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sábado, 25 de janeiro de 2014

COLUNA CRÔNICAS SINCRÔNICAS - UM PÁSSARO NA MÃO


Um pássaro na mão
                                                            by Celso Sisto


Ver um pássaro voar é mesmo um encanto para o olhar! A leveza me intriga. Os traçados de voo me arrebatam. A perfeição das penas me fascina. O colorido das plumas me comove.
Mas como um plano de voo pode ser também uma rota de colisão, eis que um pássaro cai do Céu. Não presenciei nada. Ainda bem. Encontrei-o já inerte, olhos tumefeitos, patas contraídas, bico lacrado para sempre. E uma dor aguda rasgou minha memória, sem demora. Com frase tonitruante:
- Por que você fez isso?
Não era dirigida a ninguém a pergunta. Ou era. Ao meu lado a minha cadela poodle saltava, matreira. Sem nenhuma culpa. Apesar da minha raiva.
Sem bater concretamente as asas, mas voando para muito longe, fugi dali, lembrei-me daquele primeiro filhote que encontrei no chão, na casa da minha avó, e que levei para casa, para tentar salvar. Corpo escorreito, mas ainda sem plumagem alguma, tinha caído do ninho. Tinha caído aos meus pés, para que eu descobrisse o que era cultivar asas.
Cercado de cuidados, aprendiz das urgências, receoso, carregando nas mãos a responsabilidade pela vida do pequeno ser, rapidamente tive que dominar o manejo do palito de dentes, molhado em migalhas. O ato heroico, repetido diversas vezes em desespero, também era uma tentativa de me salvar. Deu um pouco certo. Deu um pouco errado. Eu quase pulava da cama, de hora em hora para ver se o bichinho ainda estava vivo. Num momento não estava mais. Falhei. E foi esse episódio que assinalou, para sempre, a minha fome ancestral, a minha ânsia de vida, o meu ímpeto de salvação. Coisa que só se descobre mais tarde. Eu aprenderia a nascer em palavras.
Depois foram as pombas, as minhas novas paixões aladas. Numa época em que criar pombos não era uma ameaça à saúde. E que o arrulhar podia anunciar, como um insistente sussurro, a chegada do dia na minha janela. Época para aprender a repartir os grãos de milho.
Também vieram os periquitos, os curiós, os biquinhos de lacre, os pássaros-pretos. Meu Deus! Uma revoada inteira passou pela minha infância, para que eu pudesse aprender a ser um pouco pássaro.
Meu pai gostava de gaiolas (numa época em que não se tinha tanta consciência ecológica, como hoje) e eu amava os cantos, os olhos miúdos, que ao mesmo tempo gritavam por “liberdade” e agradeciam os cuidados, saltitantes de carinho. A água no bebedouro. A folha de jornal dobrada no fundo removível da casa de arame, o jiló partido e fresco dependurado na árvore de repente feita de metal, o alpiste e as vitaminas... Tudo era um ensaio para outros voos!
Agora sei por que “O rouxinol e o imperador” ainda reverberam na minha memória. Andersen, sempre Andersen a acenar da minha infância. Para logo se juntar ao “Príncipe feliz” de Oscar Wilde. Rouxinol e andorinha serão sempre os meus condutores, aqueles que carregam no bico a minha imaginação afoita e tão necessitada de alturas. Um para a porcelanosa China, a outra, para o piramidal Egito. E minhas asas desgastadas, desejarão o dorso de Hórus, com sua cabeça de falcão, para pernoitar, enquanto seus olhos de Sol e Lua me afastarão do mau-olhado.
Criança e passarinho se complementam. Sempre soube disso. É por isso que jamais pude suportar a ideia de um pássaro morto! É por isso que hoje irei chamar, gritando para o fundo da minha memória, com todas as forças, o rouxinol do Imperador da China, porque só ele tem o poder de comover e afastar a morte.

 (by Celso Sisto – 25/01/2014)
Ilustração de Nils Holgersson

3 comentários:

Érick Netto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
www.cha-com-biscuit.blogspot.com disse...

Um bico calado, um par de asas já rígidos, um certo olhar assombrado, um lugar vazio no passado, um qualquer avesso inconformado. Uma vida entrelaçada pelo desejo supremo de vencer. Bravo!

...e por falar nisso disse...

Lembrei de todos os periquitos que criei e quantos também morreram, um por acidente e que marcou longos dias de tristeza nas aulas da 4ª série.