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domingo, 17 de janeiro de 2016

COLUNA LUGAR NA PRATELEIRA - CRÔNICAS E LIVROS - EDIÇÃO DE JANEIRO/FEVEREIRO 2016


Há oito anos escrevo mensalmente na revista Rainha dos Apóstolos, editada em Porto Alegre, pela Sociedade Vicente Pallotti - Província Nossa Senhora Conquistadora - Padres e Irmãos Palotinos. Apesar de ser voltada para a religião católica, o conteúdo é bem eclético e democrático. Assino há anos 2 colunas: "Lugar na Prateleira" - em que fiz crítica de literatura infantil - e "Leitores de Futuro" - em que assinei várias séries de estudos relacionados à formação do leitor e à constituição de bons acervos de literatura infantojuvenil.

Mas a partir de 2016 as colunas ganharam um novo rumo. A "Lugar na Prateleira" agora é uma coluna de crônicas, com indicação, ao final, de um bom livro infantil que tenha relação com o assunto tratado no texto. E a coluna "Leitores de Futuro" , agora tratará de assuntos ligados "à educação pela arte", abordando sempre bons produtos culturais para a infância.

Estou bastante feliz com essa mudança. A revista tem uma tiragem bem grande, e em geral, vai para as paróquias e colégios religiosos de todo o país.

Então, sempre depois que sair a revista, colocarei aqui os meus textos publicados nela.

Por ora, lá vai a crônica publicada na edição de Janeiro/Fevereiro de 2016.


LUGAR NA PRATELEIRA: CRÔNICAS E LIVROS 01
JANEIRO-FEVEREIRO
 2016
                                 Celso Sisto*


Mais do que nunca as festas de início do ano deveriam fazer sentido, ao menos para justificarem o nome “confraternização universal”. É a chegada do novo ano que se comemora. Há sempre uma onda de alegria no ar, que toma conta do desejo de todos: que o que virá seja bom e bonito. Prosperidade é o que todo mundo deseja, não é? Mas claro, o significado pode não ser o mesmo para todos!
Essa maneira de dar as boas vindas ao calendário que vai começar a correr de novo, no novo ano tem lá suas faces ocultas. Foi a ONU que escolheu essa data para promover a fraternidade universal, você sabia? Uma espécie de aviso a todos os povos: é hora de recomeçar, minha gente! Será?!
Pois não é que recomeços sempre nos levam aos ciclos? O começo do ano traz novo ciclo e incita em cada um de nós a expectativa das transformações. Eu sei, eu sei, tem gente que faz lista das coisas que quer mudar em si, ao seu redor, no seu pequeno universo. Eu também faço, e às vezes, mais do que listas, faço promessas. A mais comum é “fechar a boca e fazer exercício todos os dias”, afinal, uma outra obrigação dos novos tempos é a vida saudável, para uma longevidade tranquila. Eu sei.
Mas ciclo se junta ao círculo e lá vem a ideia da repetição. Apesar do “tudo de novo”, nunca é igual e nunca é a mesma coisa. Ao girar, o círculo também muda as coisas de lugar! Vamos lembrar que a vigília também faz parte da festa do recomeço (o auge é a passagem de um dia ao outro); que cada um traz para a festa os seus ritos e símbolos, sejam eles flores, frutas, a cor da vestimenta, os alimentos ingeridos (grãos e sementes para a fartura e prosperidade). Vamos lembrar para conciliar, vigiar para reconciliar.
Mas o significado da vida nova também vem impresso na palavra francesa “reveillon”, que quer dizer “acordar”. Pois eu gostaria de nesse dia tão cheio de clamores e sentimentos aguçados, que o diálogo entre os povos, fosse realmente possível, o diálogo da paz entre os povos - é isso o que quer dizer a ONU quando fala em dia da confraternização universal. E aí, me ponho a pensar! Pensar para não chorar... Pois neste novo ano eu gostaria de comemorar a remoção das fronteiras! Isso mesmo, talvez eu seja um louco, mas vou sonhar com um mundo sem essas fronteiras aparentes ou simbólicas, que voltam com força total em tempos de conflitos bélicos. Nesse ano, não gostaria de ver pessoas morrendo, tentando fugir da guerra no Oriente Médio e África, atravessando o mar Mediterrâneo, se deslocando em grandes bandos, como assistimos ainda agorinha, no que já estão chamando de maior crise da migração, desde a segunda guerra mundial.  Esses que fogem dos conflitos na Síria e no Afeganistão e da violência na Eritreia embarcam no êxodo da dor e denunciam o êxodo do desamor.
Espantado assistimos ao ressurgimento dos muros que separam países, a proliferação das cercas que furam e eletrocutam pessoas que dão um passo à frente em direção a um futuro melhor. No ano que passou assistimos perplexos os deslocamentos da multidão, nesse próximo ano, para combinar com a data que ora festejamos – foi o Papa Paulo VI que em 1968 lançou a ideia de se comemorar nesse dia o dia mundial da paz -, gostaria de ver a plantação de novas safras de gente do bem, pelo mundo afora. Se esperança é a palavra mais adequada para esse dia, que tenhamos ao menos esse direito de sonhar com a estrela Sirius anunciando no horizonte a paz universal.
Se o recomeço é ciclo e é círculo, é também mandala, que é o símbolo da integração e da harmonia.  E que ela, posta para girar, possa manifestar o encantamento de diminuir a distância entre os homens, porque só há mesmo sentido quando se fala em uma única raça humana!
Quem sabe, com um pouco da poesia de Drummond, que ao final de cada ano muitos leem, repetem, veiculam, mas não fazem, se possa mudar o rumo dessa história: “para você ganhar belíssimo Ano Novo, cor de arco-íris, ou da cor da sua paz, você não precisa  (...) fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta. Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumadas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações,  liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver. Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”. Eu acredito! Feliz Ano novo!
Post scriptum: gosto tanto desse livro da Angela Lago, “Um ano novo danado de bom” (editora Moderna), que todo início de ano tenho vontade de relê-lo. Fica a dica!






* Celso Sisto é escritor, ilustrador, contador de histórias do grupo Morandubetá (RJ), ator, arte-educador, especialista em literatura infantil e juvenil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Doutor em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e responsável pela formação de inúmeros grupos de contadores de histórias espalhados pelo país.


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