheres que encantam ou encantaram a tua vida.
Adorei saber que entre elas tem professoras.
Quem me dera ser lembrada assim por meus alunos! Pura alegria!
Um grande abraço!
Milene

celso sisto disse...

Milene, minha querida leitora, aluna, amiga! Pois não tem como fugir muito da nossa própria história, não é? De algum modo ela acaba transparecendo na nossa escrita ficcional. Você, que tem visto o outro lado da questão, da produção, da "escrita" mais biográfica, inclusive, com as crônicas, percebe, com sua perspicácia, tudo! Claro, que boa professora como você é, será lembrada também, nas memórias futuras de seus alunos! Um grande abraço e uma grande alegria poder contar com sua leitura sensível e tão humana.

Carolina disse...

Belíssimo texto, como sempre. Intuitivo, delicado e muito cheio de imagens que cavucam a gente lá dentro. Menino, você continua especialíssimo! Escritor de sentimentos; para muito além das palavras. Beijos, com carinho.

celso sisto disse...

Carolina! Obrigado por seu comentário. Escrever crônicas é também um exercício de desnudar-se! O cronista é um pouco esse sujeito louco que parte de sua experiência, de sua vivência para relacionar as coisas e o mundo à sua volta, com os temas que ele escolheu alinhavar... Não é? Eu sinto um pouco isso! Mas também escrevemos para mexer com as pessoas, para irmos além das palavras, para somarmo-nos às outras histórias individuais...Esse, pra mim, é o maior benefício da escrita e da leitura. Beijo, obrigado por seu carinho!