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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

DA SÉRIE "VESTIR OS VIVOS" - XX


(Texto de Celso Sisto para a série “Vestir os vivos”; Ilustração de Yugo Nakamura)


XX. Tirar do armário os peixinhos. Encher de areia o balde. Escavar com a pá a superfície do tempo. Por esta ponte de palitos de picolé há de passar um caminhão de alegria. Vrummm, vruumm, vrummm... Água para todos os lados, água para todos os fados, todos os fatos enfileirados no beiral das telhas que formam a aba do telhado. Se chover, um rio caudaloso de memória viva fluirá até o Amazonas. Enquanto houver sol, esvoaçarão as lavadeiras, recolhendo a roupa branca dos lírios cansados de ajoelharem-se ao sabor do vento. Só o galo de metal, lá no topo, preocupado em cumprir sua função cardeal, permanecerá mudo. Se de súbito a noite fechar o sobretudo, ficaremos clamando pelos pirilampos. É assim, de forma reluzente, com a respiração ainda tremente e os gestos quase insolentes, que se erguerá a infância milenar do menino.

07.02.2013


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