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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

DE NÉCTAR E AMBROSIA - "AMANHECER-SE"

Depois de algum tempo sem usar o blog, retomo hoje esse espaço, impulsionado pelo enorme desejo de voltar a escrever crônicas. Até 2014 escrevi várias crônicas aqui neste blog, na coluna que denominei "Crônicas Sincrônicas", porque tinha como objetivo comparar a infância de hoje com a infância de ontem.
Nesse momento, quero escrever textos sem esse compromisso de ater-me apenas à infância (já que sou um escritor que tem uma grande produção literária voltada para esse público!). Por isso, inicio hoje minha nova coluna de crônicas, que passará a chamar-se "DE NÉCTAR E AMBROSIA". A explicação é simples: sabemos que os deuses gregos eram demasiadamente humanos. Em suas vidas privadas, eram suscetíveis aos desejos, alegrias, tristezas, sentimentos de toda sorte e intensidades, e ainda por cima, se alimentavam todos os dias de néctar e ambrosia. Como para mim, escrever é alimento e escrever sobre o cotidiano é um exercício prazeroso, passo a chamar essa coluna de crônicas assim. Vamos ao primeiro texto de 2015. Ficarei grato com todo e qualquer comentário.




Ilustração de Celso Sisto


                 Amanhecer-se                                                                            by Celso Sisto


Cristais de luz teimam em atravessar-me.

O dia começa esfiapado. Os olhos ainda querendo olhar a escuridão e o nada. Aos poucos vou me dando conta de que preciso juntar as partes para mover-me.  Como num desenho feito a lápis, a mão diminuta vai simplificando tudo, a mão da criança que fui: cabeça,  tronco e membros em outras proporções. A lição científica reduz a minha individualidade. Cabeça de vento, tronco do ipê, membro de clã ancestral. Por que não? Ou cabeça de melão,  tronco para escora, membro de grupo profissional...  Ou ainda, cabeça oca, instrumento de tortura, parte de expressão matemática... Ah, tantos arranjos e combinações com as palavras que enfim levanto, movido  pelo desejo de deixar principiar a arte de amanhecer.

De súbito me sinto tentado a contar quantas vezes alvoreci. A conta quilométrica me incita a mudar de rumo. Quantas vezes levantei pelo lado direito da cama? Quantas pelo lado esquerdo? Qual pé tocou primeiro o chão?  Quantas vezes me virei durante o sono? Perguntas enfileiradas como um colar de contas reluzentes. Nada me desafia mais do que a cor! Mas a possível lembrança de um ronco interrompe o fluxo da brincadeira.

Meus motores em propulsão me expelem da cama sem que eu tenha tido tempo de dizer "Adeus" ao dragão azulejado que tinha vindo depositar-me à borda do dia.
Dou de cara com o sol, já totalmente à vontade, grafitando as paredes do meu quarto. Não posso mais fingir que o tempo não passou. Digo, por fim palavras escabrosas, como "esculimatuque"!, "boriclamura"!, "profiluxama"!

É assim o ritual de entrar pela porta do dia, sem que os ouvidos e os olhos da noite saibam a idade com que irei reinar hoje. Nem ao menos com que roupa, nem em que língua formularei os meus gritos. O ato inaugural da aurora requer como amparo, celebração e paramento apenas uma certa nudez indefensável. Eu obedeço.


                                                                                                                                          (by Celso Sisto – 08/01/2015)

6 comentários:

Mara regina Silveira martins disse...

Por que questionas o amanhecer se tu és um poeta ! O s poetas manipulam as palavras e o tempo para nos encantar! Apaixonada!é assim que estou pelo teu texto e por ti.

Josete Aridi disse...

Parabéns, Celso! Lindíssimo. Texto bordado à mão, feito de fios dos sonhos e de encantamento pela vida. Depois de um dia cansativo, lê-lo me revigorou!!!

Patricia Redel disse...

Texto fantástico, Celso! Como sempre! Consegues traduzir-me em palavras! Como a Josete disse: "Lê-lo me revigorou" e revigora sempre!!!

Anônimo disse...

POA,11 de janeiro
Só o nome do blog
já explicita a delicia que vai ser 2015 prá vc.
Seu conto chegou ,prá mim, no dia certo-dormi as 2 acordei as 6 -a cama é um murumdum,a cabeça....
Obrigada.
Continue me alimentando.Merci.

(Me avise onde será o seu curso,amaria que fosse nas Paulinas grudado nas nossas casas)

VALDECLECIA BEZERRA disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
VALDECLECIA BEZERRA disse...

Celso que texto mais belo e delicioso, hoje foi meu primeiro acesso ao seu blog,a partir de hoje virei aqui e me tornarei uma Deusa para assim poder me deliciar com Seu NÉCTAR E AMBROSIA.PARABÉNS