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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 69




Texto Celso Sisto; foto do Arquivo Nacional (USA), domínio público.


69. Não estou pronto. Não estarei. Ouço o sino ao longe e me curvo, profundamente, para sondar a reverberação da vida em mim, e o bronze lustroso anuncia: quem sabe dos silêncios são as formigas! Enquanto me esparramo na terra, corpo e carne, ouço mais uma vez a longa sinfonia... Dias em que cantam as pequenas coisas, as cores, as flores, o sol... Aviso: nunca mais deixarei de ouvir as pedras!

30.12.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 68





Texto Celso Sisto; foto de domínio púlbico

68. As árvores se embalançam! Voam frutos para todos os lados. No meu quintal eles são palavras saborizadas: projeto (gosto de futuro); livros (gosto diário de fantasia); lar (gosto de reencontro); respeito (gosto de cidadania); prazer (gosto de realização); crianças (gosto de eternidade)... Pronto! Com a cesta repleta, posso agora esperar a próxima ventania! Enquanto isso, aprendo a voar!!!

30.12.2012


sábado, 29 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 67




Texto Celso Sisto; foto de domínio público


67. Tempo de nada. Tempo de tudo. Pendurar pássaros na árvore da vida é motivo de alegria. Escavar a própria sombra. Escalar a longa cabeleira do tempo. Só há história porque a vida me dotou de memória. E palavras. E bocas. E gritos. E canções. Hoje é dia para enrolar o fio da vida no corpo vivo do tempo. É hora de repartir as agulhas de bordar. Um novo ano vai começar!

29.12.2012




sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 66




Texto Celso Sisto; foto de domínio público

66. A tarde dorme, cercada do cochicho dos pássaros. Cada asa dobrada é brasa para a fogueira noturna. Minha ciranda agora corre como os ventos circulares. Canto para pastorear as nuvens. Danço para acompanhar as folhas da palmeira na chuva. Minha natureza, dupla, afoga-se neste banho de mar e beleza. Deixa-me ficar, assim, feito coisa que não quer parar de procriar, de ser onda, de fazer chuáááááá....

28.12.2012


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 65



Texto Celso Sisto, ilustração de Kim Seong-hwan 



65. É preciso que a nuvem cinza encubra o dia. Os mistérios vindouros ainda são segredáveis. E a palavra em mim é alegria. Aos poucos deixo também a sombra e vou receber esse enxame de luz, que ora sinaliza onde há flor e mel. Serei também este que procura a poesia com pés e pás!

27.12.2012


DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE"... 64




Texto Celso Sisto; foto de domínio público, 1909. 

64. Levantar voo. Sobrevoar a si mesmo. Nesses céus intermináveis hei de vislumbrar as saídas. Todo dirigível é uma chama oblíqua, flutuando entre o sonho e a fantasia. Escrever no espaço azul da minha imaginação flambada é tarefa da qual não escaparei. Por isso aprendi desde os primeiros natais a fazer o presente durar o ano inteiro!

26.12.2012


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 63




Texto Celso Sisto; ilustração Maxfield Parrish

63. Agora que o tempo é tênue e os nós estão desfeitos, avança a noite de luar. Mais dia menos dia haverá dança, e a sagração alvissareira nos conduzirá ao topo da montanha das horas. Logo será preciso atravessar um novo deserto: o ano inteiro. Estrada sinuosa, mar revolto, floresta densa. Para cada geografia haverá em mim um gesto de poesia.

26.12.2012


domingo, 23 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 62




Texto de Celso Sisto, ilustração de Lawrence Alma-Tadema

62. Onde mais poderei chorar palavras, senão na folha do rosto? E é esse vento insone, levando água e sal, batizando a dor, espalhando cacos de cristais da memória que soprará novas histórias! Viver é assim: riso e faca, festa e corte, na hora exata!

23.12.2012


sábado, 22 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 61




Texto Celso Sisto; Ilustração Margareth W. Tarrant

61. Era apenas a sombra das asas. Mas eu já estava livre. Qualquer canto era bálsamo estrelado. Saltar raios de sol é tarefa simples: dois olhos e um sopro respiratório. Vai-se longe! Na linha do horizonte é que está o melhor presente: a vida toda pela frente!

22.12.2012



sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 60






Texto Celso Sisto; ilustração de Margareth W. Tarrant


60. Começar agora! Pronto! Já! O mundo que ia acabar parou para deixar a poesia se espalhar. Verão que aqui nas redondezas, o mundo explode em cores. Verão que logo ali se eleva no ar o aroma almiscarado da terra molhada. Verão que mesmo diante das ondas do mar de augúrios, corre para espalhar na areia a espuma branca da paz. Ainda há tempo de trocar de roupa, mergulhar nas profundezas do dia, cheio da secreta profecia, que faz a pele da gente arrepiar. Não será mais necessário agasalhar-se, senão com o sussurro espichado e felpudo de um quase-fim-do-mundo poético: poesia de nunca mais acabar! Poesia para marcar todos os dias no calendário do novo mundo!

21.12.2012


segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE..." - 59



Texto Celso Sisto; Ilustração de Anne Anderson


59.  Abrasador o tempo de olhar para trás. Os incêndios da memória não destroem as minhas histórias. Renovam. Constroem de outro jeito. Remodelam. Dão a mim o poder de arquitetar outros edifícios. Por isso, vivo erguendo esta cidade de contos, com seus materiais de demolição; com suas construções fabulares, seus jardins mitológicos, seus parques lendários. Abecedários da fantasia. Só entre os monumentos de palavras me sinto habitante, cidadão redimensionado, cumprindo aquilo que eu mesmo escrevi na palma da mão: ser mais, ser mágico, ser fio, mutante, duende e gigante, inventor itinerante, letra pulsante, um grito repercutido nas paredes das cavernas fulgurantes, do era uma vez. E para sempre (numa tempestade de instantes)!

08.12.2012