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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

COLUNA "DE NÉCTAR E AMBROSIA" - PREVISÃO PARA OS PRÓXIMOS DIAS

                                                                                               Ilustração Celso Sisto



Previsão para os próximos dias
                                                                                                          by Celso Sisto

Dizem que falar do tempo é a prova cabal da falta de assunto! Que nada! Quero evocar aqui e agora os dias chuvosos ou aqueles com pancadas de chuva, que costumam enfeitar as previsões meteorológicas, mas que são, nesse princípio de ano, um transtorno para quem está em temporada de férias na praia!

Talvez no verão de um passado remoto, o romantismo bucólico do cheiro da terra molhada bastasse para aquietar o calor humano e coroar um dia de tempestades! O chiado da chuva caindo volumosa talvez servisse de melodia para embalar a necessidade de fazer o pensamento dançar impunemente, vez por outra. E a visão enevoada dos pingos grossos e rápidos varrendo um vasto terreno aproximasse o olhar da pintura, para saudar um Monet, talvez! Mas nas férias?!

Essa água um tanto abençoada, cuja nascente fantasiosamente encontra-se no céu, pode hoje ser também motivo de pânico: ruas inundadas, carros flutuando ao sabor das enchentes, pessoas desabrigadas e raios despencando com uma rapidez que nem Thor, o fabricante de raios, seria capaz de deter, em tempo de evitar tamanho estrago. Hoje já sabemos que não é recomendável abrigar-se debaixo de árvores, que é preciso agachar-se no chão, com a cabeça encostada no peito ou entre os joelhos, que não se deve sair de dentro do carro e muito menos deixar algum vidro aberto ou encostar-se na lataria, e nem ficar dentro do mar e nem... e... ufa!

Será que na hora do desespero lembrarei de tudo isso? E se eu trocar a ordem das coisas? Se eu quiser subir no pé de feijão do João? Se eu me atirar ao mar para ser engolido pela baleia de Jonas? Se eu colocar o rabo entre as pernas ao invés da cabeça? Se o carro que eu mal dirijo se converter na cápsula Orion e me levar para Marte antes mesmo de 2030, como está previsto?

Meu deus! Agora só saio de casa nos dias quentes de verão depois de consultar a meteorologia! Pronto! Está prometido aos deuses dos guarda-chuvas (pelo menos aos que não nos deixam esquecê-los em todo e qualquer lugar! E creia, a ambiguidade é proposital!).

Pensando bem... será que posso trocar tudo isso por uma meteorologia do sujeito? Coisas do tipo: hoje você pode converter-se em uma pessoa sujeita a raios e trovoadas (provavelmente para os de pavio curto e que não deixam de responder a toda e qualquer pergunta com a rapidez de um raio e o fogo da chama acesa!). Mas há também a possibilidade de estar-se ensolarado e com nuvens esparsas (caso haja alguma reunião com o chefe durante o dia!); talvez, sentir-se parcialmente nublado com chuvas e trovoadas (se você tiver dormido mal na noite anterior); ou estar encoberto e chuvoso, com temperatura em declínio (se algum petisco caiu-lhe mal, a ponto de quase provocar um desmaio); ou, encoberto com chuvas ocasionais (diante de uma melancolia inexplicável); e... por fim, estar-se parcialmente ensolarado,  o que já seria uma grande vitória (não se anime! essa opção certamente é apenas para os sujeitos que foram inteiramente bons no ano que passou! E não comeram rabanadas na ceia de Natal!).

Mas ainda assim, que menino pode resistir a um bom banho de chuva num dia de calor abominável como o que tem feito em Porto Alegre?! Enquanto vou fazendo de conta que os anos não passaram, vou chamando o menino que fui com o simples gesto de arrancar a camisa, as meias e os sapatos para pular com tudo debaixo desse temporal, inclusive com os quilos a mais que os anos - mesmo imaginários - não podem negar que existem! É preciso, de vez em quando lavar a alma! Montar no elefante azul, sair cavalgando as nuvens cheias de água de colônia. Água de cheiro, direto da fonte da renovação. Que bom!! Ano que vem acontecerá tudo de novo! É sempre assim!



Porto Alegre, 15 de janeiro, verão de 2015

4 comentários:

Lelé Guerra disse...

Meteorologia do sujeito!!!! Só tu mesmo, Celso! Crônica maravilhosa e deliciosa de ler...

carlarossana disse...

Celso adorei a comparaçao do tempo com pessoa hahahaha foi muito perspicaz na cronica.bjs

Mara Regina disse...

Tu fazes chover poesia, Celso !

Nidia Maria Correia disse...



Água, céu e mar serão sempre assuntos em conversas profundas ou "papos-cabeça". Lavar a Alma e/ou lavar o carro - o assunto já vira discussão gerando colocações, opiniões e quem sabe, discursos. Mas o que mais me encanta é a POESIA ... Ah ! És mestre nisso - transformar uma tempestade de granizo em pingos, gotas de afeto e de sabedoria. Amei !