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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - MANHÃS DE CARNAVAL

Ilustração de Celso Sisto
Manhãs de carnaval

                                                                                                                              by Celso Sisto

            O carnaval vai acabar e eu não terei perdido a voz em rios de alegria! O carnaval vai acabar e eu não terei vestido uma única fantasia! O carnaval vai acabar e eu não terei cantado alto e feito novas parcerias! Também não terei dançado novas coreografias, nem descoberto novas geografias... Ah! E agora?  
            Teremos outras oportunidades de extravasar a alegria ao longo do ano, mas confesso que num país em que tudo só começa depois do carnaval, entrar o “ano” com essa sensação de ter arreganhado os músculos da face, exercitado a voz, remexido os quadris (tão difícil para os homens!), lançado os braços para o alto aferrado na vontade de viver, e deixado a boa energia se irmanar com a satisfação sorridente dos outros, não tem preço! E é única ao longo do restante dos dias do ano... Ou eu me engano?
            Quem costuma se lembrar de marchinhas no resto do tempo? Quem se veste de modo irreverente, para encontrar tantos outros personagens andando soltos pelas ruas, em ritual coletivo de tão amplo espectro?
            É tão bom relembrar que o carnaval tem uma ligação estreita com a emancipação do nosso povo brasileiro. Se recuperar a sua história nos levará à Antiguidade, à Mesopotâmia, a Roma e à Grécia, também nos lembrará dos esforços dos escravos para organizarem os entrudos, no Brasil colonial. E assim, pronto, também relembraremos que estava aberto o caminho para os cordões, os ranchos, os corsos e as escolas de samba. E sedimentadas as vias, que misturariam afoxés, frevos e maracatus dando uma cara toda especial ao carnaval brasileiro.
É claro, ainda subsiste a subversão dos papeis sociais, que está lá na origem do carnaval da Antiguidade. Também subsiste o caráter dionisíaco, da embriaguez e dos prazeres da carne que está lá nos rituais dos gregos.
 O desregramento é que comandava e isso não era necessariamente ruim. Era preciso ter ido além para aprender quando e como se podia ultrapassar os limites, ou quando e como se podia perder o freio, o medo, a censura, mas nunca a responsabilidade por qualquer de seus atos. Com a devida permissão, é claro!
Pois pensando com mais ardor na origem do carnaval, somos obrigados a lembrar ainda mais da Roma antiga e suas Lupercálias, as festas das divindades infernais, que ocorriam em fevereiro, porque era também o mês das purificações. E daí, para chegarmos aos carnavais de Veneza, é um pulo! Um pulo de séculos, mas um pulo, porque toda vez que vejo fotografias do Carnaval de Veneza, tenho a sensação de que os olhos das máscaras são sempre diabólicos. Claro, as divindades infernais da antiga Roma voltam à cena, para nos lembrarem de que precisamos desses velhos rituais!
Por sua vez, as imagens do carnaval veneziano também me remetem aos carnavais medievais, em que os jovens que saiam às ruas, fantasiados de mulheres por várias noites, diziam-se habitantes da fronteira do mundo dos vivos e dos mortos. Invadiam as casas (sempre com consentimento dos donos), para fartarem-se de comidas, bebidas e beijos das jovens moradoras dos lugares.
De novo, os figurinos e máscaras do carnaval de Veneza invadem a minha cabeça. Nunca estive no carnaval de Veneza, diga-se. Mas já estive lá. E trouxe, claro, uma máscara daquelas que nos transferem de imediato para as cidades italianas do Renascimento. Resultado: todo carnaval tenho vontade de usá-la e ela continua ali, ao alcance das minhas mãos.
Hoje, esse carnaval que tanto amo, virou tempo de ficar em casa, de contemplar a alegria e de participar da festa de outro modo: festejando alegremente os dias de ócio, no meu caso, ócio criativo. São dias para escrever, ler, desenhar, pintar, comer e beber sem pressa e cercado de amigos, em contato íntimo com a natureza.
Claro que vejo com alegria o ressurgimento dos blocos de rua, que recebo com alegria as notícias dos festejos de carnaval nas mais variadas cidades do país; que vibro com as novas gerações aprendendo e cantando as velhas marchinhas, que ora engraçadas, ora enigmáticas, mantinham em forno de alto grau, a crítica política e social. Sempre sinal dos tempos! Um tempo que também está pintado, fantasiado e devidamente carnavalizado na minha memória!
Mas, com tudo isso, vou continuar achando as manhãs de carnaval vazias e solitárias, enquanto os foliões dormem silenciosamente estafados. Vou achar a quarta-feira de cinzas um dia triste. “Pra tudo se acabar na quarta-feira” é o lema que vem apregoado na clássica “Felicidade”, música de Vinicius de Moraes. Não é o meu bordão. Mas o da Igreja, que tratou de permitir a festa pagã, com a incumbência de lançar em seguida o sujeito no período religioso da quaresma! E estavam todos perdoados! Estavam os excessos devidamente inseridos no calendário! Até o próximo carnaval... com todas as bênçãos! E ziriguiduns!




                                                  (by Celso Sisto – 18/02/2015) 

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - A MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Ilustração de Celso Sisto

A Música Popular Brasileira

                                                                                                                              by Celso Sisto


            Fiz questão de escrever todo o título em maiúscula! Essa é uma homenagem aos tempos áureos, em que a qualidade da Música Popular Brasileira era fortalecida pela poesia de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil.
            Sim, poesia, letras verdadeiramente trabalhadas, a ponto de colocar na boca do público – e eu era ainda quase uma criança -, um doce-de-palavras, confeitado por frases do tipo “quero ser a cicatriz risonha e corrosiva, marcada a frio, ferro e fogo, em carne viva” ou simplesmente “Deus me deu mão de veludo pra fazer carícia, Deus me deu muita saudade e muita preguiça, Deus me deu perna cumprida e muita malícia pra correr atrás da bola e fugir da polícia, um dia ainda sou notícia...” Ou ainda “Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta, mesmo calada a boca, resta o peito, silêncio na cidade não se escuta, de que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra, outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta”

            E o Pai afastou de mim tudo o mais que não era música de qualidade! Ainda bem que esses dardos de beleza, lampejos de uma linguagem que se aprende a amar, desde a mais tenra idade, atingiram pra sempre o meu coração, e me mantiveram nessa senda dos buscadores ávidos de poesia; nessa comunhão entre letra e  sonoridades, que mais do que embalar corpos nos ritmos da moda, servem para formar cultural e esteticamente um sujeito.
            E hoje, anos depois, indo de Porto Alegre para a praia, tive a boa ideia de colocar no rádio do carro, o disco dos Secos Molhados. Evidentemente, um CD, remasterizado, daquela obra que foi um escândalo em todos os sentidos, desde a capa com as cabeças em pratos de bolo, na mesa repleta de cebolas, grãos e roscas, até a maquiagem dos componentes do grupo, ou o figurino, a voz do cantor principal, a sonoridade rica, rica, riquíssima. Uma verdadeira revolução, principalmente para um pré-adolescente, que tinha então em 1973 doze anos de idade. Uma verdadeira celebração da latinidade, da carnavalização, da brasilidade, da contemporaneidade!
            O disco rolando no rádio e a minha cabeça trabalhando sem cessar! Foi inevitável agradecer o ambiente cultural em que fui criado: que sorte! Meus pais ouviam (e gostavam!) de Nara Leão, João Gilberto, Gal Costa, mas também Altemar Dutra, Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Nélson Gonçalves, Pixinguinha. Uma riqueza de estilos que só depois eu saberia festejar! 
            E logo a memória toma todo o espaço do meu carro, me veste de outros novos tempos e me faz ficar arrepiado, saudoso, impactado como naqueles idos, com a imagem forte e arrebatadora do verso de “quem não vacila mesmo derrotado, quem já perdido nunca desespera e envolto em tempestade, decepado, entre os dentes segura a primavera”. 
Caramba, segurar a primavera entre os dentes e ainda por cima decepado? Era demais! Mexia comigo, revolvia o poeta que eu sempre haveria de ser! E ainda essa carga toda de surrealismo, essa atmosfera onírica, que caminha ressentida para o lirismo dolorido dos versos de uma rosa atômica, que nos convoca: “pensem nas feridas como rosas cálidas, mas não se esqueçam da rosa da rosa...”. Acho que ali, aprendi a ironia, o equilíbrio da rosa repugnante balizada pela ternura de protestar de um jeito mais profundo! Amei aquilo tudo com a força de uma vida inteira que ainda estava por vir.
            Se naquele longínquo 1973 eu já intuía o modernismo musical daquele disco, hoje só posso gritar de alegria-revigorada-e-revoltosa, por ter sido assim musicalmente tocado pela poesia de Cassiano Ricardo, de Vinícius de Moraes, de Manuel Bandeira. Apesar da sonoridade, às vezes, pra cima, alegre porque coletiva e brasileira, havia o predomínio de uma rua sem saída, um caminho sem chegada, o alvoroço de andorinhas gritando, do senhor capitão que iria tirar esse peso do meu coração, para transformar tudo em uma arte pulsante que abriria para mim as portas do mundo, porque era preciso ser assim assado!
            E tudo isso ali, de volta, no meio da BR-290! Que vontade de gritar! De cuspir na cara das pessoas a prece cósmica de Cassiano Ricardo, que reza ainda nos meus ouvidos para “que do bolso de cada um dos 4, como num teatro, voem pombas (pombas brancas) e amanheça”.
            A vida correu pra mim, como eu corria naquela estrada: rápida demais, envolta nesses fios de “sombra, silêncio ou espuma, nuvem azul que arrefece”, como João Ricardo ao descrever o amor.
            Foi amor que aprendi nas primeiras leituras de grandes obras da literatura brasileira, que naquele mesmo ano tive que ler na 6ª série, na escola.  Mas, o disco da memória, no rádio do aqui e agora anuncia um saldo positivo de mim mesmo: minha verdadeira abertura para a poesia se deu através da música e principalmente através do maravilhoso legado dos Secos e Molhados.
            A maior ironia é que tenho ouvido falar demais, nesses últimos dias, em discos de vinil. Há uma trupe que cultua os antigos aparelhos de som, os toca-discos com braços e agulhas, que correm pelas ranhuras das bolachas negras, produzindo canto... É essa imagem que mais me prende e seduz: a agulha que arranha, que desliza nas ranhuras e que fere profundamente a minha memória, não para causar dor, mas para voltar a cortar na minha carne os sinais de um tempo que ainda vive em mim. Que poder, o da memória! São exatamente 42 anos de agulhas diamantadas pelo tempo injetando nas minhas veias o sangue da história e da arte desde aquele fatídico ano!
            Hoje quero carregar no lugar do músculo cardíaco um LP, fabricado com cera de carnaúba, revestido ainda com goma-laca, rodando rápido em 78 rotações por minuto. Na velocidade da emoção...

                                                  (by Celso Sisto – 02/02/2015)


quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - HOMEM QUE FAZ BOLO

Ilustração Celso Sisto
                                                           
Homem que faz bolo

                                                                                               by Celso Sisto


          Fui uma criança muito magra! E morria de vergonha das costelas que gritavam mal eu tirava a camisa. Mas nunca dei trabalho para comer. Comia de tudo, mesmo! De bife de fígado à miolo à milanesa! Isso mesmo! Miolo à milanesa... Quando descobri depois, já adulto, que aquilo era cérebro de boi, nunca mais consegui nem pensar na tal iguaria! Mas na infância eu adorava! E as cantinas italianas servem-no até hoje como tira-gosto, acompanhado de muito limão. E há uma infinidade de pessoas que gostam muito.
          Assim como o nosso cardápio vai mudando à medida que crescemos e nosso paladar vai se aprimorando, nossas aproximações com a cozinha também passam por alterações. Na minha adolescência nunca fiz nada. Que vergonha! Não lavava nem um copo! Depois quando saí de casa para morar sozinho, descobri que eu podia fazer todo o tipo de comida. Na primeira vez que minha mãe foi jantar na minha casa, ficou surpreendida com o banquete e quis logo saber:
          - Meu filho, onde você aprendeu a fazer tudo isso?
          Prontamente respondi:
          - Só de comer as comidas que você fazia, mãe! Vendo você fazer uai! (pra reforçar a minha ascendência mineira!).
          Era exatamente isso: eu sabia fazer tudo o que ela fazia, só por ter comido um dia os pratos que ela nos servia lá em casa. Mas claro, sou um daqueles cozinheiros que precisa de receita pra tudo! Não decoro nada, mesmo que tenha feito mil vezes! Mas descobri o prazer de ver a comida aparecendo, ganhando cor e sabor na medida em que me entrego a ela.  Meu maior pecado é que sou exagerado e gosto de quantidades! Ah, e também gosto do que eu faço, o que é quase sempre um caminho seguro para o aumento de peso! Yes!
          Mas sou um cozinheiro apressado. Explico: gosto de fazer coisas que são mais ou menos rápidas no preparo. Faço bagunça, sujo tudo, mas o resultado final é bom! Ainda bem! Só não gosto de cozinhar todos os dias, talvez por isso, sempre aposto que vou gostar de comer aquilo de novo, no dia seguinte... mesmo que transformado! É a sina dos que vivem correndo!
          Pra quem ficou curioso, o meu primeiro prato certamente foi um estrogonofe de frango, para, digamos, me familiarizar com os apetrechos e tempos da cozinha. Hoje, o que mais gosto de fazer são bolos salgados! Bolo de calabresa, bolo de palmito com azeitona, torta de camarão. E alguns doces de festas (Ai, adoro tudo que leva coco!). Porque também é preciso adoçar os sonhos.  De preferência, muitos sonhos! E muitos doces!
          Pois não é que dia desses, agoniado entre um texto que precisava acabar de escrever e a falta de paciência, fui fazer um bolo-pão-de-queijo para o lanche, que virou pretexto para o exercício da minha gula? Já fazia tempo que não preparava o tal bolo que eu adoro! Postei a foto. E choveram  comentários. Recebi até proposta de casamento:
          - Ah, não, ele faz bolo também?! Quer casar comigo? (risos) – perguntou-me a Lelé.
          Rapidamente respondi que sim... mas, que provavelmente seria preso por bigamia (risos).
          Claro que a brincadeira é saborosa e nos deixou contentes. Mas, pensando melhor, esse tipo de espanto é ainda (e muitas vezes) resquício de um certo machismo. Foi-se o tempo em que a cozinha era território eminentemente feminino! Embora a história da gastronomia aponte para um território masculino e as chefs mulheres fossem raras, até bem pouco tempo, há uma diferença grande entre uma cozinha caseira e uma cozinha industrial, entre cozinhar para a família e assumir com a tarefa um empreendimento em nível empresarial. Será que é essa explicação para a diferença de gênero nas cozinhas? A mulher na cozinha de casa, o homem na cozinha da rua?! Em todo caso, devo avisar logo: não tenho nenhuma vocação para comercializar os meus bolos, feitos entre um poema e uma crônica.
          Enquanto penso no caso, vou embarcando na mistura da literatura com a culinária, como um entreposto em que se aprende a condimentar as palavras. E lembro-me de imediato, dos poemas que li recentemente no livro “Diário da montanha”, de Roseana Murray. No poema “André na cozinha da floresta” a autora fala de seu filho e de sua “nova geografia de sabores” quando “transforma ingredientes em poesia para comer”.  No poema “Dani Keiko na cozinha da floresta” ela menciona como sua nora ilumina “os pratos que fabrica, como se preparasse feitiços de amor”.
          Pois conheço um outro mago da cozinha que é bem assim. O Carlos tem esse toque de carinho extremo que transborda dos pratos que ele prepara. Tem essa forma poética de fazer-se memória gustativa, afetiva, contemplativa, cooperativa, pró-ativa com seus banquetes inigualáveis, porque alimentam o coração, o imaginário, acendem luas e estrelas e espalham o perfume da sua bondade. E ao redor, tudo também se ilumina de um outro jeito, se aquece de modo lustroso, se curva em agradecimento quase coreográfico.
           Quem disse que lugar de homem não é na cozinha?!


                                                  (by Celso Sisto – 21/01/2015)



           

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - PREVISÃO PARA OS PRÓXIMOS DIAS

                                                                                               Ilustração Celso Sisto



Previsão para os próximos dias
                                                                                                          by Celso Sisto

Dizem que falar do tempo é a prova cabal da falta de assunto! Que nada! Quero evocar aqui e agora os dias chuvosos ou aqueles com pancadas de chuva, que costumam enfeitar as previsões meteorológicas, mas que são, nesse princípio de ano, um transtorno para quem está em temporada de férias na praia!

Talvez no verão de um passado remoto, o romantismo bucólico do cheiro da terra molhada bastasse para aquietar o calor humano e coroar um dia de tempestades! O chiado da chuva caindo volumosa talvez servisse de melodia para embalar a necessidade de fazer o pensamento dançar impunemente, vez por outra. E a visão enevoada dos pingos grossos e rápidos varrendo um vasto terreno aproximasse o olhar da pintura, para saudar um Monet, talvez! Mas nas férias?!

Essa água um tanto abençoada, cuja nascente fantasiosamente encontra-se no céu, pode hoje ser também motivo de pânico: ruas inundadas, carros flutuando ao sabor das enchentes, pessoas desabrigadas e raios despencando com uma rapidez que nem Thor, o fabricante de raios, seria capaz de deter, em tempo de evitar tamanho estrago. Hoje já sabemos que não é recomendável abrigar-se debaixo de árvores, que é preciso agachar-se no chão, com a cabeça encostada no peito ou entre os joelhos, que não se deve sair de dentro do carro e muito menos deixar algum vidro aberto ou encostar-se na lataria, e nem ficar dentro do mar e nem... e... ufa!

Será que na hora do desespero lembrarei de tudo isso? E se eu trocar a ordem das coisas? Se eu quiser subir no pé de feijão do João? Se eu me atirar ao mar para ser engolido pela baleia de Jonas? Se eu colocar o rabo entre as pernas ao invés da cabeça? Se o carro que eu mal dirijo se converter na cápsula Orion e me levar para Marte antes mesmo de 2030, como está previsto?

Meu deus! Agora só saio de casa nos dias quentes de verão depois de consultar a meteorologia! Pronto! Está prometido aos deuses dos guarda-chuvas (pelo menos aos que não nos deixam esquecê-los em todo e qualquer lugar! E creia, a ambiguidade é proposital!).

Pensando bem... será que posso trocar tudo isso por uma meteorologia do sujeito? Coisas do tipo: hoje você pode converter-se em uma pessoa sujeita a raios e trovoadas (provavelmente para os de pavio curto e que não deixam de responder a toda e qualquer pergunta com a rapidez de um raio e o fogo da chama acesa!). Mas há também a possibilidade de estar-se ensolarado e com nuvens esparsas (caso haja alguma reunião com o chefe durante o dia!); talvez, sentir-se parcialmente nublado com chuvas e trovoadas (se você tiver dormido mal na noite anterior); ou estar encoberto e chuvoso, com temperatura em declínio (se algum petisco caiu-lhe mal, a ponto de quase provocar um desmaio); ou, encoberto com chuvas ocasionais (diante de uma melancolia inexplicável); e... por fim, estar-se parcialmente ensolarado,  o que já seria uma grande vitória (não se anime! essa opção certamente é apenas para os sujeitos que foram inteiramente bons no ano que passou! E não comeram rabanadas na ceia de Natal!).

Mas ainda assim, que menino pode resistir a um bom banho de chuva num dia de calor abominável como o que tem feito em Porto Alegre?! Enquanto vou fazendo de conta que os anos não passaram, vou chamando o menino que fui com o simples gesto de arrancar a camisa, as meias e os sapatos para pular com tudo debaixo desse temporal, inclusive com os quilos a mais que os anos - mesmo imaginários - não podem negar que existem! É preciso, de vez em quando lavar a alma! Montar no elefante azul, sair cavalgando as nuvens cheias de água de colônia. Água de cheiro, direto da fonte da renovação. Que bom!! Ano que vem acontecerá tudo de novo! É sempre assim!



Porto Alegre, 15 de janeiro, verão de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

DE NÉCTAR E AMBROSIA - "AMANHECER-SE"

Depois de algum tempo sem usar o blog, retomo hoje esse espaço, impulsionado pelo enorme desejo de voltar a escrever crônicas. Até 2014 escrevi várias crônicas aqui neste blog, na coluna que denominei "Crônicas Sincrônicas", porque tinha como objetivo comparar a infância de hoje com a infância de ontem.
Nesse momento, quero escrever textos sem esse compromisso de ater-me apenas à infância (já que sou um escritor que tem uma grande produção literária voltada para esse público!). Por isso, inicio hoje minha nova coluna de crônicas, que passará a chamar-se "DE NÉCTAR E AMBROSIA". A explicação é simples: sabemos que os deuses gregos eram demasiadamente humanos. Em suas vidas privadas, eram suscetíveis aos desejos, alegrias, tristezas, sentimentos de toda sorte e intensidades, e ainda por cima, se alimentavam todos os dias de néctar e ambrosia. Como para mim, escrever é alimento e escrever sobre o cotidiano é um exercício prazeroso, passo a chamar essa coluna de crônicas assim. Vamos ao primeiro texto de 2015. Ficarei grato com todo e qualquer comentário.




Ilustração de Celso Sisto


                 Amanhecer-se                                                                            by Celso Sisto


Cristais de luz teimam em atravessar-me.

O dia começa esfiapado. Os olhos ainda querendo olhar a escuridão e o nada. Aos poucos vou me dando conta de que preciso juntar as partes para mover-me.  Como num desenho feito a lápis, a mão diminuta vai simplificando tudo, a mão da criança que fui: cabeça,  tronco e membros em outras proporções. A lição científica reduz a minha individualidade. Cabeça de vento, tronco do ipê, membro de clã ancestral. Por que não? Ou cabeça de melão,  tronco para escora, membro de grupo profissional...  Ou ainda, cabeça oca, instrumento de tortura, parte de expressão matemática... Ah, tantos arranjos e combinações com as palavras que enfim levanto, movido  pelo desejo de deixar principiar a arte de amanhecer.

De súbito me sinto tentado a contar quantas vezes alvoreci. A conta quilométrica me incita a mudar de rumo. Quantas vezes levantei pelo lado direito da cama? Quantas pelo lado esquerdo? Qual pé tocou primeiro o chão?  Quantas vezes me virei durante o sono? Perguntas enfileiradas como um colar de contas reluzentes. Nada me desafia mais do que a cor! Mas a possível lembrança de um ronco interrompe o fluxo da brincadeira.

Meus motores em propulsão me expelem da cama sem que eu tenha tido tempo de dizer "Adeus" ao dragão azulejado que tinha vindo depositar-me à borda do dia.
Dou de cara com o sol, já totalmente à vontade, grafitando as paredes do meu quarto. Não posso mais fingir que o tempo não passou. Digo, por fim palavras escabrosas, como "esculimatuque"!, "boriclamura"!, "profiluxama"!

É assim o ritual de entrar pela porta do dia, sem que os ouvidos e os olhos da noite saibam a idade com que irei reinar hoje. Nem ao menos com que roupa, nem em que língua formularei os meus gritos. O ato inaugural da aurora requer como amparo, celebração e paramento apenas uma certa nudez indefensável. Eu obedeço.


                                                                                                                                          (by Celso Sisto – 08/01/2015)