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domingo, 24 de fevereiro de 2013

SEMINÁRIO "ABRAPALAVRA", DO PROJETO "FESTA NO CÉU", EM BH




Gente! No próximo sábado, dia 2 de março, estarei em BH, participando do Seminário Abrapalavra, do Projeto "Festa no Céu".

Minha participação será às 10h30min, na mesa-redonda, cujo tema é "O contador de histórias na escola".

Terei a honra de dividir a conversa com Sandra Lane e com a Rosana Mont'Alverne, que será a mediadora.

Local: Auditório PUC Minas Barreiro – Av. Afonso Vaz de Melo, 1.200, Barreiro de Baixo
Horário: 9h às 17h

Inscrições pelo email aletria@aletria.com.br ou pelo telefone (31) 3296-790

Gostaria de ver meus amigos mineiros todos lá!



10h30 - Mesa - “O contador de histórias na escola” com Celso Sisto (RS) e Sandra Lane (MG). Mediação: Rosana Mont’Alverne (MG)

Celso Sisto (RS) - Escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela UFRJ, Mestre em Literatura Brasileira pela UFSC, Doutor em Teoria da Literatura pela PUC-RS e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país. Tem mais de 60 livros publicados para crianças e jovens e já recebeu vários prêmios pela qualidade de sua obra, dentre eles, os prêmios de autor e Ilustrador revelação em 1994 e 1999, respectivamente - ambos concedidos pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), e dois prêmios Açorianos. Também é professor na PUC-RS e na Faculdades Integradas de Taquara (RS).

Sandra Lane (MG) - Especialista em Arte-educação da Palavra Oral à Escrita, Gestão Cultural e Alfabetização. Pesquisadora da Cultura Popular, Escritora, Atriz, Vice Presidente da ONG Escultórias, Educadora da Rede Municipal de Belo Horizonte, Membro da RIC- Rede Internacional de Cuentacuentos. Entre outros prêmios, recebeu por suas Atividades Sociais e Como Contadora de Histórias, o Grande Colar do Mérito Legislativo-Conferido pela Câmara Municipal de Belo Horizonte/MG ; Prêmio BH Em Defesa da Vida – Conferido pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte /MG ; 1º Lugar na Categoria de Contação de Histórias da Tradição Oral-Promoção Secretária Municipal da Cultura e Biblioteca Pública Infantil e Juvenil de Belo Horizonte/MG e em 2009 foi finalista do IX Prêmio Arte na Escola Cidadã.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

COLUNA "LUGAR NA PRATELEIRA" - REVISTA MIA - MARÇO/2013



Na edição de MARÇO/2013, na minha coluna LUGAR NA PRATELEIRA, da Revista MIA, seção infantil da Revista Rainha dos Apóstolos, comento o livro "Maroca & Deolindo e outros personagens em festas", de André Neves.

Dá uma espiada!

Para quem desejar conhecer mais da revista, aí vai o site: http://www.pallotti.com.br/rainha/


COLUNA "LEITORES DE FUTURO" - REVISTA RAINHA DOS APÓSTOLOS - EDIÇÃO MARÇO/2013


Na edição de MARÇO/2013, minha coluna LEITORES DE FUTURO, da Revista Rainha dos Apóstolos, trata dos livros de dramaturgia publicados para crianças...

Dá uma espiada!

Para quem desejar conhecer mais da revista, aí vai o site: http://www.pallotti.com.br/rainha/





domingo, 17 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXVII



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração de Jim Flora)


XXVII. A tempestade no deserto. Avoluma-se o segredo das areias. Deixar-me-ei ficar imóvel, enquanto passam por mim os cristais da dor. Ofereço o corpo e em segundos estarei vestido de grãos. Talvez a estátua se fixe por algum tempo. Talvez não. Mover-se é soprar anos de espera, desfazer o princípio da circularidade, inventar uma nova rota para o vento. Minha caravana é puxada por andorinhas. Migratória também é a fantasia, a mão, a asa. Hoje a expedição ruma ao infinito, camelos de nuvens, cães emplumados, chuva de palavras e a linha do horizonte no mesmo lugar. Nossas arcas estão repletas de mercadorias. É dia de troca. Confluência de histórias. Homens partidos sairão em busca de metades. Tesouros são mesmo voláteis.

17.02.2013


sábado, 16 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXVI



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração de Jim Flora)


XXVI. Amarelada. Avermelhada. Fólios resistentes. A fruta no ponto. As cores sobrepesadas pelo tempo dão sinais de uso. Nelas o transcurso dos dias é apelo do olhar, do pálido desejar ao vulcânico ter. Chega a hora da máxima potência: o tudo. Quero as fitas penduradas nas janelas, o ar embriagado de sândalo, os cristais filtrados de luz, os vasos habitados de gérberas. Recebo a criação como uma festa. A água represada agiganta-se, roda atarefada nas pás musicais, como a escrever linhas intermináveis. Esse ofício de preencher com letras miúdas os espaços em branco do meu ser exige gesto semeador, escultura expectante e boca salivar diante da fruta. Os dentes que explodem a ideia sumarenta libertam também a poesia.

16.02.2013


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXV



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Nicoletta Ceccoli)



XXV. Cruzei os braços e deixei que os pássaros voassem. Da morada mais nobre, carregando fios de ouro, eles se foram. Cabeças coroadas hão de receber as filigranas da criação. São pássaros de toda estação. E tão logo a liberdade trance seus ninhos, eles desejarão por ovos em outros lugares. São pássaros urgentes, que às vezes precisam ser soprados, para que voar ganhe ossatura. Para que o voo termine em pouso desejado aos pés do mundo dos sonhos. São pássaros que arrastam consigo as divindades oraculares, que piam poemas antigos quando querem advertir-me que o carrilhão do tempo não repete sempre a mesma cantilena. Um dia, eles me levarão pelos cabelos, dispersarão na enormidade do céu as tranças, à força de oferecerem degraus para as torres que guardam princesas, castelos, livros sagrados. Eu sei que a biblioteca transportada no bico dos meus pássaros não abre os ouvidos de qualquer um, mas pode começar apontando a necessidade das asas bem na altura das portas...

13.02.2013



terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

"EDUARDO E OS ELEFANTES", MEU MAIS NOVO LIVRO!!!!!!!






Livros me emocionam, mexem comigo, me apaixonam!

Pois fiquei sabendo, em pleno carnaval, que acaba de sair o meu mais recente livro "EDUARDO E OS ELEFANTES", da Editora Melhoramentos, com ilustrações de Aline Abreu.

O trabalho primoroso de edição do livro esteve a cargo de Ana Célia Goda Cunha e sua maravilhosa equipe! A quem agradeço muuuuuuuuuuuito!

A sinopse do livro anuncia: Se uma história tem duas versões, qual é a que vale?

“Eduardo chegava sempre soltando seus elefantes.
Em todos os lugares, em que quer que fosse.
Eram muitos, verdadeira manada.
Bastava alguém falar com ele que lá vinha elefante!”

Será que os elefantes vão dominar Eduardo,
ou ele vai se transformar num excelente domador?
Elefantes e meninos, amigos ou inimigos?
Temas principais: autoconhecimento, autoestima, autocontrole, relacionamento e amizade
Temas transversais: pluralidade cultural e ética

Que felicidade poder ter um livro tão bonito assim!
Agora, quero saber a opinião de vocês, amigos e leitores!



DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXIV




(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração digital  by Byetom)



XXIV. A Grande-Mãe ergueu-se dos tempos, vestida de azul e reflorestada. Na mão, o trigo. De todas as fomes que saciará, está a minha. Engolirei com sofreguidão as tempestades, os ciclones, os vendavais, os infortúnios da terra e do céu. E repleto de abalos sísmicos então depurados, abrirei a boca cheia de grãos, as mãos cheias de brotos, os olhos cheios de sementes. Os pés imersos na água primordial da poesia suavizarão as encostas, abrandarão as marés, ajardinarão as armas de guerra, adoçarão as paisagens. Só então, a Grande-Mãe aninhará novamente o pássaro. Já não há necessidade de voar além da palavra enraizada. Enfim, dormiremos em paz.

12.02.2013


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXIII



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Kirsti Wakelim)


XXIII. Desmanchar no ar. O sopro é um acerto de contas. Daqui a pouco apenas a haste sustentará o vazio. No intercurso da manada de vento, o cortejo de asas, patas, trombas, bicos, garras. Todos os bichos que teriam sido algozes, passarão. No intervalo ínfimo do sopro, outras ameaças: arestas de granizos, torrentes de chuvas, raios encharcados de sol. O coração da flor se consola na paisagem. Espera. As cores carnavalizadas erguem-se da terra com a intenção da pluma. Exibir, espetacular-se, reinar tão imaculada como as fibras do algodão. É parca a existência. O sopro é revide. A brincadeira, a boca, a torrente desmanchando tudo: só no instante é que se sabe, o era uma vez, a epifania, a mão infante, o jogo de assoprar. A flor desfeita em alvéolos carregará a manifestação da poesia para dentro dos pulmões. Natureza única. Circular dimensão.

11.02.2013.



domingo, 10 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXII



(Texto de Celso Sisto para o a série “Vestir os vivos”; pintura de Sayuki Matindiko)


XXII. Que minha pele sirva para tambor. E que repercuta em mim a voz do tempo, com suas estações de diferentes respirações e ritmos. Este lastro de um desejo africano, escondido nas dobras das páginas, nos vincos das folhas, nas linhas traçadas com a chibata, que açoita a palavra e depura o sangue, faz de mim, devotamente, um escravo de toda ancestral poesia. Não importa se escreverei em verso ou em prosa! Se gigantes ou homúnculos desvendarão minha carta-enigmática. Crescerei com os volumes de além-mar, lidos com a avidez de um faminto, esquecido pela tribo entre a floresta e o deserto, para arborescer. Que corra de agora em diante no meu corpo essa história das legiões de sussurradores anônimos de mitos, que devotam ao narrar o feito único de ser grão.

10.02.2013



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XXI



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”, Ilustração de Lucio Palmieri)


XXI. A cauda do vento deixou rastros. Fuuuuuuuuuu! O roupão transparente é uma onda gigantesca de objetos afetivos: trem de ferro, ioiô, bambolê, carrinho de rolimã, patinete, lancha a motor, autorama, rede de balançar, foguete de lata. Vou de qualquer jeito! Segura o saco! Olha o cordão! Lá vai a bolinha de ping-pong revoluteando e adejando no ar! Bingo! Penduricalhos da fantasia para o carnaval dos tempos chacoalham de repente. Confetes! Um tabuleiro de xadrez para o baile! Serpentinas riscam o céu do salão.  Meu coração pede água! Pede beijo estalado! Alalaô ôôô ôôô, mais que calor ôôô ôôô. Atravessamos a memória incandescente, abraçados aos personagens estampados nas fotografias de outrora. Dança, pula, bambeia o pião A canção é a vitória da festa. Quanto riso! Quanta alegria! Deixarei aberto o álbum cada vez que a minha voz contar uma história.

08.02.2013


JORNAL MUNDO JOVEM - EDIÇÃO DE MARÇO/2013 - ARTIGO "A DESCOBERTA DO MUNDO ATRAVÉS DO TEATRO"



Já saiu a edição de março/2013 do JORNAL MUNDO JOVEM (ano 51 - nº 434), editado mensalmente (de fevereiro a novembro) pela editora da PUCRS, sob orientação da Faculdade de Teologia. Nesta edição fui convidado a escrever um artigo sobre o teatro na escola. 
Aí vai a matéria.



Para maiores informações, o link do jornal: www.mundojovem.com.br

JORNAL MUNDO JOVEM - COLUNA "PELO PRAZER DE LER" - MARÇO DE 2013



Na minha coluna "PELO PRAZER DE LER", na edição de março/2013 do JORNAL MUNDO JOVEM (ano 51 - nº 434), editado mensalmente (de fevereiro a novembro) pela editora da PUCRS, sob orientação da Faculdade de Teologia, comento o livro "A filha da vendedora de crisântemos, de Stella Maris REzende, editora Paulus.

Quem quiser conferir o texto, aí vai.





Para maiores informações, o link do jornal: www.mundojovem.com.br

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XX


(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração de Yugo Nakamura)


XX. Tirar do armário os peixinhos. Encher de areia o balde. Escavar com a pá a superfície do tempo. Por esta ponte de palitos de picolé há de passar um caminhão de alegria. Vrummm, vruumm, vrummm... Água para todos os lados, água para todos os fados, todos os fatos enfileirados no beiral das telhas que formam a aba do telhado. Se chover, um rio caudaloso de memória viva fluirá até o Amazonas. Enquanto houver sol, esvoaçarão as lavadeiras, recolhendo a roupa branca dos lírios cansados de ajoelharem-se ao sabor do vento. Só o galo de metal, lá no topo, preocupado em cumprir sua função cardeal, permanecerá mudo. Se de súbito a noite fechar o sobretudo, ficaremos clamando pelos pirilampos. É assim, de forma reluzente, com a respiração ainda tremente e os gestos quase insolentes, que se erguerá a infância milenar do menino.

07.02.2013


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XIX



(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração de Jan Durina)



XIX. Não é a queda da noite que me cega. É o frio do olhar. Os corvos que passeiam nos telhados e nas cabeças de amianto, os caramujos que despedaçam as folhas dos canteiros e as salivas que não deixam nada crescer. Antes escrever uma palavra cega e desnorteada, que se choque com versos perdidos, suspiros represados, pontos-finais pontiagudos, palavreado exótico e provoque a reação tormentosa da linguagem, do que deixar que a escuridão dos hipócritas murche as flores do meu jardim. Para os que podem ver o dia que vem logo ali, há um verdadeiro e ilimitado horto da poesia...

06.02.2013



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XVIII




(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; ilustração de Diana Hope)



XVIII. Pétala por pétala. De repente o buquê. São as Marias do meu jardim que santificam a casa, em todos os pontos cardeais. Abertas, são mensageiras dos segredos da terra. Oferecem beleza feita de delicadezas. Espargem cor em finas camadas de paciência. Abraçam forte sem tocar. Fechadas, são esculturas de seda, retorcidas no calor das horas e dos humores, enclausuradas para o aprendizado da força. Amanhã, quando o primeiro raio de luz tocar a pele alva dos meus dedos, saberei da urgência dos perfumes, e descobrirei a necessidade de também inscrever jardins, em meus versos.

04.02.2013




domingo, 3 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS - XVII




(Texto de Celso Sisto para a série "Vestir os vivos"; Ilustração de Carl Burguer)


XVII. Os grandes olhos da Bela. E suas vestes matinais. Roçar a cama, sapatear no assoalho, jogar as patas para cima, espernear! Por fim, os resmungos, que anunciam: “Ai ai ai, tenho preguiça!”. E amontoados nos pelos do quarto ficarão os dez anos de carinho lado a lado, ombro a ombro. Nossa reserva afetiva para os tempos vindouros continua sendo olhar nos olhos. Latimos juntos, tantas vezes! Bela sabe, serena, que ocupa (com seus três irmãos) a ala canina do meu coração... com seus grandes olhos, mais humanos do que os meus...

03.02.2013


sábado, 2 de fevereiro de 2013

COLUNA "CRÔNICAS SINCRÔNICAS" - RAINHA DO MAR, RAINHA DO LAR





(pintura de Menote Cordeiro)

Ando pensando muito num mundo feito à imagem e semelhança das mulheres! E começo a lembrar da história familiar. Inevitavelmente penso na casa de minha avó, que comandava a família com mão de ferro! Quando nasci ela já era viúva e foi sempre nesta condição que convivi com ela. Mas vou me surpreendendo: não era só ela a soberana e a inquebrantável! Todas as mulheres da minha família eram fortes: a tia solteirona e funcionária pública, a outra tia que fora trabalhar em Brasília, a prima vitimada por um aneurisma, a exuberante tia divorciada, a tia que renunciou à maternidade para viver um grande amor, a prima que foi mãe solteira... Meu mundo foi durante muito tempo o mundo das tias e das primas!
Lembro-me do enorme respeito que todos tinham por Dona Inocência, a grande avó, nossa primeira mulher na linha sucessória do trono familiar! Rainha sim! De nome emblemático! Uma mulher baixinha e cujas palavras nem sempre eram recebidas com satisfação. Aliás, a avó tinha fama de não ter papas na língua, como se dizia antigamente! As noras que disputavam importância com ela acabavam sendo alvo de suas implicâncias e queixumes. Ela vencia sempre! Seus filhos se curvavam a seus pés! Mas, isso era muito cedo para a minha pequena idade, e o fato que perdura até hoje na minha memória é o aspecto da grande mãe! Essa aura encantada, que faz com que me lembre dela justo hoje que é dia de Nossa Senhora dos Navegantes. E dia de Iemanjá.
Dona Avó, com enorme amor pelos animais, com sua mão boa para plantar, sua vaidade sem escamoteamentos, seus doces e pratos de comer rezando e com suas palavras-finais encerrando qualquer questão, inundou a minha infância de fantasia e beleza, a despeito da autoridade irrestrita. E não é que neste dia 2 de fevereiro, não paro de pensar nela? É como se ela erguesse seu manto azul, libertasse os peixinhos e mandasse-nos correr mundo em busca de tesouros e pérolas. Eu sei, eu sabia desde cedo, que ela tinha sido órfã, que fora criada por uma tia, que apanhou com vara de marmelo e que ainda assim acreditava sem arrefecimentos na sua beleza e na sua capacidade de conduzir o universo familiar com feminina autoridade! Uma das imagens que mais me persegue é a dela com a mangueira na mão, molhando as plantas... Uma avó que comandava as águas! E em torno de quem o mundo todo se organizava.
            Há uma certa semelhança, pelo menos em respeito, entre minha Avó e as imagens de mulheres que dominam esse 2 de fevereiro. Nossa Senhora dos Navegantes, que os viajantes entronizaram como a grande protetora dos perigos oferecidos pelos mares e rios; Iemanjá, que o país inteiro saúda como a rainha do mar.
            Entre procissões e rememorações, me dou conta de que a casa da minha Avó Inocência, era o templo da criação e da imaginação.  Era a sede de todas as datas importantes, do calendário civil e do calendário familiar. Com a numerosa família, os 8 filhos e os mais de 20 netos, a velha senhora não dispensava a tarefa de  distribuir a benção a todos, na chegada e na saída. Com seus cabelos brancos impecavelmente confirmados pela ação da amônia, a velha senhora tinha que presidir as festas, tomar seu vinho tinto e comer sua pimenta malagueta, que a tornava forte e também aparentada aos dragões.
No território dos deuses absolutos, reina minha avó, com seus pertences, como os habitantes de Egbá, que não podendo transportar o rio, carregaram os objetos sagrados da divindade Iemanjá. Espelho, bijuterias e perfumes, eram os presentes que minha Avó mais gostava. Também são essas as oferendas que se costuma dar a Iemanjá. Por isso, hoje, neste dia, vejo minha avó reviver. Se a rainha do mar está ligada ao reino de Aiocá, considerado também o reino das terras misteriosas, da felicidade e da liberdade, a casa de minha Avó, também guarda essa ligação com o rito, a minha infância e com a África que há em todos nós.
Neste dia, em que essa lembrança me espeta e me habita exclusivamente, vejo também as roseiras da Avó, que eram o altar sagrado do jardim de sua casa. Com o perfume da rosa, branca, que desde pequeno, aprendemos a levar para Iemanjá (mesmo que em outra data!), deposito entre as águas dos tempos essa flor reconstruída em palavras: flor perene, flor eterna.
Nesta procissão fluvial da memória, deixo agora minhas personagens ganharem vida, colocando nelas um pouco de tudo isso que vivi. E a Rosalva mãos de fada, protagonista do meu mais recente livro, não é senão a emoção herdada, a  sombra de minha avó, meu tempo de criança, minha navegação por tudo o que gerava arte?! Uma maneira, hoje eu sei, sincrética, de dar voz à matriarca, às lembranças, à história e ao amor.
Minha Nossa Senhora, empunhando o menino e a âncora, vencendo as águas do tempo, veio aportar aqui: salve, salve, casa de Vó, Iemanjá, minha rainha do lar.

(by Celso Sisto – 02/02/2013)

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XVI



(Texto de Celso Sisto para a série "Vestir os vivos"; Ilustração de Alice Provensen)




XVI. Que outra voz poderei usar para chorar? A voz das palavras falará por mim, com suas sílabas flutuantes, suas vogais flamejantes, seus interstícios silenciosos e pulsantes. Um veio de arroio ainda escorre, pulveriza a pedra dentada, tropeça nos jatos de ar. Essa sílaba repetida, trôpega, arfante, acavalada, precisa reter a dor e, refazendo a roda, desafiar o sentido. Ciclo. Ciclopes. Na garganta muitas vozes se agigantam, os trinados rasgam as frutas, espantam os insetos, implodem os pássaros, evocam os monstros adormecidos. Não há sinal azul de abrandamento. Perto do abismo é no vácuo que a voz se rende, agoniza. Espiral da dor, alavras cárc omidas deix rão ves tíg os da mort... e um profundo silêncio. Depois, os rios serão o território da saudade, volumosos e enfeitados de vazio...

30.01.2013