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sábado, 2 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XVI



(Texto de Celso Sisto para a série "Vestir os vivos"; Ilustração de Alice Provensen)




XVI. Que outra voz poderei usar para chorar? A voz das palavras falará por mim, com suas sílabas flutuantes, suas vogais flamejantes, seus interstícios silenciosos e pulsantes. Um veio de arroio ainda escorre, pulveriza a pedra dentada, tropeça nos jatos de ar. Essa sílaba repetida, trôpega, arfante, acavalada, precisa reter a dor e, refazendo a roda, desafiar o sentido. Ciclo. Ciclopes. Na garganta muitas vozes se agigantam, os trinados rasgam as frutas, espantam os insetos, implodem os pássaros, evocam os monstros adormecidos. Não há sinal azul de abrandamento. Perto do abismo é no vácuo que a voz se rende, agoniza. Espiral da dor, alavras cárc omidas deix rão ves tíg os da mort... e um profundo silêncio. Depois, os rios serão o território da saudade, volumosos e enfeitados de vazio...

30.01.2013


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