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domingo, 27 de janeiro de 2013

O RIO GRANDE DO SUL ESTÁ DE LUTO. EU TAMBÉM



"A noite terminou antes da hora.
O dia não amanheceu.
Os corpos jovens serão para sempre o clamor da vida, a marca do fogo, 
o caminho da fumaça e da porta que não se abriu.
Morremos todos, mais de duzentas vezes e continuaremos a apontar o dedo, a
mascar a culpa, a armazenar destroços e sentimentos.
Terei que gritar!
Emudecer!
Engasgar!
Até que entenda que a legião dos anjos conduz pela mão esses novos moradores  
do Céu.
Que seus castelos sejam agora de luz!
Muita luz!
Oremos!
Que a dor navegada nas lágrimas sirva mesmo de prece.
E que a lua que vejo agora apresse a chegada à casa da paz"

(Celso Sisto)

O RIO GRANDE DO SUL ESTÁ DE LUTO!
EU TAMBÉM.

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XV




XV. Não abraço nada e o dia começa lá fora. São as frestas da janela que pincelam de luz a parede. Este quadro, um móbile feito de sombras, arranca de mim a poesia. Soprarei meu rosto e não queimarei nada. Chutarei o ar e não desmoronarão os castelos. Abrirei devagar os olhos alvorecentes e aquela nuvem de pássaros que ondula dentro de mim finalmente voará de encontro ao céu. É hora de lavar o azul, de sacudir o verde, de pendurar o amarelo das roupas no varal de domingo. Enquanto dormem as abelhas, soprarei o pólen, mas anuncio logo em ato musical: fecunda em mim é a palavra fecunda em mim é a palavra fecunda em mim é a palavra...

27.01.2013

(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Madalina Andronic)

sábado, 26 de janeiro de 2013

LITERATURA UNIVERSAL - FACULDADES INTEGRADAS DE TAQUARA - 2003/1



Vai ser meu aluno no próximo semestre (2013/1), na disciplina LITERATURA UNIVERSAL, na FACCAT? Então fique sabendo que o enfoque principal vai ser a literatura africana. E se prepare para ler os seguintes livros:

1. Meus contos africanos, seleção de Nelson Mandela, editora Martins Fontes (tradição oral)
2. Amargos como os frutos, de Paula Tavares , editora Pallas (poesia)
3. O fio das missangas, de Mia Couto, editora Companhia das Letras (contos)
4. Parábola do cágado velho, de Pepetela, editora Nova Fronteira (romance)
5. A bicicleta que tinha bigodes, de Ondjaki, editora Pallas (novela infantojuvenil)

Aí vão as capas! Seria ótimo aproveitar as férias para começar a ler esses livros!






sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

REVISTA MIA - EDIÇÃO JANEIRO/FEVEREIRO 2013 - COLUNA "LUGAR NA PRATELEIRA"


Na revista RAINHA DOS APÓSTOLOS há mensalmente um encarte infantil chamado REVISTA MIA. Lá tenho também uma coluna de crítica literária, chamada LUGAR NA PRATELEIRA. Na edição de janeiro/fevereiro de 2013 comento a nova edição do livro OU ISTO OU AQUILO, de Cecília Meireles, publicado pela editora Global, com as maravilhosas ilustrações de Odilon Moraes. Dá uma conferida!

A revista Rainha está no endereço: www.revistarainha.com.br, para maiores informações ou assinaturas.

Continuarei defendendo espaço para a crítica de literatura infantil e juvenil onde eu estiver, podem ter certeza!!!!


REVISTA "RAINHA DOS APÓSTOLOS" - EDIÇÃO JANEIRO/FEVEREIRO 2013 - COLUNA "LEITORES DE FUTURO"



Há alguns anos escrevo na Revista RAINHA DOS APÓSTOLOS, uma coluna chamada LEITORES DE FUTURO. É claro que os textos são destinados à formação do leitor, desde a infância. À cada ano escolho uma temática central, para organizar as colunas mensais que escreverei. No ano de 2013 vou estar abordando os livros de literatura infantil que são sobre outras linguagens artísticas. No mês de janeiro/fevereiro converso acerca de livros de literatura infantil e juvenil cujo foco é a DANÇA. Aí vai a coluna que acaba de sair na revista.

Quem quiser conhecer mais sobre a publicação ou assiná-la, o site com todas as informações é: revistarainha.com.br ou contato@revistarainha.com.br

Continuarei sempre defendendo e batalhando espaços sérios e dignos para a crítica da literatura infantil e juvenil, que como bem sabemos, não tem muito lugar na imprensa deste país!


domingo, 20 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS - XIII



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; cartoon coreano, artwork by Byetom) 


XIII. A luz do poste antes da hora. O vento fora de hora. A chuva agora. São os elementos naturais que me cabem. Agora, para usar traje completo, comerei terra com as mãos! A mim só será dada a honra de ser humano, quando tiver recebido em partes exatamente iguais, matéria e poesia. Sou fleumático, sou colérico, sou sanguíneo, sou bilioso. Também posso ser líquido, um pouco plasma, às vezes sólido, às vezes gasoso. Gosto de verso e reverso. Estrofes, odes, cantos e redondilhas; sonetos, sextinas, anapestos e elegias. Estou pagando pra ver! É domingo! Numa das mãos a enciclopédia, na outra a alquimia! O que que eu posso fazer?! Ser poeta é minha sina?! Vou ver Cristina! E tomar cajuína!

20.01.2013


sábado, 19 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XII



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Judy Watson)


XII. Revoada de gaivotas. As últimas asas ficaram no ar. Meu grito é também esse alarido dos bicos a caminho de casa. A dor dissipada em canto. Notas musicais fabricadas em bando. Alívio. Sal. Água. Só as gaivotas, sabedoras das marés, rasgam a dor do mundo!

19.01.2013


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

MEU LIVRO "O ACAÇÁ DE CADA UM", da editora GALERA RECORD




O ano está começando. Há ainda escolas e professores definindo os livros que serão lidos pelos alunos. Por isso, deixo aqui a dica do meu livro "O acaçá de cada um", com ilustrações de Andrea Ebert, editora Galera Record, 2012.

O livro, lançado no finalzinho de 2012, é ainda resultado da minha pesquisa para a tese e da minha paixão pelos contos tradicionais africanos. Reconto no livro 3 histórias do oeste-africano, provenientes dos falantes da língua fon. São narrativas que fogem do padrão "universalizado" do "e foram felizes para sempre...". E são uma ótima pedida para o trabalho com a literatura africana na sala de aula, claro, mediado por um professor leitor crítico e atuante!

As histórias do livro são:

1. A menina doce (conto da antiga Costa dos Escravos, recontado pelo autor)
2. Rafik (conto popular da Argélia, recontado pelo autor)
3. O destino de Messan (conto da antiga Costa dos Escravos, recontado pelo autor)

Veja o que diz a sinopse da editora:

Sinopse: Neste livro, Celso Sisto reuniu histórias que fogem um pouco desse padrão do final feliz e do “foram felizes para sempre”! A violência, a crueldade, a vingança, a desmedida, a esperteza, por mais que sejam considerados negativos e maus exemplos, fazem parte da vida também. As histórias africanas não ignoram isso, afinal, contar também é uma maneira de chamar a atenção, de denunciar, de colocar todo mundo pra pensar (e, quem sabe, debater?). O livro traz 3 histórias recontadas pelo autor. Acaçá, palavra de origem jejê, quer dizer, de modo geral, o alimento de cada um, a comida ritual.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

AIAIÁ CLUBE DO LIVRO RETOMA SUAS ATIVIDADES EM MARÇO DE 2013





Em março retomaremos o nosso grupo de leitura e debate de literatura infantil e infantojuvenil, no CELIN (Centro de Referência para o Desenvolvimento da Linguagem), da PUCRS, na Faculdade de Letras. A atividade é gratuita, os encontros são 1 vez por mês e as leituras são obrigatórias. Esperamos vocês!
OS LIVROS QUE VAMOS LER SÃO: 1. Decifrando Ângelo, de Luís Dill (Scipione); 2. Alice no espelho, de Laura Bergallo (SM); 3. Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós (Cosac Naify); 4. A guardiã dos segredos de família, de Stella Maris Resende (Global); Cafundó da infância, de Carlos Lébeis (Cosac Naify). O foco deste primeiro semestre é a literatura infantojuvenil brasileira contemporânea.

domingo, 13 de janeiro de 2013

CRÔNICAS SINCRÔNICAS - OLHA O PASSARINHO!


Na casa da minha avó era pintado, e se chamava retrato! A moldura escura, torneada, impunha respeito! E lá estava o busto do meu bisavô e o da minha bisavó, com ares sisudos e roupas formais, que mais pareciam de festa. Quando minha avó morreu, o quadro desapareceu. E eu senti uma enorme pontada de tristeza.
Era quase uma bendição cruzar com o retrato: o bisavô e a bisavó erguiam a cabeça lá da escuridão dos tempos e só com a luz do olhar, nos deixavam passar! Por vezes, esquecíamos que o retrato estava ali, abaixávamos a voz, voltávamos e pedíamos licença aos retratados, para passar na frente deles e continuar vivendo nosso tempo de crianças em estado permanente de correria.
É claro que os processos fotográficos já tinham se popularizado. O retrato já era chamado de fotografia, os primeiros profissionais estrangeiros já tinham cruzado o país, documentando famílias inteiras, mediante pagamentos de seus serviços; mas a mágica não era a mesma, bem sabemos!  
Depois, com o correr do tempo e como imposição da modernidade galopante, ainda havia uma certa beleza ritual em ir ao estúdio fotográfico, para documentar as datas importantes: fosse o retrato das várias carinhas numa só fotografia, a época das calças curtas ou a pose solene da primeira comunhão, tudo em cenários cuidadosamente artificiais!  E depois, as fotografias coloridas à mão, as coloridas por novos processos e até as polaroidicamente instantâneas!
Foi por medo do que o tempo pudesse fazer com a minha constelação familiar, que sempre sonhei em possuir aquelas fotografias em preto e branco que viviam guardadas numa caixa de madeira, a espera de algum parente antigo, que vinha em visita de dia inteiro, à casa da minha avó!
Era bem assim, as visitas que chegavam cedo em comitiva e só iam embora à noitinha, davam sinais de uma outra época, que nem tão distante assim, ainda me arranca suspiros profundos. Era tão bom! Tão mágico! O tempo parecia correr de outro jeito, as distâncias não eram nem fácil nem rapidamente atingidas e uma visita tinha que ser planejada com antecedência e era feita realmente para promover a troca de informações, a veiculação das notícias, a manifestação do carinho e a renovação dos laços de amizade e parentescos.
Pois quando se reuniam, era também para lembrarem-se de primos e madrinhas, de fulanos e de sicranas, e para recorrer à caixa em que ficavam guardadas as fotografias. Todos queriam um lugar ao redor daquele tesouro. Muitos morriam de rir com as caligrafias ultra desenhadas, em que a afilhada dedicava aquele retrato à madrinha, em sinal de gratidão eterna e etc. Sempre com data. E ainda em algarismos romanos!
Acho que é daí, da necessidade de voltar aos quadros da infância que vem o meu fascínio pelos retratos. Inventar histórias para aquelas pessoas que eu não conhecia, mas que estavam ali, documentadas e eternizadas sempre foi uma brincadeira convidativa.
Gostava mais de ver aquelas fotografias amareladas, que hoje tão poeticamente são chamadas de “fotos em sépia”. Eu ficava mesmo intrigado, examinando a organização das fotografias de família: as cadeiras, onde sentavam os mais velhos, os filhos atrás em pé, as crianças na frente, muitas vezes ordenadas no chão e os pequeninos, ainda bebês, nos colos... Sim, uma arquitetura feita hierarquicamente de andares!  
E na tal rolagem das horas, até as máquinas fotográficas ficaram descartáveis. Substituímos a poesia do preto e branco pelo encurtamento dos mapas, que além de nos levarem à necessidade das detestáveis fotografias 3 x 4 para todo e qualquer documento, ainda faziam-nos sonhar em conhecer o mundo, mesmo que para tirar o passaporte fossem necessárias as também pavorosas fotos
7 x 5.
Que me perdoem os amantes da celeridade e do esquecimento dos tempos passados, mas havia muito mais charme nos rolinhos de filmes, nos fotogramas usados até nos monóculos do que nas fotografias pontilhadas, que viajam de um aparelho para outro em conexões USB!
Querido Roland Barthes, vou ficar sempre devendo a você a leitura da magnífica “Câmara clara”, obra que revela e nomeia de modo fascinante as atrações e mistérios do que um dia se chamou de câmara escura. Jogo e poesia que colocam em permanente relação de arte, fotógrafo e fotografia.
E ainda que o tempo hoje seja o da escravidão tecnológica, nada substitui o invento de Louis-Jacques Mandé Daguerre, que deu origem, para sempre, à mágica e saborosa palavra daguerreótipo! Não era assim que se nomeava uma das primeiras formas de reprodução fotográfica?! Então viva o processo de formação das palavras, que sabiamente nos diz que a fotografia é como desenhar com luz e contraste tudo o que não queremos esquecer. Por isso, podemos ir, numa fração de segundos, do “olha o passarinho” ao “fotografou? não? então dançou!”.

(by Celso Sisto – 12/01/2013) 

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XI


(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração vetorial by Vector Autumn Illustration)


XI. Este ano o pé de manacá não floriu. Esteve ausente, muito ausente, para chorar sua dor. Deixou guardadas as flores para uma outra estação, ainda sem nome. O silêncio, por sua vez, revestiu as noites. E havia, em tudo, a cooperação dos ventos: alísios, monções, simum, minuano, ciclones, tufões esbravejavam em terras longínquas e carpiam. Ao alcance da mão apenas a última folha, que ainda beijava o chão. Não ouvimos a explosão de cores, a alegria floral desapareceu, os galhos amedrontados se abraçaram mais do que nunca. A noite eterna do jardim repercutia em mim. Vou agora aquietar a respiração, morrer também em pequenas doses instantâneas, para dizer lá dentro das minhas cavernas que este é o eco da assombrosa ausência... ssênciaaa... ciaaaa... iaaa... iaa... iaa... que ainda não emudeceu!

13.01.2013


sábado, 12 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - X




(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Elizabeth Cleaver)



X. As dobras do corpo são montanhas. No topo delas cravo bandeiras. Verei longe um novo amanhecer, salpicado de cores. E quando erguer os braços em que pousarão os pássaros, já saberei carregar as manhãs esgazeadas, com filamentos de orvalho capilarizando a pele. A água trilhará seus caminhos, descobrindo atalhos por onde vibra o viço. Na vestimenta da pura manhã eu serei o traje solto, a roupa desbordada, a nudez que se anuncia como acidente geográfico. No topo da montanha, nessas dobras amontoadas das proclamações ocultas, basta um olhar para se produzir o oásis, a rota por onde passarão todas as minhas caravanas!

12.01.2013


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - IX




(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Harold Gaze)

IX. Estou revestido de vidro. E ainda assim carrego opacidades. No começo do dia, estilhaçado, contenho os queixumes da areia que me antecede. Sangro, em silêncio e mais, com a retenção da invisibilidade. Meu vidro é de todo frágil – sempre será preferível a docilidade à inflexão do ferro – às vezes ágil, por vezes cortante. Tenho a sorte de quebrar para refazer-me. E a cada vez um novo homem-mosaico se anuncia na beirada de mim. É um enorme mistério portar nos olhos esse jeito de catedral. Sempre abrigarei a ideia de ser vitral, se a luz das palavras me atravessa...

11.01.2013


DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - VIII




(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de artista árabe desconhecido; Berthe Morisot Museum)



VIII. Olhai! Há lírios no campo. Depois da chuva eles reluzem. E a robustez das cores magnetiza o olhar. Para onde devo olhar? Para o alto. Para todos os lados. Para dentro. Para trás. Lá onde Salomão ergueu a mão e tapou a boca e os olhos porque a roupa-lírio era mais nobre que a sua, cravejada de pedras, e sem exclamações. E só depois de rastejar na terra e esfolar todas as certezas, bichos, pássaros, saberão que as palavras crescem, em solo fértil, como os lírios... mas, andrajoso pode ser o olhar de quem olha, olhai!

10.01.2013


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - VII






(Texto de Celso Sisto para a série "Vestir os vivos"; ilustração de Edmund Dulac)

VII. Abrirei o mar depois do dilúvio, como se meu exército inteiro de histórias passasse para o outro lado de mim, para salvar-me da perseguição e do massacre da imaginação ponderada. Abrirei as montanhas mágicas, com um simples sussurro de "abre-te sésamo" entre dentes, mas também entre escombros, porque às vezes é preciso enovelar-se no lodo, para dar voz a si mesmo. Abrirei os céus com um fio de cabelo, separando o dia da noite, tal qual Miraíra, a filha da Cobra-Grande, para sossegar a minha angústia, cada vez que o pássaro da criação trafegar dilacerado e sem ânsia de pousar. Até que eu possa, com tantos caminhos e veias abertas, dizer enfim, "eu cheguei, vestido de nada"!

09.01.2013


terça-feira, 8 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - VI



(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; ilustração de Cyril Bouda)


VI. O rei estava nu. A cobri-lhe a pele não havia nada além da prepotência, da insolência e do orgulho. O faz-de-conta o teria salvado. Eu mesmo o teria salvado se houvesse sombra e mel em seu olhar... Se a chuva tivesse desabrigado com tamborilamentos atonais a sua arrogância. Se o vento tivesse fustigado com fino fio de aço e desalojado para sempre o seu ar de superioridade. Se houvesse em suas rugas um sinal claro ou ainda mínimo do manto quente da vergonha. Mas ele mesmo insistiu em atravessar o espelho e seguir seu cortejo fúnebre até o fim. Nunca mais poderia abrir totalmente os olhos!

08.01.2012




segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - V





(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; ilustração de David Sala)

V. A elegante flor afirma seu poderio. A cor é sinal daquilo que transborda. Fosse para a guerra e não seria flor branca. Fosse para a chuva e seria a mais majestosa camélia. Agora são mimos girando como cataventos, guirlandas de margaridas, buquês de jasmins. Em similaridades circulares, alegram nossos olhos, vestem nossa fantasia, servem com gosto ao jogo de armar a imaginação. Que flor não cria a ilusão de que somos nós enfim que também brotamos? Em justa e solene medida, quero também florir em ímpetos e palavras...

07.01.2013



domingo, 6 de janeiro de 2013

COLUNA "CRÔNICAS SINCRÔNICAS" - SOIS REI? SOIS REI?




Esse é um antigo bordão... E veio agora na minha cabeça, porque hoje é Dia de Reis. No Brasil não há a menor tradição (diga-se de modo extensivo!) ligada a esta data, a não ser a de desarmar a árvore de Natal, guardar as guirlandas e presépios e recolher as luzes pisca-pisca - os enfeites que deixaram a casa com um certo ar de parque de diversões.
Ah, antes que reclamem, não há na expressão “parque de diversões” associada aos adornos natalinos nenhum demérito! Pelo contrário, “parque de diversões”, especialmente na minha infância, era lugar de passeio esperado ansiosamente, programado, discutido e vivido com toda a intensidade possível, desde a véspera. E quando lá estávamos a felicidade era ainda maior: andar nos brinquedos mais desafiadores, rir de tudo, correr para diminuir as filas, colocar roupa de festa, comer maçã do amor. Era bem isso: um ritual de amor, porque íamos ladeados pelo cuidado, carinho e cumplicidade dos nossos pais. Inesquecível! Rememorável! Uma casa que é, pelo menos uma vez por ano, parque de diversões, deve ser então lugar de aventuranças, brincadeiras, fantasia e afeto, muito afeto!!
Mas a festa de Reis também evoca em mim uma outra realeza: aquela aprendida e compartilhada através dos contos de fadas. Tento lembrar qual era o meu Rei preferido neste oceano de histórias fantásticas que atravessaram os tempos e logo me vejo às voltas com Hans Christian Andersen e “As roupas novas do Rei”.  Na clássica história o Rei faz papel de bobo, é enganado pelos tecelões espertalhões e desmascarado em sua vaidade por uma criança, que grita “o Rei está nu!”. Não lembram?
Pronto, este Rei já me basta! Evidentemente não é a mesma coisa que Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas, aqui não veremos os tais Reis Magos visitando as casas, minha gente! Aqui no Brasil, os reis não trazem presentes no dia 6 de janeiro, como na Espanha e em outros lugares da Europa. Lá os presentes chegam depois, quando já estamos quase fartos de brincar e exibir tudo o que ganhamos no 25 de dezembro. E não deixaremos comida e água para os camelos em lugar algum. Também não comeremos o Bolo de Reis, para achar a coroa e ser premiado. Não.
Talvez aqui os Reis Mágicos (é certo que precisariam ser mais do que Magos e ter nomes abrasileirados!), tivessem se assustado com uma população tão grande para alimentar e uma infância continental para presentear e por isso preferiram não se instalar na tradição. Melhor assim! E não poderíamos trocar tudo isso por coisas básicas? Já nos bastariam Reis que se preocupassem com escola, livros, leitura, afeto, moradia, família, comida e saúde para todas as crianças. Aqui, quem sabe, os Reis não deveriam ser talvez, essas pessoas que tomam posse no país inteiro, nestes primeiros dias do ano? E que deveriam de fato promover uma mudança social significativa no país: brinquedos que durassem mais do que uma temporada?!
Sempre sofrerei na hora de desarmar a árvore de Natal, isso é inevitável, porque é como apagar a luz que pisca no fundo da noite escura. E para fazer jus às nossas raízes, melhor seria não deixarmos morrer também as “Folias de Reis”. Porque neste dia, no Brasil rural (e ainda somos largamente rurais!), nossa cara mesmo é entrar de casa em casa, levando para as pessoas, as bênçãos do menino Jesus, ao som de sanfona, reco-reco, pandeiro, caixa, chocalho e violão, para dizer em alto e bom som:

“Ó di casa, ó di fora
Qui hora tão excelente
É o glorioso santo Reis
Qui é vem do Oriente.

Ó de casa, ó de casa
Alegra esse moradô
Que o glorioso santo Reis
Na sua porta chego”


(by Celso Sisto – 06/01/2013)

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - IV




(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; pintura chinesa, do acervo do Museu Nacional de Arte)



IV. O vento provoca o capim. A ondulação, em frenesi, transforma o capinzal num imenso mar verde. De repente estende o lençol vegetal a quilômetros de distância, sobre uma água inventada. Só um coração desagasalhado pode não se eletrizar com essas marolas, cujas ondas vibram, mas não saem do lugar. Só um olhar de pedra não verá a brincadeira furtiva dos enamorados: a brisa da tarde e o capim novo. Eles repetirão o que já sabem há séculos os casais de Verão. Vestir um ao outro.

O6.01.2012


LIVRO NOVO: HISTÓRIAS DE CANTIGAS


Este é meu novo livro... Quer dizer, uma antologia organizada por mim, para a editora Cortez, que saiu agora no finalzinho do ano, com as belas ilustrações de Cláudia Cascarelli. Uma ótima pedida para as escolas em 2013. São 15 histórias criadas a partir do enredo de cantigas de rodas, escolhidas por 15 autores escolhidos por mim: Bartolomeu Campos de Queirós, Fanny Abramovich, Stella Maris Rezende, Rogério Andrade Barbosa e tantos outros. Eu também sou autor de um dos contos... Aguardamos os comentários dos leitores.



sábado, 5 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - III




(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; pintura de Matsui Fuyuko)



III. Água e terra. O homem é nada. Pulverizável é este corpo feito de misturas. Perecível a palavra que não alimenta. Hoje, ao rés do chão, fiquei espiando as palavrinhas que nasciam da terra, com seus caules finos e flexíveis. Com suas pequenas letras novas, cheirando a húmus e ainda brigando para respirar. Um verniz de poucas horas resplendia daquelas folhas. Minha vontade era ficar ali, para sempre, esperando que as árvores-palavras crescessem e se enredassem ao redor de mim. Sei bem que é preciso o sinal do tempo para que a palavra amadureça.

05.01.2013


DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - II




(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; pintura de Yan Zhan Ping)


II. Nesta peneirada manhã, a pele nua se veste de gotículas do mar. Ser peixe muitas vezes é a solução mais nobre. Escorregar, sorrateiro, entre as mãos escamosas não é renunciar à vida ou ao sol. Sou peixe, sim, cada vez que descubro que estar imerso na escuridão das palavras é como respirar debaixo d'água. Há neste mar das letras palavras que me tiram o fôlego! Assim como há palavras que cegam e as que inventam fachos de luz. Necessito de todas elas para responder à minha eterna e abissal condição de peixe engolidor de poemas...

04.01.2013


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - I





(Texto de Celso Sisto, da série "Vestir os vivos"; pintura de Henri Rousseau)


I. Manto de nuvem para aprender a flutuar! Depois, para adquirir todas as formas, é preciso que se saiba criar bichos de nuvens. Cara de cão, lobo faminto, cavalo alado... E de novo a descoberta de que o céu é herança umbilical. Minha mãe me deu esse existir sabendo que um dia se volta a ser feito de ar.

03.01.2012



quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

POEMA "VAI COMEÇAR", POR CELSO SISTO




(poema "Vai começar", de Celso Sisto; ilustração de Shaun Tan)


Era a última hora.
Todo o nosso presente agora era feito de futuro.
As árvores do caminho antecipavam os séculos, vestidas para a festa.

Um fraque, uma cartola, uma saia rodada, uma túnica floral se desprendiam da sombra, feito uma floresta que avançasse de braços abertos...

Pelo tato, atravessamos o tempo, prolongamos os dias!

Ainda ouviremos a valsa,
como se desembarcássemos agora no salão.

Dá-me tua mão!
Escreverei meu nome com os dentes!

Faremos um diário na carne.
Agora só conta o que está assinado em vermelho-sangue!
O resto, suavizaremos com o sopro, até virar acalanto!

Somos agora os frutos secos e ainda assim sumarentos...

Os anos de colheita não nos separam!
Nem joio, nem trigo!


02.01.2013

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 71





(Texto Celso Sisto; pintura de Maud Tindal Atkinson)

71. Tiro do baú o chapéu de brisa e trabalho cada entardecer com as cores cintilantes da memória. Arranco os espinhos do pé. Devolvo os suspiros ao rio. Sacudo a linha do horizonte. Sou ondulante. E só quero chegar quando for para ficar!

01.01.2013



DA SÉRIE "ALGUMA COISA ACONTECE" - 70





(Texto Celso Sisto; pintura de Katherine Cameron)

70. Os cachorros latiram. Eu lati. Já era o ano novo. Minha casa, um céu de estrelas, resplandecia inteira. Borbulhava. O banquete era outro. Distribuímos abraços. Uma faísca divina vivia em tudo. Se desprendia. Espocava no ar. Nossos fogos não eram artifícios. Eram sinais de amor. Assim que o ano começou...

01.01.2013