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domingo, 6 de janeiro de 2013

COLUNA "CRÔNICAS SINCRÔNICAS" - SOIS REI? SOIS REI?




Esse é um antigo bordão... E veio agora na minha cabeça, porque hoje é Dia de Reis. No Brasil não há a menor tradição (diga-se de modo extensivo!) ligada a esta data, a não ser a de desarmar a árvore de Natal, guardar as guirlandas e presépios e recolher as luzes pisca-pisca - os enfeites que deixaram a casa com um certo ar de parque de diversões.
Ah, antes que reclamem, não há na expressão “parque de diversões” associada aos adornos natalinos nenhum demérito! Pelo contrário, “parque de diversões”, especialmente na minha infância, era lugar de passeio esperado ansiosamente, programado, discutido e vivido com toda a intensidade possível, desde a véspera. E quando lá estávamos a felicidade era ainda maior: andar nos brinquedos mais desafiadores, rir de tudo, correr para diminuir as filas, colocar roupa de festa, comer maçã do amor. Era bem isso: um ritual de amor, porque íamos ladeados pelo cuidado, carinho e cumplicidade dos nossos pais. Inesquecível! Rememorável! Uma casa que é, pelo menos uma vez por ano, parque de diversões, deve ser então lugar de aventuranças, brincadeiras, fantasia e afeto, muito afeto!!
Mas a festa de Reis também evoca em mim uma outra realeza: aquela aprendida e compartilhada através dos contos de fadas. Tento lembrar qual era o meu Rei preferido neste oceano de histórias fantásticas que atravessaram os tempos e logo me vejo às voltas com Hans Christian Andersen e “As roupas novas do Rei”.  Na clássica história o Rei faz papel de bobo, é enganado pelos tecelões espertalhões e desmascarado em sua vaidade por uma criança, que grita “o Rei está nu!”. Não lembram?
Pronto, este Rei já me basta! Evidentemente não é a mesma coisa que Baltazar, Gaspar e Melchior. Mas, aqui não veremos os tais Reis Magos visitando as casas, minha gente! Aqui no Brasil, os reis não trazem presentes no dia 6 de janeiro, como na Espanha e em outros lugares da Europa. Lá os presentes chegam depois, quando já estamos quase fartos de brincar e exibir tudo o que ganhamos no 25 de dezembro. E não deixaremos comida e água para os camelos em lugar algum. Também não comeremos o Bolo de Reis, para achar a coroa e ser premiado. Não.
Talvez aqui os Reis Mágicos (é certo que precisariam ser mais do que Magos e ter nomes abrasileirados!), tivessem se assustado com uma população tão grande para alimentar e uma infância continental para presentear e por isso preferiram não se instalar na tradição. Melhor assim! E não poderíamos trocar tudo isso por coisas básicas? Já nos bastariam Reis que se preocupassem com escola, livros, leitura, afeto, moradia, família, comida e saúde para todas as crianças. Aqui, quem sabe, os Reis não deveriam ser talvez, essas pessoas que tomam posse no país inteiro, nestes primeiros dias do ano? E que deveriam de fato promover uma mudança social significativa no país: brinquedos que durassem mais do que uma temporada?!
Sempre sofrerei na hora de desarmar a árvore de Natal, isso é inevitável, porque é como apagar a luz que pisca no fundo da noite escura. E para fazer jus às nossas raízes, melhor seria não deixarmos morrer também as “Folias de Reis”. Porque neste dia, no Brasil rural (e ainda somos largamente rurais!), nossa cara mesmo é entrar de casa em casa, levando para as pessoas, as bênçãos do menino Jesus, ao som de sanfona, reco-reco, pandeiro, caixa, chocalho e violão, para dizer em alto e bom som:

“Ó di casa, ó di fora
Qui hora tão excelente
É o glorioso santo Reis
Qui é vem do Oriente.

Ó de casa, ó de casa
Alegra esse moradô
Que o glorioso santo Reis
Na sua porta chego”


(by Celso Sisto – 06/01/2013)

10 comentários:

Thanira Pillar disse...

Maravilha, meu Rei!!!!

Anônimo disse...

muito bem expressado,mas como seres humanos estamos fazendo nossa parte,um dia tudo muda e sempre tem alguém fazendo a diferença.

Ana miranda disse...

Que lindo texto,Celso! Parabéns.Pois é assisti algumas Folias de Reis pelo Nordeste a fora... É tão bonito,né? Bjks pra você que REI ao usar as palavras e nos dá presentes o ano inteiro! Ana Lucia.

Carmem Gottfried disse...

Celso, este é meu primeiro comentário no seu blog e já vem seguido de muita emoção, pois sempre retardo o quanto posso no dia de reis, o que chamo de "neutralizar" a árvore de Natal: "dissociar" os seus "elementos" para que seja possível uma nova "combinação química" no próximo ano, pois "as interações moleculares reversíveis são a essência da dança da vida". Assim vou fazendo todos os anos, impulsionada pelas lembranças de minha infância feliz. Daqui há alguns minutos estarei "neutralizando" minha árvore. Obrigada pela emoção de hoje. Feliz 2013!!!! com MUITA inspiração!!!!!!
Carmem

Edvânia disse...

Celso, hoje foi o dia de guardar os enfeites e retomar o visual cotidiano de minha casa, e foi delicioso encontrar essa crônica, tão fantasia e tão pé no chão ao mesmo tempo, expressando os sentimentos que se instalam em nosso coração todo dia de Reis!

Chris Costa disse...

Obrigada, Celso, por me dar a chance de voltar à minha infância através de seus escritos.
Tive a sorte, o prazer de vivenciar algumas "Folias de Reis" no nordeste.
Lembro-me com saudades, da minha avó fazendo bolos pois daria ao pessoal do "Reizado"!!!
Mas, você tem razão, nosso país está necessitando da visita dos Reis Magos, nem sei se só três dariam conta de tudo o que estamos precisando... rs
Um beijinho.

Tiane Quadros disse...

Lindo texto! Parabéns!

Giselle Segobia disse...

PUXA VIDA! HOJE ESTÃO TODOS DE COMPLÔ PRA ME FAZER CHORAR? COMEÇOU COM A COLUNA ZH DO LUIS FERNANDO VERÍSSIMO(LEIAM), DEPOIS COM A HOMENAGEM DE UMA AMIGA À TIA-MÃE QUE PERDEU E AGORA QUE FUI LER ALGO " LEVINHO" CELSIANO, NATALINO QUASE ME DERRETO DE TANTO CHORAR. MEU QUERIDO: TUA SENSIBILIDADE ME COMOVE PROFUNDAMENTE E TUA INTELIGÊNCIA DÁ A VAZÃO PERFEITA A ESSES SENTIMENTOS DE MUNDO... AS CRIANÇAS ME COMOVEM, SEJAM RICAS SEJAM POBRES O POETA SEMPRE VEM. BEIJO!

Milene Barazzetti Machado disse...

Que bom que tuas crônicas voltaram Mestre! Sempre emocionantes e críticas,tudo ao mesmo tempo. Também gosto muito do rei de Andersen, afinal quem não faz papel de bobo um dia na vida. Sabe que estas tuas palavras chegaram na hora certa. Ainda não tirei o "parque de diversões" da minha casa. Aliás, acendi as luzes agora a pouco novamente. Não tenho pressa. Vou esperar mais bençãos.Quem sabe? Abçs querido! Mi

NOSSAS FALAS disse...

Perfeito!