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sábado, 4 de janeiro de 2014

COLUNA CRÔNICAS SINCRÔNICAS - A ARTE DE VIVER DA PAZ



O menino Jesus já nasceu. E agora? O que faremos com ele? Criança recém-nascida precisa de silêncio. E uma semana depois, o mundo inteiro parece explodir em rojões, morteiros e bombas. E chuvas de fogos coloridos caem do céu com tanta abundância, que parece que quanto mais durar a queima de fogos, tanto mais rico e importante será o nascer do novo ano.
A verdade é que o início de cada ano foi ficando cada vez mais barulhento e glamouroso. Mesmo no Rio de Janeiro da minha infância, não haviam tantas explosões no Céu e nem tantas pessoas na praia querendo ver o espetáculo dos fogos de artifícios cruzando os ares. E tanta gente se abraçando, estourando champanhe e gritando numa verdadeira demonstração pública da comoção ou da histeria coletiva. Ainda que os fogos tenham, tradicionalmente, a função de espantar os maus espíritos, os tempos mudaram.
A alegria do grito era expressa em fortes abraços e com beijos babados de pais e mães, e tias e avós, querendo apenas que no ano que se iniciava, tivéssemos muita saúde e paz. Aliás, paz era a palavra mais pronunciada nas primeiras horas do ano novo. E eu, na expectativa de poder ficar acordado até mais tarde engolia a paz como oxigênio para o resto da noite e corria de volta para as brincadeiras, entre primos e primas, sempre reunidos em bandos.
Mas não podíamos entender de fato o recado que havia por trás dos desejos concentrados na palavra paz. Não aos sete ou oito anos! Tampouco entendíamos a palavra réveillon, que era muito mais usada, naquela época, provocando riso e dando nó na língua, mesmo quando os pais explicavam em voz alta:
- Réveillon é despertar, despertar. Francês, meu filho. Coisa fina!
E por isso, tomavam champanhe e mais champanhe. E por isso riam alto, engolindo borbulhas e atirando farpas uns nos outros. Até que os volumes das vozes se alteravam a ponto das crianças suspeitarem que estavam brigando. E as avós sábias, puxavam um pra cá, outro pra lá, antes de tudo recomeçar. Muita gente. Família numerosa...
Entre os menores, as confusões também se armavam e se desarmavam. Vinha uma tia, um tio, um primo grande e bigodudo, já com a voz grossa, e dizia:-
- Vão brigar logo hoje que é dia de paz?!
E recitava olhando para o Céu:
- “Eu sou o eterno homem e hoje que a dor fecunda o tempo eu sinto mais que nunca a vontade de fechar os braços sobre a minha miséria. Fiquemos como duas crianças pensativas sentadas numa escada – todos serão os peregrinos e apenas nós os contemplados”, já dizia Vinícius de Moraes.
E logo se formava uma roda. Vinha a cantoria, a música, a dança e as mãos dadas. Em total indício da paz.
Por isso, passei a acreditar que na tal festa do recomeço, a única maneira de assegurar a ordem era se vestir de branco. Envergando a alvura da cor, ninguém tinha muita coragem de levar adiante qualquer desentendimento e aquilo que começava com um tom sério e ofensivo, acabava em riso e abraço. A cor fazia as pessoas pertencerem ao mesmo grupo, se reconhecerem, e promovia o re-acordar.
Acho que todos nós somos ainda um pouco romanos nessa data. Eles dedicavam esse dia a Jano, o deus dos portões. E este, sabiamente, tinha duas faces, uma que olhava para o passado e outra que olhava para o futuro.
Ao abrirmos os portões, para deixar passar o ano novo, arrastando seu manto branco de bons presságios, recuperamos o significado da paz: a guerra acaba, os exércitos voltam para casa, as cidades não precisam mais estar fechadas para impedirem as invasões.
Se o calendário gregoriano passou a marcar o primeiro dia do ano em janeiro, repetimos o decreto do imperador Júlio Cesar: deixamos entrar na cidade, para tomar conta de tudo, o desejo da renovação. Desde criança aprendemos ritualisticamente o que é ter esperança!

                                                                                                                                                                 (by Celso Sisto – 04/01/2014)



2 comentários:

Suely Aymone disse...

Teu texto me conta também!

No início, expressa o que sinto hoje: sem querer ser chata ou estraga prazeres (dos outros!), penso que há uma euforia exagerada nas celebrações de final de ano.
Minha cidade fica num nervosismo que me assusta!!! Isso que não temos mar, nem festa na rua...

De qualquer forma, como disseste: "!Desde criança aprendemos ritualisticamente o que é ter esperança!"

Por isso, esses ritos de passagem me encantam (e me enervam)!

Beijos!

celso sisto disse...

Obrigado pelo comentário, Suely. Adorei te ver por aqui! Bjs.