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domingo, 30 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 41




(Texto Celso Sisto; Ilustração Albert Dubout)

41.  Vestígios de vida invadem a manhã. Sobras do dia ficarão pelos cantos. Ao longe um miado, um latido, um cacarejo, um relincho. É o Quixote que desperta em mim, desenhado a carvão e fixado pelos bons ventos do sul. Serei louco, sonhador, cavaleiro. Serei passional, trovador, aventureiro. Serei leitor de mundos, nas montanhas domingueiras, amenizadas pelas sombras das palavras que me acompanham em estado de criançamento. Ao ar, toda a arte de trafegar. Ao relento, toda a sorte de erigir monumentos! Os moinhos também são a casa da poesia, e é pra lá que eu vou!
30.09.2012

sábado, 29 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 40



(Texto Celso Sisto; Ilustração Virginia Sterrett)

40. As andorinhas espalham segredos. O inesperado rasga a pele do céu como um raio. Exortação da voz, do olhar, do desamparo. A carruagem do Sol chegará sozinha ao umbigo celestial. Mas há ainda estas pequenas fissuras serpenteando meu rosto, dizendo que é o pastoreio dos anos sobre a minha terra que me enverniza. Minha tarefa é engordar palavras. Com a carne do poema talvez seja possível sossegar o tempo, afundar sem peso, arrefecer, vespar em outras vidas.
29.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 39




(Texto Celso Sisto; Ilustração Rene Bull)

39. Longe. As imensidões não podem ser medidas com fios de cabelos. Embrenhar-se nos pântanos da criação é afundar inteiro na lama faiscante da memória e da experiência litúrgica da escrita, da leitura, das diabruras de que sou capataz. Medir a corrosão do grito, a aceleração da respiração, a luz do olhar, a latência da dor me tornaria um idiota! Os quilômetros do meu texto-corpo não são mais que passos assombrados sobre um si mesmo! Tentando abraçar uns outros. Muitos outros. Tantos outros.
26.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." 38





(texto Celso Sisto; ilustração Warwick Goble)

38. A cidade hoje parece feita inteiramente de vidro e aço. Carregamos bolas de chumbo nos pés e somos prisioneiros. Arrastamos corpos. Retiramos apressados do sono os dedos autômatos. Os gestos recrudescem. Empilhamos discursos que ficaram por dizer. Mas ali, na dobra da esquina, esvoaçam as bolhas de sabão. Milhares. Na boca do vento.Tão leves e diáfanas, que os olhos, alheios às flores aladas, preferem caminhar em direção à morte. Haverá sempre uma arma apontada para a cabeça do sonho e eu deveria aprender a desarmar desejos!
25.09.2012

domingo, 23 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." 37




(Texto Celso Sisto; ilustração Warwick Goble)

37. Que domingo tocará os meus pés, quando o vento silenciar? Que flor se abrirá hoje, no jardim das letras, deixando saltar do ontem a doçura inebriante das manhãs com Quintana? No antigamente a roda-gigante, o carrossel, a maçã do amor, o cata-vento e os sapatos floridos anunciavam a primavera. Agora preciso adubar os vasos e as artérias. Meus gerânios se alimentam de outra seiva. E querem florir o ano inteiro. Rubramente!
23.09.2012


sábado, 22 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 36



(Texto Celso Sisto; ilustração John Bauer)

36. Para o coração da poesia, simplicidade. Para o chão da poesia, pés descalços. Para o banho da poesia, olhos receptores. Para a vida na poesia, indulgência. A arte de extrair das palavras o seu teor aurífero e pacificante, a sua beleza enredante, o seu gigantismo aliciante não tem nada a ver com a arrogância dos desfolhadores das letras, com seus bisturis de aço, acostumados às autopsias deformadoras. No fim, fica o poema sangrando, a céu aberto, retrato da vaidade. E perdido, para sempre, o desejo de pertencimento, o múltiplo sentido, a grande simbiose.
22.09.2012

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 35


(texto Celso Sisto; ilustração Ernest Haeckel)

35. Um dia serei árvore! Cerejeira. Flor do Deserto. Sequóia. Drago. Figueira. Acácia-rubra. Jacarandá-de-minas... Tão digno abrir tantos braços, recolher tantas vidas, alimentar tantas bocas. Estar em pé e em movimento de alerta. Com a cabeleira esvoaçante, as folhas enfeitadas de gotículas, a pele maleável da cortiça vestindo o tronco... Uma valsa com o vento, e lá se vai a chuva. Uma visita do sol, e falaremos todos a língua do rouxinol. Ah, hoje me dei conta: junto com os livros, tenho brincado de ser casa-na-árvore inúmeras vezes. E é nela que sobem as minhas crianças, para saltarem para a fantasia. Eu as empurro todas, rumo ao primeiro voo. Esse que não tem mais volta...
21.09.2012

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 34




(texto Celso Sisto, ilustração Kay Nielsen)

Desenhar com os olhos a paisagem. Contornar a estrada. Abrir as porteiras. Para libertar a voz guardada em cada pedra alisada pelo tempo é preciso convocar as avós. Que elas venham em bandos, com seus sorrisos balsâmicos, para ligarem nosso presente às nossas origens. Rendadas de flores e anáguas. Trazendo licores. E portando leques. Para desentranharem, mais uma vez, as histórias que ainda precisamos ouvir!
20.09.2012

domingo, 16 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 33



(texto Celso Sisto; ilustração Edmund Dulac)

Queria mesmo ter asas! Mais que um sonho, um projeto de vida! Aprendi com os pequenos seres que voar é também um estágio obrigatório da condição humana. E depois que se adquirem asas, sejam de papel crepom, seda, de membranas de liga leve ou enfeixadas por varizes irrigadas de sangue-solar, o próximo passo é... virar personagem e enfrentar a tempestade grande e cheia, rumo à Ilha de Próspero!

16.09.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..."- 32

(texto Celso Sisto; ilustração Kay Nielsen)

Ficarei contando gotas de chuva. Quantas serão necessárias para aliviar o choro convulso da terra, alimentar os rios, lavar a alma? Não pouparei um dedo sequer. Me entregarei à água, como o recém-nascido se entrega à infância dos banhos. As gotículas que saltam, as perolazinhas que se desmancham, os risquinhos no nariz. Quero inaugurar o dia de domingo, como um barquinho de papel que avança na pequena enxurrada, de mãos dadas com a bailarina de cartão e sob o olhar-baioneta do soldadinho de chumbo... Andersen que nos salve!
16.09.2012

sábado, 15 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 31



(texto Celso Sisto; ilustração de John R. Neill)

Sinos acordam outros tempos dentro de mim. Esse carrilhão, que desperta histórias, me conduz aos mosteiros onde se purificam as minhas palavras. O sagrado ecoa por todos os lados. Subo aos ares, para balançar nas cordas do badalo. Para voar inteiramente convertido em bronze. É como se... uma explosão, como se... outros sons. Como se a estridência, o baque, o toque, o arranhão... Em cada nota, rompe-se um invólucro, tange-se uma legião, move-se uma história, dialogam os ponteiros do velho relógio. Aquele, ainda, guardado na casa da Avó. Por que voltarei sempre a ele, como se na sacristia de cada poema eu tivesse que presidir o rito? Paramentar o ato? Beber do cálice? Poeta, sátiro, sacerdote inábil, tudo isso eu... Que os sinos não me desamparem! Não me ensurdeçam!

15.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 30

(texto Celso Sisto; ilustração Harry Clarke)

Azul da alegria. Ler o firmamento todos os dias. Desencantar pássaros, nuvens, cometas, estrelas, carruagens, pessoas, monstros, e até mesmo anjos. No Céu das palavras. No esgazeado livro aberto diante dos olhos. Outros olhos. De ver para dentro. Afinal, no meu azul celestial flutua o que eu bem quiser!

15.09.2012



quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 29


(texto Celso Sisto; ilustração de Antoine Saint-Exupèry)

O oásis estava bem ali na frente. Mas eu não via. Procurava a raposa, a serpente, o aviador, o desenho de um carneiro, a rosa na redoma de vidro, os baobás, que tudo o mais perdeu o contorno. Agora levarei muitas estações para voltar ao mesmo ponto. As luas insistirão nesta sucessão de luzes e eu tatearei cada palmo do deserto das letras, procurando aquela ampulheta, que me fazia domar a pressa. O tempo assim, escoado em páginas brancas sem linhas ainda é o meu verdadeiro salvador. Mas morrerei sempre, e cada vez que um príncipe-menino se calar.

12.09.2012

domingo, 9 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 27



(texto Celso Sisto; ilustração de Willy Pogány)

A alegria parece feita de pequenas jóias: os pardais em estardalhaços ritmados nos galhos da buganvília; o gato Bonifácio rolando de barriga pra cima-pra baixo-pra cima-pra baixo, bem ao meu lado; os filhotinhos da Ninfa mamando sofregamente, dizendo de um jeito mudo: mamãmamãmamã; e a luz filtrada em amarelo-Midas, na cortina da janela, onde escrevo diariamente! Tudo tão mágico que o melhor é sentar no chão, disfarçado de menino, para entrar sem demora, nas fantasias de domingo...
09.09.2012


sábado, 8 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 25


(texto Celso Sisto; ilustração Walter Crane)

Os ipês anunciaram a primavera! Eu anunciei os cisnes. Asas abertas, imensos, trafegando inteiros no sonho aquático de qualquer menino! As azaleias vestiram-se de clowns, eu vesti-me de palavras. E agora, como quem floresce, como quem dança a derradeira valsa, como quem despede-se das cores e se desnuda, vou dormir, cabeça apoiada no livro, mãos dadas com as fadas!
07.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 24


(texto Celso Sisto; ilustração Walter Crane)

Que algazarra! Netuno cavalga corcéis. E eu, acostumado às tempestades de areia, visto-me de branco. Esperarei até que a neve caia, que o sal derreta, que o jasmim desprenda-se espontaneamente, que a espuma do mar se acabe por completo. Aí sim, saberei que a palavra madura terá produzido frutos, que em mim, às vezes teimam em ser chagas.
07.09.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 26


O tempo roedor de certezas também vira ruminante. Guarda cenários, palavras, pessoas. Trabalha, com arte, o castelo erguido nas pinceladas da emoção. Que o amarelo-Van Gogh seja o caminho solar; que o Vermelho-Miró traga o perfume das frutas cintilantes, que o azul-Monet convide sempre ao repouso ajardinado... Na minha palheta de tintas, o passado, o presente e o futuro ganham as cores que estão impressas detrás dos olhos, espelho, d'alma...
08.09.2012
(texto Celso Sisto, ilustração Walter Crane)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 23




("Hercules and Atlas", ilustração de Walter Crane)


"São os uivos do vento lá fora. Fantasmas que atravessam lonjuras. Batem à porta, querem entrar, quebram os vidros. Eu, pequeno demais para a fúria invisível, fico imóvel. Aos poucos recobro o calor, o sangue, a linguagem. E enfim, me recordo: fui eu que inventei essa tempestade onírica, que agora me devora". (Celso Sisto)
07.09.2012