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quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - HOMEM QUE FAZ BOLO

Ilustração Celso Sisto
                                                           
Homem que faz bolo

                                                                                               by Celso Sisto


          Fui uma criança muito magra! E morria de vergonha das costelas que gritavam mal eu tirava a camisa. Mas nunca dei trabalho para comer. Comia de tudo, mesmo! De bife de fígado à miolo à milanesa! Isso mesmo! Miolo à milanesa... Quando descobri depois, já adulto, que aquilo era cérebro de boi, nunca mais consegui nem pensar na tal iguaria! Mas na infância eu adorava! E as cantinas italianas servem-no até hoje como tira-gosto, acompanhado de muito limão. E há uma infinidade de pessoas que gostam muito.
          Assim como o nosso cardápio vai mudando à medida que crescemos e nosso paladar vai se aprimorando, nossas aproximações com a cozinha também passam por alterações. Na minha adolescência nunca fiz nada. Que vergonha! Não lavava nem um copo! Depois quando saí de casa para morar sozinho, descobri que eu podia fazer todo o tipo de comida. Na primeira vez que minha mãe foi jantar na minha casa, ficou surpreendida com o banquete e quis logo saber:
          - Meu filho, onde você aprendeu a fazer tudo isso?
          Prontamente respondi:
          - Só de comer as comidas que você fazia, mãe! Vendo você fazer uai! (pra reforçar a minha ascendência mineira!).
          Era exatamente isso: eu sabia fazer tudo o que ela fazia, só por ter comido um dia os pratos que ela nos servia lá em casa. Mas claro, sou um daqueles cozinheiros que precisa de receita pra tudo! Não decoro nada, mesmo que tenha feito mil vezes! Mas descobri o prazer de ver a comida aparecendo, ganhando cor e sabor na medida em que me entrego a ela.  Meu maior pecado é que sou exagerado e gosto de quantidades! Ah, e também gosto do que eu faço, o que é quase sempre um caminho seguro para o aumento de peso! Yes!
          Mas sou um cozinheiro apressado. Explico: gosto de fazer coisas que são mais ou menos rápidas no preparo. Faço bagunça, sujo tudo, mas o resultado final é bom! Ainda bem! Só não gosto de cozinhar todos os dias, talvez por isso, sempre aposto que vou gostar de comer aquilo de novo, no dia seguinte... mesmo que transformado! É a sina dos que vivem correndo!
          Pra quem ficou curioso, o meu primeiro prato certamente foi um estrogonofe de frango, para, digamos, me familiarizar com os apetrechos e tempos da cozinha. Hoje, o que mais gosto de fazer são bolos salgados! Bolo de calabresa, bolo de palmito com azeitona, torta de camarão. E alguns doces de festas (Ai, adoro tudo que leva coco!). Porque também é preciso adoçar os sonhos.  De preferência, muitos sonhos! E muitos doces!
          Pois não é que dia desses, agoniado entre um texto que precisava acabar de escrever e a falta de paciência, fui fazer um bolo-pão-de-queijo para o lanche, que virou pretexto para o exercício da minha gula? Já fazia tempo que não preparava o tal bolo que eu adoro! Postei a foto. E choveram  comentários. Recebi até proposta de casamento:
          - Ah, não, ele faz bolo também?! Quer casar comigo? (risos) – perguntou-me a Lelé.
          Rapidamente respondi que sim... mas, que provavelmente seria preso por bigamia (risos).
          Claro que a brincadeira é saborosa e nos deixou contentes. Mas, pensando melhor, esse tipo de espanto é ainda (e muitas vezes) resquício de um certo machismo. Foi-se o tempo em que a cozinha era território eminentemente feminino! Embora a história da gastronomia aponte para um território masculino e as chefs mulheres fossem raras, até bem pouco tempo, há uma diferença grande entre uma cozinha caseira e uma cozinha industrial, entre cozinhar para a família e assumir com a tarefa um empreendimento em nível empresarial. Será que é essa explicação para a diferença de gênero nas cozinhas? A mulher na cozinha de casa, o homem na cozinha da rua?! Em todo caso, devo avisar logo: não tenho nenhuma vocação para comercializar os meus bolos, feitos entre um poema e uma crônica.
          Enquanto penso no caso, vou embarcando na mistura da literatura com a culinária, como um entreposto em que se aprende a condimentar as palavras. E lembro-me de imediato, dos poemas que li recentemente no livro “Diário da montanha”, de Roseana Murray. No poema “André na cozinha da floresta” a autora fala de seu filho e de sua “nova geografia de sabores” quando “transforma ingredientes em poesia para comer”.  No poema “Dani Keiko na cozinha da floresta” ela menciona como sua nora ilumina “os pratos que fabrica, como se preparasse feitiços de amor”.
          Pois conheço um outro mago da cozinha que é bem assim. O Carlos tem esse toque de carinho extremo que transborda dos pratos que ele prepara. Tem essa forma poética de fazer-se memória gustativa, afetiva, contemplativa, cooperativa, pró-ativa com seus banquetes inigualáveis, porque alimentam o coração, o imaginário, acendem luas e estrelas e espalham o perfume da sua bondade. E ao redor, tudo também se ilumina de um outro jeito, se aquece de modo lustroso, se curva em agradecimento quase coreográfico.
           Quem disse que lugar de homem não é na cozinha?!


                                                  (by Celso Sisto – 21/01/2015)



           

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - PREVISÃO PARA OS PRÓXIMOS DIAS

                                                                                               Ilustração Celso Sisto



Previsão para os próximos dias
                                                                                                          by Celso Sisto

Dizem que falar do tempo é a prova cabal da falta de assunto! Que nada! Quero evocar aqui e agora os dias chuvosos ou aqueles com pancadas de chuva, que costumam enfeitar as previsões meteorológicas, mas que são, nesse princípio de ano, um transtorno para quem está em temporada de férias na praia!

Talvez no verão de um passado remoto, o romantismo bucólico do cheiro da terra molhada bastasse para aquietar o calor humano e coroar um dia de tempestades! O chiado da chuva caindo volumosa talvez servisse de melodia para embalar a necessidade de fazer o pensamento dançar impunemente, vez por outra. E a visão enevoada dos pingos grossos e rápidos varrendo um vasto terreno aproximasse o olhar da pintura, para saudar um Monet, talvez! Mas nas férias?!

Essa água um tanto abençoada, cuja nascente fantasiosamente encontra-se no céu, pode hoje ser também motivo de pânico: ruas inundadas, carros flutuando ao sabor das enchentes, pessoas desabrigadas e raios despencando com uma rapidez que nem Thor, o fabricante de raios, seria capaz de deter, em tempo de evitar tamanho estrago. Hoje já sabemos que não é recomendável abrigar-se debaixo de árvores, que é preciso agachar-se no chão, com a cabeça encostada no peito ou entre os joelhos, que não se deve sair de dentro do carro e muito menos deixar algum vidro aberto ou encostar-se na lataria, e nem ficar dentro do mar e nem... e... ufa!

Será que na hora do desespero lembrarei de tudo isso? E se eu trocar a ordem das coisas? Se eu quiser subir no pé de feijão do João? Se eu me atirar ao mar para ser engolido pela baleia de Jonas? Se eu colocar o rabo entre as pernas ao invés da cabeça? Se o carro que eu mal dirijo se converter na cápsula Orion e me levar para Marte antes mesmo de 2030, como está previsto?

Meu deus! Agora só saio de casa nos dias quentes de verão depois de consultar a meteorologia! Pronto! Está prometido aos deuses dos guarda-chuvas (pelo menos aos que não nos deixam esquecê-los em todo e qualquer lugar! E creia, a ambiguidade é proposital!).

Pensando bem... será que posso trocar tudo isso por uma meteorologia do sujeito? Coisas do tipo: hoje você pode converter-se em uma pessoa sujeita a raios e trovoadas (provavelmente para os de pavio curto e que não deixam de responder a toda e qualquer pergunta com a rapidez de um raio e o fogo da chama acesa!). Mas há também a possibilidade de estar-se ensolarado e com nuvens esparsas (caso haja alguma reunião com o chefe durante o dia!); talvez, sentir-se parcialmente nublado com chuvas e trovoadas (se você tiver dormido mal na noite anterior); ou estar encoberto e chuvoso, com temperatura em declínio (se algum petisco caiu-lhe mal, a ponto de quase provocar um desmaio); ou, encoberto com chuvas ocasionais (diante de uma melancolia inexplicável); e... por fim, estar-se parcialmente ensolarado,  o que já seria uma grande vitória (não se anime! essa opção certamente é apenas para os sujeitos que foram inteiramente bons no ano que passou! E não comeram rabanadas na ceia de Natal!).

Mas ainda assim, que menino pode resistir a um bom banho de chuva num dia de calor abominável como o que tem feito em Porto Alegre?! Enquanto vou fazendo de conta que os anos não passaram, vou chamando o menino que fui com o simples gesto de arrancar a camisa, as meias e os sapatos para pular com tudo debaixo desse temporal, inclusive com os quilos a mais que os anos - mesmo imaginários - não podem negar que existem! É preciso, de vez em quando lavar a alma! Montar no elefante azul, sair cavalgando as nuvens cheias de água de colônia. Água de cheiro, direto da fonte da renovação. Que bom!! Ano que vem acontecerá tudo de novo! É sempre assim!



Porto Alegre, 15 de janeiro, verão de 2015

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

DE NÉCTAR E AMBROSIA - "AMANHECER-SE"

Depois de algum tempo sem usar o blog, retomo hoje esse espaço, impulsionado pelo enorme desejo de voltar a escrever crônicas. Até 2014 escrevi várias crônicas aqui neste blog, na coluna que denominei "Crônicas Sincrônicas", porque tinha como objetivo comparar a infância de hoje com a infância de ontem.
Nesse momento, quero escrever textos sem esse compromisso de ater-me apenas à infância (já que sou um escritor que tem uma grande produção literária voltada para esse público!). Por isso, inicio hoje minha nova coluna de crônicas, que passará a chamar-se "DE NÉCTAR E AMBROSIA". A explicação é simples: sabemos que os deuses gregos eram demasiadamente humanos. Em suas vidas privadas, eram suscetíveis aos desejos, alegrias, tristezas, sentimentos de toda sorte e intensidades, e ainda por cima, se alimentavam todos os dias de néctar e ambrosia. Como para mim, escrever é alimento e escrever sobre o cotidiano é um exercício prazeroso, passo a chamar essa coluna de crônicas assim. Vamos ao primeiro texto de 2015. Ficarei grato com todo e qualquer comentário.




Ilustração de Celso Sisto


                 Amanhecer-se                                                                            by Celso Sisto


Cristais de luz teimam em atravessar-me.

O dia começa esfiapado. Os olhos ainda querendo olhar a escuridão e o nada. Aos poucos vou me dando conta de que preciso juntar as partes para mover-me.  Como num desenho feito a lápis, a mão diminuta vai simplificando tudo, a mão da criança que fui: cabeça,  tronco e membros em outras proporções. A lição científica reduz a minha individualidade. Cabeça de vento, tronco do ipê, membro de clã ancestral. Por que não? Ou cabeça de melão,  tronco para escora, membro de grupo profissional...  Ou ainda, cabeça oca, instrumento de tortura, parte de expressão matemática... Ah, tantos arranjos e combinações com as palavras que enfim levanto, movido  pelo desejo de deixar principiar a arte de amanhecer.

De súbito me sinto tentado a contar quantas vezes alvoreci. A conta quilométrica me incita a mudar de rumo. Quantas vezes levantei pelo lado direito da cama? Quantas pelo lado esquerdo? Qual pé tocou primeiro o chão?  Quantas vezes me virei durante o sono? Perguntas enfileiradas como um colar de contas reluzentes. Nada me desafia mais do que a cor! Mas a possível lembrança de um ronco interrompe o fluxo da brincadeira.

Meus motores em propulsão me expelem da cama sem que eu tenha tido tempo de dizer "Adeus" ao dragão azulejado que tinha vindo depositar-me à borda do dia.
Dou de cara com o sol, já totalmente à vontade, grafitando as paredes do meu quarto. Não posso mais fingir que o tempo não passou. Digo, por fim palavras escabrosas, como "esculimatuque"!, "boriclamura"!, "profiluxama"!

É assim o ritual de entrar pela porta do dia, sem que os ouvidos e os olhos da noite saibam a idade com que irei reinar hoje. Nem ao menos com que roupa, nem em que língua formularei os meus gritos. O ato inaugural da aurora requer como amparo, celebração e paramento apenas uma certa nudez indefensável. Eu obedeço.


                                                                                                                                          (by Celso Sisto – 08/01/2015)