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domingo, 17 de junho de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - NAS CASAS DO TEMPO


Há dias que, sem nenhum motivo aparente, acordamos cedo demais! Hoje é um destes dias! O pensamento estampado num pedaço-do-além, a nos iluminar todo o sono. Sem clemência! Como o sol, instalado no seu ápice, num dia de Verão.
Comigo sempre acontece no meu aniversário.  Algo estala dentro de mim, como se me obrigasse, a cada ano, a reler as páginas desta história que ainda estou a escrever. E como o livro já é um grosso volume, obriga-me a despertar cedo!
Na madrugada, acobertado pelos casulos do silêncio, ouço os meus pensamentos espocando das mais variadas direções: dos pés, as terras que já pisei; dos joelhos, os perdões que já implorei; das coxas, os amores que já cultivei; dos cotovelos, as dores que já amarguei! O corpo inteiro é dotado de vozes e lembranças sussurrantes. De tons e semitons de alturas diferentes, com muitos timbres e compassos... Durma-se com um barulho desses!
Mas, quase sempre, passada a sinfonia de abertura, abro os olhos e com eles, as janelas! E vou entrando nas casas do tempo, por uma necessidade louca de ler as paredes. Eu sei, nelas é que de fato estão inscritos os meus dias!
E como se não bastasse reconhecer cada prego martelado, cada buraco feito, cada quadro dependurado, ainda é urgente passar a mão na cor (parede tem rosto!), medir a textura do que já foi (parede tem pele sensível!), encostar a face na frialdade do muro (parede tem olhos!), afagar tudo o que cada lugar me deu (parede tem ouvidos!).
Talvez aquele antigo relógio bim bam Silco, de mesa, que ficava no toucador da minha avó ainda guarde o significado maior. Suas badaladas ainda ecoam nas paredes da minha casa-corpo. E ainda agora estou a me inquirir sobre as consequências de sua melodiosa reverberação!
Como se o meu tempo fosse então dividido em horas canônicas, passo a visitar as minhas casas da infância. O meu livro de horas.
Quando soam as Matinas, a casa se enche de luz e imediatamente o colorido dos peixes japoneses se espalha pelas minhas retinas. Escondido entre as jiboias, do laguinho central, mergulho ali para recuperar os meus primeiros anos.
Mas, ao soarem as Primas, a manhã dos tempos se instala, e lá estou eu correndo entre os canteiros da Dona Inocência, arrancando azedinhas, enfeitiçado pelas enormes latas de banha, a derramarem flores ou a saltar atrás dos pardais e rolinhas, estremunhado entre os latidos da Bolinha e seus olhos verdes a implorarem carinho.
Quando menos se espera, soam as Terças. As horas intermediárias avançam e entro correndo, esbaforido, na casa de Dona América, a todo instante interrompida pela linha do trem, que passava no fundo do pátio. Ali, pulando o muro, cheguei sempre atrasado para pegar o comboio, mas aprendi a comer amora no pé, a louvar a terra preta e a bendizer cada cantinho escondido do quintal. Enquanto a máquina de costura da avó enchia de cantigas o ar, estávamos seguros.
Pois então, chegam as Sextas, a hora de repartir o pão com a criançada do sobrado em que descobri que podia voar, como os pombos. Marcar o caminho com a quirera. Correr livremente nas ruas. Pelas vielas. Onde aprendi o egoísmo do querer, o choro da mágoa, a dor de ser preterido. Amor de amigo era quente assim, mas deixava as primeiras marcas que só o gostar podia abrir debaixo da pele. Ferida negada.
Mas, são as Nonas que trazem a fome, o frio, a falta de provisões, que o jovem patriarca tentou esconder dos filhos. O primeiro contato com a embriaguez assustou-me de tal forma, que as lágrimas de meu pai ainda estão a regar os meus dias.
Nas Vésperas a casa esteve florida, e o canto dos canários e periquitos emprestou poesia ao papel de parede que revestiu o meu quarto e os meus sonhos. Ali, naquela casa, andei repetindo as primeiras frases de Alencar, Macedo, Machado, espantado com a beleza que as palavras podiam carregar. Tive encontros e prelúdios. E deles, emergiu, em definitivo, um leitor.
E, finalmente, chegam as Horas Completas, marcadas pelos amplos espaços de Brasília. Com elas subi as escadas daquela casa, que reverberou em uníssono, num novo tempo, anunciando o amor dos iguais, os livros em profusão e o teatro com sua generosa disponibilidade para a troca de papéis.
Cara a cara comigo mesmo, voando sobre esta cidade, agora imaginária, arquitetada pelos anos de vida, me dou conta de que aniversariar me devolve o corpo mutante, este único e transitório habitat. Porque um dia, ele também já não será. E ainda assim continuará a mudar.
Então terei adquirido a forma de uma mesa à qual me sentei várias vezes; o jeito de uma cadeira em que estive a descansar; a extensão de uma cama em que estive a me esparramar... Repousarei nos objetos em que toquei com a espessura de muitos gestos repetidos ao longo dos anos. E serei sim, folio, opus, obra do tempo.
Pra que esperar?! Aquele relógio inteiro ainda está a soar...

 (by Celso Sisto – 17/06/2012)

DA SÉRIE "POEMEUS" - RE-FEIÇÃO DE GENTE


GLOSSÁRIO PARA SABOREAR O POEMA:

FIDÚCIA -  s. f.
    Confiança em si mesmo....
ACROSOFIA -  s. f.
    Sabedoria suprema....
CAPEROM -  s. m.
    Companheiro....
MALUNGO -  s. m.
    Amigo, companheiro....
ANTECÉU - s. m.
    Anteposto do céu, grande felicidade....
LETÍFICO - adj.
    Que traz alegria; letífero....
TERNEZA -  s. f.
    Ternura; carinho....
CARANÇO - s. m.
    Carinho, ternura....
BIOFILIA - s. f.
    Amor à vida....
SINDÉRESE - s. f.
    Consciência moral....
COMENSAIS - s. 2 g.
    Pessoa que come habitualmente com outros em mesa comum de hotel, casa de pasto, etc....


LABORATÓRIO DE AUTORIA - MÓDULO 2 - INSCRIÇÕES ABERTAS




DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 101


domingo, 10 de junho de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - DIA DE CHORAR AS PITANGAS!




Às vezes dá uma vontade danada de chorar! E a gente nem sabe por quê. Uma tristeza ancestral, transversalmente armazenada em lugar esquivo, de repente rompe as comportas e não há jeito: inundação sem previsão de contenção!
Mas, não é caso para decretar estado de calamidade pública! Não dizem que chorar faz bem? Pois essa chuva vertida pelos olhos, que convulsiona o corpo todo tem lá seus benefícios.
Os manuais explicam o fenômeno fisiológico dizendo que o ser humano produz grande quantidade de lágrimas dos olhos (e poderia ser lágrima de outro lugar?) quando está em estado emocional alterado ou em casos de medo, tristeza, depressão, dor, saudade, alegria exacerbada, raiva, aflição, etc.
Prefiro ater-me ao que pode estar contido nesse “etcétera”! E não se pode chorar apenas por uma necessidade oculta de usar os canais lacrimais? Lubrificá-los? Untá-los com fluido cristalino que traz um pouco do mar interior e muito da força do que se sente com tanta intensidade? Ah, prefiro!
Optar por chorar é optar por sentir e demonstrar! Mas será que é opção? Não poderia ser exatamente falta de opção? Quando não há mais o que se fazer, chora-se! Também poderia ser catarse pura: chora-se porque de algum modo nossas sisternas-do-sentir estão cheias até às tampas, e por isso, transbordam! Vertem para fora a emoção genuína! Que arrasta consigo a enorme e prazerosa sensação de alívio! E pronto, passou!
Como sou fadado à criação, prefiro acreditar que aquele etcétera ainda tão cheio de reticências e incompletudes, abre espaço para o choro da libertação, o choro da compensação, o choro da amortização. É isso: eu choro e vou amortizando as minhas penas, as minhas dores, os meus futuros sofrimentos, e ficando com crédito para as fortes emoções vindouras! É lucro! E por vezes, o choro oferece a possibilidade de ver depois com outros olhos!
Mas, dizem os que têm vocação científica ou no mínimo dicionarística, que chorar em excesso é pranto! Alto lá! Uma variação com grau superlativo já pode ser preocupante! Por isso lembrei-me que chorão é quase um xingamento; um sujeito desacreditado, que chora por qualquer motivo, que chora por tudo e por nada! Que acaba por banalizar o choro!
E, por ironia do destino, o Chorão-planta, ou salgueiro-chorão precisa de muito pouca água na terra, mas é capaz de absorver a água em excesso de solos úmidos! O importante é que ele chora, seja na rota da seda, seja na Babilônia. Seja porque um ramo seu serviu para golpear Jesus, como diz a lenda; seja porque sente profundamente a morte da índia Jurema, como conta outra lenda.
Já o pranto, tem sua carga de poesia. Tem beleza. Tem simpatia. Clama cumplicidade! Prantear algo ou alguém é estar compactando movimentos sísmicos de uma grandeza inigualável! Para conferi-los a melhor arrumação possível na viagem de dentro para fora. Um passeio necessário, inadiável, feito com gosto e de modo até quem sabe, tranquilo.
A infância, época em que o choro é ainda mais tolerado, merece algumas considerações. Choro de criança sempre preocupa. Angaria atenção. Provoca piedade. Pode trazer consolo e até compensação: “cala boca que eu te dou um pirulito”! O que também imediatamente provoca a lembrança de frases nada bonificadoras: “cala a boca e engole esse choro”! Ou a mera desconfiança: “esse choro é de pura chantagem”! Essas ameaças fantasmas, embaladas pela voz do pai ou da mãe têm uma dimensão incalculável! Podem gerar escoamento imediato ou aumento de frequência e volume da por vezes tão temida e evitada água dos olhos! Nunca se sabe! Água do olhar talvez sirva para afogar! Ou, desafogar?!
Mas tem gente que ainda tem pudor de chorar em lugares públicos. Criança não tem! Então, acho que ainda sou criança em plena idade madura! Lembrei que bananeira chora toda vez que é vitimada por um talho! Criança é assim também! Calhou, chorou! Ou seria: talhou, chorou? Ah, dá no mesmo!
E já que chorar suscita tantas expressões, fui logo dizendo em voz alta todas as que eu lembrava, da minha coleção de “palavras-temporamentadas”: chorar um rio de lágrimas; chorar a bandeiras despregadas; chorar até mandar parar; chorar lágrimas de sangue; chorar lágrimas de crocodilo...
Pronto! Ou o melhor seria dizer, como a letra da canção: hoje “não quero choro nem vela”.
Mas agora que abri o canal dessa barragem do chororô, vamos continuar a choradeira e rememorar toda a choração, atando de uma só vez, o rito do choro. Além do buááááááááaá do nascimento, que mais posso lembrar de uma infância feliz, entrecortada, vez por outra, por sentidíssimos choros? Comum chorar de fome, de frio, de dor física, de medo do escuro ou que a mãe não venha buscar na escola...
Sinal da ação do tempo é quando começamos a chorar no silêncio e sozinho! Aqui sim, os olhos vermelhos do “chorar as pitangas” serão mais do que verter muitas lágrimas, do que simplesmente queixar-se ou lamuriar-se... Sempre no silêncio e sozinho... preocupa... dói mais... ganha outra dimensão... ultrapassa todo e qualquer procedimento protocolar da vida domesticando um coração de criança.

                                                                                                                                                                                   (by Celso Sisto – 10/06/2012)



DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É..." - UMA VIAGEM À LUA!


SARAU DOS ALUNOS DO LABORATÓRIO DE AUTORIA - CONVITE E CARTAZ


ESTAMOS ESPERANDO TODOS OS AMIGOS LÁ!

sábado, 2 de junho de 2012

DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É..." - INOLVIDÁVEL É... TERRA MOLHADA


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 92


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 91


DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É..." - INOLVIDÁVEL É... PASSARINHO NA JANELA


DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É... - INOLVIDÁVEL É... UM LIVRO NA MÃO


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 90


DA SÉRIE "POEMEUS" - ESCRITURA


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 89


DA SÉRIE "POEMEUS" - PACTO


DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É..." - INOLVIDÁVEL É CAFUNE


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 88


DA SÉRIE "INOLVIDÁVEL É..." - INOLVIDÁVEL É ... ESPARRAMAR-SE NO SOFÁ


DA SÉRIE "LAMPEJOS" - DITADO POPULARTE 87