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sexta-feira, 23 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 58






(Texto Celso Sisto, Ilustração de Iris Susanne Bennett, para a capa do livro "The patchwork path, a quilt map to freedom", de Bettye Stroud)


58. Colcha estendida, alma lavada. Foi preciso que a Avó sustentasse, com agulha, o primeiro ponto. Pronto! Os retalhos miúdos foram compondo o tecido, crescendo como o rio que avança, que ziguezagueia na linha de frente, com a tarefa de atar bravuras em todos os tempos. Ainda agora estou polindo as histórias costuradas na colcha. Prendo-as pacientemente na minha pele. Elas são minhas. É o fio da vida que preciso amarrar! Meu carretel de cores, esses pontos múltiplos, o primeiro verbo! Se a Avó me abrigou debaixo da palavra desse ofício tecelão, erguerei o manto das histórias, para descobrir as crianças com seus olhos-de-estrelas. Avó, Avó, mal sabia você que aquela agulha dourada seria o lápis da minha vida!


23.11.2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 57





(Texto Celso Sisto; imagem: tecido com símbolos africanos)

57. Consciência! São muitos os rios da minha brasilidade, eu sei. Mas hoje quero navegar o Nilo, o Congo, o Kagera, o Niger, o Zambezi. São essas águas turbilhantes que movimentam as histórias. Quero ouvir a voz das águas! A voz das águas! E as canções dos ancestrais, e os rumorejos festivos dos griôs. Quero ouvir tudo! Meu chi há de gostar! E embalado pelas crianças que estarão anunciando a lua nova, comeremos o inhame sagrado. Saudaremos esse dia: Zumbi, possa o teu rosto, ao encontrar-se redondamente com o meu, alargar o coração do mundo! Trago terra nas mãos e a lembrança do fogo. Nossos rios estarão sempre murmurando: força, beleza, sabedoria; força, beleza, sabedoria; força, beleza, sabedoria...Condição para fazer novo dia!

20.11.2012


domingo, 18 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 56




(Texto Celso Sisto; Ilustração John Bauer)


56. Beleza explicável: o dia nos braços do sol, o mar levemente encapelado, o vento acariciante. E na barriga do mundo, as formigas carregando suas provisões de felicidades, a terra dizendo que sim em porosidades umidificantes, as sementes esticando as pernas para o ar. Eu me alongo também em direção ao reino maior da fantasia. Em dias assim só sirvo para ser duende!

18.11.2012


sábado, 17 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 55






(Texto Celso Sisto; Ilustração Jessie Willcox Smith)

55. Claridade. De repente, a luz. Aos poucos, de uma vez, intermitente, sonora (há luz que é morada de passarinhos!). Agora ando no rastro das palavras luminosas. E este mistério do clarear, que começa na boca, me convida ao jogo da pronúncia. Mal digo ABÓBODA e o azul celeste se projeta no ar, se desdobrando como flor que se abrisse agora. Digo PRATEOU e os raios sonoros correm, fazendo sulcos ao redor de mim, como se revelassem as entranhas rasgadas na pele do dia. Experimento dizer AMANHECEU e lentamente a luz dos meus olhos se ofusca com o derramar da aurora. É isso! A palavra anuncia. Mas eu, inteiro posso ser o objeto da conversão. Isto sim é alegria!

17.11.2012


IX FEIRA DO LIVRO INFANTIL DO HOSPITAL SÃO LUCAS - PORTO ALEGRE




Na próxima semana, no dia 22 de novembro de 2012, próxima quinta-feira, acontece a IX FEIRA DO LIVRO INFANTIL DO HOSPITAL SÃO LUCAS. O evento faz parte do projeto "Literatura infantil e medicina pediátrica, uma aproximação de integração humana", que está comemorando seus 15 anos. Neste dia receberemos o patrono da nossa feira, o escritor Luiz Coronel e os escritores convidados Alexandre Brito e Celso Sisto. O projeto é da professora Solange Ketzer, coordenado pela Faculdade de Letras da PUCRS (dirigida pela professora Maria Eunice Moreira) e com a minha colaboração e das professoras Maria Tereza Amodeo e Vera Pereira. Confiram a programação!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 54





(Texto Celso Sisto; Ilustração de Newell Convers Wyeth)



54. Sou uma pedra. E estou no meio do caminho, como quis Drummond. E não há imobilidade no meu ser-pedra. Há solidez, inteireza, resistência ao choque. Eu mesmo rolo daqui pra lá, de lá pra cá. Sou uma pedra sim! E no meio do caminho posso ser ardósia, calcário, dolomite, granito, mármore, ônix, travertino, alabastro. O certo é que o meu ser-pedra só serve mesmo para revestimento em mim: piso, parede, jardim; corpo consistente em torno do qual a poesia se aninha. Quero ser pedra muitas vezes, para entrar no mundo com olhos minerais, e deixar que a área, a dimensão, o espaço e a extensão sejam calcificados pelas ação dos tempos verbais, dos milhares de poemas engoliiiiiiiiiiidos!

16.11.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 53


(Texto Celso Sisto; Imagem de Harper & Brothers, 1909)


53. Rodeado de cães, piso em casa. Entre latidos de felicidade, desfaço a mala. Cada um deles me rodamoinha com o olhar. Vou ficando recheado. Envelopado de amor, amor, amor. Depois chegam os pulos, os beijos, as reclamações em música latidíssima e as saudades libertadas entre patas e pelos. Como é bom saber que sou quase um deles! Andamos em procissão, visitando cada prato, depositando na mesa o que temos nas mãos: nosso pacto de nacionalidade. As histórias que nos contamos vêm borbulhantes de muitas línguas, escorrendo do riachinho-coração... suficientes para alagarem o resto dos dias...

15.11.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 52





(Texto Celso Sisto; Ilustração Anne Anderson)

52. Explosão. Letras para todos os lados. Passei horas catando as histórias que se misturaram, todas! Acho que depois disso nunca mais poderei contar com certeza nenhuma história, sem desconfiar que as palavras se movem, sem pressentir que está ali um personagem oculto, sem esperar que de noite, haja um verdadeiro levante, e que, empunhando lápis, canetas e borrachas, esses sujeitos de papel, promovam metamorfoses para as quais me tornei incapaz. Pobre escritor! A morte do texto é só o início do próximo!

13.11.2012

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 51







(Texto Celso Sisto; Ilustração Maxfield Parrish)




51. Abrasador este tempo de brotações. A palavra dá frutos sempre que realiza a mágica de alinhar candura, ourivesaria e alento. Por isso essa posta-restante guarda muitas mãos, muitos olhos, muitas vozes. Até que seja reclamada por seu destinatário, a poesia espera. Eu é que não posso mais esperar!

05.11.2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 50





(Texto de Celso Sisto; Ilustração de Thomas Mackenzie)


50. Que tenho eu para oferecer senão palavras-em-flor? Enquanto eles fabricam venenos e atiram sobre si o pó das estrelas, eu trabalho a terra da poesia. Da minha árvore, recebo outros ventos. Logo o botão explodirá e o perfume ganhará existência. Que seja também meu invólucro, para não precisar dizer nada além daquilo que coloca o outro de pé. Quando a brisa sopra, parece dizer veementemente: olhai os lírios do campo, olhai...

04.11.2012


sábado, 3 de novembro de 2012

LIVRO-ARBÍTRIO 1




 (Texto Celso Sisto; Ilustração de Harry Clarke)

LIVRO-ARBÍTRIO 1 - Uma correnteza de palavras não é suficiente. O que encanta é o canto, o polimento, o jogo, o que ficou por dizer, a história mostrada e não contada, as fagulhas provocadas pelo contato. Na página da vida, meu texto respira, pulsa, ergue-se e vai. Quer ler os outros, mas quer ser lido, preciosamente, por um leitor amoroso. É assim! Ou leio para fundir-me, ou nada começa em mim!

03.11.2012



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O QUE DISSE MEU ESCRITOR PREDILETO...


Primeiro escuto, começa sempre por aí. Qualquer escritor é um escutador em primeiro lugar. Depois capturo o que me comoveu e me roubou o chão. Tem de ser algo quase que me dissolve. Uma frase, uma pessoa, um momento, tem de tomar posse de mim, fico perdido. Depois para dar um sentido às coisas tenho de sair de mim, e aí começa a história.

MIA COUTO

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 49




(Texto de Celso Sisto; Ilustração de Ida Rentoul Outhwaite)



49. O poeta está chamando. Quer me fazer feliz, com esse manto de palavras, bordadas e tecidas à luz do luar. O poeta está chamando para louvar aqueles que foram, mas deixaram rastros: a flor, a luz, a prece, onde a sombra cresce, a vista alonga, o coração se espalha de um jeito doce. A força do abraço mantém cativa a lembrança, ergue um altar, permite tatear no corpo o tempo refeito. Pudera dizer, pai! Somos inteiros. E ainda ardemos em chamas. Imolados. O poema está clamando. E eu também!

2.11.2012


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 48




(Texto Celso Sisto. Ilustração de Agnes Boulloche)


48. Afogado em livros! E nadando no mar das histórias. Quero sim essas embarcações feitas de papel e tinta, que deixam as voluptuosas ondas rebentarem na minha cara! Que não me protegem de engolir a água da poesia, que me empurram para as profundezas do oceano romanesco, sem colete salva-vidas. Quando retorno à superfície, venho multiplicado e revestido da força de 156 mil cavalos-marinhos. Que outra carapaça - senão a minha - mais cutânea e queratinosa poderia receber a ventura dos contos? A fisgada dos sonetos? A granulação das crônicas? A aceleração das tramas novelescas? Livros! Pois se subo neles é para me atirar na acqua-fresca-literária. Não, não quero salvação!

1.11.2012