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sábado, 2 de fevereiro de 2013

COLUNA "CRÔNICAS SINCRÔNICAS" - RAINHA DO MAR, RAINHA DO LAR





(pintura de Menote Cordeiro)

Ando pensando muito num mundo feito à imagem e semelhança das mulheres! E começo a lembrar da história familiar. Inevitavelmente penso na casa de minha avó, que comandava a família com mão de ferro! Quando nasci ela já era viúva e foi sempre nesta condição que convivi com ela. Mas vou me surpreendendo: não era só ela a soberana e a inquebrantável! Todas as mulheres da minha família eram fortes: a tia solteirona e funcionária pública, a outra tia que fora trabalhar em Brasília, a prima vitimada por um aneurisma, a exuberante tia divorciada, a tia que renunciou à maternidade para viver um grande amor, a prima que foi mãe solteira... Meu mundo foi durante muito tempo o mundo das tias e das primas!
Lembro-me do enorme respeito que todos tinham por Dona Inocência, a grande avó, nossa primeira mulher na linha sucessória do trono familiar! Rainha sim! De nome emblemático! Uma mulher baixinha e cujas palavras nem sempre eram recebidas com satisfação. Aliás, a avó tinha fama de não ter papas na língua, como se dizia antigamente! As noras que disputavam importância com ela acabavam sendo alvo de suas implicâncias e queixumes. Ela vencia sempre! Seus filhos se curvavam a seus pés! Mas, isso era muito cedo para a minha pequena idade, e o fato que perdura até hoje na minha memória é o aspecto da grande mãe! Essa aura encantada, que faz com que me lembre dela justo hoje que é dia de Nossa Senhora dos Navegantes. E dia de Iemanjá.
Dona Avó, com enorme amor pelos animais, com sua mão boa para plantar, sua vaidade sem escamoteamentos, seus doces e pratos de comer rezando e com suas palavras-finais encerrando qualquer questão, inundou a minha infância de fantasia e beleza, a despeito da autoridade irrestrita. E não é que neste dia 2 de fevereiro, não paro de pensar nela? É como se ela erguesse seu manto azul, libertasse os peixinhos e mandasse-nos correr mundo em busca de tesouros e pérolas. Eu sei, eu sabia desde cedo, que ela tinha sido órfã, que fora criada por uma tia, que apanhou com vara de marmelo e que ainda assim acreditava sem arrefecimentos na sua beleza e na sua capacidade de conduzir o universo familiar com feminina autoridade! Uma das imagens que mais me persegue é a dela com a mangueira na mão, molhando as plantas... Uma avó que comandava as águas! E em torno de quem o mundo todo se organizava.
            Há uma certa semelhança, pelo menos em respeito, entre minha Avó e as imagens de mulheres que dominam esse 2 de fevereiro. Nossa Senhora dos Navegantes, que os viajantes entronizaram como a grande protetora dos perigos oferecidos pelos mares e rios; Iemanjá, que o país inteiro saúda como a rainha do mar.
            Entre procissões e rememorações, me dou conta de que a casa da minha Avó Inocência, era o templo da criação e da imaginação.  Era a sede de todas as datas importantes, do calendário civil e do calendário familiar. Com a numerosa família, os 8 filhos e os mais de 20 netos, a velha senhora não dispensava a tarefa de  distribuir a benção a todos, na chegada e na saída. Com seus cabelos brancos impecavelmente confirmados pela ação da amônia, a velha senhora tinha que presidir as festas, tomar seu vinho tinto e comer sua pimenta malagueta, que a tornava forte e também aparentada aos dragões.
No território dos deuses absolutos, reina minha avó, com seus pertences, como os habitantes de Egbá, que não podendo transportar o rio, carregaram os objetos sagrados da divindade Iemanjá. Espelho, bijuterias e perfumes, eram os presentes que minha Avó mais gostava. Também são essas as oferendas que se costuma dar a Iemanjá. Por isso, hoje, neste dia, vejo minha avó reviver. Se a rainha do mar está ligada ao reino de Aiocá, considerado também o reino das terras misteriosas, da felicidade e da liberdade, a casa de minha Avó, também guarda essa ligação com o rito, a minha infância e com a África que há em todos nós.
Neste dia, em que essa lembrança me espeta e me habita exclusivamente, vejo também as roseiras da Avó, que eram o altar sagrado do jardim de sua casa. Com o perfume da rosa, branca, que desde pequeno, aprendemos a levar para Iemanjá (mesmo que em outra data!), deposito entre as águas dos tempos essa flor reconstruída em palavras: flor perene, flor eterna.
Nesta procissão fluvial da memória, deixo agora minhas personagens ganharem vida, colocando nelas um pouco de tudo isso que vivi. E a Rosalva mãos de fada, protagonista do meu mais recente livro, não é senão a emoção herdada, a  sombra de minha avó, meu tempo de criança, minha navegação por tudo o que gerava arte?! Uma maneira, hoje eu sei, sincrética, de dar voz à matriarca, às lembranças, à história e ao amor.
Minha Nossa Senhora, empunhando o menino e a âncora, vencendo as águas do tempo, veio aportar aqui: salve, salve, casa de Vó, Iemanjá, minha rainha do lar.

(by Celso Sisto – 02/02/2013)

6 comentários:

Milene Barazzetti Machado disse...

Incrível como você povoa com sinceridade o que escreve. Vejo muito do que você falou sobre sua avó e essas tantas mulheres que estiveram em sua vida, em você Celso. Vejo muito mais ainda no que você escreve.Linda comparação de sua avó com a Deusa Iemanjá, a Grande Mãe. Abçs
Milene

celso sisto disse...

Pois é, né Milene! Somos esse reflexo da nossa história familiar... não dá pra fugir! rsrsrs! E que ousadia a minha comparar a minha avó à Iemanjá e a Nossa Senhora dos Navegantes! Mas foi assim que o dia 2 de fevereiro de 2013 chegou pra mim... Tive que navegar no barco da memória. E transformar em oferenda literária a minha crônica! Obrigado por sua sempre inteligente leitura!

Ana Miranda disse...

Como sempre,você nos emociona! Lembranças mais lindas! Elas me lembram minha família,sabia?Minha avó tinha mãos de fada,fazia trabalhos lindos e também mãos de ferro!rsrsrs Obrigada,meu querido,por mais esta emoção. Bjks.

Meka Cesar disse...

Celso,
adorei!
Tb tive uma figura feminina assim, a "Bivó", mãe do meu avô Marcos, e que tinha violetas no lugar das rosas da sua avó.
Muito legal essa sobreposição das 3 figuras.
Apheto

celso sisto disse...

Ana Miranda! Obrigado por seu comentário. É bom saber que as avós eram fortes e únicas!Beijo.

celso sisto disse...

Meka, minha amiga e minha fiel leitora! Minha avó também adorava violetas! Adorei seus comentários. Beijos.