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domingo, 10 de junho de 2012

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - DIA DE CHORAR AS PITANGAS!




Às vezes dá uma vontade danada de chorar! E a gente nem sabe por quê. Uma tristeza ancestral, transversalmente armazenada em lugar esquivo, de repente rompe as comportas e não há jeito: inundação sem previsão de contenção!
Mas, não é caso para decretar estado de calamidade pública! Não dizem que chorar faz bem? Pois essa chuva vertida pelos olhos, que convulsiona o corpo todo tem lá seus benefícios.
Os manuais explicam o fenômeno fisiológico dizendo que o ser humano produz grande quantidade de lágrimas dos olhos (e poderia ser lágrima de outro lugar?) quando está em estado emocional alterado ou em casos de medo, tristeza, depressão, dor, saudade, alegria exacerbada, raiva, aflição, etc.
Prefiro ater-me ao que pode estar contido nesse “etcétera”! E não se pode chorar apenas por uma necessidade oculta de usar os canais lacrimais? Lubrificá-los? Untá-los com fluido cristalino que traz um pouco do mar interior e muito da força do que se sente com tanta intensidade? Ah, prefiro!
Optar por chorar é optar por sentir e demonstrar! Mas será que é opção? Não poderia ser exatamente falta de opção? Quando não há mais o que se fazer, chora-se! Também poderia ser catarse pura: chora-se porque de algum modo nossas sisternas-do-sentir estão cheias até às tampas, e por isso, transbordam! Vertem para fora a emoção genuína! Que arrasta consigo a enorme e prazerosa sensação de alívio! E pronto, passou!
Como sou fadado à criação, prefiro acreditar que aquele etcétera ainda tão cheio de reticências e incompletudes, abre espaço para o choro da libertação, o choro da compensação, o choro da amortização. É isso: eu choro e vou amortizando as minhas penas, as minhas dores, os meus futuros sofrimentos, e ficando com crédito para as fortes emoções vindouras! É lucro! E por vezes, o choro oferece a possibilidade de ver depois com outros olhos!
Mas, dizem os que têm vocação científica ou no mínimo dicionarística, que chorar em excesso é pranto! Alto lá! Uma variação com grau superlativo já pode ser preocupante! Por isso lembrei-me que chorão é quase um xingamento; um sujeito desacreditado, que chora por qualquer motivo, que chora por tudo e por nada! Que acaba por banalizar o choro!
E, por ironia do destino, o Chorão-planta, ou salgueiro-chorão precisa de muito pouca água na terra, mas é capaz de absorver a água em excesso de solos úmidos! O importante é que ele chora, seja na rota da seda, seja na Babilônia. Seja porque um ramo seu serviu para golpear Jesus, como diz a lenda; seja porque sente profundamente a morte da índia Jurema, como conta outra lenda.
Já o pranto, tem sua carga de poesia. Tem beleza. Tem simpatia. Clama cumplicidade! Prantear algo ou alguém é estar compactando movimentos sísmicos de uma grandeza inigualável! Para conferi-los a melhor arrumação possível na viagem de dentro para fora. Um passeio necessário, inadiável, feito com gosto e de modo até quem sabe, tranquilo.
A infância, época em que o choro é ainda mais tolerado, merece algumas considerações. Choro de criança sempre preocupa. Angaria atenção. Provoca piedade. Pode trazer consolo e até compensação: “cala boca que eu te dou um pirulito”! O que também imediatamente provoca a lembrança de frases nada bonificadoras: “cala a boca e engole esse choro”! Ou a mera desconfiança: “esse choro é de pura chantagem”! Essas ameaças fantasmas, embaladas pela voz do pai ou da mãe têm uma dimensão incalculável! Podem gerar escoamento imediato ou aumento de frequência e volume da por vezes tão temida e evitada água dos olhos! Nunca se sabe! Água do olhar talvez sirva para afogar! Ou, desafogar?!
Mas tem gente que ainda tem pudor de chorar em lugares públicos. Criança não tem! Então, acho que ainda sou criança em plena idade madura! Lembrei que bananeira chora toda vez que é vitimada por um talho! Criança é assim também! Calhou, chorou! Ou seria: talhou, chorou? Ah, dá no mesmo!
E já que chorar suscita tantas expressões, fui logo dizendo em voz alta todas as que eu lembrava, da minha coleção de “palavras-temporamentadas”: chorar um rio de lágrimas; chorar a bandeiras despregadas; chorar até mandar parar; chorar lágrimas de sangue; chorar lágrimas de crocodilo...
Pronto! Ou o melhor seria dizer, como a letra da canção: hoje “não quero choro nem vela”.
Mas agora que abri o canal dessa barragem do chororô, vamos continuar a choradeira e rememorar toda a choração, atando de uma só vez, o rito do choro. Além do buááááááááaá do nascimento, que mais posso lembrar de uma infância feliz, entrecortada, vez por outra, por sentidíssimos choros? Comum chorar de fome, de frio, de dor física, de medo do escuro ou que a mãe não venha buscar na escola...
Sinal da ação do tempo é quando começamos a chorar no silêncio e sozinho! Aqui sim, os olhos vermelhos do “chorar as pitangas” serão mais do que verter muitas lágrimas, do que simplesmente queixar-se ou lamuriar-se... Sempre no silêncio e sozinho... preocupa... dói mais... ganha outra dimensão... ultrapassa todo e qualquer procedimento protocolar da vida domesticando um coração de criança.

                                                                                                                                                                                   (by Celso Sisto – 10/06/2012)



11 comentários:

Anônimo disse...

Gostei demais, tem mesmo que chorar, abrir as comportas ou semportas!! Domesticar o choro...não dá! Gostei dos etecetra... mas, que o chÔro é de repente, vem de dentro, do âmago e faz bem, traz alivio, é verdade mesmo!Porisso choro as pintangas MADURAS OU AINDA VERDES,e as vezes em público também!Abs Celso,
arteana

celso sisto disse...

Obrigado, Arteana! Adorei seu comentário! Temperar a vida com um chorinho é parte do exercício de ser gente! Abs.

Anônimo disse...

Eu gosto do choro tipo tempestade. Aquele que irrompe quando está tudo tenso, tudo escuro, tudo triste... Vem com tudo e lava a alma, esfrega o coração, dá brilho nos olhos! E quando passa então? É uma festa! O suspiro vem como brisa e sacode as flores lindas que acabam de nascer, a alma voa pelo azul que surge e retoma o passo, leve, leve, leve.

celso sisto disse...

Que lindo esse comentário do choro-tempestade! Adorei! Quanta poesia!

Izildinha disse...

Chorar lava a alma
Nos limpa e nos acalma
Às vezes traz consoloção,
Outraz, traz transformação!!!


Dida Poeta

celso sisto disse...

Dida Poeta, obrigado por seu verso! Pura verdade!

Milene disse...

Olá Celso!
Minha avó diz que chorar é bom para limpar o coração dos sentimentos ruins. Eu já acho que é muito mais que isso. Não seguro o choro, mas às vezes me envergonho. Choro quando estou triste, choro quando leio uma história tocante, choro quando fico feliz, choro quando estou cansada, choro quando não consigo fazer o que quero, choro muito. Penso até que choro demais, se isso é possível, se pudéssemos medir o choro.
Bom, sei de uma coisa, o choro limpa meu peito, limpa minha alma e isso para mim basta!
Abraços querido!
Milene

celso sisto disse...

Milene, minha leitora mais assídua, sem deixar de ser crítica. Suas contribuições e comentários me deixam feliz! Obrigado por esse carinho! Abs.

Ernani - Wii Fest Animação Games disse...

Tenho domesticado meu infantil coração.
Tenho chorado com hora e lugar marcados.
Mas...
a vida tem disso...
quando não dá...
chora-se aqui...
e chora-se lá...

Obrigado chokito!
abçs e inté..
Ernani

celso sisto disse...

Ernani, obrigado por seu sensível e poético comentário. Adorei! Abração!

Beatriz Napoleão disse...

Como com a maioria das pessoas, as lágrimas fazem parte da minha vida. Algumas vezes ao ver ou ter tristeza elas se manifestam. Ao acordar é hora de espreguiçar; um bocejo, algumas lágrimas. É comum eu chorar de emoção. Vivo chorando de tanto rir. E, confesso que, gosto de chorar na medida. O choro faz com que eu me sinta viva, solidária e mais humana.
Parabéns, Celso! Para escrever um texto como esse é necessário mais que sensibilidade. Tem que haver talento.