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domingo, 2 de fevereiro de 2014

COLUNA CRÔNICAS SINCRÔNICAS - PARA TRAMAR A SAUDADE

Para tramar a saudade
                                                            by Celso Sisto


Nunca tenho medo de sentir saudade! Conheço algumas pessoas que evitam lembranças, recordações, memórias, porque cismam que isso é alimentar tristezas. É um uso muito reduzido para uma palavra tão bonita, não acham?
Saudade não é necessariamente o salto psicológico para um tempo em que éramos mais felizes. Não é a aparição autorizada de lembranças doloridas. Não é necessariamente a necessidade de viver tudo de novo.
Ainda que a palavra seja originária da palavra solitatis em latim, a minha saudade não cumpre esse desejo de solidão. Pelo contrário: minha saudade corre sempre para momentos, lugares, situações povoados de pessoas. São elas que participam como artífices na composição desse tecido que dá significado à vida de cada um. São elas que dinamizam essa grandeza vetorial chamada saudade.
Saudade tem muito mais a ver com um movimento de retornar. De ver. De sentir de um outro jeito o que foi vivido lá atrás. Qualquer repetição nos atira no terreno da impossibilidade. Na saudade nada se perde. Nada se repete. Tudo se reconfigura! Tenho todos os elementos na mão, mas com a distância e o tempo, posso brincar com eles do jeito que eu quiser!
Prefiro pensar que a saudade tem muito mais a ver com buracos e vazios. Tem muito mais a ver com a sensação de algo especial. Mas a saudade deve ser suave, ainda que pese! Dá pra entender? Tudo o que tem valor e existência, tem peso. O peso é a intensidade. E isso não é ruim! Coloco nos ombros da saudade o peso que eu posso (ou quero) carregar!
Tenho saudade do aquário de jardim, na casa da minha infância. Tenho saudade dos bailes infantis de carnaval, com as fantasias feitas pela minha avó. Tenho saudade do Kharmann Ghia azul do meu pai, do Gordini tão compacto como carro de brinquedo, da Vemaguet que nos levava para mil aventuras. Tenho saudade dos verões em Araruama; do leite com Ovomaltine, preparado pela minha mãe; da prancha de isopor que esfolava a nossa barriga no Arpoador; da enorme bola pula pula em que íamos para a Lua; dos abraços recebidos pelo dia das crianças...
Não quero sufocar as minhas saudades! Não quero deixar de senti-las. Não quero extirpá-las do meu corpo, como se fossem algo alheio a mim ou uma erva ruim!
Melancolia também não cabe na minha saudade. Falo de uma saudade alegre, cheia de cores e sabores, como se eu estivesse provando tudo de novo, mas agora conhecedor dos aromas. Não importa a exatidão, a fidelidade ao que passou, a ordem em que as coisas aconteceram, o tempo de duração, nada disso. Com o tempero da saudade, parece que tudo é mais significativo, curtido, lento, sentido, aproveitado.
Pratico a saudade como uma visita necessária ao Paraíso da Memória. Assim aprendi a treinar os sentimentos. Assim construí, desde a infância, esse acervo enorme, que flutua em algum lugar, entre mim e a palavra, para que eu possa entrar quando quiser, nesse território antevisto, como se fosse a plataforma 9 3/4 do Harry Potter!
Se o menino vai a Hogwarts para aprender a ser bruxo e encontrar seus pares, eu vou, impulsionado pela mobilidade que a saudade me provoca, aonde eu quero ir: ao País das Maravilhas, à floresta de Sherwood, à casa de Gepeto, à fantástica Oz, à Tatipirun, à Terra do Nunca, mesmo que o léxico saudade me obrigue ao território exclusivo das línguas portuguesa e galega!
E não é um dia, no calendário de janeiro, que vai me dizer qual é a hora de cumprimentar meu pai, Lúcia Jurema, Bartô, Paulo Nigrinha, seu Atílio, Dona Adelaide, Tia Ofélia... Há uma saudade personificadora, que na linha do arremate, faz saltar pessoas até pelos meus olhos, até nas minhas palavras.
                                                                                                       
(by Celso Sisto – 02/02/2014)

Ilustração de The Virginian-Pilot