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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXVI.


XXVI.

olho da tempestade
vento da destruição

em instantes 
minhas palavras
irão pelos ares

tento entender
minuciosamente

o conto interrompido
no  momento
da mais alta voltagem
o personagem abandonado
aos prantos
no deserto da página
o cenário inigualável
apagado com violência
pela borracha

lá fora está nublado
vai chover adjetivos funestos

meus dedos se calarão

não há saída
preciso do sol
para iluminar
as raias
dessa tessitura 
de papel
(loucura?)

escrever-se
é assim:
de repente
o fim!

celso sisto
26 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)



segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXV.


XXV.

protegida debaixo do chapéu
a cabeça branquinha

e agora eu era o herói
cingido cavaleiro das sete cores
e que haveria de proteger Teolinda
a dama das palavras ensolaradas

não temos castelos,
ornamentos ou borlas

temos a imaginação pontuda
e a lembrança da neve
alvíssima semeada
em nossos cabelos

não tivemos
cavalariços reais,
selas de ouro,
faqueiros de prata,
tronos de seda,
espelhos venezianos
saias com armação
ou sapatos de tacão

não temos senão esse
antigo chapéu de feltro
onde o tempo rotundo
depositou nossas histórias

pra que mais?

ainda hoje
diariamente
repartimos o pão!

celso sisto
25 de janeiro de 2016

(Da série "Quando sou outra coisa")


domingo, 24 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXIV.


XXIV.

O disco iluminado
resplandece
nessa noite de verão

todos os bichos
saem das tocas

dançam pra lua

o leite de prata
escorre nas bocas
e cada um ganha
a sua estrela

não há fogueiras
nem outra luz
e no entanto
há fogo e claridades

e olhos tão acesos
e brilhantes
que o mundo todo
é agora um círio luminoso
uma guirlanda suspensa na noite
uma ciranda que roda
sem hora pra acabar

ouve então esse frenesi de poemas
lapidando a semiescuridão
e espalhando-se no ar

é certo que ninguém vai dormir agora
há o risco grande e efetivo
de nunca mais se ficar enluarado

por isso fica aí Mãe-Lua
grudada nessa colcha
de retalhos estelares
até que nossas veleidades
tenham coragem de incendiar-nos
como às vezes faz
o dragão que mora em ti.

celso sisto
24 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)








POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXIII.


XXIII.

o menino assiste
entusiasmado
à corrida das tatuíras

quer aprender
a morar na areia molhada
a sumir tão rápido 
a apagar vestígios 
a deixar que haja enganos
quando a onda vem
mudando novamente os
endereços e os andares
da casa-corpo

mas logo se sente convidado
a seguir com os pés saltitantes
o cortejo frenético das piabinhas
antecipando o carnaval

depois quer pegar o peixe-foice
até que vê a pena sem o pássaro 
e o pássaro carregando, no bico,
a piabinha sem o cortejo, 
ainda fantasiada de viola

sente a dor
é a mistura 
exagerada
de sal e sol

sente-se liquefeito
mas só descobre-se
filho das águas 
quando o levam embora
quase afogado em lágrimas
e ainda sem poder carregar
o sabonetinho azul 
presente da sereia Janaína

nem o espelhinho
que guardava os raios de sol
só o balde verde-limão nas mãos 
com um resto de mar
para lembrar

ia sim
sem gosto e cheio de sinais
já sabedor de um futuro
em que seria peixe 
e voltaria 
peixe-rei 
para se casar
com a rainha do mar!

celso sisto
23 de janeiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")



sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ALGUMAS EXPLICAÇÕES E POEMA XXII, DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA"...


Uma das coisas que mais gosto é brincar com as palavras... por isso, tenho brincado também de inventar poemas, como exercício cotidiano, como desafio para afinar a língua, a visão, a linguagem...

Geralmente, os textos são compostos, mentalmente, enquanto faço minhas caminhadas diárias, ou no Parque da Redenção, ou na praia de Cidreira...

A brincadeira está vigente desde o primeiro dia de 2016, portanto, já são 22 textos até agora...


Esse é o de hoje...

XXII.

olha pro mar!

caravelas ultramarinas
estão a buscar-te
enquanto um baiacu
estremece na areia
traído por sua própria
 coroa de espinhos

olha pro mar!

vê as espumosas ondas
preparando a renda branca
da tua onerosa mortalha

olha pro mar
e caminha então sobre as águas
vai buscar no horizonte
a linha dourada
com que hás de bordar
tua incidental inércia

mas deixa agora
a casa amarela da tua infâmia
flutuar no azul
enquanto a névoa
lá adiante
apaga o contorno das coisas
imutáveis

olha pro mar!

está próximo
o  momento
em que não mais saberás
o que é de cima
e o que é de baixo

mas... olha pro mar...

ainda poderás ouvir
o riso policromático
da tua boa hora
schschschschschschschschsch..

celso sisto
22 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa)




POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XXI.


XXI.

elas estão no meu canteiro
na divisa entre o que sobrou
do homem e do menino

eu sou feito de canteiros
mesmo que minha mão jardineira
ainda dependa
da sentença suprema
de anjos e pássaros

alegria no broto alegria na flor

tocar olhos aquosos
anunciando
o pequeno e misericordioso
milagre da cor

nomeio a vida
e minhas flores
desafiam o branco
mais branco da manhã
e no azul mais celeste
distribuem carícias
que permitem ao vento
tirá-las pra dançar

volteiam em trajes de gala,
crepitam de prazer
revestem o dia de aromas
e ouvem atentas
a oração que as nuvens dirigem ao sol

de mãos dadas
já serenadas
na simples arte do anoitecer,
elas, as flores, filhas das minhas
mãos velam

por mim
sem perfume
e com tantos espinhos...

celso sisto
21 de janeiro de 2016
(Da série "Quando sou outra coisa")




POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XX


XX.

ele cruza palavras
e constrói seu quartel poético
para abrigar-se do tempo
dos homens e das injustiças

vejo-o envelhecer em dias tempestuosos
no verão 
corre sem camisa fingindo
no azul do dia
um nado sincronizado e invisível
na primavera
 esconde atrás da orelha direita
uma margarida
a modo de dizer-se
“bem-me-quero”
depois some
na longa gestação
do inverno

a rua me engole
com seus personagens inteiros
de carne e sangue
não sei me defender
não importa
arranco portas e janelas
e faço a casa na varanda

- uma moedinha, por favor?

temos todos a mesma fome!

celso sisto
20 de janeiro de 2016

(Da série “Quando sou outra coisa”)


terça-feira, 19 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XIX

XIX. 

trabalha a pá para arrancar
a erva daninha
linha coreográfica
síncope
tambor metálico
repercutindo vozes
pedindo em coro
que a terra liberte
o capim rasteiro
e os ideogramas
que o vento
desenhou
na terra

eu, transeunte à toa
assisto o dia
espalhando-se como
marcha triunfal
numa ópera
de Verdi

entintar  com raios luminosos
as sombras da cidade
salientar esmeraldamente
os desejos humanos
com fartas oferendas
colocar de pé
para lutarem
com abraços
a força e a malícia

a manhã me  pega pelas mãos
e leva-me a lugares distantes
para erigir edifícios poéticos
onde eu mesmo possa morar
enfeitado de brisa e de mar

como pode um peixe vivo
viver fora dessa água
que deságua no princípio
de tudo?

dia
pedra talhada
mar de dentro
mar grosso
da minha estrada...


celso sisto
19 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)






segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XVIII.


XVIII.

com linha invisível
ela tece
no banco da praça

debaixo das sete saias de veludo
guarda um passado intacto
(negado?)

vejo de longe
esse álbum de
desmemórias
que ela cose
com o fio
inoxidável 
do silêncio

finjo um olhar
de peixe morto
e ela acusa recebimento

baixa os olhos
sorri sem sorriso

o resto do dia
estarei ocupado
em apagar
seu rosto embaçado
suas lêndeas alvoroçadas
seus pés destroçados
e o peso de tantas roupas
enfiadas umas sobre as outras

ela levanta solene
e me deixa entrever
o manto de mágoas
que sacoleja
e espalha poeira
quando ela caminha
varrendo o chão
com seu fardo
de mil anos

quando me deixará
atravessar a porta
de sua monstruosa
solidão?

sei que ela ama o ínfimo
as agulhas
os carretéis de linhas
e os pássaros que às vezes
pousam em seus ombros

sei que ela carrega um livro
talvez  seu último ato
para perdoar os homens...

celso sisto
18 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)





domingo, 17 de janeiro de 2016

COLUNA LUGAR NA PRATELEIRA - CRÔNICAS E LIVROS - EDIÇÃO DE JANEIRO/FEVEREIRO 2016


Há oito anos escrevo mensalmente na revista Rainha dos Apóstolos, editada em Porto Alegre, pela Sociedade Vicente Pallotti - Província Nossa Senhora Conquistadora - Padres e Irmãos Palotinos. Apesar de ser voltada para a religião católica, o conteúdo é bem eclético e democrático. Assino há anos 2 colunas: "Lugar na Prateleira" - em que fiz crítica de literatura infantil - e "Leitores de Futuro" - em que assinei várias séries de estudos relacionados à formação do leitor e à constituição de bons acervos de literatura infantojuvenil.

Mas a partir de 2016 as colunas ganharam um novo rumo. A "Lugar na Prateleira" agora é uma coluna de crônicas, com indicação, ao final, de um bom livro infantil que tenha relação com o assunto tratado no texto. E a coluna "Leitores de Futuro" , agora tratará de assuntos ligados "à educação pela arte", abordando sempre bons produtos culturais para a infância.

Estou bastante feliz com essa mudança. A revista tem uma tiragem bem grande, e em geral, vai para as paróquias e colégios religiosos de todo o país.

Então, sempre depois que sair a revista, colocarei aqui os meus textos publicados nela.

Por ora, lá vai a crônica publicada na edição de Janeiro/Fevereiro de 2016.


LUGAR NA PRATELEIRA: CRÔNICAS E LIVROS 01
JANEIRO-FEVEREIRO
 2016
                                 Celso Sisto*


Mais do que nunca as festas de início do ano deveriam fazer sentido, ao menos para justificarem o nome “confraternização universal”. É a chegada do novo ano que se comemora. Há sempre uma onda de alegria no ar, que toma conta do desejo de todos: que o que virá seja bom e bonito. Prosperidade é o que todo mundo deseja, não é? Mas claro, o significado pode não ser o mesmo para todos!
Essa maneira de dar as boas vindas ao calendário que vai começar a correr de novo, no novo ano tem lá suas faces ocultas. Foi a ONU que escolheu essa data para promover a fraternidade universal, você sabia? Uma espécie de aviso a todos os povos: é hora de recomeçar, minha gente! Será?!
Pois não é que recomeços sempre nos levam aos ciclos? O começo do ano traz novo ciclo e incita em cada um de nós a expectativa das transformações. Eu sei, eu sei, tem gente que faz lista das coisas que quer mudar em si, ao seu redor, no seu pequeno universo. Eu também faço, e às vezes, mais do que listas, faço promessas. A mais comum é “fechar a boca e fazer exercício todos os dias”, afinal, uma outra obrigação dos novos tempos é a vida saudável, para uma longevidade tranquila. Eu sei.
Mas ciclo se junta ao círculo e lá vem a ideia da repetição. Apesar do “tudo de novo”, nunca é igual e nunca é a mesma coisa. Ao girar, o círculo também muda as coisas de lugar! Vamos lembrar que a vigília também faz parte da festa do recomeço (o auge é a passagem de um dia ao outro); que cada um traz para a festa os seus ritos e símbolos, sejam eles flores, frutas, a cor da vestimenta, os alimentos ingeridos (grãos e sementes para a fartura e prosperidade). Vamos lembrar para conciliar, vigiar para reconciliar.
Mas o significado da vida nova também vem impresso na palavra francesa “reveillon”, que quer dizer “acordar”. Pois eu gostaria de nesse dia tão cheio de clamores e sentimentos aguçados, que o diálogo entre os povos, fosse realmente possível, o diálogo da paz entre os povos - é isso o que quer dizer a ONU quando fala em dia da confraternização universal. E aí, me ponho a pensar! Pensar para não chorar... Pois neste novo ano eu gostaria de comemorar a remoção das fronteiras! Isso mesmo, talvez eu seja um louco, mas vou sonhar com um mundo sem essas fronteiras aparentes ou simbólicas, que voltam com força total em tempos de conflitos bélicos. Nesse ano, não gostaria de ver pessoas morrendo, tentando fugir da guerra no Oriente Médio e África, atravessando o mar Mediterrâneo, se deslocando em grandes bandos, como assistimos ainda agorinha, no que já estão chamando de maior crise da migração, desde a segunda guerra mundial.  Esses que fogem dos conflitos na Síria e no Afeganistão e da violência na Eritreia embarcam no êxodo da dor e denunciam o êxodo do desamor.
Espantado assistimos ao ressurgimento dos muros que separam países, a proliferação das cercas que furam e eletrocutam pessoas que dão um passo à frente em direção a um futuro melhor. No ano que passou assistimos perplexos os deslocamentos da multidão, nesse próximo ano, para combinar com a data que ora festejamos – foi o Papa Paulo VI que em 1968 lançou a ideia de se comemorar nesse dia o dia mundial da paz -, gostaria de ver a plantação de novas safras de gente do bem, pelo mundo afora. Se esperança é a palavra mais adequada para esse dia, que tenhamos ao menos esse direito de sonhar com a estrela Sirius anunciando no horizonte a paz universal.
Se o recomeço é ciclo e é círculo, é também mandala, que é o símbolo da integração e da harmonia.  E que ela, posta para girar, possa manifestar o encantamento de diminuir a distância entre os homens, porque só há mesmo sentido quando se fala em uma única raça humana!
Quem sabe, com um pouco da poesia de Drummond, que ao final de cada ano muitos leem, repetem, veiculam, mas não fazem, se possa mudar o rumo dessa história: “para você ganhar belíssimo Ano Novo, cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, você não precisa  (...) fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,  liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. Eu acredito! Feliz Ano novo!
Post scriptum: gosto tanto desse livro da Angela Lago, “Um ano novo danado de bom” (editora Moderna), que todo início de ano tenho vontade de relê-lo. Fica a dica!






* Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.


POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - XVII


XVII.

começo um poema
pisando na terra
desejo solerte de ser
semente
palavra-fruta-boa-de provar
depois, o escarro dos sentidos
e a poesia líquida
escorrendo na cara

até que um soldado romano
do nada, salta na rua,
brandindo no ar
a sua espada cartonada
prata e pranto
pranto e prata
círculo do povo

é a cidade e seus ícones
a cidade de domingo
a cidade e sua feira
das desumanidades
onde eu frutifico

mas onde o poeta?


minha calçada está cimentada
e de cima a baixo
esse arremedo de árvore
sem  folhas para o futuro:

galhos finos
não sustentam
meu  ninho.


celso sisto
17 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POEMAS DA SÉRIE "QUANDO SOU OUTRA COISA" - I a XVI



XVI.

o canto era cortante
e eu como um gato
espreitava o pássaro

o canto era de voz cheia
uma lua no amanhecer
serenata para madrugadores

em mim, sobrevivente
de uma náufraga noite
o canto doutrinário
provocava dor

a mesma nota dissonante
mil vezes aguda e insistente
aprofundando o corte

sangrarei mais tarde

agora abro os olhos
para receber
cada carícia do golpe
abro os olhos para ver
claramente o que salta
da ferida

 assim
com as palavras rasgadas
pela inoxidável voz do pássaro
vou retocando a manhã
há um dia inteiro pela frente
e esse canoro sangue
para estancar...

celso sisto
16 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)





XV.

raiz à mostra
fratura exposta
sulcos na terra
cortaram a árvore!

sem poder mais conter
sua veia poética
o ipê gritou
altissonante:
eutanásia!

uma chuva
de flores roxas
anunciou o velório

só as formigas
disciplinadas
ecoaram
a oração final

verdadeira causa mortis:
o mesmo e invisível
departamento de parques e jardins

fim!

celso sisto
15 de janeiro de 2016

(Da série “Quando sou outra coisa”)





XIV.

nossa senhora dos panos
envolta em andrajos
defende-se dos dias
com um livro nas mãos

os passarinhos cantam
para protegerem a solene fantasia
as cabeleiras frenéticas das árvores
convocam a legião dos cães
para latirem em latim:

dominus dei

santo domínio da linguagem
redentora
que mantém
nossa senhora mendiga
viva
no parque da cidade.

celso sisto
14 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)










XIII.

mão pequena
mão grande
entrelaçadas

cabe ali todo querer do mundo

borboleta voou
bem-te-vi cantou
paina macia pousou suave
nos finos fios dos cabelos

a outra mão
livre
fez gesto circular de dança

cabe ali toda arte do mundo

mão pequena
mão grande
entrelaçadas
até o fim
pai e filha
saltitantes vozes
melodiosas
segredos sagrados
liturgia de vida

cabe ali todo amor do mundo

amém!


celso sisto

13 de janeiro de 2016


(Da série "Quando sou outra coisa")





XII.

o passado volumoso
atravessou-me
inteiro
o peito escaldante:
não morrerei no presente
morrerei poeta no calor do poente!

celso sisto
12 de janeiro de 2016
(Da série “Quando sou outra coisa”)